Cláudia Paiva Silva

Sunday, February 01, 2026

Das tempestades e ciclones
February 01, 20260 Comments


Será certamente das publicações mais complicadas de escrever. Não porque não haja tema, ou porque não haja revolta, indignação e espanto associados. Mas porque existem situações que dispensariam palavras, não fosse a memória futura ter uma tendência, incrível, para olvidar tudo aquilo que é negativo e não raramente, traumático na psique humana - que outra forma podemos descrever as vítimas de abuso, de guerra? A sua resiliência para avançar com a vida? 

Há uma semana fomos alertados para a passagem (eventual, em previsão) de uma depressão atmosférica. Mais uma das muitas que têm assolado a península Ibérica este inverno. O anticicolne dos Açores está fora de rota e não faz o seu trabalho. Tudo bem. Recebemos os avisos da proteção civil por telemóvel, ouvimos os meteorologistas do IPMA - Instituto Português do Mar e Atmosfera, a chamar a atenção, nomeadamente para as zonas de maior risco - o litoral, risco de inundação - e, principalmente, para o que se esperava pior (e que se veio a concretiar): os ventos ciclónicos que poderiam atingir terra, sem dó nem piedade. As previsões estiveram ligeiramente aquém, quando as velocidades de rajada aproximaram-se dos 300 km/h, levando consigo telhados, casas, árvores, infraestruturas. E com estes acontecimentos, já 9 pessoas, até ao momento que partilho, mesmo que indiretamente.

Não há forma de fazer frente à natureza. Sabemos que os eventos extremos irão aumentar de frequência, e temos de encarar a veracidade dos factos: as alterações climáticas existem - a um ritmo mais rápido do que ao longo de 4.6 mil milhões de anos de Geohistória. E sim, podem vir os negacionistas falar do ciclone de 1941, das cheias de 1967, ou até mesmo do terramoto de 1755 - a verdade é que se houve mais mortos, maior grau de destruição ou menor, apenas se deveu a uma coisa: zonas menos ou mais povoadas, barracas em zonas de planície de inundação, pobreza extrema, estruturas habitacionais feitas com materiais ainda mais frágeis. Comparar eventos e situações de épocas díspares não é apenas errado. É de uma falta de integridade intelectual, como se tudo fosse comparável. Como se não houvesse diferença alguma.

Existe diferença sim. Poderia, apesar de tudo, hoje, ter sido mutíssimo pior. Ou então, não ter sido nada. Pensando que determinadas regiões afetadas, em tempos idos, estariam vazias de gentes, de construção, de evolução, de maior modernidade. 

Mas é aqui que cai o grito de revolta. Na passada terça-feira, horas que antecederam a entrada em cena da "Kristin" - nome dado à tempestade, estávamos a tentar ver 75 minutos de debate para as eleições presidenciais. E eu só pensava - daqui a 24 horas estaremos é a ver a desgraça que aí vem. 



E é verdade, tudo o que fosse causa para a eleição que será de hoje a uma semana, morreu. Ou, mais ou menos. Porque, claro, a um governo que não faz qualquer ideia do que fazer num momento de crise, liderar, gerir, mais vale parecer do que ser - entre vídeos vergonhosos entre o "vejam o quanto estamos a trabalhar", produzidos diretamente para autopromoção, e desaparecimentos, que dizem ser, estratégicos. Faz recordar um pouco as férias do primeiro-ministro durante os incêndios do verão passado. O mesmo que agora demorou 24 horas a decretar o estado de calamidade em vários municípios - e só o fez porque, lá está, sentiu ou deram-lhe a sentir, a obrigação de se deslocar à desolação. 

E, com tudo isto, é realmente uma vergonha, não-tão-alheia, observar-se uma vez mais que as cidades grandes, centros principais de "ordem" e "decisão" estão sempre mais a salvo destas situações (até ao dia). Que "se fosse cá, em Lisboa" a resposta das autoridades, do governo, teria sido célere, imediata, eficiente e eficaz. Mas claro, quem mora atrás do sol posto (se bem que Leiria não é, nem de longe - ao contrário do que Clara Ferreira Alves fez questão de, maldosamente, dizer no último Eixo do Mal (está muito enganada a senhora) - uma das regiões mais pobres do país), terá de se aguentar num "salve-se quem puder". É triste essa continuidade de separação entre os "supostamente" ricos ou próximos do Poder Central e, pobres. Como se realmente isso correspondesse a qualquer verdade... 

E pior ainda é vermos, sentirmos, como, noutro ponto, já falado na última publicação, a nossa capacidade de resiliência energética, de alternativas à desgraça, é colocada em causa. Uma ordem despudorada em eletrificar tudo e todos - como se fosse a última resposta do pacote de bolachas, para a transição verde, descarbonização e outros. Uma mentira pegada. Porque verificamos que quando a energia falha, TUDO FALHA. Quando não há outras fontes de energia passíveis de serem usadas - TUDO FALHA. Quando um governo apenas sabe dar dinheiro para eletrodomésticos elétricos, carros elétricos, painéis fotovoltaicos, TUDO FALHA. 

E, se querem mesmo saber... não é apenas "isso." Não é "apenas" isso. É toda a cadeia de valor associada. O ciclo de vida de todos os produtos: desde a matéria-prima que, uma vez mais, "not in our backyard" mas se vier lá do cu de judas, não é problema nosso, é a indústria de produção e transformação que vai sendo engolida pelo que já vem feito de fora da União Europeia. 

