Cláudia Paiva Silva : Revista Rua online
Showing posts with label Revista Rua online. Show all posts
Showing posts with label Revista Rua online. Show all posts

Sunday, February 20, 2022

Sinopse de um livro
February 20, 20220 Comments

 


Eu não conhecia a obra de Afonso Cruz. A obra.... os livros que até agora escreveu e que já são alguns. Pensava sempre que fosse uma escrita estranha, difícil, onde a história fosse contada em soluços, ora avança no tempo, ora recua ao presente, ora vai ao passado, e sempre redigida numa estrutura ortográfica que, nos idos anos 2000, eu via como "moderna em demasia". Nada de pontos finais, nem letras maiúsculas, uma confusão de ideias que, para os romances que tanto gosto de ler, não me faziam sentido algum. 

Ouvi falar da sinopose a esta Sinopse. Temas essenciais para o meu interesse imediado: Segunda Guerra Mundial, seja imediatamente antes, ou geralmente, nos anos de pós-Guerra que se seguiram. Calhou ser baseada na história de um amor verdadeiro, que ocorreu mesmo, numa Berlim primeiro devastada pelo horror bélico, depois dividida por um muro ideológico. E nessa divisão, uma separação. Temas essenciais para o meu interesse imediato: os livros dentro do Livro. Se porventura pudermos juntar o poder literário dentro de uma história, desde que bem contado, melhor. No caso, existe uma livraria, um tio bibliotecário/livreiro, e outra história, dentro da história que deu origem à história da livraria em si. E claro, aí há livros e o que eles são capazes de fazer, a sua força transformadora de personalidades, caráter e, no fim de tudo, no que somos ou não capazes de fazer para nos protegermos, para cuidar dos nossos e por Amor. 

Acredito que haja quem aqui esperasse uma crítica detalhada às passagens, uma descrição síntese da trama "despacha lá isso para dizermos que também já lemos", mas não. Não o faço. Posso garantir que os livros no livro de Afonso Cruz (Companhia das Letras, Dezembro 2021), voam, transforma, salvam vidas, mas que também talvez NEM tudo seja justificável. Nem tão pouco admissível. É sim um livro lindíssimo que li entre o Natal e o Ano Novo, como que em pronúncio de novos tempos, mais esperançosos talvez, ou para refletir que na Vida, nada dura para sempre. Nem muros, nem separações físicas. Mas que existiu, sim, da parte do autor, trabalho de investigação, entrevistas e curiosidades familiares. 

Mas mais importante, uma escrita fluida, parágrafos belíssimos de analogias e comparações, apenas para que todos nós, os Theobalds, possamos ver mais do que o básico que se encontra mesmo à nossa frente.

Mais para ler aqui, na Revista Rua



Reading Time:

Sunday, April 26, 2020

Urbano-Feminino
April 26, 20200 Comments
Pouco tempo antes destes estranhos novos dias que estamos a viver, fui rapidamente e já no último dia de apresentação até Braço de Prata, onde na Underdogs Gallery, algumas das obras mais conhecidas de Tamara Alves estavam expostas. Aproveitando a presença da artista, acabei por lhe fazer uma curta entrevista para a Revista Rua onde nada ficou por dizer, a qual também, percebi pouco depois, poderia perfeitamente ter evoluído para uma conversa onde sociedade e direitos humanos seriam temas chave, além de formas de inspiração, filmes e música, e todo o potencial que o nosso país, de norte a sul, do interior ao litoral tem para dar e oferecer a quem não tenha medo de ser ousado e de correr riscos de parecer ridículo.
Esse texto, publicado originalmente aqui, poderá agora ser lido também aqui no blogue:


