2021 - Cláudia Paiva Silva

Monday, November 08, 2021

Dilaceração da alma por Tatiana Salem Levy
November 08, 20210 Comments



Conhecendo-se a obra ainda curta de Tatiana Levy, reconhece-se também sua intensidade em descrever contextos, histórias e personagens. Escavacando cada pedaço do mais íntimo de cada personalidade que nos vai descrevendo, a cada livro verifica-se que existem momentos muito pessoais de dor, de trauma, de ansiedade, e quantas vezes o Mal se sobrepõe ao Bem. Relações quebradas, famílias que se amam e se separam, casos de violação ou violência, de auto mutilação, quase como se a dor autoinfligida fosse o caminho para a verdade, para o correto. Como se fosse uma forma de purga, atravessando a dor, chegaremos ao perdão. 

Em Vista Chinesa, o tom não muda, mas a história deixa de ser apenas da cabeça da autora. É uma história resultante de um caso real. Uma violação, uma agressão a uma amiga de Tatiana, que acabará por passar a livro, um livro por vezes incómodo, outras vezes colocando-nos na dúvida do que afinal se espera que as vítimas (ou serão sobreviventes?) façam. Em alguns trechos é colocada a dúvida se a culpa não foi de Julia (a dona do corpo machucado), porque saiu noutro horário, porque mudou suas rotinas. E daí, será que não podemos usufruir de uma cidade ao nosso ritmo, à vontade de nossos impulsos? É, pode, e os impulsos dos outros? Os impulsos dos predadores mais animais que os animais em si, que se escondem atrás da mata, esperando as presas passarem, esperando o exato momento em que saltam, em que apontam a arma, em que ameaçam e arrastam o corpo dentro da floresta, do momento em que rasgam a roupa e abusam selvaticamente? É dessa gente que temos de nos precaver, desses impulsos - controle os seus e você ficará resguardada. Sim, mesmo que a cidade seja o Rio de Janeiro, mas poderia ser Lisboa, Tóquio, Nova Iorque, Berlim ou Londres ou qualquer outra. Não há cidades menos piedosas que outras, existem sim gentes sem alma, com instintos animais. Qualquer um de nós é capaz de matar, mas existe uma candura, um fundo em nós que nos separa dos outros, em normais circunstâncias. 

O que sobra então? Julia, a personagem, vai escrevendo uma carta aos filhos ainda crianças. Estes filhos nasceram já depois do evento. Chamemos-lhe assim, "EVENTO". São fruto de amor, são fruto de tesão e de sexo, entre Julia e o marido, companheiro, que sempre esteve com ela ao longo de todo o processo. Julia sabe que não voltar a ser a mesma, apresenta medo que o trauma possa ter passado para a filha, te claro que tem um certo preconceito em relação ao seu corpo. Preconceito esse que vinha desde criança. Julia lutou muito para que seu corpo chegasse onde ela queria, Era o seu troféu. Era o seu presente a si mesma. Até que o corpo dela se transforma apenas num veículo que transporta uma alma, uma pessoa, uma vontade, um impulso, uma sensação animalesca, orgásmica de Vida. Esse corpo dilacerado durante o "EVENTO" não é mais o corpo que ela tanto adorava. É um corpo sujo, violentado, que não lhe pertence, embora ela sobreviva à violência. 

Talvez não seja o corpo a ser quebrado. A alma é que é dilacerada por cada movimento, cheiro, toque, por fluidos corporais, por sabores, pela mata. A alma é o que cria o nosso trauma, a nossa psique o que nos traz todo o sofrimento. O corpo é só um veículo, um mero transporte de quem nós somos na realidade. 

Quando chove no Rio, Julia acredita que com as águas tudo será levado, limpo e esquecido, como se a destruição ainda que parcial da cidade, (entenda-se do caminho que leva à Vista Chinesa), a lavasse também, a ajudasse a encontrar a paz que tanto procura e anseia. Ao mesmo tempo que Julia recupera, o Raio afunda nos seus próprios traumas, problemas e preconceitos. 




