2020 - Cláudia Paiva Silva

Friday, December 25, 2020

O "dia" diferente
December 25, 20200 Comments

Desde Maio que aqui não venho. Não é de estranhar.

Hoje acordei azeda. Depois de vários meses, semanas, dias em pleno fulgor, com a crença que afinal tudo iria passar, que com os devidos cuidados as pessoas poderiam ter uma vida normal, dentro da anormalidade em que tudo se tornou, confesso que devo ter atirado a paciência ao chão. Mesmo ainda sabendo que sou/fui uma das felizes privilegiadas a que nada (quase) faltou, em que mesmo as doenças foram dribladas com cuidados médicos que só quem pode os consegue ter, mesmo assim, acordei azeda e com a descrença que afinal alguma coisa possa fazer sentido. 

Vi várias imagens (as minhas também) expostas em redes sociais desejando algo completamente surreal este ano. Um feliz Natal. Como? Porque sim, haverá imensas famílias que nada mudaram nas suas tradições, nos seus convívios, mas porque haverá muitas mais que permanecem separadas. Mas o que mais explode na minha cabeça, por mais voltas que eu dê, ou por muito que haja planetas em conjugação para a frente ou para trás, é a hipocrisia a que nos prestamos. Um ano completamente irracional (e não falo apenas do vírus ou das mortes provocadas por ele ou por falta de cuidados médicos por ele derivada), e andamos a publicar imagens de prendas caríssimas, de mesas fartas? Os nossos "velhos" (na sua grande maioria) abandonados em lares, e nós contentes em falsos pretextos para quê?

Eu sei que o dia de hoje será sempre especial. Eu sei que será um dia de Esperança. Mas interrogo. Não serão todos? Desde que o Mundo é Mundo, não serão todos os dias um dia a mais do que o de ontem em que tudo poderá ser diferente? Então porque sinto que por muito que tenha até agora concretizado, foi tudo uma falácia? Porque razão vejo a sociedade a fechar-se cada vez mais, novamente, em ideias preconceituosas, cheias de rancor e ódio pelo próximo? Porque razão sinto que as opiniões são cada vez mais extremadas, em que cada um acha que tem a razão suprema, eliminando todos os outros com pontos de vista diferentes? 

2020, que foi um ano gordo, sem dúvida, foi também um ano gordo de perda e de vazio. Todo o espaço poroso preenchido por nada, oco, completamente vazio, nulo de sabedoria, nulo de consciência humana pela Humanidade ou pelo próprio planeta. Em que as pessoas cada vez se anulam mais em sentimentos que tentam transmitir (porque a situação assim o obrigou) por um pequeno visor, mas que continua a soar tudo a falso, a trabalhado apenas e só para aparecer bem na imagem. Não somos já reais, e nada tem a ver com as máscaras que temos de usar, mas sim com aquelas que agora insistimos em manter - a máscara de que está tudo bem, sempre esteve, mas que sabemos que em breve poderá não estar. Continuamos a perpetuar aquele gosto de seguir o que os outros dizem, fazem, para nos sentirmos integrados também numa comunidade que nunca iremos chegar a conhecer realmente na realidade ilusória em que tudo se está a transformar. 

Sinto também que perdi o poder da palavra escrita, aquela capacidade única que me agarrava aos pensamentos e intelecto. Quanto mais vejo todos os dias que me possam revoltar ou novamente deixar encantada, espraia-se. Não agarro a oportunidade de passar as ideias para papel ou outro lado qualquer, com a preguiça ou cansaço de saber que tantos outros farão o mesmo. Mas in



terrogo. Será que o fazem realmente, ou preferem também alongar as horas e momentos em imagens bonitas, mas sem qualquer significado. Um álbum fotográfico cheio de coisa alguma. 

Não. Hoje o espírito não desceu em mim. 

Mas sim, estou grata, como escrevi acima, em tudo o que consegui fazer, em tudo quanto consegui proporcionar aos que gosto. Mesmo com distância ou não. Isso foi real. Isso poderá não ter sido partilhado com mais ninguém. E vou tentar agora, neste preciso instante, fechar os olhos e voltar a sentir a sensação que apenas a água salgada de Agosto me deu. A de que fiz afinal alguma coisa de bem na vida. 


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Friday, May 22, 2020

Consciência Brasileira
May 22, 20200 Comments

Em confinamento, muitos de nós se sentiram inúteis, outros altamente motivados para mostrar a todos que poderiam fazer e ser tudo dentro das quatro paredes de casa, outros tantos, continuaram a ver a vida passar, em casa, ou fora dela, tudo se remete a um mesmo compasso de espera, tempo que se gasta e não volta mais. Mas sobre isso, aqui, já muito foi escrito e observado. 
E há aqueles que como eu, se desdobram naquilo que não o são também, mostrando que os lemas para 2020 até se podem concretizar de outras formas, sob as formas de outras pessoas. "A sorte protege os audazes" também pode ser usada na gíria como uma "grande lata" ou no português do Brasil, uma grande "cara de pau". Foi assim (e por causa do meu até agora único mês pago na Netflix) que cheguei ao contacto com Mel Lisboa, atriz brasileira da nova geração (ou, da minha geração) mais conhecida pela interpretação em Presença de Anita, vários anos passados. Aqui, tudo começou com a série Coisa mais Linda, no qual Mel é uma das 4 protagonistas principais, cavaleiras do Apocalipse, mulheres dos anos 60 num Brasil que se formava a ser o que é hoje, com as mesmas profundas raízes e questões sobre classes sociais, ricos e pobres, brancos e negros, mas, principalmente, com a mesma pergunta sobre o lugar da mulher na sociedade tipicamente masculinizada. E aí, completamente fascinada pela primeira temporada que tinha estreado já em Março de 2019 (!!!) na plataforma digital e esperando (agora em Junho) a segunda, decidi que tinha de tentar chegar ao contacto com aquela personagem/actriz que mais me tinha tocado, a decidida Tereza, que calhou ser a de Mel Lisboa, claro! 
Mensagem enviada por Instagram, sabia que a hipótese de contacto seria para lá de nula - se nem os portugueses muitas vezes respondem, quanto mais os internacionais, e foi precisamente nesse ponto que me enganei! De uma simpatia e disponibilidade incríveis, tive (junto da editora da Revista Rua, que alinha nestas minhas loucuras) a oportunidade de enviar questões para o outro lado do Atlântico, termos a autorização de Jorge Bispo em usar as suas fotos, e assim publicar a entrevista que se segue e que pode ser vista também aqui: Mel Lisboa na Revista Rua
(Além de falarmos necessariamente da série, a conversa e o contexto atual, levaram-nos também para um campo mais político, uma vez que Mel é igualmente conhecida pelo seu imparável ativismo cultural e social, batendo-se contra o corrente governo de Balsonaro. Entre o momento de envio das questões e o reenvio das respostas, houve ainda o "acontecimento" Regina Duarte na entrevista à CNN Brasil, que tanto envergonhou parte do país tropical como o lado de cá do oceano. Também esse momento foi oportunamente comentado). 


