Cláudia Paiva Silva : cultura
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Sunday, February 20, 2022

Sinopse de um livro
February 20, 20220 Comments

 


Eu não conhecia a obra de Afonso Cruz. A obra.... os livros que até agora escreveu e que já são alguns. Pensava sempre que fosse uma escrita estranha, difícil, onde a história fosse contada em soluços, ora avança no tempo, ora recua ao presente, ora vai ao passado, e sempre redigida numa estrutura ortográfica que, nos idos anos 2000, eu via como "moderna em demasia". Nada de pontos finais, nem letras maiúsculas, uma confusão de ideias que, para os romances que tanto gosto de ler, não me faziam sentido algum. 

Ouvi falar da sinopose a esta Sinopse. Temas essenciais para o meu interesse imediado: Segunda Guerra Mundial, seja imediatamente antes, ou geralmente, nos anos de pós-Guerra que se seguiram. Calhou ser baseada na história de um amor verdadeiro, que ocorreu mesmo, numa Berlim primeiro devastada pelo horror bélico, depois dividida por um muro ideológico. E nessa divisão, uma separação. Temas essenciais para o meu interesse imediato: os livros dentro do Livro. Se porventura pudermos juntar o poder literário dentro de uma história, desde que bem contado, melhor. No caso, existe uma livraria, um tio bibliotecário/livreiro, e outra história, dentro da história que deu origem à história da livraria em si. E claro, aí há livros e o que eles são capazes de fazer, a sua força transformadora de personalidades, caráter e, no fim de tudo, no que somos ou não capazes de fazer para nos protegermos, para cuidar dos nossos e por Amor. 

Acredito que haja quem aqui esperasse uma crítica detalhada às passagens, uma descrição síntese da trama "despacha lá isso para dizermos que também já lemos", mas não. Não o faço. Posso garantir que os livros no livro de Afonso Cruz (Companhia das Letras, Dezembro 2021), voam, transforma, salvam vidas, mas que também talvez NEM tudo seja justificável. Nem tão pouco admissível. É sim um livro lindíssimo que li entre o Natal e o Ano Novo, como que em pronúncio de novos tempos, mais esperançosos talvez, ou para refletir que na Vida, nada dura para sempre. Nem muros, nem separações físicas. Mas que existiu, sim, da parte do autor, trabalho de investigação, entrevistas e curiosidades familiares. 

Mas mais importante, uma escrita fluida, parágrafos belíssimos de analogias e comparações, apenas para que todos nós, os Theobalds, possamos ver mais do que o básico que se encontra mesmo à nossa frente.

Mais para ler aqui, na Revista Rua



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Wednesday, October 20, 2021

Tradições que perduram - a história de um bordado
October 20, 20210 Comments






O bordado madeirense tal como o conhecemos não teve origem nem no século XIX nem na influência britânica, como poderíamos imaginar. Os primórdios remontam à própria povoação da ilha da Madeira e quanto à iniciativa inglesa, apenas serviu (e bem!) à abertura de portas a um mercado internacional. A partir deste momento, o bordado terá então deixado de ser uma arte local e os produtos passam a ser para consumo externo, crescendo tanto a sua importância, como, claro, o seu valor comercial.

ORIGEM HISTÓRICA

Pensa-se que os primeiros registos datem de longos tempos antes da era cristã. O primeiro vestígio fóssil pertence a 30000 AC, sendo que o primeiro tecido bordado encontrado na China tenha cerca de 5500 anos. E é possível também que o berço deste trabalho de agulha e perícia pertença algures entre o Oriente, o Médio Oriente e a Rússia. Tendo o Mediterrâneo como pano de fundo e meio de comunicação entre os povos, facilmente se entende que gregos, egípcios, muçulmanos e judeus tivessem tido igualmente um papel preponderante na sua divulgação.

Com a chegada à Idade Média, Roma torna o bordado como um produto de luxo, sendo que a partir do século XVI a capital passa a ser um dos maiores centros de trabalho manual - a idade do Ouro veio a tornar ainda mais rigorosa esta ideia. As aplicações várias dos bordados às várias monarquias europeias e ao clero, elevam esta arte a um patamar superior. Eram usados materiais como a seda e o próprio metal dourado para adornar as peças de vestuário - e estas apenas circulavam nos estratos sociais mais elevados. 

BORDADO EM PORTUGAL

Com presença secular antiga, o bordado em Portugal é geralmente atribuído às regiões do norte e centro do país com destaque também para a zona de Nisa. Não é por isso estranho quando olhamos para a Madeira, e observamos a presença do bordado desde os primeiros povoadores, oriundos, essencialmente, destas zonas. Um dos principais grupos de imigrantes era proveniente de Viana do Castelo oque reflete assim que a tradição é tão antiga como o povoamento da própria ilha atlântica. 