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Sunday, November 07, 2021

Along the botanical garden
November 07, 20210 Comments

Embora os cheiros e temperaturas de Inverno se façam sentir de forma cada vez mais célere, e uma vontade crescente de enfeites natalícios se acumule numa ilusão de que algo está para breve, existe sempre em mim uma vontade de verdes, de tropical e de verão. Presas num cartão de memória fotográfico, existem imagens que possivelmente nunca veriam luz do dia, num registo de vários cliques únicos (algo que estou a aprender a fazer cada vez mais - como se tratasse de uma máquina de rolo). Possivelmente, um dia, quando a própria internet se tornar obsoleta, e quando as redes sociais desaparecerem, num evento potencialmente radical mas necessário a bem da nossa capacidade humana social, também todas as imagens de vários anos irão ser apagadas do universo de uma qualquer "nuvem". Um buraco negro irá sugar as vidas colocadas à vista de todos, mea culpa de cada um de nós. Até lá, existe todo um "dumping" que pode ser feito, mesmo que não seja o correto a fazer. 























Although the feeling of Winter scents and temperatures and a growing desire for Christmas decorations, as an illusion that something special is coming soon, there is always a desire in me for green, tropical and summer-ish things. Stuck on a photographic memory card, there are images that possibly would never see the light of day, in a register of several one-single shots (something I'm learning to do more and more - as if it was a film camera). Possibly, one day, when the internet itself becomes obsolete, and when social networks disappear, in a potentially radical but necessary event for the sake of our social human capacity, the images of several years will also be erased from the universe of a supposed "cloud". In that moment, a black hole will pull to itself the lifes placed in sight of everyone, in a mea culpa from each one of us. Until then, there is a whole lot of "dumping" that can be made, even if it is not the best thing to do.

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Tuesday, November 02, 2021

The Dead are Alive
November 02, 20210 Comments

Por estes dias existe um certo desespero de finitude. Talvez seja a mudança da hora, esse tempo contabilizado pelo homem, que faz os dias agora se tornarem mais pequenos, talvez seja a mudança do tempo, mesmo com as suas oscilações e vacilos, entre o quente e o repentino frio. Talvez seja por ser aquela época de retiro, de fins, para algures num futuro breve (sabemos que assim é sempre) ocorrerem recomeços. Hoje foi o dia de relembrar que existe essa passagem, de um plano físico para um plano etéreo e eterno - a forma como recordamos os nossos, mortos e vivos, é a forma de os manter entre nós ainda. Na nossa memória sim, mas também no nosso coração. E não há distância física ou temporal que nos faça esquecer aqueles que foram realmente importantes e que nos acompanharam nestas mudanças. Os Mortos estão Vivos. 


Foto de Albert Dros


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Wednesday, October 20, 2021

James Bond is dead. God save Daniel Craig!
October 20, 20210 Comments

"Does it bother you?" Nomi

" Nope. It's just a number." Bond

Existe, neste último filme da saga com Daniel Craig, uma série de diálogos que tornam a inevitabilidade de um final de ciclo, algo difícil de contornar. Se alguns críticos presumem a presunção que No Time to Die de longe será a melhor história desde a nova incursão pelo mundo de 007, não há quem duvide que a humanidade e sensibilidade apresentadas 15 anos depois pela personagem principal resulta exatamente da sua evolução enquanto homem que vai descobrindo mais sobre si mesmo e sobre os que o rodeiam. É precisamente essa a fórmula de NTtD - um Bond mais velho, mais experiente, que aprendeu à força de vários erros e mortes (realmente importantes para a sua vida) o que pretende. No final do dia, apenas e só uma casa à beira mar, e, quem diria, o Amor. 

Aludindo e prestando a devida homenagem aos clássicos, este 007, guardado na gaveta devido à pandemia, sem que fosse revelado qualquer pedaço de argumento, apenas pede, mais do que nada, tempo para viver. Não deixa por isso de, não entrando na margem de spoiling, ser no mínimo irónico este ser o desfecho de Craig enquanto agente do MI6. Onde alguns se indignam ao tal sentimentalismo outros vêem a mudança necessária para que entre em cena outro ator ajustado a um novo Bond, a um novo papel (está mais do que visto que uma mulher não poderá ser a agente mais famosa do mundo - não por falta de capacidades, mas sim porque algumas coisas não ganham qualquer sentido em serem alteradas), possivelmente criando o próximo James Bond em algo mais frivolo ou alheado, algo mais perto do que foram os "antigos" Bond's. Sem dúvida que Craig teve a tamanha sorte de ter entrado neste jogo de poker onde martinis são servidos entre pingos de chuva numa época em que quase todas as personagens do universo cinematográfico eram analisadas à lupa psicológica e, por isso claro, existe até uma certa semelhança entre o passado de Bruce Wayne (Batman) e do próprio Bond, revelado em Skyfall. 

