Cláudia Paiva Silva : entrevista
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Sunday, April 26, 2020

Urbano-Feminino
April 26, 20200 Comments
Pouco tempo antes destes estranhos novos dias que estamos a viver, fui rapidamente e já no último dia de apresentação até Braço de Prata, onde na Underdogs Gallery, algumas das obras mais conhecidas de Tamara Alves estavam expostas. Aproveitando a presença da artista, acabei por lhe fazer uma curta entrevista para a Revista Rua onde nada ficou por dizer, a qual também, percebi pouco depois, poderia perfeitamente ter evoluído para uma conversa onde sociedade e direitos humanos seriam temas chave, além de formas de inspiração, filmes e música, e todo o potencial que o nosso país, de norte a sul, do interior ao litoral tem para dar e oferecer a quem não tenha medo de ser ousado e de correr riscos de parecer ridículo.
Esse texto, publicado originalmente aqui, poderá agora ser lido também aqui no blogue:


Tamara Alves será porventura uma das mais conhecidas artistas plásticas de arte urbana em Portugal. Nascida em Portimão onde viveu até aos 18 anos, filha de pais também pintores que são a sua maior influência, cedo mostrou uma capacidade inata para o desenho complexo que foi posteriormente sendo acompanhada pela forma como lidava com os vários tipos de materiais disponíveis e tintas. Depois veio a licenciatura nas Caldas da Rainha e finalmente Erasmus em Birmingham, no Reino Unido, onde ganhou o gosto pela arte urbana. Nesta sua exposição a solo mostra algumas das pinturas e esquissos mais emblemáticos da sua carreira, onde o feminino e o animal estão sempre presentes, numa definição direta de todo o seu trabalho, onde selvagem se funde com humano e irracional, onde a pele nua de mulher e homem contrastam com a existência de metais do dia-a-dia industrial, onde lobos convivem com a natureza, onde a natureza é no fundo o nosso habitat natural. Onde também há sempre Amor e Paixão.
Numa curta entrevista à Rua, minutos antes de um workshop de desenho para crianças, Tamara explicou como se sente enquanto artista feminina em Portugal, as principais diferenças que observa entre as cidades do litoral e do interior do país em relação ao desenho e arte urbanas e qual o papel do artista na sociedade.
- Como foi o teu percurso desde Portimão até ires para as Caldas? Os teus pais são pintores, de que forma é que isso foi um impulso para ti, uma vez que nem sempre é comum seguir as pesadas dos progenitores?
“Nasci já a pintar com os dedos! A minha mãe diz que eu ainda antes dos 2 anos já fazia desenhos super complexos, muito diferentes daquilo que as crianças da mesma idade fazem. E como ambos são pintores, para mim sempre foi muito natural a forma como lidar com os materiais. Nunca tive medo em experimentar – sabia desde muito jovem o que dava para misturar ou não, sou desenrascada, o que dá imenso jeito na minha área, mas continuo sempre a aprender a ganhar experiência. Felizmente sempre tive uns pais que me apoiaram e incentivaram, nunca me limitaram – lá em casa (em Portimão) existem desenhos meus desde os 9 anos de idade no meu antigo quarto e sempre que queriam partir paredes, pediam-me e ao meu irmão para ir pintar essas paredes antes de mudarem alguma coisa.
Outro incentivo acontece porque eu cresci perto da praia do Carvoeiro, e como no Algarve há muito pouca oferta cultural, havia sempre um deslocamento aos fins-de-semana – às vezes íamos a Lagos ou a Lisboa ver exposições e isso dava para aprender e ganhar mais informação, educar, ver e conhecer.”
- Qual achas que é a principal diferença entre a tal oferta cultural, principalmente artística de pintura, e o conceito de arte urbana, porque é aquilo que começou a ser a tua imagem de marca, com as pinturas em edifícios e murais, entre cidades como Lisboa e o Porto e cidades do interior, como Castelo Branco, onde já foste convidada para o Festival WOOL ou Trás-os-Montes? Como vês que as pessoas reagem?
“Para começar em Lisboa, tu vês tudo e consomes tudo de uma forma muito mais rápida. Tens uma parede, vês a parede, pintas a parede, e vais para a tua vida. Demoras cerca de uma hora a chegar ao café onde tinhas combinado alguma coisa. Nos locais mais pequenos (e nas pessoas mais velhas – aqui independente da região do país), tu vês um maior cuidado com a sua terra e sítio, vês uma valorização pelo espaço que se calhar a nossa geração já não tem tanto. Quando vais então para locais mais pequenos, deixar lá alguma coisa, elas ficam na dúvida, desconfiam do que vais lá fazer, ficam na defensiva e aí é importante conhecer essas pessoas, conviver com elas, ouvir o que elas têm para dizer. E se deixares algo que seja para a cidade, uma oferenda, então que seja algo com uma mensagem. Existe uma responsabilidade social enorme no trabalho de rua. Não é estar a apontar os dedos, ou dizer como as pessoas devem agir, é preciso aliás ter cuidado com o que dizes e respeitar toda a gente – mas se estás na rua, as palavras tem um peso, as imagens têm um peso e se for para passar alguma mensagem que seja algo inteligente.”
