2019 - Cláudia Paiva Silva

Monday, August 19, 2019

Bansky. O anarca
August 19, 20190 Comments





Nem visionário, nem génio, nem vândalo.

Entrei na Cordoaria Nacional (situ Belém, Lisboa) por 13 euros - incomportável para 1) uma exposição que nem sequer é oficial, nem é apoiada pelo "artista" e 2) para os bolsos nacionais; no feriado de 15. Não foi portanto de admirar o número exponencialmente elevado de turistas estrangeiros por comparação com as almas lusas.

A sensação imediata que tive foi de ironia - não apenas a ironia de Bansky com as suas reflexões sobre o mundo moderno (desde 2003 na cidade natal em Bristol, espalhando-se pelo mundo até aos dias de hoje) - mas principalmente a minha. É impossível sermos assim tão anti-sistema, é impossível sermos tão ativos politicamente, embora digamos que não queremos nada com a política e que o objetivo é estarmos claramente contra aqueles que nos controlam, nos desenham a régua e esquadro. 
É claro que eu acredito na queda da civilização ocidental (basta ver o que aconteceu com a greve de motoristas de pesados na Páscoa), mas também sei que à segunda volta, quase ninguém vai nisso (basta ver o que aconteceu com a greve de motoristas de pesados que irá terminar oficialmente hoje às 23.59 horas). 
É claro que acredito que a macacada irá governar o mundo: Trump, Maduro, Johnson, (inserir outros). Oops, já lá estão até. 
É claro que acredito que é preciso haver uma mudança no paradigma da energia mundial e do seu consumo, mas também basta ver que o tal colapso de civilização acima mencionado, está directamente relacionado com a possível falta de combustíveis fósseis - long live hypocrisy! 
Mas a isso chama-se bom senso - não é preciso ser-se anarca para se perceber o contexto em que vivemos: consumismo e capitalismo.
Não é preciso ser-se anarca para dizermos as verdades e mais, SABER a verdade, mesmo que queiramos olhar para o lado e achar que aquilo não é nada connosco. Estas de férias num resort nas Baleares e vês botes salva-vidas a afundarem com migrantes junto à praia - é horrível, mas não é nada contigo.





Sabes que há crianças que devido às várias e variadas guerras não têm o que comer, mas preferes gastar dinheiro num par de sapatos ou numa mala nova, para juntar à coleção que não usas (sou igual, não seria hipócrita a apontar todos os meus dedos e dizer que não faço o mesmo).



Agora.... Se me tocam na Palestina....

Não é (grande) segredo o que penso da situação e do conflito Israel-Palestiniano. Talvez tenha sido a parte da exposição onde demorei mais tempo, onde foquei mais atenção, onde tirei fotos (não me interessa que aquilo seja tudo fac-simile) e tirei mais fotos dentro das fotos que tirei. Aí o anarca Bansky torna-se realmente artista - e a sua ironia passa a ser realmemte uma arma bem colorida pintada num muro feio, cinza, enorme. Um hotel com vista para aquela zona que não pertence a ninguém, mas que no fundo pertence a todos nós (judeus, árabes e cristãos). Top, meus caros, TOP!








Tal como não tenho palavras para o The Holocaust Lipstick - deveriam todos os portugueses serem obrigados a ler aquela descrição junto à imagem. Mas, mais uma vez, era ver os estrangeiros todos parados e emocionados, e os nacionais, a nem lerem sequer. Dói. Tudo dói, mas doi-me mais a falta de vontade, a preguiça humanas.





Fnalmente e claro, partindo da premissa do autor que o capitalismo destrói  e que não há maior inimigo do que aquele que acha estar a fazer as coisas com a melhor das intenções, preparem-se: mesmo antes de saírem, ainda levam com merchandise. Sim, levam exactamente com tudo aquilo que é o oposto ao que Bansky apregoa - mas levam. E pior, param e compram (aí, peço desculpa, mas não sou igual, não seria hipócrita a não apontar todos os meus dedos a quem se identificou com a mensagem, mas mesmo assim leva a t shirt, o saco de pano, ou a caneca - pelos vistos os 13 euros afinal não custam tanto a sair do bolso).



Nem visionário, nem génio, nem vândalo. Apenas mais um como os outros. Que vê, que sente, que desenha.




