Todas as situações que se nos colocam agora têm impactos e têm uma história. O passado, o presente e o futuro estão a aparecer à nossa frente, e que fazemos? Nada. Não sabemos como dar resposta - não sabemos mesmo. Não me questionem o que se poderia fazer para prevenir, porque fora as diferentes alternativas de energia, uma fiscalização (que não existe) às construções feitas em leitos de cheia, uma rede elétrica que deveria estar a ser planeada para o subterrâneo, e uma maior educação ambiental e sensibilização das propulações e comunidades ou, agora, hospitais de campanha ou tendas para responder às famílias que estão, literalmente, sem tecto, Exército - e outras forças armadas -, na rua, eu não sou gestora, nem líder de nada, e muito menos sou a cabeleireira que agora é responsável pelos espaços verdes da Câmara Municipal de Lisboa. Não sou política, nem pretendo ser - fervo em pouca água e seria constantemente sancionada por mau comportamento e violência física. 

Mas sei que isto revolta, porque, com cada macaco no seu galho e estamos em estado de sítio. Um abandono total. 


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Thursday, January 29, 2026

não percebo nada disto...
January 29, 20260 Comments

 


.... mas.... (a autora cinge-se a escrever no seu blogue e não na sua conta de LinkedIn com risco de ser amplamente ostracizada pela comunidade científica, energética, na qual, pensa ela, que se insere).

talvez eu esteja a pisar em ramo verde, areias movediças e a colocar a minha cabeça na guilhotina ao fazer esta questão, mas... está Portugal realmente preparado para uma transição energética pautada (quase e apenas) pela eletrificação? 

Parece claro que são essas as orientações (regras) da Comissão Europeia, e que também parece ser esse o (único) caminho que o Ministério do Ambiente e da Energia quer que tenhamos. Mas questiono mesmo se Portugal está preparado para tal mudança. Falamos muito em infraestruturas e em veículos elétricos e em apoios para painéis solares (minas não, painéis solares com impacto ambiental e visual, sim, sem problema - é "verde" mesmo que precisemos de matérias-primas críticas para o seu fabrico) e na descarbonização da indústria atarvés de biometano e hidrogénio verde via eletrólise (e a gestão de água??). Mas quando verificamos que a rede nacional nem sequer consegue aguentar apagões, ou tempestades, não posso deixar de ficar na dúvida quanto à nossa resiliência.

E depois temos as justificações elevadamente técnicas quando na verdade apenas deveria ser: quando temos picos de consumo elevados, ou situações de eventos climáticos extremos, e a rede de produção não consegue dar resposta, "afunda", e é possível que haja uma falha geral. O mesmo quando temos, numa habitação com pouca potência, por ser antiga, pela instalação ser obsoleta, pelo quadro elétrico também estar a precisar de reforma: uma maquina de lavar e um forno elétrico a trabalhar em simultâneo - a energia vai abaixo. 

Agora imaginem o que seria se, nos prédios construídos entre os anos 50 e 70, onde por assoalhada, no máximo existem 2 tomadas, ainda fôssemos carregar um veículo elétrico  - e é porque sai mais barato do que carregar em postos de carregamento na rua!! 

E sabem o que acontece quando temos uma frota de veículos elétricos de transporte de mercadorias a carregar em simultâneo junto a certas comunidades/localidades? Ou é a frota, ou é a cidade que se abastece. 

Por outro lado, há-de ser linda a imagem dos tradicionais telhados dos casarios, tudo em barro vermelho, serem "substituídos" por painéis eletrovoltaicos. Em todo o lado. Em todo o país.

Ainda assim duvido que tivéssemos uma rede eficiente o suficiente para conseguirmos o feito de sermos sustentáveis - quando andamos a importar energia de fora. Valha-nos as barragens. 

Agora pergunto, é normal o que se passou em Leiria e nalgumas outras zonas do país onde ainda não há energia?? Se queremos ser um país eletrificado, porque demora tanto tempo, pelo menos, a reposição da electricidade? "Porque houve um fenómeno extremo" - ok, o que significa que não existe qualquer capacidade de prevenção, apenas mitigação. Depois do mal estar feito.

E apenas me fico com isto, porque para mim, uma transição energética bem feita, justa, equilibrada, europeia, passaria pela pesquisa e prospeção de matérias-primas, que respondessem à indústria química e transformadora, ajustando-se com a produção em território europeu de combustíveis de baixo carbono que pudessem substituir os de origem fóssil (ainda que não na sua totalidade, em percentagens superiores de incorporação na mistura de abastecimento final) e, aí sim, contando com as energias sustentáveis, como o vento, a água e o sol que, como sabemos, podem falhar facilmente. 

Mas isso são outros 500. 

entretanto fiquem com: "Em Espanha, a queda na produção deveu-se à paragem da produção de eletricidade eólica, porque o excesso de vento durante a noite provocou a paragem de várias centrais, que param automaticamente por razões de segurança quando o vento sopra agressivamente. As centrais a gás natural foram chamadas para dar resposta à grande procura de eletricidade, com o jornal espanhol a apontar que a energia hídrica não conseguiu dar resposta, pois já estava em níveis elevados de produção." que pode ser lido AQUI, sobre o quase-apagão de ontem no país vizinho. 

