É difícil aproveitar melhor o tempo - entre mudanças de emprego, trabalhos extra, leituras, curar o blog (tanto como partilhar no Instagram) deixam de ser essenciais, pese a quantidade de conteúdos que possa ter.
Ainda assim tenho estado atenta. Atenta às tendências, às metamorfoses tão suaves de forma de pensamento crítico, político e, como resultado, social, dos últimos, direi, anos. E a moda nunca deixou de ser influenciada pelos tempos que se vivem.
De fragmentos mais ousados, geralmente em passerelles, olhamos para quem os enverga, nas imagens que nos chegam, também, do seu dia a dia, como pessoas bem mais recatadas e que procuram ainda maior anonimato. O que é contrastante com aquilo que acontece sempre no início de qualquer carreira - a procura por ser conhecido, ganhar famosidade através de mérito (e não pela polémica, que acaba sempre por haver - um ou outro descuido, apenas para apimentar a coisa e siga a banda). Mas agora, parece que chegámos ao momento do "MENOS, ser MESMO mais". Menos exposição, menos partilha, pôr fim às redes sociais, deixar o privado no privado - como se isso por si nunca tivesse gerado uma sensação de misticismo em torno das pessoas, que quanto mais se escondem, mais se pode especular -, deixar os outros pensarem como quiserem pensar.
Seria genial, não fosse, apesar de tudo, o mundo agora ser todo assim. Como se a sociedade não estivesse já tão habituada a ser alimentada pelas páginas pessoais, fotos e mais fotos, comentários e mais comentários, gostos e desgostos. Perguntem a qualquer jovem o que quer ser na vida: elas continuam a responder "influencers", eles já só sonham nas páginas das casas de apostas. Um Matrix (último filme) em enorme pujança.
Voltemos às flores - diz que para esta Primavera/Verão, o que vamos ver são flores. "Grounbreaking!" como diria a outra. Qual bouquet mais grandioso e bonito que o outro, em vários estampados, seja em vestidos, blusas, saias, calças. Uma espécie de homenagem aos mestres, mas acima de tudo uma forma de entender o sagrado feminino. Um regresso às origens primaveris, de renascimento, à água milagrosa, à natureza selvagem, à arte - mas sabendo que as donzelas já não se encontram em perigo, nem em apuros. Pelo contrário - usam a sua feminilidade como uma forma de combate feminista. Mas um combate menos ousado, menos barulhento - e mais recatado.
Por outro lado temos a alta aristocracia da moda - o "mood" que dicidiram voltar e voltar e voltar a copiar da icónica Carolyn Bessette (-Kennedy). Como se a COS ou a Massimo Dutti não tivessem passado as últimas décadas, sim, a apostarem no estilo clássico, moderno, despojadíssimo, com cortes retos, cores que não seguiam os padrões Pantone. E que eu, por muito estranho que possa parecer a quem me conhece, adoro. Um estilo casual, mas cuidado, de quem pega em "qualquer coisa" que tenha ali na pilha e fique a parecer sempre "chic". Não faz parte da aristocracia da moda quem pode, mas quem quer, e é essa a primeira lição. Podemos ter o dinheiro, mas sem classe e gosto, a "coisa" não descola. E sim, existe toda uma situação, um padrão de saber-estar associado. Podes vestir-te, então, bem, com graciosidade, ou originalidade. Mas tens de saber igualmente "estar" nos momentos. Se não sentes conforto, levantas-te e sais - e essa saída marcará uma posição e revelerá muito mais, do que se desatares a elevar a voz.
Se não queres que te incomodem (nem incomodar), podes ser cordata e eficiente no teu local de trabalho, prestativa e com iniciativa, mas mantendo-te na tua onda. Sem grandes grupos, nem grandes espaços para intrusões não solicitadas. Tudo aquilo que é, literalmente, "quiet". Estás entre colegas de trabalho e não num grupo de amigos. E o mesmo se passa em relação à tua vida. TUA vida. Não é de mais ninguém - e se bem que algumas situações não possam ser controladas, podes controlar o grau de informação que deves ou tens de transmitir. Deixa os outros especular, enquanto passas com padrões florais ou optas pelos tons nude em modelos simétricos.
O street style da alta aristocracia da moda é mais do que um conceito ou escolha de roupa. É uma imagem e uma forma de ser e estar. Tanto quanto é a escolha de flores para a primavera. E podem parecer tão díspares ou se aproximarem como se estivessem sempre ligados. É uma forma de luta recatada sim, contra os tempos atuais, de incerteza a cada hora que passa, de crises financeiras e económicas que, não se adivinham, já aí estão.
Mas nem todos somos capazes desta desconexão total. Nem todos nascemos para sermos "bons alemães". E às vezes, a moda também é um ponto de referência - um marco territorial. Como toda a Arte, também se transforma em momentos de maior oposição e desordem.




.webp)

.jpeg)
.jpeg)