Como será óbvio a nossa primeira questão tem a ver com esta situação de isolamento social causada pelo Covid-19. Como sentes que esta pandemia irá mudar a vida das pessoas?

Acho que a pandemia está, aos poucos, mudando profundamente as pessoas. Diante da situação extrema e sem precedentes, estamos nos vendo obrigados a rever uma série de conceitos e de valores. Espero realmente que esta tragédia sirva para que saiamos dela melhores do que éramos antes; mais solidários, mais conscientes da coletividade.

Pensas que poderá ser mais fácil com a evolução dos factos, haver uma maior consciencialização na sociedade brasileira ou mesmo na classe política, pela relevância e importância em relação à doença?

Honestamente, eu espero que sim. Mas infelizmente, diante da negação da população, da ignorância dos factos e da postura absurdamente irresponsável do nosso presidente, talvez isso só se dê individualmente, quando a morte bater na porta de cada um.

Falando sobre sociedade, como vês hoje em dia a importância dada aos direitos humanos e direitos da mulher?

Acho que os direitos humanos, os direitos das mulheres são fundamentais, hoje e sempre. Infelizmente, porém, a carta não é uma lei universal e poucas são as pessoas no mundo que a respeitam plenamente. Acho que seria fundamental que os direitos humanos fossem estudados de forma mais profunda nas escolas para que todos conhecessem os seus direitos e os direitos do próximo. O mundo, assim, seria um lugar mais agradável de se viver.

“Uma das coisas que mais impressiona em Coisa Mais Linda é a atualidade dos seus assuntos. Perceber que se passaram 60 anos e a situação da mulher do Brasil não mudou tanto assim é chocante.”

A série Coisa Mais Linda tornou-se num fenómeno tanto no Brasil como também aqui em Portugal. É claramente um sinal da importância do Feminismo e Feminino ou acreditas que haja outra razão por detrás do sucesso?

Acho que o sucesso de uma série ou de um filme é fruto de uma junção de factores; muitos elementos que agradam em uma só obra. O assunto é importante, definitivamente, mas se não vier acompanhado de um bom roteiro, uma boa direção, direção de arte, figurino, fotografia, trilha, interpretações, pode não funcionar. Na minha opinião, Coisa Mais Linda fez sucesso pois conseguiu unir com qualidade muitos desses elementos.

Todas as principais personagens, Maria Luísa, Ligia, Adélia e Thereza, têm histórias de vida bastante distintas entre si. Contudo, todas têm personalidades fortes. Thereza é talvez a mais emancipada das quatro. Viajada, culta… Muitas espectadoras se identificam com ela. Achas que a tua Thereza pode ter “roubado” a cena?

Thereza é, sem dúvida, a mais emancipada das quatro. Uma mulher independente, consciente da problemática do machismo no campo coletivo, inteligente, culta, sexualmente livre e segura de si mesma. Ou seja, uma mulher que muitas pessoas gostariam de ser. Por esse motivo, muitos espectadores acabaram se identificando com a Thereza, admirando-a. Mas cada personagem tem ali uma função narrativa muito importante e ficam mais fortes na presença umas das outras.

Feitas as devidas comparações entre o Brasil dos anos 50/60 e o país hoje, não achas que ainda há pontos que se cruzam, nomeadamente a questão do amor interracial, diferenças dos estratos sociais, hipocrisia nas classes de topo (relembrando a cena em que Malu e Ligia são “convidadas” a sair do country club?)

Uma das coisas que mais impressiona em Coisa Mais Linda é a atualidade dos seus assuntos. Perceber que se passaram 60 anos e a situação da mulher do Brasil não mudou tanto assim é chocante.

“Aqui, Cultura é considerado artigo de luxo. Infelizmente, não há a compreensão de que a Cultura é aliada fundamental da educação. Sem educação e cultura, não há desenvolvimento efetivo.”

Há poucos dias mencionaste numa entrevista que a principal causa do machismo/assédio era já algo intrínseco na cultura, que era um aspeto quase cultural. Mas não depende também da educação entre gerações mais velhas e mais jovens?

Sem dúvida. Acredito que a educação é fundamental para alcançarmos alguma mudança. Os mais velhos têm de mudar o seu comportamento para que a situação se normalize e passe a ser o padrão. Desta maneira, os mais jovens cresceriam num mundo cada vez mais equivalente e isso seria a norma, não a exceção.

E a Cultura/Arte? Em que situação está o Brasil neste momento? Desde há vários meses que se tinha verificado cortes e alguma censura em atividades e espaços culturais em que várias peças foram mesmo canceladas. Com esta nova crise económica que já se sente e com a nova Ministra da Cultura, também atriz, mas apoiante incondicional de Bolsonaro, como vês o futuro da tua classe profissional?

No Brasil, a Cultura está hoje talvez no pior momento da sua história. Artistas estão sendo perseguidos, ofendidos covardemente. Aqui, Cultura é considerado artigo de luxo. Infelizmente, não há a compreensão de que a Cultura é aliada fundamental da educação. Sem educação e cultura, não há desenvolvimento efetivo. Nos últimos dias, ainda tivemos um espetáculo de horrores protagonizado pela nossa Secretária de Cultura, Regina Duarte, que relativizou a ditadura, foi conivente com a tortura, debochou escrachadamente das pessoas que tiveram entes queridos mortos neste período, mostrando assim, de forma desavergonhada, a cretinice e a sordidez que o nosso governo atual representa.