De forma a dar resposta às então necessidade de vestuário tornou-se comum o pastoreio de ovelhas para fornecimento de lã bem como o cultivo de linho na região insular. Só em Santana e na Calheta funcionavam 160 a 165 teares sendo que o Funchal funcionava como mercado de acesso aos tecidos importados - isto levou a alguns problemas, nomeadamente (e por incrível que pareça) devido ao facto de por esta via e forma de trabalhar, qualquer pessoa poderia envergar peças consideradas luxuosas. Se em 1686 D. Pedro tentou controlar a riqueza ostensiva que o povo envergava, já em 1749, D. João V admitia toda a possibilidade de se puderem usar roupas bordadas, brancas, desde que, facto muito importante, fossem fabricadas exclusivamente dentro do território dominado por Portugal. 

DESENHO, PICOTAGEM, ESTAMPA, BORDADO, ENGOMAR

         


Com a evolução do tempo e sem dúvida com o apoio de Mary Phelps, bem como de tantas outras ilustres famílias europeias, o Bordado da Madeira iria finalmente dar o salto e ser reconhecido internacionalmente, afastando-se da índole caseira e praticamente familiar. As bordadeiras dedicar-se-iam a partir desse momento à prática do bordado tendo por base 5 fases distintas mas essenciais à sua concretização sem mácula. Nascem assim as "casas de bordado", na realidade casas ou lojas comerciais, cuja função seria a preparação e a distribuição do tecido e linhas pelas bordadeiras espalhadas pela ilha através de caixeiros. Os panos eram já levados com as estampas sendo então bordados em casa de cada uma. Uma vez regressado à casa-mãe, no Funchal, a tarefa seria engomar e embalar as encomendas com destino à venda. 


SELO DE GARANTIA

Em Dezembro de 1938 passa a ser obrigatório a presença de 1 selo de qualidade e garantia em cada peça. Com a criação do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira em 1977 a defesa da autenticidade do bordado passa a ser uma prioridade. A partir de 2000, o uso de 1 selo holográfico torna-se obrigatório bem como uma garantia contra falsificações. 

DIÁSPORA DO BORDADO DA MADEIRA

Marcados pelas Guerras Mundiais e pela pobreza causada pelo parco desenvolvimento e incúria governativa, muitos foram os madeirenses que abandonaram a sua terra natal em busca de melhor vida, não sem dor e mágoa pela sua difícil decisão. Consigo levaram os conhecimentos herdados da tradição e sendo recebidos por países como o Brasil, Venezuela ou África do Sul, em breve estes locais, principalmente o Brasil, pedem imigração de bordadeiras madeirenses para dar cobro à demanda de produtos. Se o bordado se torna conhecido no Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará, é neste último estado e em quase toda a região nordeste onde ganha maior importância continuando aos dias de hoje um elemento bem vivo no seu setor industrial. Em Fortaleza chega a ser uma das principais atividades económicas. Na Bahia é conhecido o trabalho do bordado até mesmo nas tradicionais vestes baianas. Se o bordado nasceu do mundo até chegar à Madeira, da Madeira o Bordado Madeirenses cresceu para todo o Mundo. 

O BORDADO E O FUTURO

É cada vez mais evidente que em pleno século XXI o Bordado da Madeira passa a ser uma questão de tradição e cultura nacionais. Mais do que uma e qualquer necessidade de vestuário é sem dúvida um ex-libris de toda uma região portuguesa, uma lembrança para levar de regresso de viagem, um trabalho aplicado a estanho e madeira, rico, para destacar em uma ou várias divisões de casa. Mudam-se os tempos e as vontades, mas o orgulho pelo desenho, picotagem, estampa e bordado permanecem intactas mesmo face a várias crises, económicas ou pandémicas. Resta às gerações vindouras saberem preservar a manter viva esta tão bonita arte manual. 



(English Version)

Madeira embroidery, as we know it, is not from 19th century origin nor has British influence, as we might imagine. The beginnings date back to the early colonization of Madeira Island and, as for the English initiative, it only served (and well!) to open doors to an international market. From this moment on, embroidery will then no longer be a local art and the products will be for external consumption, increasing both its importance and, of course, its commercial value.

HISTORICAL ORIGIN

The earliest records are thought to date back long before the Christian era. The first fossil remains belong to 30,000 AD, with the first embroidered fabric found in China being around 5500 years old. It is also possible to consider that the cradle of this work of needlework and expertise belongs somewhere between the East, the Middle East and Russia. With the Mediterranean as a background and means of communication between people and cultures, it is easy to understand that Greeks, Egyptians, Muslims and Jews had equally played a preponderant role in its dissemination.