- De certa forma são as pessoas mais velhas do interior as mais recetivas?
“Sim, no início ficam muito defensivas, mas depois acabam por valorizar, e gostar, principalmente se já te conhecerem e acompanharem o teu percurso, e guardam aquilo possessivamente, é para eles, deles, defendem aquele trabalho. Já nas cidades “grandes”, a mensagem tem de ser mais direta e mais forte.”
- Viveste em Birmingham. O que achas que é diferente entre o feminino artístico cá, em Portugal e o que conheceste lá fora?
“Eu acho que quando falamos do papel na arte dizem sempre que somos poucas, e sim, a balança esta muito desequilibrada. Mas se calhar é porque tens mulheres que não querem mostrar o seu trabalho, não têm interesse ou acham que não podem. Então eu digo: elas que saiam e que venham fazer coisas. A rua é uma tela de exposição gigantesca e toda a gente está de olhos postos na rua agora. Hoje em dia mais que tudo é aproveitar a “onda” do feminismo, se estamos a ganhar mais consciência, melhor, então vamos mostrar o que valemos. Já passei por situações muito desagradáveis em que me pagaram para estar presente, para fingir que estava a trabalhar e se calhar aceitei com imensa dificuldade porque precisava do dinheiro. Mas qual é afinal o meu papel? É suavizar um meio de homens? Não é! Sei que somos 3 ou 4 muito ativas no meio de arte urbano, mas são várias exposições por ano e vai uma ou outra apenas para preencher o buraco da única mulher que está disponível. E isso é muito complicado, mas é preciso aproveitar e marcar presença para fazer a diferença!”
-Sim, o que é que se pode perder, principalmente durante esta altura?
“Ainda por cima, no meio de arte urbana, há muitos anos atrás, senti que havia uma desconfiança quando dizias que querias fazer alguma coisa. Nós vivemos numa sociedade machista – se hoje uma mulher quer ser condutora de um Uber ou um autocarro, há ainda uma censura imediata porque foi a sociedade que nos faz pensar dessa forma, é normal – por isso é uma questão de darmos a volta. Mas para mim, é uma questão de igualdade para todos. Para uma mulher ter empoderamento, o homem tem de se sentir também empoderado.”
-Tem de haver um equilíbrio…
“Sim, a maior parte das desigualdades é criada devido às inseguranças das outras pessoas.”
- Tu retratas tanto o universo masculino como o feminino nas tuas pinturas.
“Sim. O feminino porque sou mulher e sei exatamente como me colocar na pele de uma mulher. E acho que é importante, já que retrato o peito de um homem nu, retratar o peito de uma mulher também nu, porque é importante assumir-se tanto para um como para outro. Fiz um trabalho no Hospital dos Capuchos, onde o nu era essencial para que fizesse sentido e houve alguém que chegou lá e pintou os seios da figura feminina, mas como se tivesse sido eu a fazê-lo (está muito bem feito). E isso chateia-me. Uma coisa é fazerem tags ou bigodes por cima e isso não me chateia nada, mas quando vão desconstruir o teu trabalho e a mensagem que queres transmitir, isso é algo que me irrita muito.”
-Para finalizar porque já tens um público mais jovem à tua espera na sala ao lado, o que dirias à Tamara de há 20 anos atrás?
“Vai em frente, força e não desistas, porque tudo vai correr bem. Pode doer, mas vai correr bem (risos). Se há persistência, se há amor e paixão, então vai ter de correr bem.”




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Thursday, February 13, 2020

Bonjour Simone
February 13, 20200 Comments
                   

Simone Matos has always lived near the Atlantic Ocean and that can ultimately change a person. The typical blues and greys from the Lisbon western coast climate are visible and present in her life and are one of the bases for her Jasmin Project – a collage work collective that was first born as a quite private and personal creative journal. Today, the graphic designer has challenged herself and others to make these images together, as a way to relax from the daily craziness but specially to provide a creative mind boost for every one of every age, allowing people to express their feelings in a physical mood board. 