Coloca-se contudo neste último apontamento, o fim não apenas de um ator, mas sim de vários outros - e uma vez revelado o twist nesta história parece-nos fazer todo o sentido. É a tal inevitabilidade que para um novo começo é necessário intrinsecamente um fim. 

Talvez sim, não seja o melhor filme da saga Bond/Craig para alguns, mas é sem dúvida um fim em grande para o ator que se prestou à interpretação durante anos, e que, qual Tom Cruise, se deu também a realizar as suas próprias cenas de ação e sofrendo os resultados dessas mesmas proezas. Um fim onde deveria haver mais tempo para viver e onde não deveria de todo coexistir o tal tempo de morrer, mas que nos deixa a certeza que este específico legado irá ser perpetuado por futuras gerações. 

Noutro campo, fora do contexto anterior em que menciono a narrativa de NTtD, pessoalmente tenho sérias dúvidas que as próximas histórias consigam prender tanto como esta dupla Bond/Craig. James Bond may be dead but God save Daniel Craig!


There are, in this last film with Daniel Craig, a series of dialogues that make the inevitability of a cycle end, something difficult to overcome. While some critics presumptionly assume that No Time to Die will not be by any chance the best story since 007's latest foray into the world, there is no doubt that the humanity and sensitivity shown 15 years later by the main character is precisely the result of his evolution as a man who discoveres more about himself and from those around him. That's precisely NTtD's formula - an older, more experienced Bond who has learned in the worst way, from several mistakes and deaths (truly meaningful in his life), what he genuinely wants. At the end of the day, a simple house by the sea, and, guess what, love.

Alluding and paying due homage to Bonds' movie classics, this 007, kept in a drawer due to the pandemic, and without any bit of argument being revealed, just asks, more than anything, time to live. However, not wanting to enter the spoiling margin, it is at least ironic that this is Craig's outcome as the MI6 agent. Where some can feel indignant at such sentimentality, others look at it as the necessary change for another actor to enter in scene, adjusted to a new Bond, a new role, (it is quite obvious by now, that a woman cannot be the most famous agent in the world - not because lack of capabilities, but rather because some things don't make any sense when changed), possibly creating the next James Bond into something more frivolous or aloof, something closer to what the "previous" Bond's were. No doubt Craig was very lucky to have entered this poker game, where martinis are served among raindrops, at a time when almost all characters in the cinematographic universe were analyzed with a psychological magnifying glass, resulting even in a certain similarity between the past of Bruce Wayne (Batman) and Bond himself, as revealed in Skyfall.

However, in this last appointment, its not only the end of one actor/character, but of several others -  once the twist in this story is revealed, it all seems to make perfect sense. It is the inevitability that for a new beginning, an end is intrinsically necessary.

And probably yes, it's not the best movie in the Bond/Craig saga for some, but it's undoubtedly a big ending for the actor who has lent himself to acting for years, and who, like Tom Cruise, has also given himself to directing his own action scenes plus suffering the results of those same feats. An end where there should be more time to live and where such time to die should not coexist at all. However, it also gives us the certainty that this specific legacy will be perpetuated for future generations.

On the other side, excusing the previous context in which it's mentioned the NTtD narrative, I personally have serious doubts that the next unfold stories will be able to capture fans as much as this Bond/Craig duo did. James Bond may be dead but God save Daniel Craig!

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Tradições que perduram - a história de um bordado
October 20, 20210 Comments






O bordado madeirense tal como o conhecemos não teve origem nem no século XIX nem na influência britânica, como poderíamos imaginar. Os primórdios remontam à própria povoação da ilha da Madeira e quanto à iniciativa inglesa, apenas serviu (e bem!) à abertura de portas a um mercado internacional. A partir deste momento, o bordado terá então deixado de ser uma arte local e os produtos passam a ser para consumo externo, crescendo tanto a sua importância, como, claro, o seu valor comercial.