With the arrival of the Middle Ages, Rome turned embroidery into a luxury product, and from the 16th century onwards the capital became one of the biggest centers of manual work - the Golden Age made this idea even more serious. The several applications of embroidery to various European monarchies and clergy, elevate this art to a higher level. Materials such as silk and gold metal itself were used to adorn the garments - and these only circulated in the higher social strata.

EMBROIDERY IN PORTUGAL

With a centuries-old presence, embroidery in Portugal is generally attributed to the northern and central regions of the country, with an emphasis also on the Nisa area (north Alentejo). Therefore, it is not  strange when we look at Madeira and observe the presence of embroidery since its first settlers, which came essentially from these areas. One of the main groups of immigrants came from Viana do Castelo which reflects that the tradition is as old as the settlement of the Atlantic island itself.

In order to respond to early settlers need for clothing, the herding of sheep to supply wool as well as the cultivation of flax in the island region became common. Only in Santana and Calheta there were 160 to 165 looms, and Funchal was the market for access of imported fabrics - this led to some problems, namely due (and oddly enough) to the fact that with this way of working, anyone could wear pieces considered luxurious. If in 1686 D. Pedro tried to control the ostensive wealth that the people could actually wear, as early as 1749, D. João V admitted the possibility of everyone to use embroidered white clothes, provided that they were manufactured exclusively within the territory dominated by Portugal.

DRAWING, PICKING, PRINTING, EMBROIDERY, IRONING

With the evolution of time and undoubtedly the support of Mary Phelps, as well as of many other illustrious European families, Madeira Embroidery would finally take the leap and be internationally recognized, moving away from the homely and practically familiar nature. From that moment on, the embroiderers would dedicate themselves to the practice of embroidery based on 5 distinct but essential phases for its precise implementation. Thus,"embroidery houses" were created, corresponding in reality to houses or commercial stores, whose function would be the preparation and distribution of fabric and threads by the embroiderers spread across the island through clerks. The cloths would be already taken with the prints and then embroidered in each one's home. Once back at the mother house in Funchal, the task would be to iron and pack the orders destined for sale.

GUARANTEE SEAL

In December 1938, the presence of one quality and guarantee seal on each piece becomes mandatory. With the creation of the Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira in 1977, defending the authenticity of embroidery becomes a priority. From 2000 until today, the use of one holographic seal becomes mandatory as well as a guarantee against forgeries.

DIASPORA OF MADEIRA EMBROIDERY

Marked by the World Wars and poverty caused by lack in development and government negligence, many Madeirans left their homeland in search of a better life, but not without regret and sorrow for their difficult decision. With them there was the knowledge inherited from the tradition, and once arrived in countries like Brazil, Venezuela or South Africa, soon enough, they were asked to meet the demand for products. If embroidery becomes known in Rio de Janeiro, São Paulo and Ceará, it is in the latter state, and in almost the entire northeast brazilian region, where it gains greater importance, continuing to the present day a very lively element in its industrial sector. It is also one of the main economic activities in Fortaleza. In Bahia, the work of embroidery is best known in traditional Bahian garments. If embroidery was born from the world until it reached Madeira, Madeira Embroidery grew from Madeira to the whole world.