Tens receio do futuro do Brasil? Consideras que há problemas sérios que não estão a ser valorizados e deviam?

Tenho, sim, muito receio. Quero me manter positiva, lembrando que na História, momentos como este que estamos passando vêm e vão. “Isto também vai passar”, é o que tenho dito para mim mesma, no afã de acreditar nas minhas próprias palavras.

Por último, numa palavra de esperança: Mel, qual é para ti uma das Coisas mais Lindas do Brasil? E do nosso Mundo?

Uma das coisas mais lindas no Brasil é a nossa cultura, o que nos diferencia e nos faz únicos. É também a nossa alegria, nossos ritmos, nossas cores tão diversas. Nossa riquíssima natureza; a floresta, os mares e montanhas, os animais. O que há de belo no mundo é também o que o faz singular. Cada região, cada som, cheiro, cada povo, cada flora e fauna. O ar que respiramos.







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Sunday, May 17, 2020

Portugal versão 1.0
May 17, 20200 Comments
"O nosso lirismo devia ser coutado. O país devia consagrar-lhes um parque de reserva, onde fosse proibido dizimar as espécies que ainda restam, deixando-as viver num paradisíaco devaneio, à lei da inspiração. E nenhum sítio é mais indicado para isso do que esta província portuguesa, feira de dunas e calcários. 
Poderiam passear à sombra evocadora do grande pinhal que o colega medieval semeou, sonhar nas margens do Lis e do Lena, do Alcoa e do Baça, que são rios encantadores para sonhar, e em Pedrogão, S. Pedro de Moel, Nazaré, S. Martinho, Baleal, Ericeira e Sesimbra, tomariam banhos de mar, sem perigo de maior. Visitariam Mafra de vez em quando, como penitência, gozariam férias graníticas em Sintra, e os seus retiros espirituais seriam na Arrábida, fora do convento. Teriam grandes motivos poéticos e humanos à mão de semear, como a vida dos pescadores da Nazaré, as peregrinações a Fátima, a morte lenta à boca dos fornos da Marinha Grande, a trituração das pedras e dos homens para fazer cimento na Madeira, sem falar no clássico manancial de Aljubarrota, assunto que nunca mais acaba. 

Todas as condições, como se vê, para que outro apogeu da nossa cultura surgisse das margens onde ela afinal tem as raízes. Uma vez que o melhor da força criadora nacional está concentrado nesse pequeno reduto em que as serras de Aire, Candeeiros e Montejunto são ameias, nada de mais sensato do que tentar reverdecê-la aí. Granjeada de novo naquelas colinas suaves e calmas, talvez brotasse com o alento com que todos suspiram. Não é às lousas do xisto ou à aspereza das urgueiras que se hão-de pedir filigranas góticas e versos bucólicos. Nos sítios onde a natureza não quer, nem as calhandras cantam. O talento é preciso, mas é preciso também que o meio ajude." (Portugal, Miguel Torga) 


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Thursday, May 07, 2020

Sons de batucada
May 07, 20200 Comments



"Samba de verdade tinha que ter o sal do batuque dos terreiros de Umbanda e Candomblé, uma batida grave pra marcar, umas agudas para recortar. Era só fazer a segunda e a primeira bem definidas, botar o ritmo pra frente, que nem se toca na macumba pra fazer santo baixar e subir quebrando demanda, levando o mal para sumir no infinito de Aruanda e espalhar a paz no coração dos filhos da terra. Essa coisa de ficar imitando os portugueses, os franceses, os argentinos estava na hora de parar. A boa era dar continuidade à batida que vinha dos países de África, das senzalas, dos quilombos, dos terreiros, do lundu. Samba pra desentortar esquina, tirar paraleleípedo do chão, engrossar a batata da perna, espantar os males de quem anda, canta e dança. Samba para se desfilar na rua." (Paulo Lins, Desde que o Samba é Samba).
Sabe quem sabe que eu já habitei (ou pisei pé) em terras brasileiras. Sabe quem sabe que o Brasil teve para mim um impacto extremamente profundo, um sentimento de Casa e Terra-Pátria, mesmo que fosse por empréstimo temporário. Também se sabe que quando falo ou escrevo sobre o Brasil evoco terras, cidades, vilas e regiões que nem talvez muitos brasileiros alguma vez tenham ou possam vir a conhecer. Sei o quão privilegiada fui por ter conhecido tanto em tão pouco tempo e mais uma vez, sei o quanto isso me marcou na alma.
Contudo, também sinto que esta minha falsa modéstia possa parecer isso mesmo - uma modéstia muito pouco verdadeira - e que talvez seja demasiado emproada quando digo que conheço o Brasil. Não conheço. Ou como eles diriam, "não conheço porra nenhuma", a não ser a ideia de que um país gigante, onde se perde fácil o conceito de escala humana e regional (6 milhões de habitantes apenas no Estado do Rio de Janeiro; distância São Paulo-Rio pela Via Dutra, umas 5 horas), pode ter dentro dele outros tantos países, credos, formas e culturas. Que o Sul é definitivamente mais rico do que o Nordeste, que o Nordeste é extremamente mais caloroso que outros estados, mas que no geral todos gostam de receber alguém que fala uma língua parecida com a deles, mas que na maioria dos casos nem entendem bem. Falamos estranho, com "chiado", não somos do Rio, mas também não se sabe bem de onde somos.
Contudo, há uma cena que me lembro bem de me ter arrepiado. Nada que ver com violência ou insegurança. Simplesmente esteve relacionado com o som. Quando fui a Salvador, possivelmente a cidade mais portuguesa que conheci em toda a minha estadia, o som do berimbau foi escalando numa zona de ermo. Não sei o que era, mas sei que foi poderoso, estando logo ali. Salvador é uma cidade mística. E sim, tem toda a referência à colonização para lá de violenta, uma colonização de morte, de violação, de assassínio em massa, uma colonização forçada de fé, regada pouco depois pela forte cultura africana e escravizada. Mas a questão fundamental é? Para lá desse horror, do que é feita hoje a massa do brasileiro? Essa mescla imperturbável de africano, índio, português (ou de outro colono medieval). E qual é o verdadeiro som do Brasil? O típico samba ou o forró, certamente que não é apenas a bossa nova que resulta de forte influência de jazz norte-americano. O som é também essa coisa tão profunda e enraizada de sons africanos, a batucada, o misticismo e espiritismo que acompanham o ritmo. 
Perdoem-me a minha arrogância, mas se há coisa que eu percebi do Brasil é que não há um único jeito de ser nem de estar. Não há um som típico ou uma forma de falar. É muito mais que isso, é Casa, Pátria, Crença, Tradição.