ORIGEM HISTÓRICA

Pensa-se que os primeiros registos datem de longos tempos antes da era cristã. O primeiro vestígio fóssil pertence a 30000 AC, sendo que o primeiro tecido bordado encontrado na China tenha cerca de 5500 anos. E é possível também que o berço deste trabalho de agulha e perícia pertença algures entre o Oriente, o Médio Oriente e a Rússia. Tendo o Mediterrâneo como pano de fundo e meio de comunicação entre os povos, facilmente se entende que gregos, egípcios, muçulmanos e judeus tivessem tido igualmente um papel preponderante na sua divulgação.

Com a chegada à Idade Média, Roma torna o bordado como um produto de luxo, sendo que a partir do século XVI a capital passa a ser um dos maiores centros de trabalho manual - a idade do Ouro veio a tornar ainda mais rigorosa esta ideia. As aplicações várias dos bordados às várias monarquias europeias e ao clero, elevam esta arte a um patamar superior. Eram usados materiais como a seda e o próprio metal dourado para adornar as peças de vestuário - e estas apenas circulavam nos estratos sociais mais elevados. 

BORDADO EM PORTUGAL

Com presença secular antiga, o bordado em Portugal é geralmente atribuído às regiões do norte e centro do país com destaque também para a zona de Nisa. Não é por isso estranho quando olhamos para a Madeira, e observamos a presença do bordado desde os primeiros povoadores, oriundos, essencialmente, destas zonas. Um dos principais grupos de imigrantes era proveniente de Viana do Castelo oque reflete assim que a tradição é tão antiga como o povoamento da própria ilha atlântica. 

De forma a dar resposta às então necessidade de vestuário tornou-se comum o pastoreio de ovelhas para fornecimento de lã bem como o cultivo de linho na região insular. Só em Santana e na Calheta funcionavam 160 a 165 teares sendo que o Funchal funcionava como mercado de acesso aos tecidos importados - isto levou a alguns problemas, nomeadamente (e por incrível que pareça) devido ao facto de por esta via e forma de trabalhar, qualquer pessoa poderia envergar peças consideradas luxuosas. Se em 1686 D. Pedro tentou controlar a riqueza ostensiva que o povo envergava, já em 1749, D. João V admitia toda a possibilidade de se puderem usar roupas bordadas, brancas, desde que, facto muito importante, fossem fabricadas exclusivamente dentro do território dominado por Portugal. 

DESENHO, PICOTAGEM, ESTAMPA, BORDADO, ENGOMAR

         


Com a evolução do tempo e sem dúvida com o apoio de Mary Phelps, bem como de tantas outras ilustres famílias europeias, o Bordado da Madeira iria finalmente dar o salto e ser reconhecido internacionalmente, afastando-se da índole caseira e praticamente familiar. As bordadeiras dedicar-se-iam a partir desse momento à prática do bordado tendo por base 5 fases distintas mas essenciais à sua concretização sem mácula. Nascem assim as "casas de bordado", na realidade casas ou lojas comerciais, cuja função seria a preparação e a distribuição do tecido e linhas pelas bordadeiras espalhadas pela ilha através de caixeiros. Os panos eram já levados com as estampas sendo então bordados em casa de cada uma. Uma vez regressado à casa-mãe, no Funchal, a tarefa seria engomar e embalar as encomendas com destino à venda. 


SELO DE GARANTIA

Em Dezembro de 1938 passa a ser obrigatório a presença de 1 selo de qualidade e garantia em cada peça. Com a criação do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira em 1977 a defesa da autenticidade do bordado passa a ser uma prioridade. A partir de 2000, o uso de 1 selo holográfico torna-se obrigatório bem como uma garantia contra falsificações. 