How did Jasmin Project happen? 
SM – This project comes from the heart. It was created about 4 years ago when I started to make image clippings about dreams and magic. It is truth that I have always made collages. I used to personalize my school notebooks and files but is was between high school and the university when I’ve gained a different detailed esthetic sensibility. My artistic essence started when I began looking at fashion magazines, cutting different visual textures, colors and feminine elements and putting it all together in such a way it made sense to me. My first collage, which is called “Jasmim” of course is a composition between art, textures and feminine details – which is the essence of my creations.
                                                
Besides being a very personal art form to express ideas, moods or even private desires, what led you to share it with others?
SM – Well between that period I mentioned, I did voluntary work with elderly people and I feel that finding a space/time for a workshop, to create a group in such a way they can relax and develop their creativity as well as their mental balance is a lovely thing. And that can work for everyone. 

From what you have seen during your workshops, do you feel there is discrimination in some artistic expressions in Portugal, like weaving or embroidery which are still regarded as manual “feminine/female” tasks? Collage per se is not usually accomplished by male artists and you don’t see them as often as woman in your encounters. 
SM - Well actually I don’t feel that even though the way I create a collage is based in dreams, hopes or wishes and of course in that feminine essence. I try to bring some graphic and poetic style along with fashion and surrealism and that, in a last case, is quite “feminine”. However, I’ve had male participants at the workshops which resulted in something very personal and they expressed their imagination in a masculine counterbalance. It was a change of scene. 

                                              


Do you feel that collage as well as urban art can have a social impact and act as an intervention form? Do you think there is some sort of a growing national conscience that it can impact in a political view? 
SM – With absolutely no doubt! Every single art form may have an interventive role in the most various interventive ways and collage is no different. In other countries it is even used in economy magazines as illustrations, so it all depends of the meaning and way you want the collage to work – the importance you want it to have. 

After your voluntary work, have you ever considered to organize once again some workshops and encounters in nursing homes or Senior Universities? What kind of impact do you think it could have?
SM – That’s a wonderful question! Thinking about it, with the memory loss process due to aging, it is quite necessary to create some incentives to creativity as a way to exercise the brain. Establishing a workshop ou formations dynamic that could be applied the older people, stimulating their minds, rescuing the past and making sure about their hopes and believes would be an amazing opportunity. It would give real importance for the expression of their feelings and it optimize their life perspective. For me it would be the best reward possible! .  

Finally, what would you say ii was your biggest conquest so far with this project? 
SM – That answer is very simple! The sharing in the workshops. It was something that I started to think about, but it only became real after I was invited by and agency to be the instructor of a Instax (Fujifilm) workshop. It was really a dream come true and it was so beautiful to see how it all went so smoothly and how all the participants were so focused in it. For me collage was always my mindfulness moment: to slow down, to get focus in the moment and forget about all the distractions (mobile phone eventually!). It is really great to see this dream, the Jasmin Project, to be embraced by so many people and becoming even more real. 
   


(the original text can be seen at A City Made by People, here: Jasmim Project - Construction of the Memory)
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Monday, November 04, 2019

Privilégio cultural com Vera Holtz e Marcos Caruso
November 04, 20190 Comments
Quando soube que Marcos Caruso (@marcoscaruso) e Vera Holtz (@veraholtz), incríveis atores brasileiros, iriam estar na recentemente inaugurada Livraria da Travessa (colada à antiga Universidade) na Rua da Escola Politécnica para um "bate-papo" sobre as respetivas carreiras, sobre a peça que trouxeram a Portugal por convite da Palco 6 da incansável Ana Rangel e que Marcos já tinha representado nos palcos lusos anteriormente, Intimidade Indecente, decidi que, contrariando a minha própria decência, os iria entrevistar. Não falei com a minha editora (e amiga) Andreia Ferreira da Revista Rua, decidida a avançar sozinha, sem autorização, sem rede e sem alguma experiência, movimentando as peças do jogo à medida que tudo ia acontecendo. Telefonemas primeiro, cara-de-pau depois, presencialmente no evento. Se poderia estar nervosa, se não saberia como iria ser recebida, certamente que depressa os receios passaram. De um "quer fazer entrevista agora ou depois" pelo Marcos, com um abraço da Vera pelo meio, decidi que iria ficar no espaço muito tempo depois do "papo ser batido", dos autográfos e fotos serem realizados. 
A verdade é que já tinha conhecido a atriz Maria Ribeiro antes, e a sensação de calor humano são inegáveis - será por isso que tanto amo o Brasil, não há tempo para "merdas" de sermos "atores famosos", de haver manias ou superioridades ou não te conheço, não vou responder. No Brasil todo o mundo é rico (de cultura, de bons hábitos, de educação, mesmo nascido na "comunidade"), todo o mundo é afável. 
Quando terminei e fomos literalmente arrastados para fora da livraria (entre risos e simpatia sempre!), depois de me despedir de ambos e ainda de Guilherme Leme (também ele ator, mas agora encenador da peça), escrevi a Andreia perguntado se ela estava interessada. O feliz resultado pode ser lido aqui Revista Rua entrevista Vera e Marcos, mas a entrevista em cru deixo aqui no blogue: 