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Sunday, August 11, 2019

Nem sempre há sorrisos
August 11, 20190 Comments



Porque há dias em que não apetece rir ou sorrir. Dias em que mesmo com sol, sentimos nuvens a turvarem os nossos pensamentos. O que queremos fazer fica eternamente adiado. 
Também há desses momentos.

Blusão: LEVIS
Calças: La Redoute
Sandálias: Friendly Fire Shoes
Mala: Accessorize
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Tuesday, August 06, 2019

Ao sabor da maré com Lígia Claro
August 06, 20190 Comments



Lígia Claro (@ligiaclaroo). 35 anos. Menina-mulher. Nascida em Ovar, terra de pescadores e varinas, a morar no Porto, cidade antiga e protectora, é, Lígia também, uma brisa calma que nos acalenta o espírito.

Conheci a Lígia numa roda da sorte aleatória por via Instagram numa altura em que a rede ainda era um espaço relativamente pequeno. Grupos feitos de gente que se conhecia, que se encontrava (e que ainda encontra) com o objetivo único de fotografar. Possivelmente a Lígia terá sido dos meus primeiros contactos, com um perfil único, belo, sem artifícios. Rapidamente descobrimos que as fotografias por detrás do ecrã são exactamente como a autora, única, bela e simples. Não é por isso estranho a paz que nos transmite quando estamos com ela, naquele jeito de menina, pequena e frágil, que adora o seu espaço, a sua casa, as suas pessoas, amigos e família. 
Casada com Eurico Amorim, músico da banda de Pedro Abrunhosa, decidiu há relativamente pouco tempo apresentar (e apresentar-se também) ao público - o mesmo que a seguia antes, e a todas as novas pessoas que se vão aproximando -, o seu amor pela tradição artística que é o macramé, a arte secular "migramah", muito possivelmente trazida até à Península pelos árabes, espalhando-se posteriormente pela diáspora histórica ibérica. Tecer fios, criar e fazer nós, usar elementos da natureza, e resultar em objectos de decoração tão especiais e belos, são a sua imagem de marca. Mais do que uma moda, uma forma de relaxamento. 
Agora na época de Verão, propícia aos brancos e beges, às feiras de design e novos criadores, falei com a Lígia para saber um bocadinho mais sobre esta sua paixão.






Quem é a Lígia? Como sentes a tua presença no mundo? Qual o teu passado e o que queres no teu presente e construção de futuro?

A Lígia é uma menina-mulher, sonhadora e aprendiz do universo. 
Do passado trago toda uma bagagem de experiências, vivências e sentimentos que definiram a minha personalidade para que no presente consiga ser e dar o melhor de mim. 
Viver o momento presente da melhor forma possível é o lema que tenho vindo a trabalhar ultimamente. O futuro só ele dirá o que tem reservado para mim. Tudo a seu tempo. 

Qual a tua ligação ao mar? À natureza? De que forma achas que podes ter sido, ou não, influenciada por tais elementos?

Nasci e cresci perto do mar. Desde cedo que senti uma forte ligação com tudo o que ele representa. A sua dinâmica, a incerteza que ele esconde, a dúvida, a força das ondas, mas ao mesmo tempo a tranquilidade das águas em dias serenos. Sempre procurei no mar e na Mãe -Natureza uma espécie de abrigo, aqueles abrigos que nos sossegam a mente e o coração. Fazem-nos ver as coisas com outra clareza e humildade. Venho sempre renovada.


Como nasceu esta tua paixão pelo macramé (@macrame.li)? Sabendo que tens uma forte herança familiar feminina, quem te passou este desafio, ou foi algo que simplesmente cresceu em ti?

Sempre gostei de das asas à criatividade e deixas as mãos fazerem o resto. A minha mãe, nos tempos livres, fazia camisolas de lã quentinhas e cachecóis em crochet de várias cores e feitios. Adorava ficar ali sentada a observá-la e a aprender. O macramé surgiu na minha vida há dois anos, numa altura em que fui um pouco abaixo devido a problemas pessoais. A vontade de sair de casa era pouca, e então comecei a ver dezenas de tutoriais para me entreter e comecei, nesse momento, a fazer as minhas primeiras experiências em macramé. Quando dei por mim, estava apaixonada pela arte de dar nós, e senti-me outra pessoa! Mais forte e confiante!
Durante o tempo que estava ali, a criar as minhas peças, primeiras peças, o mundo lá fora deixava de existir e conseguia silenciar a minha mente. Nesta fase inicial, o macramé foi uma terapia que se tornou numa paixão e hoje em dia é um grande amor.