Saberiam por exemplo que no interior nordestino ainda se praticam costumes que só os judeus faziam no tempo em que eram perseguidos? Tal como junto ao Mar os Orixás são os reis do céu e das águas "Para quem está ainda mais fora do candomblé que eu, das religiões de matriz africana em geral, do complexo enredo dos seus orixás, equivalentes a santos, entidades, seres sagrados: Oxum é a senhora das águas doces, da cor do ouro, uma das mulheres que o rei Xangô desposou, tal como a brava Iansã, senhora das tempestades.

A mais cantada mãe de santo do Brasil, Mãe Menininha de Gantois era uma filha de Oxum. (...) Como não haveriam os terreiros da Bahia de bater no peito da música popular, e assim em nós." (Alexandra Lucas Coelho, Cinco Voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso".
Quem será o homem, presidente ou não para dizer como podem milhões viver ou pensar, se deles ele nada sabe ou se de seu próprio país ele nada conhece? 
Se ouvisse direito o som da batucada iria entender tanto mais.




(texto originalmente escrito para o blogue, mas publicado na Revista Rua - pode ser lido aqui: Sons de batucada)
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Monday, May 04, 2020

It's a May the 4th be with you! - ou como retorcemos tudo
May 04, 20200 Comments
Liberdade e democracia”. Os cartazes do 1 de maio – Observador



Os humanos têm sem dúvida um estranha forma de vida mas acima de tudo uma estranha forma de ser. Face aos acontecimentos dos últimos quase 60 dias e perante o atual estado de "alívio nas medidas de restrição" que nos foram solicitadas pelo governo, só me resta mesmo ficar em espanto com alguns dos protagonistas deste filme épico. Uma das principais cenas, a manifestação do 1º Maio, a qual sendo permitida oficialmente levou bem mais do que apenas militantes e sindicalistas à rua. O que me choca não foi (apenas) a sua realização perante o ainda estado de emergência declarado (mas claro, se há autorização do PR e com as devidas normas assinaladas por uma DGS que certamente também não terá concordado muito, só podia acontecer!), mas sim a justificação dada se tal não ocorresse. De acordo com o PCP e a própria CGTP, o país está a braços com um retorno do "velho senhor", estamos a viver dias de totalitarismo e autoritarismo nunca vividos em época democrática - e isto, vindo de quem vem, na corrente e face aos acontecimentos óbvios que se têm verificado, não apenas em Portugal, mas, só naquela, por todo o mundo, é mais assustador do que ouvir o Trump a dizer que beber alcóol, desinfectante, lixívia e similares, cura o corpo humano da doença. É que uma coisa é termos uma pessoa completamente alucinada e incompetente a liderar um país maioritariamente constituído por pessoas que infelizmente não pautam por grandes doses de educação e cultura, outra, é termos pessoas inteligentes, num país mais ou menos sério e menos apalhaçado, insinuarem que o isolamento social, que o distanciamento de segurança, e eventuais proibições de encontros e manifestações à média e larga escala (com o fundamento óbvio para todos os portugueses que possuem dois dedos de testa) é apenas e só uma manipulação directa do governo para as massas, de forma a nos encarreirar dentro de um clima que se poderá assemelhar muito ao fascismo puro. Sem dúvida que muitos(as) poderão ter visto nesta situação oportunidade para colocarem pontos finais com contratos laborais, mas certamente que não será apenas isso o fator dilacerante da nossa economia. Declarações como esta: "Perante a força, organização, determinação e disponibilidade para a luta manifestada neste 1º de Maio, há sectores da nossa sociedade que procuram no surto epidémico a justificação para o regresso ao passado, para a reintrodução do totalitarismo, de mordaças e do unanimismo como única forma de pensar e estar. Procuram que os trabalhadores aceitem, passivamente ou encobertos exclusivamente nas redes sociais, o ataque aos seus direitos e salários." (ver aqui: Comunicado Oficial CGTP) são apenas apologistas de desunião e caracterizam um pensamento que neste momento não se deveria sequer colocar. A Luta poderá ser feita das mais variadas formas, senão de que outra forma poderíamos entender a decisão do Bloco de Esquerda ou mesmo da UGT em não participarem nesta mesma festa democrática? Na volta como uma "cumplicidade" entre partidos e sindicatos de esquerda mas com fome de Poder no centro-direita? Temos de ter cuidado com esta questão dos direitos humanos, liberdades individuais estarem misturados com os direitos democráticos. A China é um país de esquerda mas subjugando os seus habitantes a um fascismo puro, ou não? Claro que ninguém quer agora andar com um chip que revele os nossos dados biométricos a uma qualquer base de dados privada, mas nem é disso que agora falo. Sim e apenas da questão de que o politicamente correto, invocado numa situação em que continuamos a ter o dever cívico de nos manter resguardados (ou com os maiores cuidados possíveis caso não o possamos fazer), não pode ser aplicado a torto e a direito. Dizermos que ao sermos impedidos de ir à praia em grupos ou individualmente ou confraternizar no café é regressar ao tempo da PIDE será apenas parvo. Haja bom senso, coisa que infelizmente sempre pautou por faltar a todas as gerações nacionais. 
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Sunday, May 03, 2020