Tamara Alves será porventura uma das mais conhecidas artistas plásticas de arte urbana em Portugal. Nascida em Portimão onde viveu até aos 18 anos, filha de pais também pintores que são a sua maior influência, cedo mostrou uma capacidade inata para o desenho complexo que foi posteriormente sendo acompanhada pela forma como lidava com os vários tipos de materiais disponíveis e tintas. Depois veio a licenciatura nas Caldas da Rainha e finalmente Erasmus em Birmingham, no Reino Unido, onde ganhou o gosto pela arte urbana. Nesta sua exposição a solo mostra algumas das pinturas e esquissos mais emblemáticos da sua carreira, onde o feminino e o animal estão sempre presentes, numa definição direta de todo o seu trabalho, onde selvagem se funde com humano e irracional, onde a pele nua de mulher e homem contrastam com a existência de metais do dia-a-dia industrial, onde lobos convivem com a natureza, onde a natureza é no fundo o nosso habitat natural. Onde também há sempre Amor e Paixão.
Numa curta entrevista à Rua, minutos antes de um workshop de desenho para crianças, Tamara explicou como se sente enquanto artista feminina em Portugal, as principais diferenças que observa entre as cidades do litoral e do interior do país em relação ao desenho e arte urbanas e qual o papel do artista na sociedade.
- Como foi o teu percurso desde Portimão até ires para as Caldas? Os teus pais são pintores, de que forma é que isso foi um impulso para ti, uma vez que nem sempre é comum seguir as pesadas dos progenitores?
“Nasci já a pintar com os dedos! A minha mãe diz que eu ainda antes dos 2 anos já fazia desenhos super complexos, muito diferentes daquilo que as crianças da mesma idade fazem. E como ambos são pintores, para mim sempre foi muito natural a forma como lidar com os materiais. Nunca tive medo em experimentar – sabia desde muito jovem o que dava para misturar ou não, sou desenrascada, o que dá imenso jeito na minha área, mas continuo sempre a aprender a ganhar experiência. Felizmente sempre tive uns pais que me apoiaram e incentivaram, nunca me limitaram – lá em casa (em Portimão) existem desenhos meus desde os 9 anos de idade no meu antigo quarto e sempre que queriam partir paredes, pediam-me e ao meu irmão para ir pintar essas paredes antes de mudarem alguma coisa.
Outro incentivo acontece porque eu cresci perto da praia do Carvoeiro, e como no Algarve há muito pouca oferta cultural, havia sempre um deslocamento aos fins-de-semana – às vezes íamos a Lagos ou a Lisboa ver exposições e isso dava para aprender e ganhar mais informação, educar, ver e conhecer.”
- Qual achas que é a principal diferença entre a tal oferta cultural, principalmente artística de pintura, e o conceito de arte urbana, porque é aquilo que começou a ser a tua imagem de marca, com as pinturas em edifícios e murais, entre cidades como Lisboa e o Porto e cidades do interior, como Castelo Branco, onde já foste convidada para o Festival WOOL ou Trás-os-Montes? Como vês que as pessoas reagem?
“Para começar em Lisboa, tu vês tudo e consomes tudo de uma forma muito mais rápida. Tens uma parede, vês a parede, pintas a parede, e vais para a tua vida. Demoras cerca de uma hora a chegar ao café onde tinhas combinado alguma coisa. Nos locais mais pequenos (e nas pessoas mais velhas – aqui independente da região do país), tu vês um maior cuidado com a sua terra e sítio, vês uma valorização pelo espaço que se calhar a nossa geração já não tem tanto. Quando vais então para locais mais pequenos, deixar lá alguma coisa, elas ficam na dúvida, desconfiam do que vais lá fazer, ficam na defensiva e aí é importante conhecer essas pessoas, conviver com elas, ouvir o que elas têm para dizer. E se deixares algo que seja para a cidade, uma oferenda, então que seja algo com uma mensagem. Existe uma responsabilidade social enorme no trabalho de rua. Não é estar a apontar os dedos, ou dizer como as pessoas devem agir, é preciso aliás ter cuidado com o que dizes e respeitar toda a gente – mas se estás na rua, as palavras tem um peso, as imagens têm um peso e se for para passar alguma mensagem que seja algo inteligente.”
- De certa forma são as pessoas mais velhas do interior as mais recetivas?
“Sim, no início ficam muito defensivas, mas depois acabam por valorizar, e gostar, principalmente se já te conhecerem e acompanharem o teu percurso, e guardam aquilo possessivamente, é para eles, deles, defendem aquele trabalho. Já nas cidades “grandes”, a mensagem tem de ser mais direta e mais forte.”
- Viveste em Birmingham. O que achas que é diferente entre o feminino artístico cá, em Portugal e o que conheceste lá fora?
“Eu acho que quando falamos do papel na arte dizem sempre que somos poucas, e sim, a balança esta muito desequilibrada. Mas se calhar é porque tens mulheres que não querem mostrar o seu trabalho, não têm interesse ou acham que não podem. Então eu digo: elas que saiam e que venham fazer coisas. A rua é uma tela de exposição gigantesca e toda a gente está de olhos postos na rua agora. Hoje em dia mais que tudo é aproveitar a “onda” do feminismo, se estamos a ganhar mais consciência, melhor, então vamos mostrar o que valemos. Já passei por situações muito desagradáveis em que me pagaram para estar presente, para fingir que estava a trabalhar e se calhar aceitei com imensa dificuldade porque precisava do dinheiro. Mas qual é afinal o meu papel? É suavizar um meio de homens? Não é! Sei que somos 3 ou 4 muito ativas no meio de arte urbano, mas são várias exposições por ano e vai uma ou outra apenas para preencher o buraco da única mulher que está disponível. E isso é muito complicado, mas é preciso aproveitar e marcar presença para fazer a diferença!”
-Sim, o que é que se pode perder, principalmente durante esta altura?
“Ainda por cima, no meio de arte urbana, há muitos anos atrás, senti que havia uma desconfiança quando dizias que querias fazer alguma coisa. Nós vivemos numa sociedade machista – se hoje uma mulher quer ser condutora de um Uber ou um autocarro, há ainda uma censura imediata porque foi a sociedade que nos faz pensar dessa forma, é normal – por isso é uma questão de darmos a volta. Mas para mim, é uma questão de igualdade para todos. Para uma mulher ter empoderamento, o homem tem de se sentir também empoderado.”
-Tem de haver um equilíbrio…
“Sim, a maior parte das desigualdades é criada devido às inseguranças das outras pessoas.”
- Tu retratas tanto o universo masculino como o feminino nas tuas pinturas.
“Sim. O feminino porque sou mulher e sei exatamente como me colocar na pele de uma mulher. E acho que é importante, já que retrato o peito de um homem nu, retratar o peito de uma mulher também nu, porque é importante assumir-se tanto para um como para outro. Fiz um trabalho no Hospital dos Capuchos, onde o nu era essencial para que fizesse sentido e houve alguém que chegou lá e pintou os seios da figura feminina, mas como se tivesse sido eu a fazê-lo (está muito bem feito). E isso chateia-me. Uma coisa é fazerem tags ou bigodes por cima e isso não me chateia nada, mas quando vão desconstruir o teu trabalho e a mensagem que queres transmitir, isso é algo que me irrita muito.”
-Para finalizar porque já tens um público mais jovem à tua espera na sala ao lado, o que dirias à Tamara de há 20 anos atrás?
“Vai em frente, força e não desistas, porque tudo vai correr bem. Pode doer, mas vai correr bem (risos). Se há persistência, se há amor e paixão, então vai ter de correr bem.”