Como foi conciliar o mundo da música (trabalhas no clube noturno Indústria, bem no coração do Porto), com este outro mundo, tão mais simples, tradicional e, em certa forma, português? 



Desde a minha adolescência, que gosto de me sentir desafiar em diferentes áreas. Uma das primeiras paixões foi a fotografia analógica. Aprendi tudo o que sei com o meu pai, inclusive a minha primeira camera analógica, foi uma prenda dele. Não demorei muito tempo a perceber que a fotografia seria um dos meus caminhos a percorrer. Com isto aliei o gosto à música. Comecei a fotografar eventos sociais, festas, festivais, chegando ao dia de hoje, em que estou num dos meus clubes favoritos, a receber amigos e clientes à porta nos meus fins de semana. Durante a semana concentro-me na realização das minhas peças e na produção de conteúdos para o Instagram, onde é exactamente aqui que a fotografia entre de novo na minha vida. É como ter o melhor de dois mundos e não me cansar de estar sempre a fazer a mesma coisa. 

O que pensas de, nos dias que correm, esta técnica de fiagem ter-se tornado, de repente, numa moda? É algo que entendes ser positivo, no sentido de ressuscitar o interesse em algo que é quase património nacional, ou passageiro, porque poderá ser visto como algo sustentável e ecológico, sim, mas, e exactamente por isso, uma tendência sazonal, passageira? 

Acho bastante positivo o facto de resgatar técnicas e métodos que estavam um pouco esquecidos. O importante é fornecer consistência ao nosso trabalho e irmo-nos adaptando cada vez mais às mudanças que nos rodeiam. Temos de nos desafiar constantemente e criar outras oportunidades. O que hoje é tendência pode amanhã não ser, mas acredito que se nos adaptarmos às necessidades das pessoas e se nos reinventarmos, o processo criativo acompanhará os tempos.





Como vês o mercado atual? Achas que devido ao boom das técnicas e tradições há espaço para todos e todas os que pretendem entrar neste nicho de mercado tradicional?

Existe sempre espaço para todos desde que haja originalidade, criatividade e vontade de chegar mais além.

E expansão? 

Como comecei por dizer em resposta à primeira pergunta, um dia de cada vez. O importante é viver o presente e chegar ao final do dia e pensar: Hoje dei o melhor de mim. Vou abraçando e agradecendo as oportunidades que a vida me dá tentando sempre ser melhor e fazendo melhor. Acredito que isso já é uma forma de expansão pessoal e global.



Entrevista publicada originalmente na Revista Rua (@revistarua.pt) (https://www.revistarua.pt/ligia-claro-a-arte-do-macrame/)



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Thursday, August 01, 2019

1º de Agosto
August 01, 20191 Comments



Já dizia a cantiga que o melhor dia para casar sem nenhum desgosto é o 31 de Julho, porque depois entra Agosto. 
Já eu perdi o hábito de ver os casalinhos a casarem nesta época do ano, visto ser muito mais "in" os casamentos nas quintas do Ribatejo, Baixo Tejo, Médio Tejo e Além Tejo, entre os meses de Setembro até Novembro, ou nos primórdios de Abril. Evitam-se assim as confusões da estrada estival, da estrada "festival", evita-se o calor (ok, não se evita nada o calor, porque pelos vistos este decide entrar agora em força no país a partir de finais de Agosto extendendo-se até ao final do ano).
E se antes (o que quererei eu dizer com "antes" no pico dos meus 35 anos?) eu não apreciava férias de Verão neste mês, agora é um fartote de "venham elas" - percebi que são boas em qualquer altura do ano. Se formos a ver bem, embora seja extremamente concorrido, encontram-se ainda alguns locais reservados a uma pequena minoria mais silenciosa, que procura descanso total, mesmo que seja por escassos 3 dias. Às vezes é o que basta.