Those Sunday Blues
May 03, 20200 Comments
Foto de Claudia Paiva Silva

@baguy
Não há como negar. Este isolamento social, esta distância de segurança que constitui um dever cívico, (mais do que uma obrigatoriedade que não o é, nem nunca o foi), provocou em inúmeros de nós uma sensação de perda, de embriaguez, ansiedade, falta de energia generalizada apenas aplacada pelo teletrabalho que muitos, felizmente, conseguiram manter. Confesso que comigo, aparte da incredulidade inicial, acabei por perceber que fui mais ativa do que antes, do que alguma vez até. Conscientemente ganhei toda uma nova forma de trabalhar, de me organizar internamente, regular o meu sistema e organismo, não deixar que o relaxamento tomasse conta, muito menos quando vimos e continuamos a ver tantas e tantas reportagens de gente que nunca baixou os braços, que continuaram sem parar para que nós todos não parássemos de vez. Que nos cuidaram e irão continuar a tratar e a olhar por nós em qualquer circunstância, sem olhar a meios, e, se tudo correr bem, sem terem de escolher quem poderão salvar. Por isso, perante essa consciência de que me deixar levar pela preguiça seria uma vergonha perante essas pessoas, talvez tenha sido a principal razão pela hiperatividade que comecei a transparecer. Ficando em casa. Saindo o mínimo e apenas essencial, ficando a trabalhar até mais tarde, dando mais de mim, estando mais atenta, fazer as tarefas domésticas sem bufar, mas ganhando noção que nunca não se tem nada para fazer no espaço onde moramos. 
Sim, talvez seja uma daquelas pessoas que se tenham tornado irritantes aos olhos dos outros, de tão produtiva que me possa ter tornado. Como podem imaginar, irei parar ou deixar de fazer/ser/acontecer quando o meu corpo pedir descanso. 
Contudo, mais importante ainda, é que foi apenas dessa forma que percebi que existe uma série de criadores nacionais, que passam pela Moda mas também pela Cultura e Arte, e que neste momento estão a sentir já grandes dificuldades em sobreviver. São eles que nos fazem sentir um bocadinho melhor ao longo do dia, são os que escrevem e compõem músicas, os que escrevem os textos e diálogos das séries e filmes, são os que nos levavam ao teatro - e não, não são apenas aqueles "coitadinhos" que seguiram uma profissão que quase parece uma brincadeira - são pessoas com uma PROFISSÃO real, a tal que nos entra pelos olhos e ouvidos dentro, e que acredito, que talvez nos/vos tenha salvo a vida várias e várias vezes em momentos de maior desespero. 
Mais uma vez deixo o apelo. Há que repensar seriamente na forma como iremos todos ajudar para retomar a economia nacional sem esquecer todas as formas artísticas que também fazem mexer os bolsos do Estado, sabendo bem que nada será como antes, que não espero o retorno dos festivais musicais ou outros, onde imensa gente estará presente em núcleos. Será certamente necessário também perceber como irão os festivais do futuro, pós-Covid, ser organizados. Será aliás extremamente necessário saber e aprender a estar em determinados contextos culturais, de forma a evitar o pior. Até lá, e sabendo que amanha é uma segunda-feira, um dia especial e diferente, em que várias das limitações que nos foram colocadas, irão ser amenizadas, temos de pensar um dia de cada vez, passinho a passinho, de forma a todos termos consciência do que isto colocará em forma de peso, nas costas de cada um de nós. Isto ainda não acabou...

@baguy

@julianabezerra

@siennainspo

@art_pessoa

@GuajaStudio

Foto de Claudia Paiva Silva
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Tuesday, April 28, 2020

Moodboard while #vaificartudobem
April 28, 20200 Comments
Continuando a pesquisa entre as várias marcas nacionais, percebi que, sem dúvida e cada vez mais, se encontram colecções dedicadas e inspiradas à Natureza. Padrões tropicais podem mesclar-se com os tecidos mais fluidos de algodão e linho, peças de joalharia, são facilmente pensadas e criadas a partir de elementos naturais, sejam flores ou plantas ou até mesmo elementos telúricos, como formatos de rochas, bem como baseados e inspirados em elementos animais, conchas, búzios, estrelas do mar, uma panóplia de temas que acabam por servir aos vários artistas. 
@beneditaformosinho
Benedita Formosinho teve a visão e coragem de ser uma das novas empreendedoras de moda, dando o alma e o manifesto à cultura nacional. Quem conheceu a colecção de inverno sabe que os materiais de luxo, nobres, utilizados são todos portugueses de origem local e de alta qualidade, nomeadamente as lãs. A presença destes elementos são uma mais valia em cada peça única, de preferência e sempre que possível trabalhada à mão. O resultado são modelos clássicos mas que também apresentem um toque de modernidade, permitindo não só a permanência das influências tradicionais, o respeito pela autenticidade mas igualmente chegarem a um público vasto, de várias idades que procurem a tal relação já mencionada de preço/qualidade/durabilidade. Os chavões "zero waste" e "fair trade" nunca aqui fizeram tanto sentido. Tal como na lei da física, nada se perde, mas sim transforma-se em novos produtos, nomeadamente malas ou carteiras, numa máxima de sustentabilidade. 
@limboshop


@belleepoqueboutique

@beneditaformosinho

@ohMonday
De acordo com as palavras da autora e criadora da marca Margarida Marques de Almeida, mais conhecida pelo nickname @styleitup, a Oh Monday (@ohMonday) pretende essencialmente dar Força e Poder às mulheres. Iniciando com a premissa de slow fashion, as peças da marca foram criadas apenas a pensar no bem-estar e comodidade de cada uma de nós, de forma a que nos possamos sentir elegantes e ao mesmo tempo extremamente confortáveis, sem termos de pensar muito no assunto. No espírito que todas as marcas apresentam, também Margarida pretende que a Oh Monday seja uma identidade nacional de comércio justo e sustentável, onde não haja a tentação de comprar por impulso mas sim pela real necessidade de termos um artigo de qualidade dentro do guarda-roupa. O empoderamento feminino (e masculino) não passa apenas pelo que somos no dia-a-dia e acções, mas essencialmente pelo que não se vê de forma directa - as nossas escolhas pessoais. Pensar antes de comprar faz parte da cultura mais sustentável que podemos desejar. Assim os modelos apresentados apresentam cortes rectos, estruturados, de cor preto ou branco, feitos em Lisboa e com materiais nacionais, promovendo não só o empreendedorismo feminino e desenvolvimento local, como também influenciado para uma escolha salutar na hora de escolher e comprar. 
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Monday, April 27, 2020