Reading Time:

Wednesday, December 18, 2019

Livros para o Natal, Livros para quem Lê
December 18, 20190 Comments
Aproveitando para dizer que em termos estatísticos os portugueses ficam abaixo da linha de água no que diz respeito à aquisição de literatura, aqui deixo alguns títulos que deveriam mudar esses números. Larguem os telemoveis e troquem por livros, físicos ou em formato e-book (os smartphones, kindles, tablets e iPads permitem também ler outras coisas!). A vossa mente e capacidade de imaginação também! 


 Do Brasil, com Amor.

Para começar temos a biografia de Fernanda Montenegro “Prólogo, Ato, Epílogo”. Aos 80 anos a musa da televisão e cinema brasileiros tornou-se imortal em vida quando foi atacada publicamente em Outubro último pelo atual diretor de Artes Cénicas da FUNARTE Roberto Alvim, após ser capa do jornal literário Quatro, Cinco, Um. Neste, surge como uma herege prestes a ser queimada numa pira da Santa Inquisição e insurge-se enquanto ativista em defesa da democracia no meio cultural. Adjetivando a artista como “sórdida” e “desprezível”, Alvim apenas conseguiu que Montenegro se elevasse ainda mais na hierarquia cultural brasileira e mundial, principalmente numa época em que a censura parece regressar ao país tropical de língua portuguesa. Contudo e singelamente, a sua biografia, escrita a par com Marta Góes (Companhia das Letras), apenas conta o seu percurso até à atualidade, episódios de vida desde que os avós atravessaram o oceano em rumo de uma vida melhor. A forma como Arlette Pinheiro Esteves se transformou em Fernanda, nas inúmeras peças de teatro que foi estrela, sabendo de antemão que não seria pela sua beleza mas sim pela sua atitude em palco que faria a diferença. Um livro não (totalmente) político que se lê facilmente como um romance, sendo sério e mordaz, onde os momentos mais duros da vida da artista são combatidos com momentos de humor e onde às vezes, muitas vezes, se percebe o tom sarcástico com que Fernanda vê o mundo onde se encontra.



De seguida, apresenta-se “Essa Gente” (Companhia das Letras) de Chico Buarque. Cantor, escritor, autor e vencedor do Prémio Camões 2019, Buarque tem todo um país contra e a favor dele. E em “Essa Gente” a história em forma de diário de um escritor famoso mas em plena crise de meia-idade, bate certeiramente com a vida atual no Rio de Janeiro (e no Brasil), pautando entre as questões pessoas e metafísicas, sociais e políticas. Buarque, ainda no meio do furacão pela não assinatura de Balsonaro ao Prémio Camões atribuído por Portugal, acaba por sair vencedor como sempre, e este livro é apenas um estalo sem mão à atual política cultural brasileira onde se assiste a uma “vingança” do próprio Presidente contra todos os que o atacam. Uma “censura” camuflada onde filmes e peças de teatro não são impedidos ou cancelados de estrear, mas sim “adiados por tempo indeterminado” de serem apresentados ao grande público.


Escrito por Alexandra Lucas Coelho, jornalista e autora portuguesa, “Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso” (Caminho), começou com um pedido do cantor à escritora. Um livro dedicado à sua terra natal, um livro que falasse sobre as pessoas, os locais, sítios e cheiros. Para quem conhece a Bahia e o Recôncavo baianos, Estados ligados como siameses, percebe facilmente que este texto de Alexandra só poderá ser extremamente especial e pessoal. Uma viagem a Salvador é como um despertar de sentidos, sabendo que foi ali onde os primeiros portugueses puseram pé, passando tormentas e tempestades. Foi o marco inicial para o melhor e para o pior dos Descobrimentos, mas é nesta capital que pudemos afirmar também que estamos em Casa, com as suas ruas tão tradicionais, tão portuguesas, as suas igrejas cristãs umas coladas às outras, o candomblé, o som e batuque vindo dos terreiros, a comida com inspiração africana, o cheiro a maresia assim que nos voltamos neste caso, neste meridiano, para leste. Mais, “Cinco Voltas na Bahia” é um mapa também pelo sertão, quase roçando os limites com a Chapada Diamantina, onde quilómetros de estrada nos levam a percorrer paisagens de tons ocre, aqui e ali com vegetação seca, típica, e onde, aqui e ali, surgem casarios, e onde, aqui e ali, saltam crianças ávidas de pessoas, de novidades. Alexandra Lucas Coelho transmite-nos esta ideia e muito mais. Jorge Amado poderá estar orgulhoso! Caetano e todos os beijos que merece, também!