DIÁSPORA DO BORDADO DA MADEIRA

Marcados pelas Guerras Mundiais e pela pobreza causada pelo parco desenvolvimento e incúria governativa, muitos foram os madeirenses que abandonaram a sua terra natal em busca de melhor vida, não sem dor e mágoa pela sua difícil decisão. Consigo levaram os conhecimentos herdados da tradição e sendo recebidos por países como o Brasil, Venezuela ou África do Sul, em breve estes locais, principalmente o Brasil, pedem imigração de bordadeiras madeirenses para dar cobro à demanda de produtos. Se o bordado se torna conhecido no Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará, é neste último estado e em quase toda a região nordeste onde ganha maior importância continuando aos dias de hoje um elemento bem vivo no seu setor industrial. Em Fortaleza chega a ser uma das principais atividades económicas. Na Bahia é conhecido o trabalho do bordado até mesmo nas tradicionais vestes baianas. Se o bordado nasceu do mundo até chegar à Madeira, da Madeira o Bordado Madeirenses cresceu para todo o Mundo. 

O BORDADO E O FUTURO

É cada vez mais evidente que em pleno século XXI o Bordado da Madeira passa a ser uma questão de tradição e cultura nacionais. Mais do que uma e qualquer necessidade de vestuário é sem dúvida um ex-libris de toda uma região portuguesa, uma lembrança para levar de regresso de viagem, um trabalho aplicado a estanho e madeira, rico, para destacar em uma ou várias divisões de casa. Mudam-se os tempos e as vontades, mas o orgulho pelo desenho, picotagem, estampa e bordado permanecem intactas mesmo face a várias crises, económicas ou pandémicas. Resta às gerações vindouras saberem preservar a manter viva esta tão bonita arte manual. 



(English Version)

Madeira embroidery, as we know it, is not from 19th century origin nor has British influence, as we might imagine. The beginnings date back to the early colonization of Madeira Island and, as for the English initiative, it only served (and well!) to open doors to an international market. From this moment on, embroidery will then no longer be a local art and the products will be for external consumption, increasing both its importance and, of course, its commercial value.

HISTORICAL ORIGIN

The earliest records are thought to date back long before the Christian era. The first fossil remains belong to 30,000 AD, with the first embroidered fabric found in China being around 5500 years old. It is also possible to consider that the cradle of this work of needlework and expertise belongs somewhere between the East, the Middle East and Russia. With the Mediterranean as a background and means of communication between people and cultures, it is easy to understand that Greeks, Egyptians, Muslims and Jews had equally played a preponderant role in its dissemination.

With the arrival of the Middle Ages, Rome turned embroidery into a luxury product, and from the 16th century onwards the capital became one of the biggest centers of manual work - the Golden Age made this idea even more serious. The several applications of embroidery to various European monarchies and clergy, elevate this art to a higher level. Materials such as silk and gold metal itself were used to adorn the garments - and these only circulated in the higher social strata.

EMBROIDERY IN PORTUGAL

With a centuries-old presence, embroidery in Portugal is generally attributed to the northern and central regions of the country, with an emphasis also on the Nisa area (north Alentejo). Therefore, it is not  strange when we look at Madeira and observe the presence of embroidery since its first settlers, which came essentially from these areas. One of the main groups of immigrants came from Viana do Castelo which reflects that the tradition is as old as the settlement of the Atlantic island itself.

In order to respond to early settlers need for clothing, the herding of sheep to supply wool as well as the cultivation of flax in the island region became common. Only in Santana and Calheta there were 160 to 165 looms, and Funchal was the market for access of imported fabrics - this led to some problems, namely due (and oddly enough) to the fact that with this way of working, anyone could wear pieces considered luxurious. If in 1686 D. Pedro tried to control the ostensive wealth that the people could actually wear, as early as 1749, D. João V admitted the possibility of everyone to use embroidered white clothes, provided that they were manufactured exclusively within the territory dominated by Portugal.

DRAWING, PICKING, PRINTING, EMBROIDERY, IRONING

With the evolution of time and undoubtedly the support of Mary Phelps, as well as of many other illustrious European families, Madeira Embroidery would finally take the leap and be internationally recognized, moving away from the homely and practically familiar nature. From that moment on, the embroiderers would dedicate themselves to the practice of embroidery based on 5 distinct but essential phases for its precise implementation. Thus,"embroidery houses" were created, corresponding in reality to houses or commercial stores, whose function would be the preparation and distribution of fabric and threads by the embroiderers spread across the island through clerks. The cloths would be already taken with the prints and then embroidered in each one's home. Once back at the mother house in Funchal, the task would be to iron and pack the orders destined for sale.