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Tuesday, January 27, 2026

so this is Christm... carnaval, outra vez, and what have you done, até agora..
January 27, 20260 Comments



os anúncios publicitários não deixam margem para dúvidas! Então aquele sobre investimentos é, deveras, elucidativo. Além de informar que já estamos em fevereiro, vai mais longe até, afirmando que, não tarda, já estamos mas é em 2027 (garrafas de champanhe e fogo de artifício incluídas nas imagens). 

Mas a verdade é esta... grandes objetivos, grandes planos, grande mudanças se esperavam para final de 2025 e foram empurradas para logo logo, início de 2026- Chegamos a 2026 e é tudo colocado em "stand-by". Porque burocracias, porque outras urgências, porque eleições (novamente e novamente e novamente, sabemos lá). Porque, "tem de ter paciência e saber esperar". Porque estamos em reestrutuação, porque estamos em mudanças de equipa, porque temos agendas super cheias e outras já completamente lotadas. 

Ou seja, chegamos a fevereiro e o que é que afinal fizemos ao longo deste primeiro e imensamente longo e louco mês de janeiro? Nada. Temos estado a fazer o mesmo, ou a preparar, na esperança de melhores dias, projetos, iniciativas, trabalhos, ideias. Temos estado a olhar as notícias não acreditando que a distopia dos livros que líamos há 20 anos e que foram escritos ainda num tempo em que havia meia dúzia de máquinas, se tornou a nossa realidade. Banalizámos, completamente, o mal, como a Hannah Arendt tinha preconizado. E aceitamos e normalizamos, porque estamos a ver que ir contra acaba connosco dentro de um caixão. 

O que fizemos durante janeiro? além de trabalhar, naquilo que já dei por garantido, sem garantias algumas, adquiri uma série de livros novos (mas não edições recentes) ainda em dezembro, as quais estou a desfazer, literalmente, em leitura, nos finais de tarde e fins de semana de chuva intensa, vento, mais chuva, mais neve, mais frio. Sim, porque dedicar-me à cultura física, como tanto apregoei, torna-se impossível com dias permanentemente ou cinzentos ou bipolares. Aproveita-se para colocar a escrita em dia aqui no blogue que ninguém lê (aliás, só lê quem eu NÃO quero que leia, porque não quero essas pessoas presentes na minha vida). Estou a generalizar. Sei que certamente ainda lê gente interessante. 

Vou pensando em temas para apresentações em seminários, onde a minha área de estudos base possa imiscuir-se com a tal arte que busco agora também aprender - e não é nada esotérico. Pretendo sempre aos fins de semana conseguir escapar-me para algum museu ou exposição que ache importante - sem nunca o fazer porque os fins de semana passam a correr, essa coisa inexorável que é a passagem do tempo -, e há sempre mais que fazer e com que nos preocuparmos, tarefas domésticas, compras de supermercado, resolução de situações in situ.

e no meio disto, chegam os 42 anos de vida e o Carnaval que vai começando a antecipar a Páscoa. E, sem contarmos, claro, que temos de ser os Cristianos Ronaldos das nossas vidas, com pena de nos arriscarmos a sermos, como somos, na maioria, medíocres. Aliás a palavra meritocracia, que é uma falácia, deveria ser substituída por mediocracia. Isso sim, faz mais sentido. Quanto mais medícore, mais longe cheganos. ChegaMOS. Peço desculpa.

Por isso, sim, há que continua à espera, a ter paciência, porque já sabemos como o país funcionar, devagar, a modos que parado, mas deixem lá o outro trabalhar. E que venham mais umas 5 eleições que já andamos com pouco circo. Aliás, fevereiro? O que andámos a fazer até agora? A preparar o caos... samba que se adivinha. 

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tu não és de cá
January 27, 20260 Comments

afinal, afinal, os resultados das eleições, não foram os por mim esperados - mas deram-se surpresas ainda assim. Nomeadamente na Madeira - quem diria que uma população que sempre foi de direita quisesse continuar AINDA MAIS à direita, um bocadinho mais radical, batendo no peito o direito à total separação de poderes com Portugal do "continente", aquele Portugal pobre, cubano (#PorquePS), com turistas pé de chinelo (que salvaram a economia turística madeirense durante o Covid), e que, para cúmulo, quando se chateiam ainda dizem "tu não és de cá, não sabes como isto funciona, não é por vires todos os anos, duas semanas que ficas a conhecer". Pois não, quem está de fora, mas conhece as pessoas por dentro, não faz ideia de como funciona a política regional, os favores, as influências. Chama-se a isso corrupção? Pensava que era assim que sempre funciona, em qualquer região do país. Não se iludam porque os novos salvadores da pátria já mostraram ao que vêm. Só se engana, agora, quem realmente quer. 

Mas a questão continua a ser, no fundo, o "tu não és de cá". Porque é aplicado, ultimamente, à exaustão. Primeiro pelo estrangeiro imigrante, depois ao emigrante, mas como lidar e gerir quando não somos de cá, aos que são? Como saber manter a calma, com risco da coisa acabar mal, quando, por oposição argumentada à ideologia que o outro quer impor, nos respondem "tu não és de cá - ou melhor, és, mas vais deixar de ser, porque vais ser expulsa como todos os que defendem A, B, C...". 