Para concluir o núcleo dedicado ao Atlântico Sul, aparece o livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” (Porto Editora) escrito por Martha Batalha. Atravessando o Brasil desde a década de 40 até aos dias de hoje, conta a histórias de duas irmãs filhas de portugueses num Rio de Janeiro desaparecido. A história aparentemente banal é, no entanto, muito diferente do que os leitores possam imaginar. Guida e Eurídice tinham sonhos, mas o desaparecimento da primeira, após uma paixão proibida e uma gravidez “vergonhosa” para o seu Pai, levam a que a outra opte por abdicar de tudo o que queria fazer, tornando-se assim, a filha e esposa obediente, perfeita, mãe de família, doméstica sem vocação. Apesar do “bom marido”, Eurídice é miseravelmente infeliz, e a sua história não é diferente nem das mulheres nascidas na mesma época e que foram educadas apenas para serem boas donas de casa, tal como a violência que acaba por sofrer, mais psicológica, menos física, mas em qualquer caso, fatal, não é diferente da violência que as mulheres sofrem até ao dia de hoje, numa luta desigual para serem ouvidas e respeitadas dentro das suas famílias.
O livro foi adaptado ao cinema por Karim Ainouz e em Maio ganhou o Prémio Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Estreou agora no Brasil envolto em aplausos e, mais uma vez, é levado a concorrer ao Óscar de Melhor Filme Internacional, com a especial intenção de levar também o nome de Fernanda Montenegro novamente à nomeação de Melhor Atriz Secundária.


Um policial e uma história da História.

Já em ambiente policial, Francisco José Viegas regressa agora com mais um caso do Inspetor Jaime Ramos, “A Luz de Pequim” (Porto Editora). Agora aos 60 anos, sendo pressionado para deixar a Polícia, Ramos tem de lidar não só com uma auditoria interna em relação ao seu trabalho de uma vida, como com a resolução de um caso que o leva a viajar até à China, ao mesmo tempo que vai relembrando pedaços da sua vida com eternos amigos e companheiros na sua cidade do Porto. Tal como Ramos, o protagonista que neste momento já nada tem a perder e prefere deixar a hipocrisia de lado, nomeadamente quando o caso começa a mexer com os meandros cinzentos da política nacional, o seu “criador” José Viegas, também já não tem problemas em colocar-se como um dos principais e melhores escritores nacionais, que por via de várias entrevistas e através da sua personagem, vai colocando os pontos nos i’s ao “politicamente correto” que parece estar a crescer na sociedade lusa atual. Não se pode deixar de falar dos assuntos, apenas porque são incómodos. Devem ser mencionados e discutidos exatamente por ainda causarem incómodo.


Por fim, mas não menos importante, temos um retrato da sociedade política e jornalística durante os 8 anos a seguir à Revolução de Abril. Manuela de Sousa Rama será porventura mais reconhecida pela sua presença na RTP, mas este seu primeiro romance histórico “A Culpa foi da Revolução” (Clube do Autor), certamente enche a vontade de saber mais sobre uma época conturbada na História nacional, nomeadamente o pós-25 de Abril. Aproveitando a fase de revivalismos, (e aproveitando o regresso da série “Conta-me como Foi”, passada agora na década de 80) Sousa Rama traz a lume os acontecimentos que procederam a revolução e o tempo que se seguiu até à dissolução do Conselho da Revolução no ano de 1982, baseando-se em factos verídicos. Numa crítica (ainda que indireta) às escolhas feitas nessa fase tão peculiar, principalmente a pressão sentida pela imprensa nacional, podemos identificar que a censura nunca acabou, simplesmente terá mudado a cor política, algo que hoje, ainda se verifica de forma pouco dissimulada nos órgãos de comunicação social. O que adianta uma mudança para melhor, se o resultado final poderá ser na mesma medida, redutor da liberdade de expressão? “A Culpa foi da Revolução” não é um romance político por si, nem aponta dedos a ninguém, simplesmente mostra como a História tem tantas ramificações e muitas vezes, os erros do passado, perpetuam-se num futuro que permanece incerto.