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Thursday, May 07, 2020

Sons de batucada
May 07, 20200 Comments



"Samba de verdade tinha que ter o sal do batuque dos terreiros de Umbanda e Candomblé, uma batida grave pra marcar, umas agudas para recortar. Era só fazer a segunda e a primeira bem definidas, botar o ritmo pra frente, que nem se toca na macumba pra fazer santo baixar e subir quebrando demanda, levando o mal para sumir no infinito de Aruanda e espalhar a paz no coração dos filhos da terra. Essa coisa de ficar imitando os portugueses, os franceses, os argentinos estava na hora de parar. A boa era dar continuidade à batida que vinha dos países de África, das senzalas, dos quilombos, dos terreiros, do lundu. Samba pra desentortar esquina, tirar paraleleípedo do chão, engrossar a batata da perna, espantar os males de quem anda, canta e dança. Samba para se desfilar na rua." (Paulo Lins, Desde que o Samba é Samba).
Sabe quem sabe que eu já habitei (ou pisei pé) em terras brasileiras. Sabe quem sabe que o Brasil teve para mim um impacto extremamente profundo, um sentimento de Casa e Terra-Pátria, mesmo que fosse por empréstimo temporário. Também se sabe que quando falo ou escrevo sobre o Brasil evoco terras, cidades, vilas e regiões que nem talvez muitos brasileiros alguma vez tenham ou possam vir a conhecer. Sei o quão privilegiada fui por ter conhecido tanto em tão pouco tempo e mais uma vez, sei o quanto isso me marcou na alma.
Contudo, também sinto que esta minha falsa modéstia possa parecer isso mesmo - uma modéstia muito pouco verdadeira - e que talvez seja demasiado emproada quando digo que conheço o Brasil. Não conheço. Ou como eles diriam, "não conheço porra nenhuma", a não ser a ideia de que um país gigante, onde se perde fácil o conceito de escala humana e regional (6 milhões de habitantes apenas no Estado do Rio de Janeiro; distância São Paulo-Rio pela Via Dutra, umas 5 horas), pode ter dentro dele outros tantos países, credos, formas e culturas. Que o Sul é definitivamente mais rico do que o Nordeste, que o Nordeste é extremamente mais caloroso que outros estados, mas que no geral todos gostam de receber alguém que fala uma língua parecida com a deles, mas que na maioria dos casos nem entendem bem. Falamos estranho, com "chiado", não somos do Rio, mas também não se sabe bem de onde somos.
Contudo, há uma cena que me lembro bem de me ter arrepiado. Nada que ver com violência ou insegurança. Simplesmente esteve relacionado com o som. Quando fui a Salvador, possivelmente a cidade mais portuguesa que conheci em toda a minha estadia, o som do berimbau foi escalando numa zona de ermo. Não sei o que era, mas sei que foi poderoso, estando logo ali. Salvador é uma cidade mística. E sim, tem toda a referência à colonização para lá de violenta, uma colonização de morte, de violação, de assassínio em massa, uma colonização forçada de fé, regada pouco depois pela forte cultura africana e escravizada. Mas a questão fundamental é? Para lá desse horror, do que é feita hoje a massa do brasileiro? Essa mescla imperturbável de africano, índio, português (ou de outro colono medieval). E qual é o verdadeiro som do Brasil? O típico samba ou o forró, certamente que não é apenas a bossa nova que resulta de forte influência de jazz norte-americano. O som é também essa coisa tão profunda e enraizada de sons africanos, a batucada, o misticismo e espiritismo que acompanham o ritmo. 
Perdoem-me a minha arrogância, mas se há coisa que eu percebi do Brasil é que não há um único jeito de ser nem de estar. Não há um som típico ou uma forma de falar. É muito mais que isso, é Casa, Pátria, Crença, Tradição.


Saberiam por exemplo que no interior nordestino ainda se praticam costumes que só os judeus faziam no tempo em que eram perseguidos? Tal como junto ao Mar os Orixás são os reis do céu e das águas "Para quem está ainda mais fora do candomblé que eu, das religiões de matriz africana em geral, do complexo enredo dos seus orixás, equivalentes a santos, entidades, seres sagrados: Oxum é a senhora das águas doces, da cor do ouro, uma das mulheres que o rei Xangô desposou, tal como a brava Iansã, senhora das tempestades.

A mais cantada mãe de santo do Brasil, Mãe Menininha de Gantois era uma filha de Oxum. (...) Como não haveriam os terreiros da Bahia de bater no peito da música popular, e assim em nós." (Alexandra Lucas Coelho, Cinco Voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso".
Quem será o homem, presidente ou não para dizer como podem milhões viver ou pensar, se deles ele nada sabe ou se de seu próprio país ele nada conhece? 
Se ouvisse direito o som da batucada iria entender tanto mais.




(texto originalmente escrito para o blogue, mas publicado na Revista Rua - pode ser lido aqui: Sons de batucada)
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Sunday, March 08, 2020