É isto que dizem que querem? Esta "liberdade de expressão", esta "democracia"? É que se sim, não contem comigo. Porque eu sou de cá. E sou da Madeira, e dos Açores. Sou Portuguesa, porra! E defendo o direito à liberdade dos outros. Mesmo que sim, os ache e chame de estúpidos e chalupas - nunca os mandei calar. Alías, aqui estamos não é? E atenção, isto não é apenas mimo fofo a quem vota em partido A D ou E. É mesmo para quem desvaloriza a educação e conhecimento científico, a quem espalha mentira, desiformação, a quem ache que a arte e a cultura deveriam ser destruídas porque "moldam politicamente" a sociedade. Quem escreve e diz isto tem medo. Tem cu, claro, e tem medo de se cagar todo, se um livro, uma canção, ou peça de teatro possam tocar nas suas crenças. Filhos, as revoluções artísticas dependem da política e a política está intrinsecamente ligada à criação artística. No dia em que deixarmos de sentir, esse sim será o dia em que "já não seremos de cá". 

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Saturday, January 17, 2026

the upside down... com MAIÚSCULAS
January 17, 20260 Comments


Passaram-se apenas 17 dias - logo nos 6 primeiros, deus fartou-se de trabalhar e ao 7º ainda nos pregou um susto com a Venezuela. Temos de IDOLATRAR os nossos ícones e deuses, senão seremos castigados.

Passaram-se apenas 17 dias - e parecem 13 NOVOS MESES. Puta de ano!

Certamente que ninguém, mas NINGUÉM, tinha dúvidas que 2026 não iria ser melhor que 2025. Ou se achavam que sim, pois... são os que aprovam e escolhem e votam numa nova ordem mundial, a qual já ando a reconhecer sintomas há uns 20 anos. Mas, como de costume, eu sou sempre uma exagerada. 

Amanhã, dia 18, Portugal vai, NOVAMENTE a eleições. Depois de ano e meio com legistlativas, mais umas autárquicas que parece só me terem colocado a vida (profissional) em stand-by eterno, faltavam as "presidenciais", claro. Umas eleições renhidas. Nomeadamente pela falta de atributos que possamos dar a cada um dos 1000 candidatos que amanhã teremos para escolher, "minus" 3, que estarão lá só para confundir. Ainda. Mais. 

But first things, first! Não tenho iguais dúvidas que Portugal não é diferente de mais nenhum país europeu, ou, a ver, mundial. Numa onda de radicalismo a todos os quadrantes políticos, estamos claramente à beira de regressar a um mundo às direitas, que, na verdade, não irá passar de um "upside down". Como a base do Carnaval, no qual a troca de papéis permite os excessos a todos os níveis e requintes de malvadez. E sim, há muita gente a ser levada pela ideologia e a acreditar que assim, com velhos costumes (mas, dizem, modernizados) é que voltamos ao caminho do "bem" - não raramente associado à religião. Temos realmente de idolatar os nossos DEUSES políticos. Até mesmo porque, não querendo, de todo, comparar com tempos que já lá vão, como a idade média, na qual não havia vacinas, as pessoas eram influenciadas a não tomar banho, e tínhamos uma SANTA INQUISIÇÃO com os seus Familiares, ou mesmo, alguns séculos depois, já em pleno século XX, onde uma PIDE com, também, os seus familiares, faziam as delícias das famílias de bem, podemos estar a escassos momentos de entrarmos numa época moderna de censura, onde as distopias já não serão distopias algumas e tornam-se a realidade dos nossos dias e momentos. 

Mas calma, que hoje é dia de reflexão e eu estou aqui, apenas e só, a refletir na podridão a que todos chegámos. Um desbafo se assim o entenderem. E sim, eu sei que EU é que estou ERRADA. Porque todos são mais inteligentes que eu, e sabem as COISAS da vida pela experiência que a mesma lhes deu, embora sejamos uns privilegiados, geralmente, brancos, que nunca passámos por situações de preconceito ou ostracismo. Bom, enquanto mulher, quantas vezes, nomeadamente nos últimos tempos e, exatamente pelos belos, brandos costumes a que queremos regressar. Porque mulher séria e honrada é aquela que se mantém no seu recato. E já se entendeu como eu sou, não é?

Mas tudo bem. Em Portugal, como sempre, aliás, está sempre tudo bem. Vai correr tudo bem. Seremos sempre felizes neste nosso modo de ser "português suave". 

Mas ninguém nos livra da infelicidade de uma nova liberdade que não será assim tão liberta.





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Sunday, December 14, 2025

luz e sombra
December 14, 20250 Comments




Nunca, ninguém, me irá conseguir explicar porque é que algumas pessoas permanecem coladas à nossa pele, à nossa mente, mesmo quando sabemos que não fazem (nem nunca fizeram, na realidade) parte da nossa vida. 
Nem nunca, ninguém, me irá consegui fazer entender porque é que, volta e meia, lá vêm novamente dar à nossa costa mental, como se as tivéssemos visto pela primeira vez, mesmo sabendo de tudo o que veio a seguir. 
Dizem que é feitio (do lado delas) e que é paranóia (claro, sempre, do nosso lado). Mas desculpem os mais "eloquentes" na matéria (que nunca o são!) - sabemos bem que nem todas as pessoas são iguais, e nem todas se conseguem tatuar em nós. Não é sequer porque quiséssemos que isso pudesse acontecer ou não, mas porque elas também sabem como marcar. Para o melhor e pior.

