Cláudia Paiva Silva : livros
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Sunday, February 20, 2022

Sinopse de um livro
February 20, 20220 Comments

 


Eu não conhecia a obra de Afonso Cruz. A obra.... os livros que até agora escreveu e que já são alguns. Pensava sempre que fosse uma escrita estranha, difícil, onde a história fosse contada em soluços, ora avança no tempo, ora recua ao presente, ora vai ao passado, e sempre redigida numa estrutura ortográfica que, nos idos anos 2000, eu via como "moderna em demasia". Nada de pontos finais, nem letras maiúsculas, uma confusão de ideias que, para os romances que tanto gosto de ler, não me faziam sentido algum. 

Ouvi falar da sinopose a esta Sinopse. Temas essenciais para o meu interesse imediado: Segunda Guerra Mundial, seja imediatamente antes, ou geralmente, nos anos de pós-Guerra que se seguiram. Calhou ser baseada na história de um amor verdadeiro, que ocorreu mesmo, numa Berlim primeiro devastada pelo horror bélico, depois dividida por um muro ideológico. E nessa divisão, uma separação. Temas essenciais para o meu interesse imediato: os livros dentro do Livro. Se porventura pudermos juntar o poder literário dentro de uma história, desde que bem contado, melhor. No caso, existe uma livraria, um tio bibliotecário/livreiro, e outra história, dentro da história que deu origem à história da livraria em si. E claro, aí há livros e o que eles são capazes de fazer, a sua força transformadora de personalidades, caráter e, no fim de tudo, no que somos ou não capazes de fazer para nos protegermos, para cuidar dos nossos e por Amor. 

Acredito que haja quem aqui esperasse uma crítica detalhada às passagens, uma descrição síntese da trama "despacha lá isso para dizermos que também já lemos", mas não. Não o faço. Posso garantir que os livros no livro de Afonso Cruz (Companhia das Letras, Dezembro 2021), voam, transforma, salvam vidas, mas que também talvez NEM tudo seja justificável. Nem tão pouco admissível. É sim um livro lindíssimo que li entre o Natal e o Ano Novo, como que em pronúncio de novos tempos, mais esperançosos talvez, ou para refletir que na Vida, nada dura para sempre. Nem muros, nem separações físicas. Mas que existiu, sim, da parte do autor, trabalho de investigação, entrevistas e curiosidades familiares. 

Mas mais importante, uma escrita fluida, parágrafos belíssimos de analogias e comparações, apenas para que todos nós, os Theobalds, possamos ver mais do que o básico que se encontra mesmo à nossa frente.

Mais para ler aqui, na Revista Rua



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Monday, February 24, 2020

A inconveniência de ser livrólico - 1ª edição
February 24, 20200 Comments
Ir a Londres é, para mim, ir a espaços iguais aos de outras idas e ir também a outros tantos que não conhecia ainda. Nomeadamente livrarias. Até parece que cá em Portugal não há, poderão pensar. Até podem mesmo dizer qual necessidade tenho, real, para estar a invadir livrarias e folhear livros, quando "todos" sabemos que o futuro é digital. A resposta é simples, enquanto eu cá andar, enquanto tiver liberdade de escolha, irei optar por livros e páginas físicas. Pelo cheiro de obras antigas e pela tinta de novas edições. Não significa que não adira às novas tecnologias - nem posso atirar pedras porque já tenho alguns livros em formato apto para tablets, computador, Kindle, mas não há melhor prazer do que entrar em pequenas livrarias, principalmente noutros países, nos quais desconheço por completo o grau de literacia, o interesse pela literatura, os hábitos de leitura. Sei, por exemplo, que em Brick Lane, no coração do East End, em Londres, existe uma livraria (Brick Lane Bookshop de nome atual, claro!) que desde os anos 70 sempre pautou por ser irreverente, interventiva, marco da luta da classe operária e pobre da cidade que durante vários séculos foi desterrada para a zona das "docas". Sei também que já em zona "nobre", bem perto do Museu Britânico, existe uma livraria que se chama aprazivelmente "London Review Bookshop", onde entre livros, postais, revistas, existe também um café onde o negócio da literatura bate certo com o dos cappucinos e brownies
De resto, volto a nada saber ao certo, a não ser que tenho a caminho alguns álbuns incríveis sobre a zona leste londrina (publicações da Hoxton Press, cujas capas podem ser vistas nas imagens abaixo), porque é realmente fascinante conhecer não apenas a nossa terra, mas também outras terras. O mundo é global e para muitos de nós, as melhores e às vezes únicas viagens, passam mesmo e apenas pelo mundo do livro.






