Cláudia Paiva Silva : Portugal
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Sunday, February 20, 2022

Sinopse de um livro
February 20, 20220 Comments

 


Eu não conhecia a obra de Afonso Cruz. A obra.... os livros que até agora escreveu e que já são alguns. Pensava sempre que fosse uma escrita estranha, difícil, onde a história fosse contada em soluços, ora avança no tempo, ora recua ao presente, ora vai ao passado, e sempre redigida numa estrutura ortográfica que, nos idos anos 2000, eu via como "moderna em demasia". Nada de pontos finais, nem letras maiúsculas, uma confusão de ideias que, para os romances que tanto gosto de ler, não me faziam sentido algum. 

Ouvi falar da sinopose a esta Sinopse. Temas essenciais para o meu interesse imediado: Segunda Guerra Mundial, seja imediatamente antes, ou geralmente, nos anos de pós-Guerra que se seguiram. Calhou ser baseada na história de um amor verdadeiro, que ocorreu mesmo, numa Berlim primeiro devastada pelo horror bélico, depois dividida por um muro ideológico. E nessa divisão, uma separação. Temas essenciais para o meu interesse imediato: os livros dentro do Livro. Se porventura pudermos juntar o poder literário dentro de uma história, desde que bem contado, melhor. No caso, existe uma livraria, um tio bibliotecário/livreiro, e outra história, dentro da história que deu origem à história da livraria em si. E claro, aí há livros e o que eles são capazes de fazer, a sua força transformadora de personalidades, caráter e, no fim de tudo, no que somos ou não capazes de fazer para nos protegermos, para cuidar dos nossos e por Amor. 

Acredito que haja quem aqui esperasse uma crítica detalhada às passagens, uma descrição síntese da trama "despacha lá isso para dizermos que também já lemos", mas não. Não o faço. Posso garantir que os livros no livro de Afonso Cruz (Companhia das Letras, Dezembro 2021), voam, transforma, salvam vidas, mas que também talvez NEM tudo seja justificável. Nem tão pouco admissível. É sim um livro lindíssimo que li entre o Natal e o Ano Novo, como que em pronúncio de novos tempos, mais esperançosos talvez, ou para refletir que na Vida, nada dura para sempre. Nem muros, nem separações físicas. Mas que existiu, sim, da parte do autor, trabalho de investigação, entrevistas e curiosidades familiares. 

Mas mais importante, uma escrita fluida, parágrafos belíssimos de analogias e comparações, apenas para que todos nós, os Theobalds, possamos ver mais do que o básico que se encontra mesmo à nossa frente.

Mais para ler aqui, na Revista Rua



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Tuesday, April 28, 2020

Moodboard while #vaificartudobem
April 28, 20200 Comments
Continuando a pesquisa entre as várias marcas nacionais, percebi que, sem dúvida e cada vez mais, se encontram colecções dedicadas e inspiradas à Natureza. Padrões tropicais podem mesclar-se com os tecidos mais fluidos de algodão e linho, peças de joalharia, são facilmente pensadas e criadas a partir de elementos naturais, sejam flores ou plantas ou até mesmo elementos telúricos, como formatos de rochas, bem como baseados e inspirados em elementos animais, conchas, búzios, estrelas do mar, uma panóplia de temas que acabam por servir aos vários artistas. 
@beneditaformosinho
Benedita Formosinho teve a visão e coragem de ser uma das novas empreendedoras de moda, dando o alma e o manifesto à cultura nacional. Quem conheceu a colecção de inverno sabe que os materiais de luxo, nobres, utilizados são todos portugueses de origem local e de alta qualidade, nomeadamente as lãs. A presença destes elementos são uma mais valia em cada peça única, de preferência e sempre que possível trabalhada à mão. O resultado são modelos clássicos mas que também apresentem um toque de modernidade, permitindo não só a permanência das influências tradicionais, o respeito pela autenticidade mas igualmente chegarem a um público vasto, de várias idades que procurem a tal relação já mencionada de preço/qualidade/durabilidade. Os chavões "zero waste" e "fair trade" nunca aqui fizeram tanto sentido. Tal como na lei da física, nada se perde, mas sim transforma-se em novos produtos, nomeadamente malas ou carteiras, numa máxima de sustentabilidade. 
@limboshop