E será que isto quer dizer que, no fundo, apesar dos avisos e alertas, de todas as "bandeiras vermelhas", da "prova dos factos", somos masoquistas? Gostamos de - não diria sofrer, mas sim, moer novamente os porquês? Ou simplesmente, passados uns tempos, queremos apenas relembrar os melhores momentos? E quiçá, um dia, até nos possamos rir (ou sorrir, vá), com a situação. 

Não sei. Mas sei que há momentos que não se explicam - pessoas que não se explicam - situações que não se explicam. Mas que aconteçam por alguma qualquer razão. Essa sim, que só nós havemos de inteiramente compreender um dia. Luz e Sombra. Em equilíbrio. Talvez, finalmente. 

 

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Sunday, December 07, 2025

... insondáveis personas
December 07, 20251 Comments


É difícil (para mim) largar um determinado tema ou assunto quando me toca, quando é bem exposto, melhor argumentado. 
E de repente, qual amálgama de coisas, temos várias sensações e lembranças e detalhes a serem colocados, novamente à luz dos nossos dias. Dos meus dias. Porque as histórias dos outros, em papel, acabam por se revelar as nossas experiências e memórias. Nem sempre bonitas. 
Terminei há dois dias o "Melhor Não Contar" (Elsinore) de Tatiana Salem Levy. Tal como já referido, um texto autobiográfico, cru e sensível, escrito de uma forma tão imensamente pessoal que revela o quanto de mágoa e dor existe por, 1º, ter sido vítima de assédio ao longo de toda uma pré-adolescência e durante a mesma, em pleno, 2º, por uma questão de respeito, de AMOR, nunca o ter revelado à mãe, e, pior, ter sempre sido aconselhada que era "melhor não contar".
E existem passagens, várias, que mexeram e mexerão com quem foi igualmente vítima de qualquer assédio ou abuso físico, psicológico ou sexual - principalmente se o leitor for uma mulher.
Ao longo das páginas existe uma pergunta que salta à vista: quantas vezes uma mulher se torna mulher ao longo da vida? Será da primeira vez que vemos o nosso corpo mudar? Será na menarca? Ou será quando sentimos, pela primeira vez, o olhar menos "próprio" de um homem (geralmente mais velho, geralmente com aquele aspeto e idade de ser nosso pai, tio, amigo dos nossos pais, da família). Será que é quando sentimos pela primeira vez algo semelhante com tesão e excitação? Ou será que é quando nos sentimos culpadas, envergonhadas por todas essas situações? Teremos certamente feito algo errado para que nos olhem dessa forma, para que nos toquem de certo jeito. Será a roupa que vestimos, antes de sequer termos 10 anos? Será que são os pequenos seios que começam a despontar? Será que é o ganho de consciência (no caso, de alerta) que as outras mulheres nos coloca em cima, exatamente para alertar que "tudo pode mudar" do nada?
Tenho quase 42 anos, e só no último ano e meio tenho ganho a coragem de partilhar com mais gente - homens e mulheres, mas sobretudo homens, que aos 8 anos um vizinho me susurrou coisas ao ouvido que escuto até ao dia de hoje. 
Tal como no livro de Tatiana se fala em detalhes (ela lembra TODOS OS DETALHES que precederam e procederam o assédio do padrasto), acho que todas (e todos) nós, vítimas de abuso, sabemos exatamente o que aconteceu antes, durante e depois - não é algo que se esconda na nossa mente (a não ser que o trauma seja brutal), e se sei que estava na farmácia X e que tinha uma saia vermelha de bombazine (aos 8 anos!!!) é porque os detalhes importam, acontecem e tornam tudo real. Tudo FOI real.
Depois, os anos passam e temos várias formas de lidar com o sucedido. Podemos repulsar, podemos levar a nossa vida de forma natural, ou o mais normal possível. Podemos partilhar, podemos contar.
E, sabendo que a maioria das pessoas prefere não saber, prefere não ser parte do trauma, da história, como se isso, de forma imbecil, aliás, os tornasse testemunhas de algo que não vivenciaram (e os homens têm um elevado narcisismo sobre isso - querem sonhar que são sempre os primeiros a nos desflorarem), quando nos exmpressamos levamos com a tal pergunta do: "para quê tanta exposição"? Porque é importante mostrar que podemos ser a pessoa mais "normal" do mundo e aos 8 anos de idade somos vítimas de palavras ao ouvido que sabemos que não estão corretas e sabemos disso. 
O instinto de sobrevivência alerta-nos sempre para quando algo está errado.
Tal como nos alerta para os diferentes equívocos ao longo da vida - e sim, porque temos todo o direito ao flirt, à brincadeira não-tão-inocente e que é tão saudável, mas que pode, claro, levar a outros subentendidos. Há que ter a sorte de termos homens, a sério, à nossa frente que entendem o nosso NÃO. Que o ouvem. Ou que o entendem também. 
Por isso, quando escuto pessoas a dizerem que quando chegam a casa a última coisa que querem ouvir ou debater, são os números de violações ou de violência doméstica ou contra as mulheres, eu apenas respondo: a maioria das mulheres apenas quer chegar a casa. 
E isto associa-se, estranhamente também à questão do que se quer para a vida, adulta. Hoje em dia, como escreveu Isabel Saldanha no seu blogue as relações já não são as mesmas que na época dos nossos pais ou avós - presos entre a expectativa e todas as burocracias associadas, um relacionamento torna-se moderno, e talvez não queiramos já as mesmas coisas. E dentro dessa modernidade impera, e ainda bem, a independência (feminina) que tantos temem. "Vais ficar para tia" "Quem vai tratar de ti no futuro" "Não sentes falta de ninguém" - falta de quê mesmo? Problemas, crises de ciúmes, ter a obrigação de estar sempre disponível, almoços de família (que muitas vezes nem gosta de nós?). Citando "Uns agarram-se à solidão como escolha. Outros agarram-se à relação como tábua de salvação" - e com isto cometendo erros sem precedentes -, "E muitos vagueiam no buffet das aplicações, onde ABUNDÂNCIA NÃO SIGNIFCA INTIMIDADE e onde DESLIZE NÃO SIGNIFICA DISPONIBILIDADE". 
E é isto - é exatamente ISTO - para uma Mulher, brincar, flirtar, "be one of the boys" poderá ter consequências inacreditáves, porque por muito que sejamos abertos, modernos, versão beta e zeta, a nossa génese e ADN continuam a ver o filme tradicional. Onde nos tornamos disponíveis e onde barreiras se diluem porque "deste a entender". Acreditem, quando queremos (todos nós) haverá sinais. E é importante saber ler qual é o limite. 
Mas não nos peçam para calar, para não partilhar, para não mostrarmos como somos, quais os nossos traumas, o que gostamos ou deixamos de gostar. Somos assim, eu SOU ASSIM. Como se diz "é aceitar". 