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Wednesday, December 18, 2019

Livros para o Natal, Livros para quem Lê
December 18, 20190 Comments
Aproveitando para dizer que em termos estatísticos os portugueses ficam abaixo da linha de água no que diz respeito à aquisição de literatura, aqui deixo alguns títulos que deveriam mudar esses números. Larguem os telemoveis e troquem por livros, físicos ou em formato e-book (os smartphones, kindles, tablets e iPads permitem também ler outras coisas!). A vossa mente e capacidade de imaginação também! 


 Do Brasil, com Amor.

Para começar temos a biografia de Fernanda Montenegro “Prólogo, Ato, Epílogo”. Aos 80 anos a musa da televisão e cinema brasileiros tornou-se imortal em vida quando foi atacada publicamente em Outubro último pelo atual diretor de Artes Cénicas da FUNARTE Roberto Alvim, após ser capa do jornal literário Quatro, Cinco, Um. Neste, surge como uma herege prestes a ser queimada numa pira da Santa Inquisição e insurge-se enquanto ativista em defesa da democracia no meio cultural. Adjetivando a artista como “sórdida” e “desprezível”, Alvim apenas conseguiu que Montenegro se elevasse ainda mais na hierarquia cultural brasileira e mundial, principalmente numa época em que a censura parece regressar ao país tropical de língua portuguesa. Contudo e singelamente, a sua biografia, escrita a par com Marta Góes (Companhia das Letras), apenas conta o seu percurso até à atualidade, episódios de vida desde que os avós atravessaram o oceano em rumo de uma vida melhor. A forma como Arlette Pinheiro Esteves se transformou em Fernanda, nas inúmeras peças de teatro que foi estrela, sabendo de antemão que não seria pela sua beleza mas sim pela sua atitude em palco que faria a diferença. Um livro não (totalmente) político que se lê facilmente como um romance, sendo sério e mordaz, onde os momentos mais duros da vida da artista são combatidos com momentos de humor e onde às vezes, muitas vezes, se percebe o tom sarcástico com que Fernanda vê o mundo onde se encontra.



De seguida, apresenta-se “Essa Gente” (Companhia das Letras) de Chico Buarque. Cantor, escritor, autor e vencedor do Prémio Camões 2019, Buarque tem todo um país contra e a favor dele. E em “Essa Gente” a história em forma de diário de um escritor famoso mas em plena crise de meia-idade, bate certeiramente com a vida atual no Rio de Janeiro (e no Brasil), pautando entre as questões pessoas e metafísicas, sociais e políticas. Buarque, ainda no meio do furacão pela não assinatura de Balsonaro ao Prémio Camões atribuído por Portugal, acaba por sair vencedor como sempre, e este livro é apenas um estalo sem mão à atual política cultural brasileira onde se assiste a uma “vingança” do próprio Presidente contra todos os que o atacam. Uma “censura” camuflada onde filmes e peças de teatro não são impedidos ou cancelados de estrear, mas sim “adiados por tempo indeterminado” de serem apresentados ao grande público.


Escrito por Alexandra Lucas Coelho, jornalista e autora portuguesa, “Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso” (Caminho), começou com um pedido do cantor à escritora. Um livro dedicado à sua terra natal, um livro que falasse sobre as pessoas, os locais, sítios e cheiros. Para quem conhece a Bahia e o Recôncavo baianos, Estados ligados como siameses, percebe facilmente que este texto de Alexandra só poderá ser extremamente especial e pessoal. Uma viagem a Salvador é como um despertar de sentidos, sabendo que foi ali onde os primeiros portugueses puseram pé, passando tormentas e tempestades. Foi o marco inicial para o melhor e para o pior dos Descobrimentos, mas é nesta capital que pudemos afirmar também que estamos em Casa, com as suas ruas tão tradicionais, tão portuguesas, as suas igrejas cristãs umas coladas às outras, o candomblé, o som e batuque vindo dos terreiros, a comida com inspiração africana, o cheiro a maresia assim que nos voltamos neste caso, neste meridiano, para leste. Mais, “Cinco Voltas na Bahia” é um mapa também pelo sertão, quase roçando os limites com a Chapada Diamantina, onde quilómetros de estrada nos levam a percorrer paisagens de tons ocre, aqui e ali com vegetação seca, típica, e onde, aqui e ali, surgem casarios, e onde, aqui e ali, saltam crianças ávidas de pessoas, de novidades. Alexandra Lucas Coelho transmite-nos esta ideia e muito mais. Jorge Amado poderá estar orgulhoso! Caetano e todos os beijos que merece, também!