@belleepoqueboutique

@beneditaformosinho

@ohMonday
De acordo com as palavras da autora e criadora da marca Margarida Marques de Almeida, mais conhecida pelo nickname @styleitup, a Oh Monday (@ohMonday) pretende essencialmente dar Força e Poder às mulheres. Iniciando com a premissa de slow fashion, as peças da marca foram criadas apenas a pensar no bem-estar e comodidade de cada uma de nós, de forma a que nos possamos sentir elegantes e ao mesmo tempo extremamente confortáveis, sem termos de pensar muito no assunto. No espírito que todas as marcas apresentam, também Margarida pretende que a Oh Monday seja uma identidade nacional de comércio justo e sustentável, onde não haja a tentação de comprar por impulso mas sim pela real necessidade de termos um artigo de qualidade dentro do guarda-roupa. O empoderamento feminino (e masculino) não passa apenas pelo que somos no dia-a-dia e acções, mas essencialmente pelo que não se vê de forma directa - as nossas escolhas pessoais. Pensar antes de comprar faz parte da cultura mais sustentável que podemos desejar. Assim os modelos apresentados apresentam cortes rectos, estruturados, de cor preto ou branco, feitos em Lisboa e com materiais nacionais, promovendo não só o empreendedorismo feminino e desenvolvimento local, como também influenciado para uma escolha salutar na hora de escolher e comprar. 
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Monday, April 27, 2020

Moodboard while #fiqueemcasa
April 27, 20200 Comments
Jardim das Estufas - Palácio de Queluz

Quem disse que estar em casa implicaria uma mudança radical nos comportamentos e mecânica mental tinha e continua a ter toda a razão. Ao final de um mês e meio de encarceramento domiciliário, a cabeça começa a pregar partidas, os dias poderão tornar-se excessivamente compridos e o quotidiano uma repetição ao extremo do dia anterior, como se estivéssemos dentro do filme de Bill Murray* e fôssemos o próprio protagonista, mas sem a marmota. Por agora, nem mesmo com as previsões de chuviscos e tempo mais rameloso as pessoas parecem querer aceitar a ordem de isolamento social, e mesmo correndo o risco de serem recambiadas para as suas habitações, qual pulseira electrónica que disparou o alarme a escassos metros de distância, arriscam-se a ir até ao parque, até perto do mar, onde tantas outras também possam estar, repetindo-se a premissa inicial de um possível risco elevado de contágio. Mas as pessoas são humanas, e habituando-se ou não a viverem confinadas em apartamentos durante a maior parte do tempo, todas geramos sentimentos, estados de espírito, desejos e vontades, que não correspondem a mais do que o total prazer do conceito de liberdade que irá bem mais do que aquele que o 25 de Abril terá ensinado. 

* - Groundhog Day (1993)

Juliana Bezerra - Brincos Majoletti

Guaja Studio - Juliette Knot Top + Francesca Fit Linen Pants

Falamos da Liberdade física, de percorrer espaços que se calhar antes nunca teríamos imaginado. Nunca campos de trigo no Alentejo, alfazemas azuis, jardins cheios de flores silvestres, ou mesmo aquela mata supostamente mal cuidada entre prédios e já no leito da ribeira, nos pareceram tão atractivos. Para mim a juntar seriam dunas, flores e ramagens secas, tons de terra, amarelos queimados, ocre, algum verde de plantas que se conjugam em ambientes extremos, ou de mar ou de deserto. Esse é o meu moodboard actual.  

Super Botânica

Cata Vassalo

Aproveitando a sensação, e enquanto os desejos são apenas isso, uma força poderosa que nos compele a fazer algo impetuoso, mas que por agora não é parcialmente negada, retomei o prazer de percorrer as galerias das várias marcas nacionais que fui (re)conhecendo ao longo dos últimos dois anos. De projectos familiares, pequenos, mas cheios de graça, estilo e design, são agora os mais procurados para qualquer pessoa, acima de tudo por duas razões: são trabalhos feitos em Portugal e porque são sustentáveis, tanto em termos de produtos e tecidos utilizados, como em termos de mão-de-obra, na sua grande maioria. (Podemos falar aqui dos preços "excessivos" praticados pelas marcas portuguesas, mas deixo a questão: acham justo que as nossas costureiras, sim, essas mesmas que agora estão a coser máscaras porque as colecções estão paradas, recebam 1 euro por dia de trabalho como acontece com as que trabalham para as "grandes marcas" que não passam de Made in PRC embora com o carimbo de Milan e Paris? Pois, bem me parece que não). 