A história, que segundo aos atores provoca as lágrimas ao público mais jovem e os risos aos mais velhos, é a de Mariano e Roberta, que se separam aos 50 anos após uma vida em comum. Durante o texto, vemos os seus encontros e desencontros, a sua intimidade sendo dissecada, falando de tudo, e sem nunca cair a cortina, a sua evolução até perto dos 90 anos. A história de amor é a de um casal que simplesmente nunca deixa de acreditar ou desiste do outro, nem tão pouco do amor, para compartilhar o dia-a-dia.
Ao longo da conversa com os presentes, numa “Travessa cheia” e que durou quase mais de 2 horas, Marcos Caruso assumiu que teve dúvidas em retornar ao personagem Mariano, após tantos anos de interpretação, quantos de afastamento com o texto. Contudo assumiu que ao pegar novamente na obra, compreendeu que a experiência anterior e a passagem do tempo lhe possibilitaram um novo fôlego: “18 anos depois, a encenação é completamente diferente. Tem uma nova roupagem, foi feita outra leitura do texto. Quem se separa aos 50 anos não é igual a quem se separa aos 65 ou aos 70 anos. O tesão muda, o respeito cresce, além de ser um texto intemporal e universal. É uma questão humana, que também vai sendo atualizada pelo próprio público. A peça retoma a indecência de uma intimidade num mundo, atualmente, rápido, de consumo rápido, “tabletizado””(Caruso faz aqui referência ao uso de smartphones, tablets, etc.). Dentro do contexto Holtz esclarece e exclama entre aplausos da audiência: “A peça tem vida, eu quero falar de Amor, do presencial!”. Explicou também que quando substituiu Irene Ravache na personagem Roberta, a audiência brasileira se ressentiu “(…)durante a minha primeira semana senti que o sucesso da peça poderia sair prejudicado. Depois, logo no fim-de-semana seguinte, tivemos a opinião de uma das maiores críticas de teatro da rede Globo, uma mulher muito feroz nas suas apreciações, mas que felizmente foi muito positiva. Na altura foi quando senti que não tem problema um ator ficar no lugar de outro ator, mas a personagem nunca foi inteiramente minha – era da Irene e eu estava fazendo como a Irene fazia. Nesta encenação para Portugal, retomamos o texto com muito mais calma, com um ensaio maior e foi criada uma “nova” personagem.
Em relação à peça e em relação ao que vocês apresentam, explicando de uma forma tão pura o que ela representa, qual acham que é o segredo para manter a paixão viva ao final de tantos anos, será o sexo mais importante do que o amor até determinada idade, ou será o amor que passa a ser mais importante. O que acham que é o ponto que faz as pessoas continuarem juntas após tantos anos, como evolui o relacionamento?
Marcos – A essência é saber ceder. Se você ficar preso ao conceito de que o que você acha que é o mais certo, correto, e bom para você e para os dois, eu seu nome ou em nome dos dois, então vai dar com “os burros na água”, porque o outro também vai defender o seu ponto de vista. E aí é uma briga que não tem fim.
Guilherme- Aí é tolerância!
Marcos- No mundo atual, a tolerância é o mais essencial para que qualquer relacionamento se dê, seja homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher, seja governo-povo, patrão-empregado, se você souber ceder, pedir desculpa, a coisa vai.
Vera- Até o planeta e o homem – e a multiplicidade que temos hoje, não é a dois apenas, é coletiva, é planetária, terráquea – as minhas relações sempre foram mais passageiras, mas a amizade que continuamos a ter, profunda, têm uma chama, e é uma questão de admiração e da surpresa constante em relação ao outro, é uma chama que se mantem e é uma coisa importante.
Em relação a relacionamentos numa época de globalização. Estará a continuidade de relações associadas a questões culturais? Numa sociedade fechada, onde um casal já não se ama ou possivelmente tenha respeito sequer, poderá manter-se junto apenas por uma pressão social ou familiar?
Vera – Sim, claro! O modelo inicial do casamento é isso, mas nem um homem ou mulher podem ter nascido para serem casados, esposo ou pai, esposa ou mãe ou terem necessidade de constituírem família. Podem querer ter um papel mais importante com a sociedade. Uma relação com filhos é igual. Há tanta gente que se separa cada vez mais velha e algumas pessoas até perguntam “mas eu podia fazer isso?”. E às vezes só separam com a morte do parceiro. E ouvimos dizer: que bom estar sozinha/o. Mas foi preciso alguém falecer, desaparecer naturalmente. E cada vez mais há tanta gente que estuda o comportamento humano, jovens que têm uma capacidade tão impressionante para auxiliar nessas questões, que é preciso aprender e a reaprender e pedir ajuda.
Marcos – “Engana-se aquele que pensa que pela felicidade se alcança a liberdade”. Na verdade é a liberdade que traz a felicidade. Eu tenho de ser livre para ser feliz. Quanto mais a sociedade controla, fecha, culpa, mais as pessoas se sentem infelizes. A felicidade está inteiramente ligada à palavra Liberdade.
Vocês sentem isso no Brasil?
Marcos – Não é apenas cultural. Nós somos é todos cristãos. Então a culpa vem daí, da religião também. E não é do Brasil de hoje. É o complexo de sempre. (Vera interrompe e diz que o Brasil até é conhecido por ser vira-lata). O Brasil culpado, colonizado, é um peso. E noutros países também. Por exemplo, a sociedade cultural de Portugal sofreu imenso com a culpa, com o conceito de culpa, pela Inquisição, pela presença da Igreja. Quem se conseguiu libertar e não de uma forma hipócrita, é mais feliz. Eu vejo a sociedade norte-americana por exemplo, que se diz feliz, mas é totalmente hipócrita – podem sentir-se felizes, mas eu acho que não. Estamos em busca da liberdade, galgando degraus múltiplos em busca da Felicidade.