E se por um lado adoro as festas de aldeia, que mais do que "pitorescas", fazem parte das nossas raizes, da nossa tradição e cultura, as quais este ano me irão passar ao lado, por outro anseio por pouco barulho, com a certeza que o nirvana mental será difícil de concretizar. Não douremos a pílula, os problemas quando existem, estão lá sempre. E fugir aos mesmos, mesmo que estando num "fora, cá dentro", com o passar dos anos, começa a ser totalmente impossível. 

Claro que pareço ser com isto o que corriqueiramente se designa por "vaidosa, arrogante", vá, convencida. Mas apesar de partilhar muito de mim por aqui, ali e acolá, na verdade, ninguém me conhece ou à minha vida, para achar que possa ser um mar de rosas. Prova disso: as fotos aqui apresentadas, um "tempo volta para trás" agora conhecido como "throwback time", foram realizadas entre lenços de papel, ranho e garganta inflamada. Simplesmente é um hobby, um momento curto (bem curto) de distracção em 2017. Não mais do que isso, sem qualquer objectivo obscuro nas entrelinhas. 
Nota feita, continuemos. 

Férias são dias de descanso. Até podem calhar num fim de semana, ou associadas a uma sexta ou segunda por via de pontes e feriados. Até pode ser que para a maioria das pessoas férias signifique tratar de assuntos pendentes, mais trabalho até do que o do costume do dia-a-dia. Para mim passou a ser outra coisa. Entre crises de saúde, problemas no trabalho, tenho a necessidade de parar mesmo. Tentar (risos!) desligar o botão e fazer alguma coisa, ou nada fazer, que me agrade honestamente. Também percebi há pouco tempo que apenas o acto de arrumar, limpar, destralhar e voltar a entralhar noutro sítio a casa, me faz bem. O quão engraçado e estimulante pode ser ver uma divisão da casa mudar só porque se tiraram uns cortinados ou se mudou a colcha da cama. E não, não costumo seguir os programas de "faça você mesmo" ou "querido mudei a...". 



Voltemos a Agosto. 
Mês de Sol. 

Mas será mesmo? Eu adoro Maio e Junho - os dias são definitivamente os mais longos e Portugal possui essa capacidade proporcionada por lento movimento de tectónica de placas ao longo de milhões de anos de estar localizado em posição estratégica no que diz respeito à luminosidade natural. Luz às 21 horas. Jantares que se esticam para copos de vinho branco, gin ou água, até à 1 da manhã, 2 da manhã, porque ninguém dá conta do tempo passar. Temos os santos populares, nesse calor de entremeada mista e sardinha assada, com bailaricos à mistura. E, correndo tudo bem, temos já um calorzinho agradável que nos leva até àquela primeira cor de quem já teve o corpo beijado pelo sol. 
Agosto dá-me aquela estranha sensação de melancolia. De saudade. Mas é exactamente por causa da luz que isso acontece. Os dias mirram, a mar fica delicadamente mais calmo, como que pressentindo a ausência de pessoas. Entra Setembro, e um novo ciclo começa. Férias são férias - em Setembro, embora mais curto, é deliciosamente perigoso. O tal do calor que entra em força, o mar que não traz marés vivas, a nortada que desaparece. 

Só que hoje é o 1º de Agosto.

Ténis: ADIDAS
Saia: ZARA
Mala: certamente Gucci de "outras paragens"
Makeup: Yves Saint Laurent/Estee Lauder