Moodboard while #fiqueemcasa
April 27, 20200 Comments
Jardim das Estufas - Palácio de Queluz

Quem disse que estar em casa implicaria uma mudança radical nos comportamentos e mecânica mental tinha e continua a ter toda a razão. Ao final de um mês e meio de encarceramento domiciliário, a cabeça começa a pregar partidas, os dias poderão tornar-se excessivamente compridos e o quotidiano uma repetição ao extremo do dia anterior, como se estivéssemos dentro do filme de Bill Murray* e fôssemos o próprio protagonista, mas sem a marmota. Por agora, nem mesmo com as previsões de chuviscos e tempo mais rameloso as pessoas parecem querer aceitar a ordem de isolamento social, e mesmo correndo o risco de serem recambiadas para as suas habitações, qual pulseira electrónica que disparou o alarme a escassos metros de distância, arriscam-se a ir até ao parque, até perto do mar, onde tantas outras também possam estar, repetindo-se a premissa inicial de um possível risco elevado de contágio. Mas as pessoas são humanas, e habituando-se ou não a viverem confinadas em apartamentos durante a maior parte do tempo, todas geramos sentimentos, estados de espírito, desejos e vontades, que não correspondem a mais do que o total prazer do conceito de liberdade que irá bem mais do que aquele que o 25 de Abril terá ensinado. 

* - Groundhog Day (1993)

Juliana Bezerra - Brincos Majoletti

Guaja Studio - Juliette Knot Top + Francesca Fit Linen Pants

Falamos da Liberdade física, de percorrer espaços que se calhar antes nunca teríamos imaginado. Nunca campos de trigo no Alentejo, alfazemas azuis, jardins cheios de flores silvestres, ou mesmo aquela mata supostamente mal cuidada entre prédios e já no leito da ribeira, nos pareceram tão atractivos. Para mim a juntar seriam dunas, flores e ramagens secas, tons de terra, amarelos queimados, ocre, algum verde de plantas que se conjugam em ambientes extremos, ou de mar ou de deserto. Esse é o meu moodboard actual.  

Super Botânica

Cata Vassalo

Aproveitando a sensação, e enquanto os desejos são apenas isso, uma força poderosa que nos compele a fazer algo impetuoso, mas que por agora não é parcialmente negada, retomei o prazer de percorrer as galerias das várias marcas nacionais que fui (re)conhecendo ao longo dos últimos dois anos. De projectos familiares, pequenos, mas cheios de graça, estilo e design, são agora os mais procurados para qualquer pessoa, acima de tudo por duas razões: são trabalhos feitos em Portugal e porque são sustentáveis, tanto em termos de produtos e tecidos utilizados, como em termos de mão-de-obra, na sua grande maioria. (Podemos falar aqui dos preços "excessivos" praticados pelas marcas portuguesas, mas deixo a questão: acham justo que as nossas costureiras, sim, essas mesmas que agora estão a coser máscaras porque as colecções estão paradas, recebam 1 euro por dia de trabalho como acontece com as que trabalham para as "grandes marcas" que não passam de Made in PRC embora com o carimbo de Milan e Paris? Pois, bem me parece que não). 

Belle Epoque Boutique

Rust and May

Temos assim, uma lista de marcas bonitas com classe para mulher (neste caso), e nesta escolha pessoal, alguns dos artigos que mais enchem o meu gosto pessoal para os meses de Verão, mesmo que este ano possa vir a ser passado em casa: passando pelos linhos e acetinados da Guaja Studio e algodões da Rust and May que podem ser perfeitamente complementados com acessórios da Cata Vassalo e Juliana Bezerra (que apresenta o relançamento dos brincos desiguais Majoletti em prata e prata dourada). Claro que os ténis ou sapatilhas rasas teriam de aparecer nesta minha wishlist, ou no máximo sandálias para o conforto ao andar a passo mais rápido. Contudo e apesar que mais ideias e imagens bonitas ainda estão para serem mostradas, não me compete a mim estar a influenciar ninguém para comprar seja o que for. É importante pensar e afirmar que neste momento há temas bem mais sérios a serem discutidos, vidas a serem salvas, pessoas a lutarem para sobreviver. Mas também é certo que se adivinha com certezas tão letais quanto o vírus uma grande e longa crise económica que irá afectar não as tais grandes marcas internacionais ou grupos de moda, mas sim estes nomes nacionais. Projectos como mencionei que começaram apenas de ideias, que cresceram, que se tornaram sonoros e que também irão precisar de apoio. Uma marca que fabrica poucos artigos de cada modelo irá sofrer um impacto muitíssimo maior do que uma que fabrica 10 mil unidades de uma simples camiseta branca "feita lá fora". O conceito de moda e de compra precisa de ser redefinido sim, mas isso não implica que se deixe totalmente de comprar. A questão é repensar a forma como se compra, as nossas necessidades, e acima de tudo, se o investimento vale a pena em termos de preço/qualidade/durabilidade. Ser-se sustentável é também apoiar as empresas nacionais, a economia local e saber que temos produtos de qualidade que irão durar imenso tempo dentro dos nossos armários.  