Sobre as conversas que geralmente vocês têm com o público no Brasil, após as peças que são realizadas, como é que vocês explicam o facto de haver tanto respeito entre as pessoas. De uma querer ouvir a outra e esperar pela resposta, será uma questão cultural também, de educação? Poderá haver algum extremismo em termos de opinião quando as classes podem ser menos letradas, menos tolerantes?
Guilherme – Eu acho que é mesmo uma questão de educação, de boa-educação. Porque a gente conhece muitas pessoas com um nível cultural elevado e que não são educadas, que é intolerante, intransigente.
Marcos- Se você cultiva bons hábitos, você tem bons hábitos. Hoje em dia estamos criando robots, gente insensível, por causa de maus hábitos. Estamos assistindo a uma crise de baixa-estima no Brasil, social e cultural.
Vera- Nós estamos a deslocar as pessoas do seu habitat natural quando há o debate. É uma távola redonda, e o princípio da mesa é que não há uma cabeceira, são todos iguais. Há sempre quem lança a provocação, mas há sempre quem não responda, havendo respeito. O teatro é também isso. Por exemplo, na rede social, não há filtro, mas tem de haver limite.
E dentro de um Brasil tão multicultural …
Vera- Tem de haver educação. E deveria haver educação regionalizada no Brasil. Todos deveriam conhecer os costumes e culturas de cada um dos estados e dos estados vizinhos.
Vera, última questão, completamente diferente do que temos estado a falar: a sua página de Instagram, onde menciona que as fotografias servem para reflexão, para as pessoas pensarem…

Vera- Exato. Pensem e sintam. O que eu gosto é da dinâmica da resposta. A interação através das palavras dos comentários de um que chama o outro e esse, o outro seguinte e a outra. A imagem é imagem – e eu não tenho dinâmica com a palavra, eu sou mais oratória. Mas a intenção é ação-reação, mais nada além disso. Não faço intervenção verbal. Apenas provoco com a imagem, a imagem é limpa e é cirúrgica. E aí as pessoas têm de pensar sobre o que veem. 


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Sunday, November 03, 2019

A arte de beber galão com Leila Gato
November 03, 20190 Comments
Leila Gato dedica-se à arte de bem comer. Mas o verdadeiro lema de vida são as suas "Torradas com Galão". De uma ideia que consistia na criação de um guia gastronómico de cafés e padarias em Lisboa, passou para a construção de um vídeo-log onde vai entrevistando várias personalidades enquanto se trincam tostas e torradas de bom pão, barradas com boa manteiga (e vá, uma vez ou outra, queijo). Os espaços são sempre diferentes, e os temas, são os que os convidados quiserem arriscar. Nesta entrevista contudo falamos com Leila sobre pão, galões, memórias de infância e o crescimento pessoal de uma filha do campo, saloia, como quase todos nós, que se deixou conquistar pelas luzes do Cinema e da cidade. 


Leila, como te definirias? Uma amante de pão, uma viciada de amor por café, uma viciada em manteiga, amante de boa comida ou todas as anteriores? Porquê?