East End, Mulher e Sufragistas
March 08, 20200 Comments


3 nomes. Uma região geográfica, um substantivo, um grupo político. 
Através da História, certamente que conhecemos alguns movimentos sufragistas femininos onde "Votes for Woman" ou "Equal pay for equal work" eram frases-chave na conquista de direitos. Certamente foram estas as principais afirmações que estão na base do Feminismo como se conhece até à data. Uma luta apenas e só por direitos e deveres iguais entre Homens e Mulheres, sem manifestações de uns serem mais importantes ou melhores do que os outros.
O que poucos sabem (e independentemente das afiliações políticas de cada um ou cada uma) é que o East End de Londres, bem como cidades como Manchester, (zonas tipicamente operárias com forte componente industrial) foram o seio dos primeiros grupos conhecidos dos movimentos feministas. 
Em Londres nas primeiras décadas do século XX, Sylvia Pankhurst, tornou-se a estratega do East London Federation of Suffragettes quando percebeu que o movimento feminino sufragista do qual também fazia parte "União Social e Política das Mulheres" - Woman's Social and Political Union, não tinha qualquer impacto real junto aos partidos políticos britânicos. Apoiando-se das suas capacidades intelectuais (e sem dúvida auxiliada pelo facto de pertencer à classe média-alta), fez do East End o seu porto de abrigo. Numa luta intensa pela liberdade e igualdade de direitos, pela possiblidade de voto da Mulher, foi várias vezes presa junto a outros colegas e não raras vezes fazia greve de fome para que as suas vozes fossem ouvidas. 
Coincidindo com o dia 8 de Março, o primeiro boletim da Federação de Sufragistas, editado em 1914, tinha como moto de desafio: "Some people say that the lives of working woman are too hard and their education too small for them to become a powerful voice in winning the vote. Such people have forgotten their own history". Uma rápida resposta a várias críticas que afirmavam que uma mulher da classe operária, trabalhadora ou não, não tinha capacidades para perceber ou saber escolher o melhor para si, para os seus pares e para o seu país. 
Embora fosse totalmente contra o envolvimento do Reino Unido na Primeira Guerra Mundial, durante a qual a maioria dos homens foi enviado para os campos de batalha passando as mulheres a terem um triplo desempenho em "casa", principalmente quando viviam em bairros de extrema pobreza, viu o império britânico a permitir o voto à Mulher em 1918 ao abrigo da reforma do sistema eleitoral implementado no mesmo ano. Na realidade, esta reforma não foi totalmente isenta de intenções; durante os períodos de guerra, pode-se verificar os vários estados que concederam o voto eleitoral às mulheres, uma vez que acabou por pesar nelas um esforço de guerra de maior impacto. Enquanto os homens lutavam, as mulheres acabaram por ter de conciliar as tarefas domésticas, tomar conta de filhos, passando também a ocupar os lugares vagos nas fábricas e outras atividades até então tipicamente masculinas (ou negadas à mulher). O Reino Unido foi não foi contudo dos primeiros países a conceder o voto feminino a nível europeu mas definitivamente não foi o último também (importa não esquecer que em Portugal, por exemplo, apenas após 1974 é que os direitos da "mulher" foram revistos - muito devido ao seu papel na sociedade mas acima de tudo, à sua intervenção dentro do espaço doméstico).
O que falta ainda então fazer para que este dia faça ainda mais sentido? Tudo! Continuamos a ter um longo caminho a percorrer de forma a que os direitos e deveres se tornem iguais. De forma a que não tenhamos sempre de ouvir que estamos a pedir, a procurar, ou porque estamos muito vestidas ou despidas, porque somos mães e porque não somos mães, porque é que não somos assim, ou mais simplesmente, porque é que somos como somos. 

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Monday, January 20, 2020

Inspiração
January 20, 20200 Comments
Quando penso no modo "slow living", o que me vem à mente serão sempre paisagens douradas e secas e arranjos de flores ou plantas que tanto fazem lembrar o mais rústico ou o mais "clean" possível. Porque é possível misturar e fundir ambos os estilos, criando assim uma ponte entre o antigo e moderno, tradicional e industrial sem cair no exagero dos extremos. 


Ruby Barber (Entrevista a Ruby Barber) é uma das criadoras da Mary Lennox, uma loja especializada em arranjos florais. Nunca o termo "flower styling" esteve tão em voga, mas certamente é aí que recaem as gerações mais jovens de floristas e botanistas já no virar do último século e milénio. Numa época em que se procura um maior contacto com a Natureza, Ruby retrata como ninguém cenário idílicos seja para fins publicitários a perfumes como para catálogos de moda ou mesmo revistas especializadas em "fashion food". Quem diz que não se pode brincar com comida? 
Natural da Austrália mas a viver em Berlim, Ruby inspirou-se no livro "O Jardim Secreto" de Frances Hodson Burnett e na sua personagem principal Mary Lennox para a génese da sua loja/atelier e sem dúvida que os seus trabalhos me inspiram também... 



All photos by Mary Lennox



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Wednesday, December 18, 2019

Livros para o Natal, Livros para quem Lê
December 18, 20190 Comments
Aproveitando para dizer que em termos estatísticos os portugueses ficam abaixo da linha de água no que diz respeito à aquisição de literatura, aqui deixo alguns títulos que deveriam mudar esses números. Larguem os telemoveis e troquem por livros, físicos ou em formato e-book (os smartphones, kindles, tablets e iPads permitem também ler outras coisas!). A vossa mente e capacidade de imaginação também! 


 Do Brasil, com Amor.