Jardim das Estufas - Palácio de Queluz
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Sunday, April 26, 2020

Urbano-Feminino
April 26, 20200 Comments
Pouco tempo antes destes estranhos novos dias que estamos a viver, fui rapidamente e já no último dia de apresentação até Braço de Prata, onde na Underdogs Gallery, algumas das obras mais conhecidas de Tamara Alves estavam expostas. Aproveitando a presença da artista, acabei por lhe fazer uma curta entrevista para a Revista Rua onde nada ficou por dizer, a qual também, percebi pouco depois, poderia perfeitamente ter evoluído para uma conversa onde sociedade e direitos humanos seriam temas chave, além de formas de inspiração, filmes e música, e todo o potencial que o nosso país, de norte a sul, do interior ao litoral tem para dar e oferecer a quem não tenha medo de ser ousado e de correr riscos de parecer ridículo.
Esse texto, publicado originalmente aqui, poderá agora ser lido também aqui no blogue:


Tamara Alves será porventura uma das mais conhecidas artistas plásticas de arte urbana em Portugal. Nascida em Portimão onde viveu até aos 18 anos, filha de pais também pintores que são a sua maior influência, cedo mostrou uma capacidade inata para o desenho complexo que foi posteriormente sendo acompanhada pela forma como lidava com os vários tipos de materiais disponíveis e tintas. Depois veio a licenciatura nas Caldas da Rainha e finalmente Erasmus em Birmingham, no Reino Unido, onde ganhou o gosto pela arte urbana. Nesta sua exposição a solo mostra algumas das pinturas e esquissos mais emblemáticos da sua carreira, onde o feminino e o animal estão sempre presentes, numa definição direta de todo o seu trabalho, onde selvagem se funde com humano e irracional, onde a pele nua de mulher e homem contrastam com a existência de metais do dia-a-dia industrial, onde lobos convivem com a natureza, onde a natureza é no fundo o nosso habitat natural. Onde também há sempre Amor e Paixão.
Numa curta entrevista à Rua, minutos antes de um workshop de desenho para crianças, Tamara explicou como se sente enquanto artista feminina em Portugal, as principais diferenças que observa entre as cidades do litoral e do interior do país em relação ao desenho e arte urbanas e qual o papel do artista na sociedade.
- Como foi o teu percurso desde Portimão até ires para as Caldas? Os teus pais são pintores, de que forma é que isso foi um impulso para ti, uma vez que nem sempre é comum seguir as pesadas dos progenitores?
“Nasci já a pintar com os dedos! A minha mãe diz que eu ainda antes dos 2 anos já fazia desenhos super complexos, muito diferentes daquilo que as crianças da mesma idade fazem. E como ambos são pintores, para mim sempre foi muito natural a forma como lidar com os materiais. Nunca tive medo em experimentar – sabia desde muito jovem o que dava para misturar ou não, sou desenrascada, o que dá imenso jeito na minha área, mas continuo sempre a aprender a ganhar experiência. Felizmente sempre tive uns pais que me apoiaram e incentivaram, nunca me limitaram – lá em casa (em Portimão) existem desenhos meus desde os 9 anos de idade no meu antigo quarto e sempre que queriam partir paredes, pediam-me e ao meu irmão para ir pintar essas paredes antes de mudarem alguma coisa.
Outro incentivo acontece porque eu cresci perto da praia do Carvoeiro, e como no Algarve há muito pouca oferta cultural, havia sempre um deslocamento aos fins-de-semana – às vezes íamos a Lagos ou a Lisboa ver exposições e isso dava para aprender e ganhar mais informação, educar, ver e conhecer.”
- Qual achas que é a principal diferença entre a tal oferta cultural, principalmente artística de pintura, e o conceito de arte urbana, porque é aquilo que começou a ser a tua imagem de marca, com as pinturas em edifícios e murais, entre cidades como Lisboa e o Porto e cidades do interior, como Castelo Branco, onde já foste convidada para o Festival WOOL ou Trás-os-Montes? Como vês que as pessoas reagem?
“Para começar em Lisboa, tu vês tudo e consomes tudo de uma forma muito mais rápida. Tens uma parede, vês a parede, pintas a parede, e vais para a tua vida. Demoras cerca de uma hora a chegar ao café onde tinhas combinado alguma coisa. Nos locais mais pequenos (e nas pessoas mais velhas – aqui independente da região do país), tu vês um maior cuidado com a sua terra e sítio, vês uma valorização pelo espaço que se calhar a nossa geração já não tem tanto. Quando vais então para locais mais pequenos, deixar lá alguma coisa, elas ficam na dúvida, desconfiam do que vais lá fazer, ficam na defensiva e aí é importante conhecer essas pessoas, conviver com elas, ouvir o que elas têm para dizer. E se deixares algo que seja para a cidade, uma oferenda, então que seja algo com uma mensagem. Existe uma responsabilidade social enorme no trabalho de rua. Não é estar a apontar os dedos, ou dizer como as pessoas devem agir, é preciso aliás ter cuidado com o que dizes e respeitar toda a gente – mas se estás na rua, as palavras tem um peso, as imagens têm um peso e se for para passar alguma mensagem que seja algo inteligente.”
- De certa forma são as pessoas mais velhas do interior as mais recetivas?
“Sim, no início ficam muito defensivas, mas depois acabam por valorizar, e gostar, principalmente se já te conhecerem e acompanharem o teu percurso, e guardam aquilo possessivamente, é para eles, deles, defendem aquele trabalho. Já nas cidades “grandes”, a mensagem tem de ser mais direta e mais forte.”
- Viveste em Birmingham. O que achas que é diferente entre o feminino artístico cá, em Portugal e o que conheceste lá fora?
“Eu acho que quando falamos do papel na arte dizem sempre que somos poucas, e sim, a balança esta muito desequilibrada. Mas se calhar é porque tens mulheres que não querem mostrar o seu trabalho, não têm interesse ou acham que não podem. Então eu digo: elas que saiam e que venham fazer coisas. A rua é uma tela de exposição gigantesca e toda a gente está de olhos postos na rua agora. Hoje em dia mais que tudo é aproveitar a “onda” do feminismo, se estamos a ganhar mais consciência, melhor, então vamos mostrar o que valemos. Já passei por situações muito desagradáveis em que me pagaram para estar presente, para fingir que estava a trabalhar e se calhar aceitei com imensa dificuldade porque precisava do dinheiro. Mas qual é afinal o meu papel? É suavizar um meio de homens? Não é! Sei que somos 3 ou 4 muito ativas no meio de arte urbano, mas são várias exposições por ano e vai uma ou outra apenas para preencher o buraco da única mulher que está disponível. E isso é muito complicado, mas é preciso aproveitar e marcar presença para fazer a diferença!”
-Sim, o que é que se pode perder, principalmente durante esta altura?
“Ainda por cima, no meio de arte urbana, há muitos anos atrás, senti que havia uma desconfiança quando dizias que querias fazer alguma coisa. Nós vivemos numa sociedade machista – se hoje uma mulher quer ser condutora de um Uber ou um autocarro, há ainda uma censura imediata porque foi a sociedade que nos faz pensar dessa forma, é normal – por isso é uma questão de darmos a volta. Mas para mim, é uma questão de igualdade para todos. Para uma mulher ter empoderamento, o homem tem de se sentir também empoderado.”
-Tem de haver um equilíbrio…
“Sim, a maior parte das desigualdades é criada devido às inseguranças das outras pessoas.”
- Tu retratas tanto o universo masculino como o feminino nas tuas pinturas.
“Sim. O feminino porque sou mulher e sei exatamente como me colocar na pele de uma mulher. E acho que é importante, já que retrato o peito de um homem nu, retratar o peito de uma mulher também nu, porque é importante assumir-se tanto para um como para outro. Fiz um trabalho no Hospital dos Capuchos, onde o nu era essencial para que fizesse sentido e houve alguém que chegou lá e pintou os seios da figura feminina, mas como se tivesse sido eu a fazê-lo (está muito bem feito). E isso chateia-me. Uma coisa é fazerem tags ou bigodes por cima e isso não me chateia nada, mas quando vão desconstruir o teu trabalho e a mensagem que queres transmitir, isso é algo que me irrita muito.”
-Para finalizar porque já tens um público mais jovem à tua espera na sala ao lado, o que dirias à Tamara de há 20 anos atrás?
“Vai em frente, força e não desistas, porque tudo vai correr bem. Pode doer, mas vai correr bem (risos). Se há persistência, se há amor e paixão, então vai ter de correr bem.”