Todas as hipóteses (responde com um sorriso maroto). Primeiro sou uma amante da boa comida, depois do pão e por último de café. Quando digo que “comida é amor” é realmente algo que vem do coração e isso faz-me viajar no tempo quando comia o pequeno-almoço com os meus pais antes de ir para a escola. Hoje em dia eu posso fazer em qualquer hora do dia. Eu sou realmente feliz se, ao chegar a casa, tenho apenas para comer uma torrada com manteiga e um galão.

Do Cinema/Teatro para o mundo do Marketing, Blogger, entrevistas, como descreves o processo de evolução e transformação?


Mudar é algo muito natural para mim. Eu aceito e abraço a Mudança como um degrau necessário para crescer tanto pessoal como profissionalmente. O Cinema sempre fez parte da minha vida desde a infância. Lembro-me de ver filmes quando era muito pequena embora não percebesse o que se estava a passar no ecrã. À medida que os anos passaram e comecei a ir para a escola, para o secundário, comecei a poupar as minhas mesadas para ir ao cinema e comprar revistas sobre filmes. Lembro-me de fazer pesquisas sobre determinado actor ou actriz e realizador. Depois da faculdade, na Escola Superior de Teatro e Cinema, percebi que o meu amor à arte seria sempre perfeito se eu não o levasse para um ambiente de trabalho, e acabei por me relacionar mais com Comunicação de Marcas, passando por uma agência de moda enquanto Relações Públicas e Assistente de Comunicação até ter decidido fazer um mestrado em Marketing Digital. Através da Direcção e Gestão de conteúdos para redes sociais e por toda a questão tecnológica que está associada percebi que o que gosto mesmo de fazer é interagir com as pessoas. Dar um toque mais pessoal ao meu blog e falar com as pessoas enquanto estas estão num momento mais relaxado, que é o de comer, é o que eu faço hoje em dia, então vamos ver o que o futuro traz.





De Pinheiro de Loures até Lisboa, achas que te podes chamar de filha da urbe citadina? Qual pensas ser a diferença entre o pequeno-almoço tradicional familiar e o pequeno-almoço do estilo de vida moderno?

Eu serei sempre uma rapariga de uma vila pequena maravilhada com a cidade grande. Embora Pinheiro de Loures não seja assim tão longe de Lisboa, é um lugar com pouca oferta. Quando comecei a ir todos os dias a Lisboa por época da faculdade, ficava deslumbrada com tudo o que ia descobrindo nas minhas viagens. Hoje vejo Lisboa como a minha cidade mas adoto a sensação de ter um local onde me sinto segura e que posso sempre visitar. Um lugar onde estão as minhas memórias de infância. O pequeno-almoço era uma coisa de família, e havia duas tradições: tomá-lo com os meus irmãos, repetindo o numero de torradas que quiséssemos e ver desenhos animados, e a segunda, ir a um dos cafés perto de casa e, não importando o quão bem cheiravam os bolos acabados de fazer, eu preferia sempre comer pão com manteiga e beber um galão. Acredito que as coisas em Lisboa não fossem ou sejam assim tão diferentes, uma vez que torradas e galões comem-se em todo o lado. Locais diferentes com diferentes pessoas, mas tradições idênticas!


Torradas com Galão: o que se esconde por detrás do nome, o objetivo da ideia e a própria ideia. Qual o processo criativo e o motor que te fizeram começar com este projecto?

Uma vez que as minhas melhores recordações de juventude são comer torradas e beber galões junto dos meus pais, hoje, quando faço o mesmo, é como estar a saborear esses mesmos momentos. Para mim a associação com o projecto foi feita de forma muito imediata. A ideia original era realizar um mapa das melhores “Torradas com Galão” da cidade, explicando porque eram merecedoras de se visitarem e contar um bocadinho das histórias dos cafés, pastelarias. A ideia ficou adormecida por alguns anos até que um dia uma amiga minha desafiou-me a fazer um vídeo. O conceito desenvolveu-se e apostámos num episódio piloto no qual eu falaria com alguém num café enquanto se comiam torradas. A partir daí a conversa pode evoluir de acordo com o convidado. Foi muito fácil apaixonar-me por esta ideia, uma vez que, obviamente, adoro pastelarias e cafés e adoro falar. Tenho apenas que encontrar os locais certos e as pessoas mais interessantes que tornem cada programa único e também é uma forma de alertar as pessoas para os locais mais “cool” de Lisboa e partilhar dois dedos de conversa.

Padarias tradicionais ou cafés de “Instagram”? O que achas que pode ser melhorado de forma que os antigos cafés não percam a sua identidade, perante os novos espaços da moda?