Para começar temos a biografia de Fernanda Montenegro “Prólogo, Ato, Epílogo”. Aos 80 anos a musa da televisão e cinema brasileiros tornou-se imortal em vida quando foi atacada publicamente em Outubro último pelo atual diretor de Artes Cénicas da FUNARTE Roberto Alvim, após ser capa do jornal literário Quatro, Cinco, Um. Neste, surge como uma herege prestes a ser queimada numa pira da Santa Inquisição e insurge-se enquanto ativista em defesa da democracia no meio cultural. Adjetivando a artista como “sórdida” e “desprezível”, Alvim apenas conseguiu que Montenegro se elevasse ainda mais na hierarquia cultural brasileira e mundial, principalmente numa época em que a censura parece regressar ao país tropical de língua portuguesa. Contudo e singelamente, a sua biografia, escrita a par com Marta Góes (Companhia das Letras), apenas conta o seu percurso até à atualidade, episódios de vida desde que os avós atravessaram o oceano em rumo de uma vida melhor. A forma como Arlette Pinheiro Esteves se transformou em Fernanda, nas inúmeras peças de teatro que foi estrela, sabendo de antemão que não seria pela sua beleza mas sim pela sua atitude em palco que faria a diferença. Um livro não (totalmente) político que se lê facilmente como um romance, sendo sério e mordaz, onde os momentos mais duros da vida da artista são combatidos com momentos de humor e onde às vezes, muitas vezes, se percebe o tom sarcástico com que Fernanda vê o mundo onde se encontra.



De seguida, apresenta-se “Essa Gente” (Companhia das Letras) de Chico Buarque. Cantor, escritor, autor e vencedor do Prémio Camões 2019, Buarque tem todo um país contra e a favor dele. E em “Essa Gente” a história em forma de diário de um escritor famoso mas em plena crise de meia-idade, bate certeiramente com a vida atual no Rio de Janeiro (e no Brasil), pautando entre as questões pessoas e metafísicas, sociais e políticas. Buarque, ainda no meio do furacão pela não assinatura de Balsonaro ao Prémio Camões atribuído por Portugal, acaba por sair vencedor como sempre, e este livro é apenas um estalo sem mão à atual política cultural brasileira onde se assiste a uma “vingança” do próprio Presidente contra todos os que o atacam. Uma “censura” camuflada onde filmes e peças de teatro não são impedidos ou cancelados de estrear, mas sim “adiados por tempo indeterminado” de serem apresentados ao grande público.


Escrito por Alexandra Lucas Coelho, jornalista e autora portuguesa, “Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso” (Caminho), começou com um pedido do cantor à escritora. Um livro dedicado à sua terra natal, um livro que falasse sobre as pessoas, os locais, sítios e cheiros. Para quem conhece a Bahia e o Recôncavo baianos, Estados ligados como siameses, percebe facilmente que este texto de Alexandra só poderá ser extremamente especial e pessoal. Uma viagem a Salvador é como um despertar de sentidos, sabendo que foi ali onde os primeiros portugueses puseram pé, passando tormentas e tempestades. Foi o marco inicial para o melhor e para o pior dos Descobrimentos, mas é nesta capital que pudemos afirmar também que estamos em Casa, com as suas ruas tão tradicionais, tão portuguesas, as suas igrejas cristãs umas coladas às outras, o candomblé, o som e batuque vindo dos terreiros, a comida com inspiração africana, o cheiro a maresia assim que nos voltamos neste caso, neste meridiano, para leste. Mais, “Cinco Voltas na Bahia” é um mapa também pelo sertão, quase roçando os limites com a Chapada Diamantina, onde quilómetros de estrada nos levam a percorrer paisagens de tons ocre, aqui e ali com vegetação seca, típica, e onde, aqui e ali, surgem casarios, e onde, aqui e ali, saltam crianças ávidas de pessoas, de novidades. Alexandra Lucas Coelho transmite-nos esta ideia e muito mais. Jorge Amado poderá estar orgulhoso! Caetano e todos os beijos que merece, também!


Para concluir o núcleo dedicado ao Atlântico Sul, aparece o livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” (Porto Editora) escrito por Martha Batalha. Atravessando o Brasil desde a década de 40 até aos dias de hoje, conta a histórias de duas irmãs filhas de portugueses num Rio de Janeiro desaparecido. A história aparentemente banal é, no entanto, muito diferente do que os leitores possam imaginar. Guida e Eurídice tinham sonhos, mas o desaparecimento da primeira, após uma paixão proibida e uma gravidez “vergonhosa” para o seu Pai, levam a que a outra opte por abdicar de tudo o que queria fazer, tornando-se assim, a filha e esposa obediente, perfeita, mãe de família, doméstica sem vocação. Apesar do “bom marido”, Eurídice é miseravelmente infeliz, e a sua história não é diferente nem das mulheres nascidas na mesma época e que foram educadas apenas para serem boas donas de casa, tal como a violência que acaba por sofrer, mais psicológica, menos física, mas em qualquer caso, fatal, não é diferente da violência que as mulheres sofrem até ao dia de hoje, numa luta desigual para serem ouvidas e respeitadas dentro das suas famílias.
O livro foi adaptado ao cinema por Karim Ainouz e em Maio ganhou o Prémio Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Estreou agora no Brasil envolto em aplausos e, mais uma vez, é levado a concorrer ao Óscar de Melhor Filme Internacional, com a especial intenção de levar também o nome de Fernanda Montenegro novamente à nomeação de Melhor Atriz Secundária.