Reading Time:

Wednesday, November 20, 2019

O nosso Purgatório; a nossa Purga
November 20, 20190 Comments
Nem sempre é fácil pegar nos textos clássicos, levá-los a palco e fazer com que o público entenda. Não porque sejamos tontos, mas porque muitas vezes os contextos históricos mudam e tudo parece muito velho, muito antigo, tão antigo que nem parece real, ou que possa ter realmente ocorrido. Contudo, quando transportados à realidade atual e integrados no nosso dia-a-dia, estes textos, tão velhos, seculares, parece que batem em cheio, que foram escritos para nós, todos, como um núcleo, para que possamos ouvir, ver, acima de tudo pensar e perceber. 
Até dia 24 de Novembro aconselho a verem a peça O Purgatório, segundo ciclo da Divina Comédia de Dante Alighieri, no Teatro Nacional Dona Maria II. Uma vez mais trazido à luz pela Companhia de Teatro O Bando, depois do simbolismo de Inferno em 2017. Quanto mais não seja para esse esforço maior que é realmente o "tentar perceber as coisas" que nos rodeiam, para onde vamos e de onde viemos. Qual é este "purgatório" por onde estamos a passar, quase em rebanho de ovelhas, cabeça baixa, sem ver nada em volta. Poderia dizer que o pensamento que surge é de uma espécie de Alegoria da Caverna, segundo Platão, e não está muito longe, mas vale sempre a pena pensar mais um pouco, tentar chegar à Luz do Conhecimento, não padecer desse mal que é o dogma e aceitar tudo o que nos dizem como verdade absoluta.



"A primeira reação é de assombro. Um arrepio incrível que nos percorre a espinha à medida que vamos escutando o maravilhoso Coro Setúbal Voz na sua participação triunfal e essencial na peça de Dante, aparecendo no início quase como mortos-vivos, num crescendo de música que enche a sala. Depois, a comparação feita nesta nova adaptação pelo Teatro O Bando aos dias de hoje, à nossa realidade, à nossa História moderna. E por fim, nós, humanos espectadores e atores, sendo as sombras que caminham ordeiramente, qual rebanho, atrás de um deus, de dinheiro, de aceitação, de rendição e de perdão, numa rota com destino certo ao Paraíso. Ou talvez a um destino que nos faça acordar do marasmo quotidiano, da mediocridade. Dante é aqui um de nós, uma sombra que ao princípio não consegue ver e não tem voz, uma sombra que apenas segue a ideia de uma Beatriz que não se encontra no mesmo plano físico em que ele se encontra, um Dante que tem espasmos, que não se consegue mover, e que aos poucos começa a ser guiado por um “mestre”, Vergílio, pessoa/sombra mais sensata que o vai “educando” e “curando” da cegueira, e também por Matilde, a sombra sarcástica e irónica que o irá chamar à realidade dos factos, ao que é óbvio, embora também se venha a revelar uma serva da Morte e da Esperança.
O que resulta? A sensação de andarmos agora, aqui e no Presente, no real Purgatório, com um Passado já passado, para um Futuro a que apenas podemos mesmo encarar com o olhar de Esperança, pondo fim ao que nos prendia, ao que nos tornava zombies. Mesmo que para isso tenhamos de perder a questão do Eu e mesmo que para isso tenhamos de ser Ninguém, tal como Dante diz no fim.
A marcar o passo desta caminhada, que é na verdade uma reflexão interna, existe a presença maravilhosa de Fernando Luís, Rita Brito, Sara Belo e Nélson Monforte, num espetacular exercício não apenas de interpretação textual, mas sim física e vocal, dando ainda maior ênfase à importância que é a dificuldade da travessia feita por Dante durante os três dias e três noites em que dura."

Texto originalmente publicado aqui: Purgatório na Revista Rua


Reading Time:

Monday, November 04, 2019

Privilégio cultural com Vera Holtz e Marcos Caruso
November 04, 20190 Comments
Quando soube que Marcos Caruso (@marcoscaruso) e Vera Holtz (@veraholtz), incríveis atores brasileiros, iriam estar na recentemente inaugurada Livraria da Travessa (colada à antiga Universidade) na Rua da Escola Politécnica para um "bate-papo" sobre as respetivas carreiras, sobre a peça que trouxeram a Portugal por convite da Palco 6 da incansável Ana Rangel e que Marcos já tinha representado nos palcos lusos anteriormente, Intimidade Indecente, decidi que, contrariando a minha própria decência, os iria entrevistar. Não falei com a minha editora (e amiga) Andreia Ferreira da Revista Rua, decidida a avançar sozinha, sem autorização, sem rede e sem alguma experiência, movimentando as peças do jogo à medida que tudo ia acontecendo. Telefonemas primeiro, cara-de-pau depois, presencialmente no evento. Se poderia estar nervosa, se não saberia como iria ser recebida, certamente que depressa os receios passaram. De um "quer fazer entrevista agora ou depois" pelo Marcos, com um abraço da Vera pelo meio, decidi que iria ficar no espaço muito tempo depois do "papo ser batido", dos autográfos e fotos serem realizados. 
A verdade é que já tinha conhecido a atriz Maria Ribeiro antes, e a sensação de calor humano são inegáveis - será por isso que tanto amo o Brasil, não há tempo para "merdas" de sermos "atores famosos", de haver manias ou superioridades ou não te conheço, não vou responder. No Brasil todo o mundo é rico (de cultura, de bons hábitos, de educação, mesmo nascido na "comunidade"), todo o mundo é afável. 
Quando terminei e fomos literalmente arrastados para fora da livraria (entre risos e simpatia sempre!), depois de me despedir de ambos e ainda de Guilherme Leme (também ele ator, mas agora encenador da peça), escrevi a Andreia perguntado se ela estava interessada. O feliz resultado pode ser lido aqui Revista Rua entrevista Vera e Marcos, mas a entrevista em cru deixo aqui no blogue: 