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Monday, July 29, 2019

July 29, 20190 Comments
"Devolvi o hábito de me esconder debaixo da cama, deitada no chão, os joelhos abraçados pelas mãos, o pescoço colado ao peito. Era a posição de morte do avozinho. Talvez passase por diversas gerações, através do sangue contaminado com mágoa. 
Entrava numa sonolência que misturava realidade e fantasia, ao ponto de não saber em que preciso momento começava uma e acabava a outra. Quem ali estava era eu. O meu corpo, os meus joelhos abraçados pelas mãos, o meu pescoço colado ao peito. Ao mesmo tempo, passeava pelo claustro, mordia o manjar dentro da boca de João, brincava com o meu filho, ria e chorava, gritava e arremessava objetos ao rei, forma de demonstrar a minha ira. 
Forma de demonstrar o meu interesse. 
- Gosto de ti quando te zangas, Paula - dizia-me el-rei.
Considerava-se essencial, não eram suficientes o brasão e a dinastia e a tradição secular que o perseguiam enquanto sombras ou fantasmas. Como se não fosse suficiente ser rei de Portugal e Além-Mares.
- Não te posso fazer rainha, Paula.
A voz soava ao longe, não sabia ao que pertencia, real ou imaginária. 
- Passeávamos pela savana, aquele calor, pó, os cavalos e os elefantes cansados, tudo pardo, amor, as searas pardas, o chão pardo, só o céu azul destoava, eu afrouxava, África é dura, os negros são desconfiados, os animais, agressivos, em nada há beleza humana, gentileza, veludos. Tudo parecia cru como carne antes do fogo. As cores, os cheiros, o suor do meu corpo. Mandei parar a comitiva, era preciso parar, os escravos não, ms nós sim, há um limite de diferença que o corpo aguenta. Paisagens, temperaturas, comidas, cores e cheios são o que nos distinguem, sabias? E depois vi-a. Uma fêmea de elefante aproximava-se da carcaça de um macho morto... Deavagar, sem pressa. Ele devia estar ali há dias, os olhos encharcados em moscas, a carcaça enegrecida e podre. Sobrava a presa dele, em marfim, dente branco que destoava do negro, e foi aí que ela enrolou a trombra. Vi abutres, vi hienas, nenhum se atreveu a aproximar-se para comer o corpo morto, como fazê-lo, a fêmea não saída, parecia que o velava. Ficou horas no mesmo lugar. Um dos indígenas explicou que os elefantes, quando sabem que vão morrer, afastam-se da manada. Morrem sozinhos, Paula. Mas aquela fêmea não deixou que ele ficasse sozinho. Passou horas ali, com a tromba enrolada nele, como se fosse um braço e entregar a última carícia. 
Vi os elefantes e imaginei a savana. O cheio de João ficou preso no meu nariz. Acordei encharcada. Não sabia se era suor ou lágrimas.

Não te escondas debaixo da cama... 

A carta tinha apenas uma linha: "Não te escondas debaixo da cama". Chegou dois dias depois do meu sonho e percebi que não tinha sido apenas um sonho, tinha sido um sonho e uma realidade. Ele tinha vindo a mim, de noite como um ladrão, para me contar uma história de amor ao ouvido e depois sair, como um ladrão e levar o resultado do furto: a minha emoção. Não era cruel, porque a crueldade pertence ao reino dos que riem sem alegeria, era leviano, o que é o mesmo que rir sem alegeria e sem propósito, duas vezes cruel.
Eu não perdoava ladrões"

Madre Paula de Patrícia Muller 



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Saturday, July 27, 2019

Dos meus espinhos
July 27, 20190 Comments
Cactaceae.
Kaktos.

Cardos espinhosos.
2273 espécies. 

Foi recente. Perceber que os pequenos e grandes cactos são certamente das minhas plantas favoritas. Os espinhos e a sua resiliência e sobrevivência em ambientes hostis, quais organismos extremófilos que sobrevivem nas piores das circunstâncias. Adaptáveis, moldáveis, de flor única na maioria dos casos.
Poderia descrever-me também melhor? 





Fotografias: Museu Botânico de Coimbra


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Saturday, July 20, 2019

Thursday, July 18, 2019

Romanos, Árabes e Judeus .... História Cruzada
July 18, 2019 2 Comments
Aproveitando os feriados de Junho, acusei o cansaço que alguma instabilidade laboral me tem feito sentir e depois de muita indecisão (tão típica minha), acabei por rumar (ou ser rumada) até à Extremadura espanhola. 

Deixando Portugal através das cristas quartzíticas de Marvão, os imponentes relevos geológicos mais antigos do território luso, atravessámos a enorme planície castelhana entre a Serra de São Mamede e a Sierra de San Pedro, rumo a SE. Deixámos também a nortada para trás e começámos a sentir o embalo do vento suão, que nos acompanharia nos dias de viagem.