Um policial e uma história da História.

Já em ambiente policial, Francisco José Viegas regressa agora com mais um caso do Inspetor Jaime Ramos, “A Luz de Pequim” (Porto Editora). Agora aos 60 anos, sendo pressionado para deixar a Polícia, Ramos tem de lidar não só com uma auditoria interna em relação ao seu trabalho de uma vida, como com a resolução de um caso que o leva a viajar até à China, ao mesmo tempo que vai relembrando pedaços da sua vida com eternos amigos e companheiros na sua cidade do Porto. Tal como Ramos, o protagonista que neste momento já nada tem a perder e prefere deixar a hipocrisia de lado, nomeadamente quando o caso começa a mexer com os meandros cinzentos da política nacional, o seu “criador” José Viegas, também já não tem problemas em colocar-se como um dos principais e melhores escritores nacionais, que por via de várias entrevistas e através da sua personagem, vai colocando os pontos nos i’s ao “politicamente correto” que parece estar a crescer na sociedade lusa atual. Não se pode deixar de falar dos assuntos, apenas porque são incómodos. Devem ser mencionados e discutidos exatamente por ainda causarem incómodo.


Por fim, mas não menos importante, temos um retrato da sociedade política e jornalística durante os 8 anos a seguir à Revolução de Abril. Manuela de Sousa Rama será porventura mais reconhecida pela sua presença na RTP, mas este seu primeiro romance histórico “A Culpa foi da Revolução” (Clube do Autor), certamente enche a vontade de saber mais sobre uma época conturbada na História nacional, nomeadamente o pós-25 de Abril. Aproveitando a fase de revivalismos, (e aproveitando o regresso da série “Conta-me como Foi”, passada agora na década de 80) Sousa Rama traz a lume os acontecimentos que procederam a revolução e o tempo que se seguiu até à dissolução do Conselho da Revolução no ano de 1982, baseando-se em factos verídicos. Numa crítica (ainda que indireta) às escolhas feitas nessa fase tão peculiar, principalmente a pressão sentida pela imprensa nacional, podemos identificar que a censura nunca acabou, simplesmente terá mudado a cor política, algo que hoje, ainda se verifica de forma pouco dissimulada nos órgãos de comunicação social. O que adianta uma mudança para melhor, se o resultado final poderá ser na mesma medida, redutor da liberdade de expressão? “A Culpa foi da Revolução” não é um romance político por si, nem aponta dedos a ninguém, simplesmente mostra como a História tem tantas ramificações e muitas vezes, os erros do passado, perpetuam-se num futuro que permanece incerto.



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Tuesday, December 03, 2019

Renate Graf e a fotografia que faz pensar
December 03, 20190 Comments


“Não sou fotógrafa no sentido clássico, as minhas imagens existem para servir diferentes propósitos daqueles dos verdadeiros fotógrafos, não sendo completas ou conclusivas. Nem são fotografias perfeitas no ponto de vista de perfeição técnica. Elas funcionam não somente como imagem, mas como linguagem, como sinais apontando a algum significado…”. É assim que Renate Graf, fotógrafa austríaca se define. Desde os desertos de Marrocos, captando o detalhe das areias sendo transportadas pelo vento no Atlas, às montanhas do Utah, nos Estados Unidos, passando aos festivais de cores garridas na Índia, onde consegue, mesmo em fotografias a preto e branco, transmitir a palete cenográfica de rituais culturais, Renate é acima de tudo uma coletora de momentos e memórias. Não querendo colocar-se no mesmo estatuto que outros grandes fotógrafos, a verdade é que Graf é uma das mais brilhantes fotógrafas mundiais. As suas imagens revelam um cuidado e uma estética muito particulares, e sem dúvida que as mesmas, tiradas em locais tão místicos, como templos hindus, ou misteriosos e inóspitos, como as planícies de gelo na Sibéria, lhe auferem o estatuto dos Grandes.






Na verdade, Renate Graf começou de forma simples a sua carreira em fotografia há pouco mais de duas décadas. Somente após um amigo lhe ter oferecido uma Canon automática, e após começar a viajar com o seu companheiro, o reconhecido pintor e escultor alemão Anselm Kiefer, é que iniciou o hábito de fazer diários fotográficos. O essencial para ela, é poder relatar os códigos culturais e a forma como os mesmos se vão alterando no tempo e no espaço. De uma Europa pós Segunda Guerra Mundial, na qual Graf cresceu, passando pela queda da URSS, chegando ao mundo globalizado e multicultural dos dias de hoje, Renate declara que tenta sempre adicionar algo ou uma palavra que proporcione uma ideia ou pensamento, ao mesmo tempo que reconhece o desafio constante que as mudanças de Poder, de costumes e moral, possam empregar nas suas imagens.