Belle Epoque Boutique

Rust and May

Temos assim, uma lista de marcas bonitas com classe para mulher (neste caso), e nesta escolha pessoal, alguns dos artigos que mais enchem o meu gosto pessoal para os meses de Verão, mesmo que este ano possa vir a ser passado em casa: passando pelos linhos e acetinados da Guaja Studio e algodões da Rust and May que podem ser perfeitamente complementados com acessórios da Cata Vassalo e Juliana Bezerra (que apresenta o relançamento dos brincos desiguais Majoletti em prata e prata dourada). Claro que os ténis ou sapatilhas rasas teriam de aparecer nesta minha wishlist, ou no máximo sandálias para o conforto ao andar a passo mais rápido. Contudo e apesar que mais ideias e imagens bonitas ainda estão para serem mostradas, não me compete a mim estar a influenciar ninguém para comprar seja o que for. É importante pensar e afirmar que neste momento há temas bem mais sérios a serem discutidos, vidas a serem salvas, pessoas a lutarem para sobreviver. Mas também é certo que se adivinha com certezas tão letais quanto o vírus uma grande e longa crise económica que irá afectar não as tais grandes marcas internacionais ou grupos de moda, mas sim estes nomes nacionais. Projectos como mencionei que começaram apenas de ideias, que cresceram, que se tornaram sonoros e que também irão precisar de apoio. Uma marca que fabrica poucos artigos de cada modelo irá sofrer um impacto muitíssimo maior do que uma que fabrica 10 mil unidades de uma simples camiseta branca "feita lá fora". O conceito de moda e de compra precisa de ser redefinido sim, mas isso não implica que se deixe totalmente de comprar. A questão é repensar a forma como se compra, as nossas necessidades, e acima de tudo, se o investimento vale a pena em termos de preço/qualidade/durabilidade. Ser-se sustentável é também apoiar as empresas nacionais, a economia local e saber que temos produtos de qualidade que irão durar imenso tempo dentro dos nossos armários.  

Jardim das Estufas - Palácio de Queluz
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Tuesday, April 21, 2020

Acção isolada
April 21, 20200 Comments
Imagem captada do Parque Infantil de Queluz (Av. Républica no passado sábado, dia 18 de Abril)
NOTA: A caminho entre supermercado e casa num parque completamente vazio)

Se algo este confinamento social, esta obrigatoriedade em ficar em casa nos mostrou, é que de repente somos todos artistas, desportistas, cozinheiros. Se por um lado a novidade de ter de ficar em casa a trabalhar (para a maioria das pessoas algo que nunca tinha acontecido) era grande, por outro lado, passou a haver toda uma questão psicológica que ninguém colocou em cima da mesa. O que significaria ficar em casa, seria assim uma total transformação e auto-educação de cada um de nós para termos mesmo de fazer tudo no nosso espaço pessoal - além do trabalho (em horário normal, das 9 às 18, com intervalo de almoço e até pequenas escapadelas para o Nespresso na nossa nova copa que é agora a nossa cozinha, e que se revela em muitos casos, acabar até por trabalhar mais horas por dia, entrando pela noite dentro ou fins de semana), a realização de todas as tarefas domésticas, que agora já nem se podem evitar ou arranjar desculpas para adiar, bem como as actividades lúdicas que antigamente fazíamos na rua, literalmente fora de casa. Com tudo encerrado, com a impossibilidade de até podermos ir a um parque e sentarmos-nos num banco do jardim, o que nos resta? Na caracterização da nossa nova realidade, já muitos sentem a pressão de não conseguirem mais. Muitos pais acabaram por pedir assistência à família uma vez que se torna incomportável estarem em tele-trabalho ao mesmo tempo que tentam evitar que os filhos em idade pré-escolar façam disparates. Estarmos em casa em família não nos torna mais unidos e muitas famílias estão neste momento forçosamente separadas por questões ditas de saúde pública. 
O que é certo é que ao mesmo tempo que a bolha psicológica começa a saltar, continuam a popular histórias incríveis (talvez um bocadinho menos verdadeiras) de tanta gente a fazer tanta coisa, em casa, claro. Exercícios para os corpos permanecerem fit na expectativa de um verão que o vírus já nos roubou (praias encerradas, hotéis que nem irão abrir), pratos culinários maravilhosos, toda uma panóplia de grupos via Instagram, WhatsApp ou Facebook para falarem sobre as mais recentes leituras, jardinagem na varanda, decoração de interiores one-o-one for dummies, pintura (nisto incluo-me), workshops de ponto-cruz e Arraiolos, só, mas só mesmo, para não darmos em doidos com toda esta situação para a qual ninguém sabe quando terá um fim e, por não querermos aceitar o facto de que estarmos em pijama ou fato de treino todos os dias ou não, é algo que já não interessa a ninguém, com única excepção, a nós mesmos.