 

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Sunday, November 30, 2025

propósitos de escrita
November 30, 20250 Comments


Dizem que estou sempre a escrever, sempre ocupada a ocupar a minha cabeça com ocupações, nem sempre entendíveis, aos outros, claro.
Dentro das ocupações a escrita, a escrita para o trabalho, a escrita para os estudos, a escrita para o blogue, a escrita para cenas do dia-a-dia. E para essa redação intensiva, a leitura, de livros, documentos, artigos - Para quê? Porque perdes tempo? Porque não estás mais diponível quando "precisamos que estejas presente, mentalmente disponível para nós, para mim!" "Larga isso. Isso são as tuas desculpas para não aceitares que precisas de alguém que te preencha esses vazios. Ou melhor, o que precisas é de ocupar a cabeça com os nossos (meus) problemas - tentar resolvê-los, ajudar-nos(-me). Nós (eu) é que precisamos de ti, não és tu que precisas seja do que for".

Derivei. Peço desculpa.

O objetivo, hoje, é falar sobre o papel da escrita, da história, das fontes usadas: manuscritas e orais. Saber até que ponto o acrescentar um ponto, ao conto, altera de forma irrecuperável, a veracidade do que aconteceu. Ou enviesa quem lê. 

Na formação que estou a realizar, uma das disciplinas fala sobre a Contribuição da História Local no Turismo. A ideia será fazer um trabalho final no qual mostremos um caso já conhecido, se quisermos, e mostrar como a história (a sua história) poderá tornar-se um objeto com potencial turístico. 
Contudo, até lá chegarmos (e, nos entretantos, eu já sei o exemplo que quero usar), consideramos a leitura de artigos que nos permitam refletir sobre o papel da comunicação, da criação e utilização da história local, da sua importância, até mesmo para a construção da História (Nacional), propriamente. De alguns dos seus episódios. Pelo menos.

De forma coincidente - se bem que, pode não ser uma coincidência, mas sim uma interpretação pessoal, dois livros que estou atualmente a ler, "Melhor Não Contar" de Tatiana Salem Levy (Elsinore, 2025) e "Recordar 1755" (Quetzal, 2025) de André Canhoto Costa, refletem, cada um à sua forma, e no seu contexto particular, a mesma complexidade. 
Até que ponto serão os registos autobiográficos, orais e manuscritos a vertente real da história - principalmente no que toca, por exemplo, a casos de abuso sexual ou violência doméstica (feminina ou masculina, não interessa). Ou, serão os estudos analíticos e exatos da Ciência, mais fiáveis do que a história oral, também passada a papel, por todos aqueles que assistiram e sobreviveram a um dos maiores eventos naturais (tornados catástrofre pelo impacto à escala humana) que Portugal (e a Europa) conhece da idade medieval?

Outra questão que se levantaria - até que ponto a palavra escrita de uma mulher vale tanto como a de um homem? Nós, que, como bem levantado por Tatiana, sempre fomos ensinadas a escrever para dentro. A sentir, sim, para dentro, "é melhor não contar. Para quê a exposição? O que ganhas com isso? Tens noção que ninguém vai acreditar? Porque as mulheres exageram? Enfabulam muito?".
"Escrever é complicar as coisas" pode-se ler na página 125 da autoria luso-brasileira. Daí escrevermos diários desde jovenzinhas. Livros de detalhes quotidianos, não diferentes dos blogues, por acaso, muito de menina, de menina-mulher, que não devem ser revelados, por conterem a nossa essencia e intimidade - mas são essas mesmas pessoas, que geralmente nos dizem que devemos escrever para dentro, que nos querem ver nuas (nus) por fora. Qual voyeur que cheira preversão à distância, que se sacia com as "revelações dos outros", que se satisfaz a ler aquilo que, para quem escreve, é uma dualidade de sensações e sentimentos. Ou uma culpabilização atroz - terei provocado aquela pessoa propositadamente? Terei flirtado? E porque é que alguém me enoja na mesma proporção que o outro/a, nos deixam um vislumbre de expectativa? 