GUARANTEE SEAL

In December 1938, the presence of one quality and guarantee seal on each piece becomes mandatory. With the creation of the Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira in 1977, defending the authenticity of embroidery becomes a priority. From 2000 until today, the use of one holographic seal becomes mandatory as well as a guarantee against forgeries.

DIASPORA OF MADEIRA EMBROIDERY

Marked by the World Wars and poverty caused by lack in development and government negligence, many Madeirans left their homeland in search of a better life, but not without regret and sorrow for their difficult decision. With them there was the knowledge inherited from the tradition, and once arrived in countries like Brazil, Venezuela or South Africa, soon enough, they were asked to meet the demand for products. If embroidery becomes known in Rio de Janeiro, São Paulo and Ceará, it is in the latter state, and in almost the entire northeast brazilian region, where it gains greater importance, continuing to the present day a very lively element in its industrial sector. It is also one of the main economic activities in Fortaleza. In Bahia, the work of embroidery is best known in traditional Bahian garments. If embroidery was born from the world until it reached Madeira, Madeira Embroidery grew from Madeira to the whole world.

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Thursday, January 21, 2021

A morte anda à espreita
January 21, 20210 Comments

Queria escrever algo positivo. Algo que nos fizesse rir. Mas cada vez mais encerra-se em mim a incerteza dos dias, a constante ruga de preocupação que me tinha deixado há já uns tempos de incomodar. Atravessamos um período muito estranho na História e, narcisicamente, nas nossas vidas e pequenos hábitos. Perante factos não há argumentos. Tornámos-nos assassinos silenciosos, muitos de nós sabendo que o são, a maioria tendo-lhes sido passada esse desígnio por aqueles que continuam a insistir num mundo de conspiração, de números falsos, de doenças mais mortíferas. O que interessa o Covid quando o Cancro mata mais? É óbvio que mata mais. Não está em causa isso, mas sim a capacidade de cuidar de cada vez mais e mais pessoas que de uma hora para outra desenvolvem pneumonia aguda. Como não olhar para o caos que se tornaram hospitais e VER o que acontece nas morgues, onde nem médicos forenses nem agentes funerários conseguem travar a desorganização de corpos enfiados em sacos e ao monte. Corpos que nunca mais serão expostos para uma despedida. Gente que desapareceu sem perceber bem como, tal a rapidez. Às 13 entrou com falta de ar para o hospital, às 14.15 teve de ser intubado, às 15 já os pulmões estavam cheios de líquido. Às 15.20 morreu afogado sem que se pudesse fazer nada. Um minuto para respirar fundo debaixo dos fatos astronauticos e máscaras. Venha o próximo doente. 

Cada um de nós poderá carregar uma arma assassina. O que vamos dizer aos nossos filhos pequenos daqui a uns anos? Que eles foram os responsáveis pela morte dos avós, dos tios? Que vamos dizer aos nossos filhos adolescentes que não foram, nunca foram, educados para obedecer, para ficar em casa, quando recuperarem da experiência quase-morte que passaram em meses de internamento hospitalar? Que a sua irresponsabilidade os levou àquele lugar? Ou iremos abraçá-los e agradecer o milagre por eles estarem vivos? Agradeçam aos médicos e enfermeiros exauridos de uma guerra que certamente nunca esperaram combater, fazendo a escolha entre salvar o jovem negacionista que esteve na festa invés de salvar um idoso, ou uma pessoa simplesmente mais velha, que nada fez para ser contagiado. Pelo menos não de forma direta. Esse foi o milagre. Escolher quem tem maiores probabilidade de sobreviver - maiores probabilidades. Esse é que é a porra do milagre!! Sendo que todos irão num futuro, mais ou menos longínquo, sofrer as sequelas de um filme de terror. 

