September 2022 - Cláudia Paiva Silva

Saturday, September 03, 2022

Covi-Lã
September 03, 20220 Comments


Foto de Jorge Vieira
Arte Urbana de REGG

O Turismo pela Lã

Fábricas e Museus. Unidades industriais e empresas a laborar. 365 dias por ano, numa procura em dinamizar e promover os produtos de origem nacional, numa rede dedicada ao Turismo Industrial. 

Nesta premissa, as pessoas, as terras e as fábricas contam a História do nosso país, muitas vezes relacionadas com episódios políticos que transformaram a vida dos seus protagonistas.

Por outro lado, hoje em dia, as fábricas que ainda resistem à galopante globalização, lutando por manter trabalhadores e garantir justiça salarial, mostram-se também cada vez mais focadas num compromisso com o meio ambiente, procurando soluções sustentáveis onde a Economia Circular e Reciclagem se tornem mais do que apenas meras palavras. 

Nesta passagem de saberes e tradição, de norte a sul de Portugal, teria de caber obrigatoriamente aquela que foi a maior fonte de rendimento às famílias serranas da Covilhã durante os séculos XV e XVI, prolongando-se até ao século XX - a indústria de lanifícios. Um património ainda hoje vivo e que reflete a modernidade que acompanha a necessidade e demanda de clientes igualmente mais exigentes. Mantendo a qualidade, mas olhando para o bem da comunidade e do espaço onde se insere. 

Integrado num conjunto museológico, recuperaram-se a Real Fábrica de Panos, inaugurada em 1764 (onde se encontram as tinturarias e onde atualmente se encontra sediado o Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior), a Real Fábrica Veiga, cuja abertura ocorreu em 1784 (dedicada à fiação) e ainda a Fábrica Campos Melo e a Fábrica Velha, todas impulsionadas e fundadas por cristãos-novos, tornando a cidade da Covilhã num dos maiores centros industriais do país, logo a seguir do Porto e de Lisboa. De forma irónica, entre 1700 e 1755, por via da Inquisição, muitos destes financiadores foram presos, acusados de judaísmo; mais uma revanche pela presença de grandes comunidades judaicas da região serrana e fronteiriça, mas principalmente pela sua clara importância e influência nos negócios e decisões da Monarquia e Estado, desde a época da Expansão Marítima. 

Contudo, com as transformações impostas pelo Marquês de Pombal, o crescimento da indústria tornou-se mais notório e nem mesmo a Revolução Industrial já no século XIX fez oscilar a sua grandiosidade. Numa época em que as grandes máquinas trabalhavam com energia a vapor, a fábrica António Pessoa de Amorim constrói as primeiras rodas hidráulicas - convém não esquecer que grande parte da indústria se localizava juntos dos principais cursos de água que descem da Serra da Estrela. A energia hidráulica ganha assim a corrida e torna-se um exemplo na engenharia e tecnologia nacionais.

Já durante o século XX, os eventos bélicos e a política nacional, acabam por transformar as vidas, as necessidades e a economia do país, levando também ao um decair na produção. Ainda assim a Covilhã consegue manter-se e torna-se hoje um destino para designers nacionais e internacionais que procuram os melhores materiais e o melhor fabrico, garantindo não apenas o conhecimento da origem dos produtos ao cliente final como proporciona uma retoma de atividade económica e manutenção de postos de trabalho. 


Lã Ecológica

Na sequência de um maior compromisso ambiental, característicos dos tempos que atravessamos, e tendo em consideração que a indústria têxtil é das mais poluentes aos ecossistemas aquáticos e marinhos (ciclo hidrológico), algumas empresas já apresentam igualmente respostas adequadas ao tratamento dos seus resíduos. No que concerna a água, são usadas estações de tratamento  que possibilitam a reutilização do recurso novamente para a operação de fabrico de tecidos. Por outro lado, também já começam a haver linhas de fiação cuja produção provém a 100% do desperdício têxtil (fios, tecidos e malhas vários, restos de rolos). É disto exemplo a fábrica J Gomes, também localizada na Covilhã. Neste polo, recolhem-se e separaram-se os desperdícios, por qualidade de peças e cores. Desta forma, deixa de ser preciso tingir os fios para as tonalidades definidas e pretendidas. Após o processo de reciclagem, inicia-se a transformação das fibras recicladas ou virgens em fios que podem ser aplicados em inúmeros produtos, quais como luvas, cachecóis, meias, mantas. Nestas circunstâncias a empresa são usa corantes nem produtos químicos sintéticos e não existe desperdício de água, tal como os plásticos e cartonagem associados são recolhidos e seguem diretamente para centros de reciclagem. Após ter sofrido uma paragem temporária devido a um grande incêndio já no Inverno passado, a J Gomes, pauta-se por ser então, desde os anos 70, um exemplo a seguir no caminho para a sustentabilidade industrial.


Turismo Industrial e o caminho a seguir

Lanifícios, azeite, vinho, passando pela extração de sal e outros recursos, a reabilitação de zonas mineiras para transformação em zonas e espaços educacionais, os Geoparques (UNESCO), as rotas turísticas portuguesas, incluindo o turismo religioso, são alguns dos exemplos do que pode ser feito de melhor em Portugal no que diz respeito ao Turismo. Verificou-se pelas piores circunstâncias que a subsistência apenas relacionada com sol e praia, não é resposta, ou pelo menos, não será a única resposta a um desafio económico indispensável ao nosso país. Falamos de Portugal continental e também das Regiões Autónomas, que possuem igualmente um imenso potencial, muito além do típico turismo relacionado com a Natureza. Na mesma proporção, é preciso ter consciência que o próprio turismo deixa inegavelmente uma forte pegada ecológica (e que com isso haverá pegada em carbono) e há que se fazer trabalhos de acompanhamento de forma a mitigar seriamente estas situações. Por outro lado, é igualmente necessário um maior compromisso no que toca à recuperação das infraestruturas há muito abandonadas, mas que podem e devem integrar os guias de Turismo Industrial, não apenas por uma questão histórica, mas também por uma questão de manutenção da memória coletiva das cidades e vilas, que têm o seu crescimento (para o melhor e pior) invariavelmente ligados aos movimentos fabris. 

No final do dia, o Turismo Industrial é bem mais do que passear e conhecer a nossa história e arqueologia industrial. É acima do mais, caminhar pela construção e evolução das cidades que levaram também à construção económica do nosso país.

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