A história, que segundo aos atores provoca as lágrimas ao público mais jovem e os risos aos mais velhos, é a de Mariano e Roberta, que se separam aos 50 anos após uma vida em comum. Durante o texto, vemos os seus encontros e desencontros, a sua intimidade sendo dissecada, falando de tudo, e sem nunca cair a cortina, a sua evolução até perto dos 90 anos. A história de amor é a de um casal que simplesmente nunca deixa de acreditar ou desiste do outro, nem tão pouco do amor, para compartilhar o dia-a-dia.
Ao longo da conversa com os presentes, numa “Travessa cheia” e que durou quase mais de 2 horas, Marcos Caruso assumiu que teve dúvidas em retornar ao personagem Mariano, após tantos anos de interpretação, quantos de afastamento com o texto. Contudo assumiu que ao pegar novamente na obra, compreendeu que a experiência anterior e a passagem do tempo lhe possibilitaram um novo fôlego: “18 anos depois, a encenação é completamente diferente. Tem uma nova roupagem, foi feita outra leitura do texto. Quem se separa aos 50 anos não é igual a quem se separa aos 65 ou aos 70 anos. O tesão muda, o respeito cresce, além de ser um texto intemporal e universal. É uma questão humana, que também vai sendo atualizada pelo próprio público. A peça retoma a indecência de uma intimidade num mundo, atualmente, rápido, de consumo rápido, “tabletizado””(Caruso faz aqui referência ao uso de smartphones, tablets, etc.). Dentro do contexto Holtz esclarece e exclama entre aplausos da audiência: “A peça tem vida, eu quero falar de Amor, do presencial!”. Explicou também que quando substituiu Irene Ravache na personagem Roberta, a audiência brasileira se ressentiu “(…)durante a minha primeira semana senti que o sucesso da peça poderia sair prejudicado. Depois, logo no fim-de-semana seguinte, tivemos a opinião de uma das maiores críticas de teatro da rede Globo, uma mulher muito feroz nas suas apreciações, mas que felizmente foi muito positiva. Na altura foi quando senti que não tem problema um ator ficar no lugar de outro ator, mas a personagem nunca foi inteiramente minha – era da Irene e eu estava fazendo como a Irene fazia. Nesta encenação para Portugal, retomamos o texto com muito mais calma, com um ensaio maior e foi criada uma “nova” personagem.
Em relação à peça e em relação ao que vocês apresentam, explicando de uma forma tão pura o que ela representa, qual acham que é o segredo para manter a paixão viva ao final de tantos anos, será o sexo mais importante do que o amor até determinada idade, ou será o amor que passa a ser mais importante. O que acham que é o ponto que faz as pessoas continuarem juntas após tantos anos, como evolui o relacionamento?
Marcos – A essência é saber ceder. Se você ficar preso ao conceito de que o que você acha que é o mais certo, correto, e bom para você e para os dois, eu seu nome ou em nome dos dois, então vai dar com “os burros na água”, porque o outro também vai defender o seu ponto de vista. E aí é uma briga que não tem fim.
Guilherme- Aí é tolerância!
Marcos- No mundo atual, a tolerância é o mais essencial para que qualquer relacionamento se dê, seja homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher, seja governo-povo, patrão-empregado, se você souber ceder, pedir desculpa, a coisa vai.
Vera- Até o planeta e o homem – e a multiplicidade que temos hoje, não é a dois apenas, é coletiva, é planetária, terráquea – as minhas relações sempre foram mais passageiras, mas a amizade que continuamos a ter, profunda, têm uma chama, e é uma questão de admiração e da surpresa constante em relação ao outro, é uma chama que se mantem e é uma coisa importante.
Em relação a relacionamentos numa época de globalização. Estará a continuidade de relações associadas a questões culturais? Numa sociedade fechada, onde um casal já não se ama ou possivelmente tenha respeito sequer, poderá manter-se junto apenas por uma pressão social ou familiar?
Vera – Sim, claro! O modelo inicial do casamento é isso, mas nem um homem ou mulher podem ter nascido para serem casados, esposo ou pai, esposa ou mãe ou terem necessidade de constituírem família. Podem querer ter um papel mais importante com a sociedade. Uma relação com filhos é igual. Há tanta gente que se separa cada vez mais velha e algumas pessoas até perguntam “mas eu podia fazer isso?”. E às vezes só separam com a morte do parceiro. E ouvimos dizer: que bom estar sozinha/o. Mas foi preciso alguém falecer, desaparecer naturalmente. E cada vez mais há tanta gente que estuda o comportamento humano, jovens que têm uma capacidade tão impressionante para auxiliar nessas questões, que é preciso aprender e a reaprender e pedir ajuda.
Marcos – “Engana-se aquele que pensa que pela felicidade se alcança a liberdade”. Na verdade é a liberdade que traz a felicidade. Eu tenho de ser livre para ser feliz. Quanto mais a sociedade controla, fecha, culpa, mais as pessoas se sentem infelizes. A felicidade está inteiramente ligada à palavra Liberdade.
Vocês sentem isso no Brasil?
Marcos – Não é apenas cultural. Nós somos é todos cristãos. Então a culpa vem daí, da religião também. E não é do Brasil de hoje. É o complexo de sempre. (Vera interrompe e diz que o Brasil até é conhecido por ser vira-lata). O Brasil culpado, colonizado, é um peso. E noutros países também. Por exemplo, a sociedade cultural de Portugal sofreu imenso com a culpa, com o conceito de culpa, pela Inquisição, pela presença da Igreja. Quem se conseguiu libertar e não de uma forma hipócrita, é mais feliz. Eu vejo a sociedade norte-americana por exemplo, que se diz feliz, mas é totalmente hipócrita – podem sentir-se felizes, mas eu acho que não. Estamos em busca da liberdade, galgando degraus múltiplos em busca da Felicidade.