Não precisamos de ser cientistas para fazer um simples exercício - quanto mais pessoas forem parar aos hospitais, menos espaço haverá para as outras urgências. Quanto mais surtos ocorrerem em espaços clínicos, menor possibilidade de se realizarem consultas a outras especialidades também urgentes. Não quero acreditar que haja gente que pense que isto é apenas uma fantochada, não quero acreditar que haja gente que pense que os que estão a ficar doentes a um ritmo avassalador, não passem de atores medíocres de uma qualquer ópera buffa. Não quero acreditar que haja gente que ponha os seus lucros económicos e financeiros à frente da saúde dos trabalhadores que os deram a ganhar. Mas a verdade é que há gente assim, que não compreende os riscos e prefere continuamente culpabilizar o governo pelo desgoverno. É incrível como não vejo nenhum cidadão (ou vejo muito poucos ainda) a assumirem a sua quota de responsabilidade nos quase 15 mil casos diários de infeção. Vejo-os sim a acharem que como já não existe controlo, então porquê continuar a sonegar a "liberdade de movimentos" aos portugueses. Fazendo minhas as palavras da sueca: Como se atrevem?? Como se atrevem a achar que isto está tudo descontrolado, mas que é normal? Que tudo se não for normal, então é uma mentira intergovernamental pegada, que se não é uma mentira, é apenas uma forma de nos controlarem os passos? "Em mim ninguém manda ficar em casa! A mim ninguém manda usar máscara!" 

Não consigo ver qualquer luz ao fundo túnel. Não vai ficar tudo bem. A vacina não é salvação. E estamos todos a revelar o nosso pior. Sendo que o nosso pior passa pela falha educacional de não aceitarmos regras simples que nos podem salvar a vida, e a revolta cada vez maior que cada um de nós, que, desculpem-me, mas NÃO QUER morrer, sente perante os outros. Meio mundo a lutar contra o outro meio. E não há forma disto parar.

Entendam isto e atentem nisto: a morte anda à espreita e todos nós a trazemos connosco. Nós somos a Morte. 

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Monday, January 18, 2021

Pelo direito de ter o direito
January 18, 20210 Comments

Tu mulher, julgas que és quem? 

Tu mulher, quem achas que podes vir a ser? 

Tu mulher, quem te disse que poderias fazer?

Tu mulher, devias somente ocupar-te com as tuas funções primitivas. Dar à luz em prol da espécie. Preferencialmente machos e só depois fêmeas. mulheres, como tu, que deverão somente ocupar-se em dar à luz em prol da espécie.

Tu mulher, vestes-te assim porquê?

Tu mulher, pintas-te para quem? Uma mulher não anda pintada. Não precisa de chamar a atenção. Deve remeter-se à sua função básica de ouvir, obedecer, calar, não pôr em causa.

Tu mulher, achas que nasceste para seres livre. Engano teu. Tu és livre enquanto o homem decidir que és livre. E ocupas-te das tuas funções básicas, porque o homem assim o exige.

Tu mulher, não tens direito de opinião. Não tens direito de ter uma voz. Não tens o direito de falar. 

Tu mulher, não pensas. Como podes sequer atrever-te a pensar?

Tu mulher, na verdade nem deverias respirar.

Tu mulher, se fosses ocupada ou decente, ou cumprisses as tuas funções, não tinhas tempo para manifestações. Não terias tempo a perder com temas que a ti, mulher, não dizem respeito. 

Tu mulher, julgas que és quem? 

Eu, MULHER, tenho o direito de ter o direito a ter uma opinião formada, tenho direito a uma educação livre, tenho direito a escrever, falar, gritar, ser histérica, ser ordinária, tenho direito em pintas os lábios com as cores do arco-íris. Eu, MULHER, tenho o direito de votar pelo direito a poder votar hoje, amanha, em todos os dias que, enquanto cidadã de um país livre e democrático, assim me for chamado esse dever. Eu, MULHER, tenho o direito de escolher pelo meu corpo, tenho o direito de gostar de homens, de gostar de mulheres, de gostar de ambos, de não gostar de ninguém. Eu, MULHER, tenho o direito de querer ter filhos, de não querer ter, de querer adoptar. Eu tenho o direito a trabalhar, a ganhar o mesmo que os meus pares, de crescer profissionalmente. Tenho o direito de ser julgada exactamente pelas mesmas razões, pelos mesmos motivos. Não por ser quem sou, mas por fazer o que faço. 

Eu MULHER, tenho o direito de ter o direito de LUTAR, sempre pela única coisa que tanto querem novamente nos roubar. Eu, MULHER, tenho direito a querer LIBERDADE.


Dia 24. Vota por ti. Por mim. Por nós. Pelo nosso Futuro. Pela nossa liberdade. Por Portugal.

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