A competição é vigorosa. Hoje por cada 100 novos espaços que abrem, 101 encerram portas e existe sempre algo novo a explorar. Eu prefiro as padarias tradicionais mas acho que existe sempre espaços para improvisar e providenciar um bom serviço. Se os produtos como o pão, a manteiga usada, a farinha e o leite são de qualidade superior, então as pessoas irão regressar certamente. Outra coisa que vem sendo essencial é aceitar a ajuda das redes sociais – a opinião dos influenciadores ajudam a passar a mensagem, mas é essencial a comida ser de boa qualidade. Eu tenho conhecido tanta gente no “mundo da comida” e quero muito mais. Tento sempre dizer a quem tem um novo espaço que seja sempre honesto para consigo e para com os clientes: se o que fazem é pão, então façam pão, não tentem fazer panquecas cheias de chocolate e açúcar que só irão ficar bem para a “fotografia”.

Qual o pão perfeito e qual a padaria perfeita? Tens algum lugar favorito em Lisboa?

Felizmente hoje em dia existem vários locais onde podemos encontrar pão de qualidade em Lisboa. Para mim um bom pão só precisa de 3 ingredientes (farinha e fermento, água e sal). Aprendi recentemente que existem mais 2 ingredientes que podem ser adicionados: amor e tempo. Se o pão for feito com tempo será muito mais saudável e irá ter um sabor muito similar com aquele da nossa infância. Locais como a Terrapão, Isco e Gleba fazem um trabalho excelente no que toca à criação de pão na cidade. Para mim terá de ser crocante e ter uma crosta caramelizada com um sabor mais ácido. Também sou uma apaixonada pelo pão artesanal da Lab (Padaria Portuguesa) que está igualmente a fazer um ótimo serviço na confeção de pão a preços acessíveis para todos os bolsos (o que é essencial nos dias de hoje, embora seja um bem de primeira necessidade). Mas sim, existem sempre formas de melhorar e lançar novos tipos de pães no mercado. O paraíso de Pão para mim.

Consideras então criar um guia no future que inclua as novas e as velhas padarias, contando as histórias à medida que vais apresentando novas criações?

Sim, é algo que sempre esteve nos meus sonhos e planos. Algo que envolva ilustração e storytelling, ou outro tipo de arte! Existem tantas histórias por contar, casais de que trabalham juntos, negócios herdados dos pais ou dos avós, sítios antigos que são recuperados e que abrem portas com um olhar mais moderno. É tudo uma questão de ter tempo e começar a falar com essas pessoas que o conteúdo será sempre rei. Se encontrar uma forma de contar uma boa história todos vão querer conhecer e contá-la também e eu acredito mesmo nisto!




(Entrevista originalmente produzida e publicada em A City Made by People)
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Tuesday, August 06, 2019

Ao sabor da maré com Lígia Claro
August 06, 20190 Comments



Lígia Claro (@ligiaclaroo). 35 anos. Menina-mulher. Nascida em Ovar, terra de pescadores e varinas, a morar no Porto, cidade antiga e protectora, é, Lígia também, uma brisa calma que nos acalenta o espírito.

Conheci a Lígia numa roda da sorte aleatória por via Instagram numa altura em que a rede ainda era um espaço relativamente pequeno. Grupos feitos de gente que se conhecia, que se encontrava (e que ainda encontra) com o objetivo único de fotografar. Possivelmente a Lígia terá sido dos meus primeiros contactos, com um perfil único, belo, sem artifícios. Rapidamente descobrimos que as fotografias por detrás do ecrã são exactamente como a autora, única, bela e simples. Não é por isso estranho a paz que nos transmite quando estamos com ela, naquele jeito de menina, pequena e frágil, que adora o seu espaço, a sua casa, as suas pessoas, amigos e família. 
Casada com Eurico Amorim, músico da banda de Pedro Abrunhosa, decidiu há relativamente pouco tempo apresentar (e apresentar-se também) ao público - o mesmo que a seguia antes, e a todas as novas pessoas que se vão aproximando -, o seu amor pela tradição artística que é o macramé, a arte secular "migramah", muito possivelmente trazida até à Península pelos árabes, espalhando-se posteriormente pela diáspora histórica ibérica. Tecer fios, criar e fazer nós, usar elementos da natureza, e resultar em objectos de decoração tão especiais e belos, são a sua imagem de marca. Mais do que uma moda, uma forma de relaxamento. 
Agora na época de Verão, propícia aos brancos e beges, às feiras de design e novos criadores, falei com a Lígia para saber um bocadinho mais sobre esta sua paixão.






Quem é a Lígia? Como sentes a tua presença no mundo? Qual o teu passado e o que queres no teu presente e construção de futuro?