Mas na verdade, o contar a história, carece de maior cuidado. Na escrita, na linguagem, naquilo que se quer ou não contar, expor, partilhar? Será que o escritor procura partilhar a sua visão ou a visão dos outros? 
O que é muito diferente do que contar uma outra história, o escrever um romance. Mas também nesse campo vemos subtis diferenças. Ou, por oposto, grandes vazios intelectuais. Por vezes a história melhor escrita e contada, é aquela que, até certo ponto, se conhece, se ouviu, se viu e se viveu. Mesmo que ficcionada, mesmo que embrulhada em personagens catatónicos - a verdade é que se sente a sensibilidade latente. Coisa que quando estamos apenas a olhar papéis, a relatar acontecimentos, eventos, padrões, números, não vamos nunca acresentar - rápidos e sucintos. "Despacha-te com isso - estás a expor-te demasiado, estás a escrever demasiado, estás a revelar demasiado - o que pretendes com isso? Provocar? Chamar a atenção? Tens-me a mim para te ocupares." 

A bem da veracidade dos relatos históricos, geralmente em monografias, principalmente a partir do século XVIII, os seus autores, mais ou menos ilustres, mais ou menos conhecidos, eram homens. As mulheres, a sê-lo, usavam pseudónimos masculinos.
Também por ser verdade que às mulheres era interdita a alfabetização (só em círculos restritos e em determinadas elites poderia haver uma variação à norma social). Mas a verdade é que a "História tende a engrandecer os homens e a diminuir as mulheres", colocando-as como objetos de boa escolha e eleição por grandes líderes. Para amparar, para anuir, para incentivar, muitas vezes abdicando das suas vontades e escritos, em prol do bem maior. Não, não se chama altruísmo, mas sim uma total autodesconsideração, desamor. 

E sim, ainda ao dia de hoje, os propósitos de escrita são vistos de forma distinta. É dada maior relevância, agora, a quem grita mais alto - e numa época de desinformação, de influência política, de politicamente correto, correntes "wokista" e o seu contrário, a nossa História passada, também corre o risco de ser negada, e isso torna tudo extremanente perigoso. 

"Já paraste? Não páras, nunca páras - olha para mim, eu é que preciso de ti, não os teus escritos que não vão mudar a vida de ninguém - mais uma coleção de caracteres e cadernos que serão lançados ao aterro das memórias no futuro. Já pensaste nisso? Como a tua/vossa escrita não vale nada?" "Agora coloca-te disponível, mas apenas para mim". 

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Thursday, November 27, 2025

do infinito até aqui
November 27, 20250 Comments



Chegando a dezembro parece impossível não observar dois fenómenos: o primeiro, a rápida passagem do tempo. Esse, do calendário. O segundo, a força inexorável que nos obriga, a partir de determinada altura na vida, por diversas razões, quanto mais não seja, maturidade, olhar para trás e fazer um balanço do que foi, preparando-nos para o salto futuro do que há-de ser. 

E se por muito que possamos cair em tentação de pensar que não faz qualquer diferença, que é um dia de cada vez (e sim, essa forma de ver a "coisa" é muito apetecível e dá jeito em determinadas circunstâncias), a verdade é que teremos sempre de lidar com as consequências das decisões e ações, palavras escritas e orais. Ainda mais hoje em dia, quando tudo parece ficar guardado a eterna "nuvem" invisível que é a "rede global alargada". 

Ainda que não entre em detalhes, sei que 2025 foi um ano extraordinário. Em todos os sentidos. De trabalho ao pessoal. E não porque tenha sido pautado com inúmeros êxitos, mas sim por variadíssimas situações que me trouxeram ao dia de hoje. A este mesmo presente com que vos escrevo e que, garanto, me preencheram grandemente. Para o melhor e pior. 

Mais ainda, se me dissessem há precisamente um ano o que "dali a um ano" iria acontecer, diria que "não, jamais, é impossível". E, o que sei, é que em 2026, daqui a um mês e uns dias, mais uma volta a minha vida irá dar, mais um novo caminho, a juntar aos outros todos. 

E quanto às pessoas que me acompanham ou acompanharam, só posso dizer que existem algumas palavras que glorificam os últimos, quase 365 dias: ensinamento e espanto. Pelo menos por agora. E ambas resultam, exatamente, com o mesmo propósito da tradicional "gratidão", para o positivo e negativo, para os momentos desafiantes e para os mais virtuosos. Sem dúvida que foi mais um carrossel neste caos de ideias que sempre me identificou enquanto pessoa e, enquanto mulher. 

Contudo, algo ganho com cada vez maior clarividência: o que quero e quem quero perto de mim, ao meu redor, na minha vida. E se corto, é porque sei que não me faz bem, não me acrescenta, mas sim tira força, energia, vida. Não quero mais isso para mim. Não quero ser aquela de quem os outro dependem, a que está sempre disponível a dar, mas sem nunca receber. Há coisas que cada vez mais vão mudando. E essa é uma delas. 

Não faço resoluções - já percebi que a vida é feita de muitas surpresas e, mesmo que o universo conspire a nosso favor, somos nós a força motriz para que algo aconteça de real. Somos a nossa própria força. E isso, em mim, passa pelo poder da Palavra. Não serei, igualmente, a recatada, a calada. Mesmo que não vos agrade. E, sendo demasiado simples nestas minhas frases, o que quer que não vos agrade de mim, é apenas um problema de perspetiva vosso e não um problema meu que tenho de resolver. Não somos obrigados a gostar seja de quem for, mas temos de aceitar a convivência educada. No mínimo, espera-se, espero, educação. 



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Tuesday, September 23, 2025

dores de crescimento
September 23, 20250 Comments



Achamos que a vida, às tantas, já não supreende - que já aprendemos todas as lições e não voltaremos a cair em qualquer espécie de ilusão ou engano. 

As experiências, o conhecimento, o saber lidar com crises, situações e, principalmente pessoas, fazem-nos fortes, sabedores, enfim, colocam-nos preparados para qualquer evento extraordinário que nos aconteça. Ou não será?

Nada mais errado. As dores de crescimento poderão ser sentidas até ao dia em que apagarmos a luz e fecharmos os olhos. Porque, das duas uma, ou nos encerramos ao que nos rodeia, de forma permanente, e vivemos algo semelhante a sobrevivência, sem nunca nos entregarmos realmente a nada, seja um trabalho, um hobby, a uma ou a várias relações, sejam amorososas ou de amizade, ou então vamos com tudo, entramos a pés juntos, batemos no rail de proteção e ainda assim, cá estamos para contar a história. E isso provoca dores sim. De crescimento, exato.

Nem sempre é fácil entender o porquê de algumas coisas - muito menos quando nos ultrapassam e estão fora do nosso controlo (e como todos adoramos controlar tudo, não é?). Não temos culpa das atitudes de outras pessoas, dos seus silêncios, dos seus afastamentos, do porquê nem tudo acontecer exatamente quando queremos e desejamos - sim, é realmente uma grande chatice estarmos à espera de um ordenado, por exemplo, que nunca mais chega porque houve atrasos e sim, que nos causa problemas extra, tal como acaba por nos magoar ao sentir que "se calhar" poderíamos ter evitado alguma situação que tivesse levado a outro comportamento, de outra pessoa. Não!! - por muito que as dores de crescimento existam, não podemos mesmo estar a culpabilizar-nos por nada que não nos pertença diretamente.

O processamento salarial está atrasado? Sim, mas vai-se resolver. Os outros não querem falar? Tudo bem, é um processo deles, não é nosso. 

Quantas vezes acordo com vontade de me afastar de pessoas amigas que me fazem bem? Ou quantas vezes acordo a pensar que deveria falar e desabafar com aquela pessoa, mas sei que depois vou parecer tóxica, fraca, ou penso estar a incomodar? Então como se justifica abrir-me com pessoas "estranhas ao serviço"? 

As dores de crescimento são assim necessárias para validar os nossos próprios processos internos, as nossas dúvidas ou aquelas questões que nunca foram pensadas. Servem sim, para não repetirmos padrões emocionais e de culpabilização. Mas irão sempre acontecer quando menos esperamos. 

Pois a vida é isso também - uma educação permanente. Resta apenas saber se a fazemos sozinhos ou com o apoio dos demais. Nenhum homem é uma ilha. 


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Tuesday, September 09, 2025

the small beauty of those great things
September 09, 20250 Comments

Que não se pense que estar "fora" signifique inteiramente férias. Dias longos de sol, esticados numa toalha na areia ou numa espreguiçadeira. Há quem aprenda de forma mais complexa que estar "fora" é apenas isso: estar realmente fora, fisicamente, mas com a cabeça (quase) no mesmo sítio. Focada em trabalho, nos problemas que já foram, que estão e que virão. 

Mas também é nesses momentos, em que, invariavelmente, entre uma ida ao computador e um mergulho no mar, ou apenas no estar ausente "em si", olhamos para dentro. Ou para o que nos envolve. E é nesse preciso instante em que nós, nos julgando superiores a todos os outros mortais, encarando a vida de forma respeitosa e orientada, firmes nos objetivos a cuidar dos nossos muros e barreiras de proteção, verificamos que existe uma racha. Ou pior, que alguém, do nada, que nunca conhecemos na vida, tem a infinita capacidade de derrubar tudo o que achávamos feito de concreto. 

É na pequena beleza dessas grandes coisas que verificamos que, afinal, a nossa vida não estava assim tão bem, nem tão equlibrada. Faz recordar o filme Eat, Pray, Love, quase no final, quando a personagem Liz pensa que, para se deixar levar, para ficar com o Felipe, está a destabilizar todo o progresso que fez, toda a luz que recebeu. Quando afinal o equilíbrio está em todo o lado, desde que nos mantenha sãos e felizes.

E quantas vezes isso acontece ou nos deixamos levar? A vida pede sempre mais, ou achamos que temos sempre mais que fazer, para fazer - que foi tudo um acaso, um acontecimento. Extremo sim, que nos colocou as bases em causa, sem dúvida. Mas com um propósito - vermos e sentirmos que estamos vivos, mesmo quando queremos estar longe de tudo e de todos. Mesmo quando estamos a sarar feridas e a tentar sobreviver ao terramoto. 

Mesmo quando mergulhamos de cabeça, ou sem ser, no mar. 

Não sou crente, não tenho tendências supersticiosas. Mas tudo tem uma causa-efeito. E nada, nem ninguém, aparece ou reaparece nas nossas vidas sem trazer uma lição com ela. 

E no final destas semi-não-férias, ainda a uma curta distância, tenho a certeza que alguma importância, alguns momentos tiveram. O nada e o muito juntaram-se. E de repente acabou. 

Irei aprender a lição e fazer os TPC - prometo. 

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