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Tuesday, April 21, 2020

Acção isolada
April 21, 20200 Comments
Imagem captada do Parque Infantil de Queluz (Av. Républica no passado sábado, dia 18 de Abril)
NOTA: A caminho entre supermercado e casa num parque completamente vazio)

Se algo este confinamento social, esta obrigatoriedade em ficar em casa nos mostrou, é que de repente somos todos artistas, desportistas, cozinheiros. Se por um lado a novidade de ter de ficar em casa a trabalhar (para a maioria das pessoas algo que nunca tinha acontecido) era grande, por outro lado, passou a haver toda uma questão psicológica que ninguém colocou em cima da mesa. O que significaria ficar em casa, seria assim uma total transformação e auto-educação de cada um de nós para termos mesmo de fazer tudo no nosso espaço pessoal - além do trabalho (em horário normal, das 9 às 18, com intervalo de almoço e até pequenas escapadelas para o Nespresso na nossa nova copa que é agora a nossa cozinha, e que se revela em muitos casos, acabar até por trabalhar mais horas por dia, entrando pela noite dentro ou fins de semana), a realização de todas as tarefas domésticas, que agora já nem se podem evitar ou arranjar desculpas para adiar, bem como as actividades lúdicas que antigamente fazíamos na rua, literalmente fora de casa. Com tudo encerrado, com a impossibilidade de até podermos ir a um parque e sentarmos-nos num banco do jardim, o que nos resta? Na caracterização da nossa nova realidade, já muitos sentem a pressão de não conseguirem mais. Muitos pais acabaram por pedir assistência à família uma vez que se torna incomportável estarem em tele-trabalho ao mesmo tempo que tentam evitar que os filhos em idade pré-escolar façam disparates. Estarmos em casa em família não nos torna mais unidos e muitas famílias estão neste momento forçosamente separadas por questões ditas de saúde pública. 
O que é certo é que ao mesmo tempo que a bolha psicológica começa a saltar, continuam a popular histórias incríveis (talvez um bocadinho menos verdadeiras) de tanta gente a fazer tanta coisa, em casa, claro. Exercícios para os corpos permanecerem fit na expectativa de um verão que o vírus já nos roubou (praias encerradas, hotéis que nem irão abrir), pratos culinários maravilhosos, toda uma panóplia de grupos via Instagram, WhatsApp ou Facebook para falarem sobre as mais recentes leituras, jardinagem na varanda, decoração de interiores one-o-one for dummies, pintura (nisto incluo-me), workshops de ponto-cruz e Arraiolos, só, mas só mesmo, para não darmos em doidos com toda esta situação para a qual ninguém sabe quando terá um fim e, por não querermos aceitar o facto de que estarmos em pijama ou fato de treino todos os dias ou não, é algo que já não interessa a ninguém, com única excepção, a nós mesmos.

Livro O Atelier da Noite (Relógio d'Água)
Bolo de Banana e Chocolate da @galeriavinteoitoconcept

E é aqui que quero chegar. Se para muitos este excesso de acções em isolamento parecem apenas provas irrefutáveis que as pessoas não conseguem consciencializar-se para o que se está a passar mundialmente, ou que, estando conscientes estamos sempre ligadas à corrente, por outro, também mostra que o ser-humano é dotado de uma força incrível para não se deixar abater completamente.
Quando isto tudo começou, da noite para o dia, também eu chorei - não há mal nenhum em dizê-lo. Mais, chorei porque me lembrei de tudo pelo qual já chorei na vida, pelas dores que outros me causaram e que, por comparação agora, parece tudo tão pequeno e sem importância. Chorei porque não, ninguém estava à espera que algo assim voltasse a acontecer nesta dimensão e a esta escala. Chorei porque achei que estava a observar algo muito superior à Humanidade. Mas não. Isto não foi um acto vingativo de qualquer deus ou da Natureza, porque se assim fosse não iria atingir apenas algumas franjas da sociedade - este vírus mau, veio mostrar que na mesma balança temos seres-humanos que não mais pensam em lucros e que também temos seres-humanos capazes de se superarem, tentando fazer no seu dia a dia de tudo para não caírem no fosso que os do outro prato querem que assim aconteça. 
Estas mega, hiper actividades são tudo o que nos resta além do medo, além do que é óbvio agora: a incerteza de cada dia, a incerteza de algum dia iremos chegar ao fim disto tudo. Estas acções isoladas são aquilo que por agora nos mantêm VIVOS.









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