Para concluir o núcleo dedicado ao Atlântico Sul, aparece o livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” (Porto Editora) escrito por Martha Batalha. Atravessando o Brasil desde a década de 40 até aos dias de hoje, conta a histórias de duas irmãs filhas de portugueses num Rio de Janeiro desaparecido. A história aparentemente banal é, no entanto, muito diferente do que os leitores possam imaginar. Guida e Eurídice tinham sonhos, mas o desaparecimento da primeira, após uma paixão proibida e uma gravidez “vergonhosa” para o seu Pai, levam a que a outra opte por abdicar de tudo o que queria fazer, tornando-se assim, a filha e esposa obediente, perfeita, mãe de família, doméstica sem vocação. Apesar do “bom marido”, Eurídice é miseravelmente infeliz, e a sua história não é diferente nem das mulheres nascidas na mesma época e que foram educadas apenas para serem boas donas de casa, tal como a violência que acaba por sofrer, mais psicológica, menos física, mas em qualquer caso, fatal, não é diferente da violência que as mulheres sofrem até ao dia de hoje, numa luta desigual para serem ouvidas e respeitadas dentro das suas famílias.
O livro foi adaptado ao cinema por Karim Ainouz e em Maio ganhou o Prémio Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Estreou agora no Brasil envolto em aplausos e, mais uma vez, é levado a concorrer ao Óscar de Melhor Filme Internacional, com a especial intenção de levar também o nome de Fernanda Montenegro novamente à nomeação de Melhor Atriz Secundária.


Um policial e uma história da História.

Já em ambiente policial, Francisco José Viegas regressa agora com mais um caso do Inspetor Jaime Ramos, “A Luz de Pequim” (Porto Editora). Agora aos 60 anos, sendo pressionado para deixar a Polícia, Ramos tem de lidar não só com uma auditoria interna em relação ao seu trabalho de uma vida, como com a resolução de um caso que o leva a viajar até à China, ao mesmo tempo que vai relembrando pedaços da sua vida com eternos amigos e companheiros na sua cidade do Porto. Tal como Ramos, o protagonista que neste momento já nada tem a perder e prefere deixar a hipocrisia de lado, nomeadamente quando o caso começa a mexer com os meandros cinzentos da política nacional, o seu “criador” José Viegas, também já não tem problemas em colocar-se como um dos principais e melhores escritores nacionais, que por via de várias entrevistas e através da sua personagem, vai colocando os pontos nos i’s ao “politicamente correto” que parece estar a crescer na sociedade lusa atual. Não se pode deixar de falar dos assuntos, apenas porque são incómodos. Devem ser mencionados e discutidos exatamente por ainda causarem incómodo.


Por fim, mas não menos importante, temos um retrato da sociedade política e jornalística durante os 8 anos a seguir à Revolução de Abril. Manuela de Sousa Rama será porventura mais reconhecida pela sua presença na RTP, mas este seu primeiro romance histórico “A Culpa foi da Revolução” (Clube do Autor), certamente enche a vontade de saber mais sobre uma época conturbada na História nacional, nomeadamente o pós-25 de Abril. Aproveitando a fase de revivalismos, (e aproveitando o regresso da série “Conta-me como Foi”, passada agora na década de 80) Sousa Rama traz a lume os acontecimentos que procederam a revolução e o tempo que se seguiu até à dissolução do Conselho da Revolução no ano de 1982, baseando-se em factos verídicos. Numa crítica (ainda que indireta) às escolhas feitas nessa fase tão peculiar, principalmente a pressão sentida pela imprensa nacional, podemos identificar que a censura nunca acabou, simplesmente terá mudado a cor política, algo que hoje, ainda se verifica de forma pouco dissimulada nos órgãos de comunicação social. O que adianta uma mudança para melhor, se o resultado final poderá ser na mesma medida, redutor da liberdade de expressão? “A Culpa foi da Revolução” não é um romance político por si, nem aponta dedos a ninguém, simplesmente mostra como a História tem tantas ramificações e muitas vezes, os erros do passado, perpetuam-se num futuro que permanece incerto.



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