Sobre as conversas que geralmente vocês têm com o público no Brasil, após as peças que são realizadas, como é que vocês explicam o facto de haver tanto respeito entre as pessoas. De uma querer ouvir a outra e esperar pela resposta, será uma questão cultural também, de educação? Poderá haver algum extremismo em termos de opinião quando as classes podem ser menos letradas, menos tolerantes?
Guilherme – Eu acho que é mesmo uma questão de educação, de boa-educação. Porque a gente conhece muitas pessoas com um nível cultural elevado e que não são educadas, que é intolerante, intransigente.
Marcos- Se você cultiva bons hábitos, você tem bons hábitos. Hoje em dia estamos criando robots, gente insensível, por causa de maus hábitos. Estamos assistindo a uma crise de baixa-estima no Brasil, social e cultural.
Vera- Nós estamos a deslocar as pessoas do seu habitat natural quando há o debate. É uma távola redonda, e o princípio da mesa é que não há uma cabeceira, são todos iguais. Há sempre quem lança a provocação, mas há sempre quem não responda, havendo respeito. O teatro é também isso. Por exemplo, na rede social, não há filtro, mas tem de haver limite.
E dentro de um Brasil tão multicultural …
Vera- Tem de haver educação. E deveria haver educação regionalizada no Brasil. Todos deveriam conhecer os costumes e culturas de cada um dos estados e dos estados vizinhos.
Vera, última questão, completamente diferente do que temos estado a falar: a sua página de Instagram, onde menciona que as fotografias servem para reflexão, para as pessoas pensarem…

Vera- Exato. Pensem e sintam. O que eu gosto é da dinâmica da resposta. A interação através das palavras dos comentários de um que chama o outro e esse, o outro seguinte e a outra. A imagem é imagem – e eu não tenho dinâmica com a palavra, eu sou mais oratória. Mas a intenção é ação-reação, mais nada além disso. Não faço intervenção verbal. Apenas provoco com a imagem, a imagem é limpa e é cirúrgica. E aí as pessoas têm de pensar sobre o que veem. 


Reading Time:

Tuesday, August 06, 2019

Ao sabor da maré com Lígia Claro
August 06, 20190 Comments



Lígia Claro (@ligiaclaroo). 35 anos. Menina-mulher. Nascida em Ovar, terra de pescadores e varinas, a morar no Porto, cidade antiga e protectora, é, Lígia também, uma brisa calma que nos acalenta o espírito.

Conheci a Lígia numa roda da sorte aleatória por via Instagram numa altura em que a rede ainda era um espaço relativamente pequeno. Grupos feitos de gente que se conhecia, que se encontrava (e que ainda encontra) com o objetivo único de fotografar. Possivelmente a Lígia terá sido dos meus primeiros contactos, com um perfil único, belo, sem artifícios. Rapidamente descobrimos que as fotografias por detrás do ecrã são exactamente como a autora, única, bela e simples. Não é por isso estranho a paz que nos transmite quando estamos com ela, naquele jeito de menina, pequena e frágil, que adora o seu espaço, a sua casa, as suas pessoas, amigos e família. 
Casada com Eurico Amorim, músico da banda de Pedro Abrunhosa, decidiu há relativamente pouco tempo apresentar (e apresentar-se também) ao público - o mesmo que a seguia antes, e a todas as novas pessoas que se vão aproximando -, o seu amor pela tradição artística que é o macramé, a arte secular "migramah", muito possivelmente trazida até à Península pelos árabes, espalhando-se posteriormente pela diáspora histórica ibérica. Tecer fios, criar e fazer nós, usar elementos da natureza, e resultar em objectos de decoração tão especiais e belos, são a sua imagem de marca. Mais do que uma moda, uma forma de relaxamento. 
Agora na época de Verão, propícia aos brancos e beges, às feiras de design e novos criadores, falei com a Lígia para saber um bocadinho mais sobre esta sua paixão.