Livro O Atelier da Noite (Relógio d'Água)
Bolo de Banana e Chocolate da @galeriavinteoitoconcept

E é aqui que quero chegar. Se para muitos este excesso de acções em isolamento parecem apenas provas irrefutáveis que as pessoas não conseguem consciencializar-se para o que se está a passar mundialmente, ou que, estando conscientes estamos sempre ligadas à corrente, por outro, também mostra que o ser-humano é dotado de uma força incrível para não se deixar abater completamente.
Quando isto tudo começou, da noite para o dia, também eu chorei - não há mal nenhum em dizê-lo. Mais, chorei porque me lembrei de tudo pelo qual já chorei na vida, pelas dores que outros me causaram e que, por comparação agora, parece tudo tão pequeno e sem importância. Chorei porque não, ninguém estava à espera que algo assim voltasse a acontecer nesta dimensão e a esta escala. Chorei porque achei que estava a observar algo muito superior à Humanidade. Mas não. Isto não foi um acto vingativo de qualquer deus ou da Natureza, porque se assim fosse não iria atingir apenas algumas franjas da sociedade - este vírus mau, veio mostrar que na mesma balança temos seres-humanos que não mais pensam em lucros e que também temos seres-humanos capazes de se superarem, tentando fazer no seu dia a dia de tudo para não caírem no fosso que os do outro prato querem que assim aconteça. 
Estas mega, hiper actividades são tudo o que nos resta além do medo, além do que é óbvio agora: a incerteza de cada dia, a incerteza de algum dia iremos chegar ao fim disto tudo. Estas acções isoladas são aquilo que por agora nos mantêm VIVOS.









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Sunday, March 29, 2020

Hora de Verão
March 29, 20200 Comments
E assim foi. Na madrugada passada, entre uma hora e outra, acertaram-se os relógios e dizem os peritos que estamos no horário de verão. Seria idílico não fosse a ironia de os dias tornarem-se maiores para agudizar ainda mais as gentes que começam a acusar cansaço de um confinamento forçado e sem quaisquer perspectivas de término. E se há dias que parecem mais fáceis e rápidos, outros há em que não se encontra uma única vontade extra de ânimo, uma inspiração ao trabalho que se possa fazer por casa, nem uma fotografia, nem um livro, apenas palavras, ideias desconexas num cérebro à ruptura por excesso de informação, pensando no tempo que se perdeu antes, "antes", com outras coisas que afinal, nada parecem interessar. Agora, para cúmulo, ainda temos mais uma hora diurna, arrastando a luminosidade que, no início do ano, queria tanto que chegasse. Pensei imensas vezes que seriam Abril e Maio os meses para fotografar, pensei nas árvores que já estivessem em flor, os jacarandás da cidade, os cheiros e o céu a ficar cada vez mais azul à medida que a temperatura começasse a subir. Seriam os meses que iriam iluminar tudo, e que tornariam o ano ainda maior na promessa de grandeza que trazia. Na promessa apenas. 
Continua em mim o pêndulo entre o espanto e abalo, e a realidade consumada, aquilo que às vezes acho que é simplesmente mentira e que daqui a pouco irá passar, e a certeza que afinal irá durar muito mais tempo do que aquele que todos julgávamos. Uma guerra de silêncio, de afastamento. E agora também uma guerra contra aquilo que mais amava. A liberdade dos dias compridos, esticando-se para lá da noite, com vontade para aquele passeio mais tardio, um copo de vinho e um jantar, mesmo que não fosse esta a ordem. E ver o mar. 
De tudo, o que esta hora de verão me relembra num martelar constante, é que o mar, mesmo aqui à minha porta, me é negado numa inacessibilidade cáustica. Se não tenho nada "lá a fazer" o acesso é-me negado pela auto-prudência de quem teme a possível doença. Só que o mar em mim sempre foi cura.
O "tudo irá regressar ao normal" não me encherá a alma por estes tempos, nem tão pouco o passar das horas, agora num vagar mais comprido e estival. Os dias ainda não estão quentes, mas em breve irão ficar. Terão certamente de ficar. E a hora de Verão continuará a ser celebrada como se nada se passasse no Mundo. E na verdade, ao certo, será que o que se passa não é apenas insatisfação. Continuo, continuamos a pensar em liberdade quando claramente esta não nos é actualmente destinada. Deixemos então o planeta fazer o seu pousio entre as estações do ano, num calendário descompassado ao do ritmo humano, estabelecendo o lugar de cada coisa numa escala hierárquica que nos é ainda desconhecida. Seremos todos meros observadores desta vez, sem qualquer tipo de estrago propositado. O assombro, esse, irá certamente continuar. 

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Thursday, March 26, 2020

Diferentes formas de vida
March 26, 20200 Comments

Talvez seja altura de parar com a poesia.
Depois do choque inicial, da rapidez com que tudo aconteceu, quando começa a haver excesso de informação horário (às vezes minuto a minuto) e para lá do romantismo que podemos ver inicialmente em tudo, desde os sinais do universo, às mais nobres profissões que estão lá fora para que nós fiquemos cá dentro, há que perceber uma única coisa: o tempo pode ter parado sim, mas as nossas vidas nem tanto.
Em poucos dias algumas empresas e muitas pessoas tiveram de se adaptar rapidamente a uma nova realidade e a uma diferente forma de estar e viver:  tele-trabalho, aulas via internet, prestar atenção e ajudar filhos e família quase 24 horas por dia, exercitar os métodos de compras online (perdendo todo o receio que antes havia para o fazer), exercício físico em casa, tudo mudou para grande parte da população. Os conceitos de proximidade física com o outro alteraram-se à mesma velocidade com o que os conceitos de proximidade familiar se estreitam. Nunca em tantas décadas houve tanta gente a viver debaixo do mesmo tecto, tal como nunca em tantos anos pais estiveram tão próximos dos filhos - da mesma forma que nem nunca avós e netos tiveram de estar separados ou pessoas tiveram de ficar totalmente sozinhas e isoladas. A ordem natural das coisas como estávamos habituados mudou e as suas consequências só poderão estar visíveis talvez a médio ou longo prazo.
Posto isto, de que forma o isolamento quase obrigatório, a quarentena (o esperar que possam surgir quaisquer sintomas de doença), o estar e ficar literalmente em casa mudou a nossa real forma de ser e de estar na vida?
Estranhamente ou não, para aqueles que faziam do seu espaço mais íntimo local de trabalho, esta situação parece não ser confortável - a clausura habitual poderia ser pautada com saídas, reuniões pontuais com colegas, jantares com amigos, e sim, um ritmo de trabalho e produtividade dentro dos padrões normais. Agora, a "obrigação" torna-se um peso e a desconcentração parece imperar.
Já para aqueles, como eu, habituados à rotina diária de trabalhar num escritório (ou outro espaço fora de casa), a questão coloca-se de outra maneira. Poderá haver maior tentação para a distracção, mas acho que é exactamente isso que nos leva a trabalhar por vezes muito mais - um esforço extra que, se antes era não era visível pelo número de idas às copas ao longo do dia, agora nem sequer nos passa pela cabeça. No meu exemplo, estar na minha zona de conforto, com toda a "minha tralha" em redor faz-me pensar que quanto mais cedo me despachar (mesmo que acabe por ganhar mais vontade para trabalhar e ver mais calmamente coisas que se calhar estando no escritório não veria) mais depressa vou ler aquele livro adiado, ou fazer aquela pintura que tanto ando a imaginar. Não acredito que haja menos responsabilidade tal como não acredito que os trabalhadores não respondam às solicitações que lhes possam ser feitas estando em casa - sinto-o até como uma forma de auto-defesa - há que mostrar aos nossos colegas e chefias que lá por estarmos em casa não implica que estejamos sentados no sofá a ver filmes ou séries. Aliás, parece que na verdade é algo que temos de provar não só a quem de direito mas também a toda uma sociedade que de repente surge de peito cheio garantido que somos uns preguiçosos, medricas e que por nossa causa a economia nacional parou - a esses apenas lhes digo que já todos percebemos quais as vossas prioridades. Principalmente quando são vocês que estão sentados nas vossas cadeiras de couro bafiento, enfiados em escritórios que se devem localizar certamente numa sala de uma casa onde também habitam. 
Mas sim, é exactamente por isto que devemos parar com a poesia por uns tempos - porque a realidade é esta e terá de ser instalada no nosso sistema até se tornar numa normalidade anormal. 

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Sunday, March 22, 2020

No primeiro dia em que o tempo parou
March 22, 20200 Comments

Naquele primeiro dia, em que tempo começou a parar, era tudo um sussuro abafado. Uma coisa lá de longe, num extremo oriental que pouco conhecemos. Depois vieram os primeiros ruídos de silêncio, como se tal coisa pudesse fazer sentido, mas cada vez mais fortes, cada vez mais perto, o ponteiro dos minutos a passar como horas, os segundos a demorar minutos, uma trovoada ténue, um chuvisco que nem molha. Até que, de repente, o relógio deixou de funcionar. Vimo-nos encerrados nas nossas casas, nos nossos lares, nos nossos hospitais, com algo que está lá fora nas ruas porque também poderá estar cá dentro, de cada um de nós, algo que a natureza colocou numa primeira pessoa que terá passado a outra e a outra e a dezenas e centenas e milhares e milhões de outras pessoas, já longe do extremo oriental. Tornamo-nos assim os nossos próprios inimigos, tornamo-nos eremitas, afastados fisicamente uns dos outros - ou uns mais que outros -, pais de filhos, netos de avós, vizinhos de vizinhos, amigos de outros amigos. Porque o tempo parou. 
E este jogo ainda mal começou. Será que o planeta com armas invisíveis e silenciosas irá conseguir o seu objetivo de mudança ou será que voltamos a ser aquilo que éramos, egoístas, gananciosos, absortos em vidas mesquinas, miseráveis, num ram-ram de casa trabalho, trabalho casa? Deixámos de ir aos nossos empregos, deixámos de ir aos parques, deixámos de ir às lojas, porque tudo fechou, porque o tempo parou. Porque o tempo parou.
Será que vamos saber finalmente ser seres MAIS humanos, ou apenas seremos mais uma espécie que mesmo vendo que está em vias de extinção, e não por causa das causas que se pensavam culpadas, irá continuar o seu rumo de auto-destruição. Será que a riqueza e a economia mundial de um país vale mais do que vidas humanas, será que iremos compreender finalmente o que é o mais fundamental para uma sociedade funcionar. Mas acima de tudo, será que iremos finalmente perceber que não há ricos nem pobres, nem primeiro nem segundo nem terceiro mundo, que a vida não é feita por "andares" sociais ou estereotipos, que estamos todos no mesmo barco, que temos de respeitar estas novas regras, estas novas leis. Tudo porque o tempo parou. 
Mas o tempo parou para a escala humana. O tempo parou para nós. Mas o tempo não parou na natureza. 
Naquele primeiro dia, era a Primavera a chegar, eram as árvores com novas folhas enchendo os ramos outrora vazios em tons verdes, eram as flores a romper para a aurora do dia, para o futuro quente que se avizinha, já era o casal de andorinhas a esvoaçar na rua, a chilrear alegremente, era o pardal a tomar banho numa poça de água da chuva. Porque o tempo, afinal, não parou totalmente. Não para aquilo que o tempo acha que é o verdadeiro, o real e o importante. Não parou para a estação da Esperança.






Fotos realizadas nos Jardins do Palácio Nacional de Queluz, no dia 8 de Março 2020





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Saturday, November 09, 2019

Pelo olhar de Pastor
November 09, 20190 Comments


Artur Pastor nasceu, cresceu e fez-se homem numa época difícil da memória portuguesa. O Estado Novo, entre o seu desígnio de evolução e o contraste abrupto com a pobreza dos bairros periféricos das grandes cidades, ainda mais gritante com o interior do país, deixou contudo algo de positivo para as futuras gerações: o registo fotográfico. Pastor (1922-1999) foi assim o ser que retratou toda uma população portuguesa que, nos dias de hoje, apenas em algumas regiões mais tradicionais de Portugal, ainda se consegue ver. Pescadores, varinas, crianças, cenas do quotidiano e estudos de laboratório científico da sua área profissional foram retratados desde que estava a terminar o serviço militar até ao momento em que se torna Engenheiro Técnico Agrário do Estado e posteriormente fotógrafo oficial do Ministério da Agricultura onde aliás, trabalhou toda a vida. Foram sempre estes os seus principais focos de objetiva, num espólio de mais de 10 mil imagens datatas desde a década de 30 até meados da década de 70 (arturpastor.tumblr.com).




Terminou hoje no Museu Municipal de Tavira a exposição dedicada ao seu trabalho com registos das regiões a sul do Tejo, Setúbal, Sesimbra e claro, Algarve, intitulada "Artur Pastor e os Mundos do Sul", uma coleção admirável contando com cerca de 100 fotografias, organizadas de acordo com variados temas - e onde se verifica também já uma certa militância para causas sociais, tendo fotografado as colegas mulheres e os estudos/ trabalhos por elas realizados em investigação agrícola. 
Numa coordenação e cooperação entre a Câmara Municipal de Tavira e a Câmara Municipal de Lisboa, esta mostra faz parte de um magnífico espólio adquirido pelo Arquivo Municipal da capital à família de Artur Pastor a seguir à sua morte, o qual é cada vez mais procurado e solicitado pelas diversas regiões do país. O catálogo disponível (Catálogo Mundos do Sul) conta assim com os seus primeiros trabalhos desde 1942 poduzidos na sua máquina Rolleiflex em negativo a preto e branco 6x6 e sem dúvida que vale a pena adquirir. 
Imagens incisivas e atentas aos pormenores de um Portugal que já não existe, e cuja memória colectiva se vai perdendo a cada ano que passa, são essenciais para relembrar de onde viemos e tentar perceber para onde queremos ir.