A viver atualmente em Portugal (Comporta, Setúbal), define o povo português como tolerante e musical, muito graças à influência das várias "energias" provenientes de outros países. Mas é o mar que, para ela, nos destaca entre os demais: "os portugueses não olham para a Europa, mas sim para o mar, o que torna tudo muito especial e é uma visão poética". 

Quanto ao futuro, basta dar uma espreitadela à sua página de Instagram @renategraf: pensando em mover-se do registo em livro para filme, podemos já observar algumas imagens a cor e movimento, simples, feitas possivelmente com um intuito ainda "rascunho", fazendo lembrar Anton Corbijn (@antoncorbijn). 


A exposição está patente até ao final de Dezembro no Palácio dos Anjos em Algés. 




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Wednesday, November 20, 2019

O nosso Purgatório; a nossa Purga
November 20, 20190 Comments
Nem sempre é fácil pegar nos textos clássicos, levá-los a palco e fazer com que o público entenda. Não porque sejamos tontos, mas porque muitas vezes os contextos históricos mudam e tudo parece muito velho, muito antigo, tão antigo que nem parece real, ou que possa ter realmente ocorrido. Contudo, quando transportados à realidade atual e integrados no nosso dia-a-dia, estes textos, tão velhos, seculares, parece que batem em cheio, que foram escritos para nós, todos, como um núcleo, para que possamos ouvir, ver, acima de tudo pensar e perceber. 
Até dia 24 de Novembro aconselho a verem a peça O Purgatório, segundo ciclo da Divina Comédia de Dante Alighieri, no Teatro Nacional Dona Maria II. Uma vez mais trazido à luz pela Companhia de Teatro O Bando, depois do simbolismo de Inferno em 2017. Quanto mais não seja para esse esforço maior que é realmente o "tentar perceber as coisas" que nos rodeiam, para onde vamos e de onde viemos. Qual é este "purgatório" por onde estamos a passar, quase em rebanho de ovelhas, cabeça baixa, sem ver nada em volta. Poderia dizer que o pensamento que surge é de uma espécie de Alegoria da Caverna, segundo Platão, e não está muito longe, mas vale sempre a pena pensar mais um pouco, tentar chegar à Luz do Conhecimento, não padecer desse mal que é o dogma e aceitar tudo o que nos dizem como verdade absoluta.



"A primeira reação é de assombro. Um arrepio incrível que nos percorre a espinha à medida que vamos escutando o maravilhoso Coro Setúbal Voz na sua participação triunfal e essencial na peça de Dante, aparecendo no início quase como mortos-vivos, num crescendo de música que enche a sala. Depois, a comparação feita nesta nova adaptação pelo Teatro O Bando aos dias de hoje, à nossa realidade, à nossa História moderna. E por fim, nós, humanos espectadores e atores, sendo as sombras que caminham ordeiramente, qual rebanho, atrás de um deus, de dinheiro, de aceitação, de rendição e de perdão, numa rota com destino certo ao Paraíso. Ou talvez a um destino que nos faça acordar do marasmo quotidiano, da mediocridade. Dante é aqui um de nós, uma sombra que ao princípio não consegue ver e não tem voz, uma sombra que apenas segue a ideia de uma Beatriz que não se encontra no mesmo plano físico em que ele se encontra, um Dante que tem espasmos, que não se consegue mover, e que aos poucos começa a ser guiado por um “mestre”, Vergílio, pessoa/sombra mais sensata que o vai “educando” e “curando” da cegueira, e também por Matilde, a sombra sarcástica e irónica que o irá chamar à realidade dos factos, ao que é óbvio, embora também se venha a revelar uma serva da Morte e da Esperança.
O que resulta? A sensação de andarmos agora, aqui e no Presente, no real Purgatório, com um Passado já passado, para um Futuro a que apenas podemos mesmo encarar com o olhar de Esperança, pondo fim ao que nos prendia, ao que nos tornava zombies. Mesmo que para isso tenhamos de perder a questão do Eu e mesmo que para isso tenhamos de ser Ninguém, tal como Dante diz no fim.
A marcar o passo desta caminhada, que é na verdade uma reflexão interna, existe a presença maravilhosa de Fernando Luís, Rita Brito, Sara Belo e Nélson Monforte, num espetacular exercício não apenas de interpretação textual, mas sim física e vocal, dando ainda maior ênfase à importância que é a dificuldade da travessia feita por Dante durante os três dias e três noites em que dura."

Texto originalmente publicado aqui: Purgatório na Revista Rua


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