Marvão vista do Castelo




Marvão


Para quem, como eu, acha(va) que a planície alentejana é única, árida, com cor amarelo-torrado, típica, com fardos de palha aqui e ali, ou a perder de vista, certamente nunca cruzou caminhos serranos da Extremadura - o amarelo brilhante das searas a contrastar com o imenso azul do céu, chegam a ofuscar. E as estradas nacionais, em linhas rectas, sem outros carros, conferem uma imensidão espacial que novamente coloca em causa o nosso conceito de distância. E não, não é preciso ir para o Sul. É ali mesmo, entre a Beira Interior raiana e o Alto Alentejo, que a paisagem muda e acontece. 







Não querendo cair na tentação, mas já o fazendo, era óbvio que o percurso fronteiriço seria passado também a fazer pontos no mapa onde se encontrariam as principais judiarias, naquele que já é considerado um imenso tesouro histórico. Em 2013, o jornal Público publicou uma reportagem sobre o tema: Memória Judaica, na qual também se conta parte da História cruzada entre Portugal e Espanha, após os éditos de expulsão pelos Reis de Espanha. Já conhecendo os cantos "portugueses", não deixa de ser imenso passar pela Ponte da Portagem, tendo em mente que por ali passaram também milhares de pessoas, em famílias ou a solo, de vários credos e costumes, que não apenas o hebreu, mas também o árabe e  que mesmo ali foi local de mouros e romanos (Ammaia) muito antes dos cristãos. 

De, e em Espanha, contudo, não esperava muito, talvez porque, mais uma vez, a História seja feita de fugas, diáporas e destruição de memória posteriormente aos grandes "feitos!, bem como de alianças que nem sempre foram felizes, "nem bom vento, nem bom casamento". Mas Valência de Alcântara, mesmo junto à fronteira, agora despovoada de jovens, de indústria, de energia viva, de alento, e com casario para venda que nunca irá encontrar novos donos, apenas possui um dos melhores núcleos góticos: 16 ruas e 266 pórticos ou postas basculadas, com os típicos símbolos que tão bem caracterizam a casa outrora de cristão-novo. 


Igreja de Nossa Senhora de Rocamador - Valência de Alcântara


Bairro Gótico/ Judiaria de Valência de Alcântara


E claro, entre outras vilas e cidades de interior extremeño que não viemos a conhecer (ainda), também a caminho trilhado entre Cáceres e Mérida (o destino final), podemos encontrar Albuquerque, que, fizéssemos a viagem de olhos vendados pelo caminho, apenas abrindo quando chegássemos, poderíamos pensar estar em Castelo Branco, tal é a semelhança na organização do casco antigo, histórico, com as suas ruas íngremes até ao Castillo de la Luna, igualmente localizado no topo da serrania esculpida pela natureza a quartzo.

Castelo de la Luna - Albuquerque




Albuquerque




Igreja de São Francisco Xavier - Cáceres



Judiaria de Cáceres (Bairro de Santo António)




Chegando a Mérida, o cenário impõe-se romano. Com o Festival de Teatro à porta, começava a sentir-se a azáfama de preparar palcos no Anfiteatro Clássico, gente e mais gente de outras bandas na cidade - esta, muito diferente do que me lembro há 15 anos atrás, mais cuidada, mais limpa, mais cheia. Um Templo de Diana para ser re-descoberto, com centro de interpretação, a Alcazaba árabe que escondia até há poucos anos uma cisterna para recuperação de água retirada ao Guadiana, e cuja entrada observa a preservação e re-utilização árabes daquilo que previamente era de Roma.


Teatro Clássico Romano

Anfiteatro Romano











 
Templo de Diana
                                         
Capital da península, Emerita Augusta, evoluiu para um certo esquecimento após a queda do Império Romano a Ocidente, primeiro com a chegada dos visigodos, tornando-se depois parte do Califado de Córdoba, ganhando de novo outro fôlego e, posteriormente à reconquista cristã (1230), volta a ter o seu lugar, com o estabelecimento da Ordem de Santiago, passando a ser um caminho alternativo ao francês para chegar a Compostela.
É hoje novamente capital, mas da região autónoma da Extremadura. Importante local turístico, claramente histórico, continua a sua saga nas margens do Guadiana, onde se vai escavando o seu passado, construindo o seu futuro. 


Guadiana
















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