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Friday, October 04, 2019

A minha arruada
October 04, 20190 Comments
Domingo vota-se! 
Em exclamação. Não há desculpas, não há voltas a dar na situação. Vota-se e pronto. Se é nos mesmos, nos novos, nos antigos, nos PMP (pequenos e médios partidos), não é relevante. É simplesmente uma obrigação com a mesma proporção de importância de dever. Para não haver queixas nem daqui a duas semanas nem daqui a dois anos. Não podemos estar a falar mal quando nada fizemos, mas nada mesmo, para que as coisas pudessem estar minimamente melhores.
E a minha arruada seria básica. Levava-os a distribuírem os papelinhos (onde anda a amizade pelo ambiente nestas horas de campanha eleitoral?) lá na estação dos arredores, mas às horas em que as pessoas que lá passam têm medo. Às horas em que invariavelmente, sem policiamento que chegue para um município inteiro, quanto mais para a freguesia que se localiza na ponta de Sintra, paredes meias com uma Amadora e Oeiras em crescente exponencial de desenvolvimento, ocorrem assaltos, pequenos motins. 
Era levá-los a percorrerem as ruas velhas e sujas de Queluz (mesmo sujas, com cocós de cães que ninguém "quer e gosta" de apanhar, homens e mulheres a escarrar como se não houvesse amanhã, ecopontos a transbordar de lixos que não são para ecopontos e a tresandar em cheiros nauseabundos), verem o que sobra de um comércio local que já foi rico, agora em retalho ou encerrado permanentemente. Era fazê-los entender que Queluz não é só a zona do Palácio - único local devidamente "arranjado". 
Era explicar-lhes que numa população mesmo muito envelhecida, é preciso que haja gente mais jovem e com muita, mesmo muita paciência, para os "educar" a serem melhores cidadãos. 
E depois subia a fasquia. Ainda mais.
Falava dos transportes e dos acessos à capital. Para quem se diz tão preocupado com o ambiente, com as alterações climáticas, como é possível não terem ainda pensado numa gestão mais eficaz nos transportes públicos, permitindo que mais pessoas os utilizem, numa rede que se quer optimizada. Reduzir o número de viaturas próprias na estrada implica realmente um bom trabalho de pesquisa e orientação. Condicionar o acesso de automóveis a determinadas zonas implica aumentar a oferta, melhorar os horários, acessos e infraestruturas de transportes, implica abrir mais corredores aos autocarros - criando-se mais espaço para os mesmos, e não apenas nos centros urbanos, mas também nas localidades metropolitanas. E implica também uma total remodelação à oferta de transportes gratuitos para o ensino público (e privado), de forma a que os pais não tivessem a constante preocupação de irem levar e buscar os filhos às escolas, obrigando igualmente a que houvesse uma resposta útil da parte do sistema educativo que permitisse às crianças puderem frequentar os espaços até mais tarde sem ser preciso pagar-se uma caristia por cada minuto extra em que o responsável de educação não aparece. Por esta ordem, já me estão a perguntar sobre os horários de trabalho dos pais e de todos os restantes trabalhadores - diz-se agora colaboradores. Sobre isso é simples. Reduzem-se as horas de trabalho por maior qualidade e produtividade no trabalho. Não chega dizer-se ainda nos dias que correm ao homem que ele tem de ficar até mais tarde no escritório, porque a mulher que sai mais cedo pode ir tratar dos filhos e do jantar. Tal como não chega dizer-se ainda nos dias que correm à mulher que ela recebe menos porque quando fica grávida/tem filhos a sua capacidade para trabalhar fica diminuída. Isto quando não é despedida. Isto dito a pessoas cujas competências multitasking estão cada vez mais estudadas e são reconhecidas. 
E por falar em direitos, falemos da violência doméstica (contra mulheres e homens). Não se pode confiar num poder judicial que permite que juízes do Supremo Tribunal elaborem juízos de valor sobre as vítimas, jutificando os actos dos agressores por entenderem que as vítimas se comportaram mal e como tal, sofreram os castigos adequados. 
Não se entende um sistema judicial, no qual abusadores permanecem livres nas nossas ruas, muitos deles continuando a actuar como se nada fosse, destruindo a vida de centenas de crianças e adolescentes. 
De resto, porque esta minha arruada já vai longa, não consigo perceber as políticas de apoio social que invés de apoiarem e protegerem os mais idosos, se limitam a abandoná-los em prédios centenários, permitindo que os senhorios lhes cortem a electricidade, a água, e que os expulsem para lares "vão de escada", onde, sem família, acabam por morrer velozmente. Uma política social em que os jovens se mostram muito preocupados com a própria sociedade, mas continuem a viver num consumismo desmedido, entre
telemóveis, marcas de luxo, ténis e roupa, sem demonstrarem qualquer educação política/ambiental/social.
Por isso, Domingo é dia de Votar! Domingo Vota-se! E pronto! 



Artigo publicado originalmente na Revista Rua

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Thursday, July 18, 2019

Romanos, Árabes e Judeus .... História Cruzada
July 18, 2019 2 Comments
Aproveitando os feriados de Junho, acusei o cansaço que alguma instabilidade laboral me tem feito sentir e depois de muita indecisão (tão típica minha), acabei por rumar (ou ser rumada) até à Extremadura espanhola. 

Deixando Portugal através das cristas quartzíticas de Marvão, os imponentes relevos geológicos mais antigos do território luso, atravessámos a enorme planície castelhana entre a Serra de São Mamede e a Sierra de San Pedro, rumo a SE. Deixámos também a nortada para trás e começámos a sentir o embalo do vento suão, que nos acompanharia nos dias de viagem.



Marvão vista do Castelo




Marvão


Para quem, como eu, acha(va) que a planície alentejana é única, árida, com cor amarelo-torrado, típica, com fardos de palha aqui e ali, ou a perder de vista, certamente nunca cruzou caminhos serranos da Extremadura - o amarelo brilhante das searas a contrastar com o imenso azul do céu, chegam a ofuscar. E as estradas nacionais, em linhas rectas, sem outros carros, conferem uma imensidão espacial que novamente coloca em causa o nosso conceito de distância. E não, não é preciso ir para o Sul. É ali mesmo, entre a Beira Interior raiana e o Alto Alentejo, que a paisagem muda e acontece. 







Não querendo cair na tentação, mas já o fazendo, era óbvio que o percurso fronteiriço seria passado também a fazer pontos no mapa onde se encontrariam as principais judiarias, naquele que já é considerado um imenso tesouro histórico. Em 2013, o jornal Público publicou uma reportagem sobre o tema: Memória Judaica, na qual também se conta parte da História cruzada entre Portugal e Espanha, após os éditos de expulsão pelos Reis de Espanha. Já conhecendo os cantos "portugueses", não deixa de ser imenso passar pela Ponte da Portagem, tendo em mente que por ali passaram também milhares de pessoas, em famílias ou a solo, de vários credos e costumes, que não apenas o hebreu, mas também o árabe e  que mesmo ali foi local de mouros e romanos (Ammaia) muito antes dos cristãos. 

De, e em Espanha, contudo, não esperava muito, talvez porque, mais uma vez, a História seja feita de fugas, diáporas e destruição de memória posteriormente aos grandes "feitos!, bem como de alianças que nem sempre foram felizes, "nem bom vento, nem bom casamento". Mas Valência de Alcântara, mesmo junto à fronteira, agora despovoada de jovens, de indústria, de energia viva, de alento, e com casario para venda que nunca irá encontrar novos donos, apenas possui um dos melhores núcleos góticos: 16 ruas e 266 pórticos ou postas basculadas, com os típicos símbolos que tão bem caracterizam a casa outrora de cristão-novo. 


Igreja de Nossa Senhora de Rocamador - Valência de Alcântara


Bairro Gótico/ Judiaria de Valência de Alcântara


E claro, entre outras vilas e cidades de interior extremeño que não viemos a conhecer (ainda), também a caminho trilhado entre Cáceres e Mérida (o destino final), podemos encontrar Albuquerque, que, fizéssemos a viagem de olhos vendados pelo caminho, apenas abrindo quando chegássemos, poderíamos pensar estar em Castelo Branco, tal é a semelhança na organização do casco antigo, histórico, com as suas ruas íngremes até ao Castillo de la Luna, igualmente localizado no topo da serrania esculpida pela natureza a quartzo.

Castelo de la Luna - Albuquerque




Albuquerque




Igreja de São Francisco Xavier - Cáceres



Judiaria de Cáceres (Bairro de Santo António)




Chegando a Mérida, o cenário impõe-se romano. Com o Festival de Teatro à porta, começava a sentir-se a azáfama de preparar palcos no Anfiteatro Clássico, gente e mais gente de outras bandas na cidade - esta, muito diferente do que me lembro há 15 anos atrás, mais cuidada, mais limpa, mais cheia. Um Templo de Diana para ser re-descoberto, com centro de interpretação, a Alcazaba árabe que escondia até há poucos anos uma cisterna para recuperação de água retirada ao Guadiana, e cuja entrada observa a preservação e re-utilização árabes daquilo que previamente era de Roma.


Teatro Clássico Romano

Anfiteatro Romano











 
Templo de Diana
                                         
Capital da península, Emerita Augusta, evoluiu para um certo esquecimento após a queda do Império Romano a Ocidente, primeiro com a chegada dos visigodos, tornando-se depois parte do Califado de Córdoba, ganhando de novo outro fôlego e, posteriormente à reconquista cristã (1230), volta a ter o seu lugar, com o estabelecimento da Ordem de Santiago, passando a ser um caminho alternativo ao francês para chegar a Compostela.
É hoje novamente capital, mas da região autónoma da Extremadura. Importante local turístico, claramente histórico, continua a sua saga nas margens do Guadiana, onde se vai escavando o seu passado, construindo o seu futuro. 


Guadiana
















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