A Lígia é uma menina-mulher, sonhadora e aprendiz do universo. 
Do passado trago toda uma bagagem de experiências, vivências e sentimentos que definiram a minha personalidade para que no presente consiga ser e dar o melhor de mim. 
Viver o momento presente da melhor forma possível é o lema que tenho vindo a trabalhar ultimamente. O futuro só ele dirá o que tem reservado para mim. Tudo a seu tempo. 

Qual a tua ligação ao mar? À natureza? De que forma achas que podes ter sido, ou não, influenciada por tais elementos?

Nasci e cresci perto do mar. Desde cedo que senti uma forte ligação com tudo o que ele representa. A sua dinâmica, a incerteza que ele esconde, a dúvida, a força das ondas, mas ao mesmo tempo a tranquilidade das águas em dias serenos. Sempre procurei no mar e na Mãe -Natureza uma espécie de abrigo, aqueles abrigos que nos sossegam a mente e o coração. Fazem-nos ver as coisas com outra clareza e humildade. Venho sempre renovada.


Como nasceu esta tua paixão pelo macramé (@macrame.li)? Sabendo que tens uma forte herança familiar feminina, quem te passou este desafio, ou foi algo que simplesmente cresceu em ti?

Sempre gostei de das asas à criatividade e deixas as mãos fazerem o resto. A minha mãe, nos tempos livres, fazia camisolas de lã quentinhas e cachecóis em crochet de várias cores e feitios. Adorava ficar ali sentada a observá-la e a aprender. O macramé surgiu na minha vida há dois anos, numa altura em que fui um pouco abaixo devido a problemas pessoais. A vontade de sair de casa era pouca, e então comecei a ver dezenas de tutoriais para me entreter e comecei, nesse momento, a fazer as minhas primeiras experiências em macramé. Quando dei por mim, estava apaixonada pela arte de dar nós, e senti-me outra pessoa! Mais forte e confiante!
Durante o tempo que estava ali, a criar as minhas peças, primeiras peças, o mundo lá fora deixava de existir e conseguia silenciar a minha mente. Nesta fase inicial, o macramé foi uma terapia que se tornou numa paixão e hoje em dia é um grande amor.

Como foi conciliar o mundo da música (trabalhas no clube noturno Indústria, bem no coração do Porto), com este outro mundo, tão mais simples, tradicional e, em certa forma, português? 



Desde a minha adolescência, que gosto de me sentir desafiar em diferentes áreas. Uma das primeiras paixões foi a fotografia analógica. Aprendi tudo o que sei com o meu pai, inclusive a minha primeira camera analógica, foi uma prenda dele. Não demorei muito tempo a perceber que a fotografia seria um dos meus caminhos a percorrer. Com isto aliei o gosto à música. Comecei a fotografar eventos sociais, festas, festivais, chegando ao dia de hoje, em que estou num dos meus clubes favoritos, a receber amigos e clientes à porta nos meus fins de semana. Durante a semana concentro-me na realização das minhas peças e na produção de conteúdos para o Instagram, onde é exactamente aqui que a fotografia entre de novo na minha vida. É como ter o melhor de dois mundos e não me cansar de estar sempre a fazer a mesma coisa. 

O que pensas de, nos dias que correm, esta técnica de fiagem ter-se tornado, de repente, numa moda? É algo que entendes ser positivo, no sentido de ressuscitar o interesse em algo que é quase património nacional, ou passageiro, porque poderá ser visto como algo sustentável e ecológico, sim, mas, e exactamente por isso, uma tendência sazonal, passageira? 

Acho bastante positivo o facto de resgatar técnicas e métodos que estavam um pouco esquecidos. O importante é fornecer consistência ao nosso trabalho e irmo-nos adaptando cada vez mais às mudanças que nos rodeiam. Temos de nos desafiar constantemente e criar outras oportunidades. O que hoje é tendência pode amanhã não ser, mas acredito que se nos adaptarmos às necessidades das pessoas e se nos reinventarmos, o processo criativo acompanhará os tempos.





Como vês o mercado atual? Achas que devido ao boom das técnicas e tradições há espaço para todos e todas os que pretendem entrar neste nicho de mercado tradicional?

Existe sempre espaço para todos desde que haja originalidade, criatividade e vontade de chegar mais além.

E expansão? 

Como comecei por dizer em resposta à primeira pergunta, um dia de cada vez. O importante é viver o presente e chegar ao final do dia e pensar: Hoje dei o melhor de mim. Vou abraçando e agradecendo as oportunidades que a vida me dá tentando sempre ser melhor e fazendo melhor. Acredito que isso já é uma forma de expansão pessoal e global.



Entrevista publicada originalmente na Revista Rua (@revistarua.pt) (https://www.revistarua.pt/ligia-claro-a-arte-do-macrame/)



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