Quem é a Lígia? Como sentes a tua presença no mundo? Qual o teu passado e o que queres no teu presente e construção de futuro?

A Lígia é uma menina-mulher, sonhadora e aprendiz do universo. 
Do passado trago toda uma bagagem de experiências, vivências e sentimentos que definiram a minha personalidade para que no presente consiga ser e dar o melhor de mim. 
Viver o momento presente da melhor forma possível é o lema que tenho vindo a trabalhar ultimamente. O futuro só ele dirá o que tem reservado para mim. Tudo a seu tempo. 

Qual a tua ligação ao mar? À natureza? De que forma achas que podes ter sido, ou não, influenciada por tais elementos?

Nasci e cresci perto do mar. Desde cedo que senti uma forte ligação com tudo o que ele representa. A sua dinâmica, a incerteza que ele esconde, a dúvida, a força das ondas, mas ao mesmo tempo a tranquilidade das águas em dias serenos. Sempre procurei no mar e na Mãe -Natureza uma espécie de abrigo, aqueles abrigos que nos sossegam a mente e o coração. Fazem-nos ver as coisas com outra clareza e humildade. Venho sempre renovada.


Como nasceu esta tua paixão pelo macramé (@macrame.li)? Sabendo que tens uma forte herança familiar feminina, quem te passou este desafio, ou foi algo que simplesmente cresceu em ti?

Sempre gostei de das asas à criatividade e deixas as mãos fazerem o resto. A minha mãe, nos tempos livres, fazia camisolas de lã quentinhas e cachecóis em crochet de várias cores e feitios. Adorava ficar ali sentada a observá-la e a aprender. O macramé surgiu na minha vida há dois anos, numa altura em que fui um pouco abaixo devido a problemas pessoais. A vontade de sair de casa era pouca, e então comecei a ver dezenas de tutoriais para me entreter e comecei, nesse momento, a fazer as minhas primeiras experiências em macramé. Quando dei por mim, estava apaixonada pela arte de dar nós, e senti-me outra pessoa! Mais forte e confiante!
Durante o tempo que estava ali, a criar as minhas peças, primeiras peças, o mundo lá fora deixava de existir e conseguia silenciar a minha mente. Nesta fase inicial, o macramé foi uma terapia que se tornou numa paixão e hoje em dia é um grande amor.

Como foi conciliar o mundo da música (trabalhas no clube noturno Indústria, bem no coração do Porto), com este outro mundo, tão mais simples, tradicional e, em certa forma, português? 



Desde a minha adolescência, que gosto de me sentir desafiar em diferentes áreas. Uma das primeiras paixões foi a fotografia analógica. Aprendi tudo o que sei com o meu pai, inclusive a minha primeira camera analógica, foi uma prenda dele. Não demorei muito tempo a perceber que a fotografia seria um dos meus caminhos a percorrer. Com isto aliei o gosto à música. Comecei a fotografar eventos sociais, festas, festivais, chegando ao dia de hoje, em que estou num dos meus clubes favoritos, a receber amigos e clientes à porta nos meus fins de semana. Durante a semana concentro-me na realização das minhas peças e na produção de conteúdos para o Instagram, onde é exactamente aqui que a fotografia entre de novo na minha vida. É como ter o melhor de dois mundos e não me cansar de estar sempre a fazer a mesma coisa. 

O que pensas de, nos dias que correm, esta técnica de fiagem ter-se tornado, de repente, numa moda? É algo que entendes ser positivo, no sentido de ressuscitar o interesse em algo que é quase património nacional, ou passageiro, porque poderá ser visto como algo sustentável e ecológico, sim, mas, e exactamente por isso, uma tendência sazonal, passageira? 

Acho bastante positivo o facto de resgatar técnicas e métodos que estavam um pouco esquecidos. O importante é fornecer consistência ao nosso trabalho e irmo-nos adaptando cada vez mais às mudanças que nos rodeiam. Temos de nos desafiar constantemente e criar outras oportunidades. O que hoje é tendência pode amanhã não ser, mas acredito que se nos adaptarmos às necessidades das pessoas e se nos reinventarmos, o processo criativo acompanhará os tempos.





Como vês o mercado atual? Achas que devido ao boom das técnicas e tradições há espaço para todos e todas os que pretendem entrar neste nicho de mercado tradicional?

Existe sempre espaço para todos desde que haja originalidade, criatividade e vontade de chegar mais além.

E expansão? 

Como comecei por dizer em resposta à primeira pergunta, um dia de cada vez. O importante é viver o presente e chegar ao final do dia e pensar: Hoje dei o melhor de mim. Vou abraçando e agradecendo as oportunidades que a vida me dá tentando sempre ser melhor e fazendo melhor. Acredito que isso já é uma forma de expansão pessoal e global.



Entrevista publicada originalmente na Revista Rua (@revistarua.pt) (https://www.revistarua.pt/ligia-claro-a-arte-do-macrame/)



Reading Time: