Cláudia Paiva Silva

Wednesday, October 20, 2021

James Bond is dead. God save Daniel Craig!
October 20, 20210 Comments

"Does it bother you?" Nomi

" Nope. It's just a number." Bond

Existe, neste último filme da saga com Daniel Craig, uma série de diálogos que tornam a inevitabilidade de um final de ciclo, algo difícil de contornar. Se alguns críticos presumem a presunção que No Time to Die de longe será a melhor história desde a nova incursão pelo mundo de 007, não há quem duvide que a humanidade e sensibilidade apresentadas 15 anos depois pela personagem principal resulta exatamente da sua evolução enquanto homem que vai descobrindo mais sobre si mesmo e sobre os que o rodeiam. É precisamente essa a fórmula de NTtD - um Bond mais velho, mais experiente, que aprendeu à força de vários erros e mortes (realmente importantes para a sua vida) o que pretende. No final do dia, apenas e só uma casa à beira mar, e, quem diria, o Amor. 

Aludindo e prestando a devida homenagem aos clássicos, este 007, guardado na gaveta devido à pandemia, sem que fosse revelado qualquer pedaço de argumento, apenas pede, mais do que nada, tempo para viver. Não deixa por isso de, não entrando na margem de spoiling, ser no mínimo irónico este ser o desfecho de Craig enquanto agente do MI6. Onde alguns se indignam ao tal sentimentalismo outros vêem a mudança necessária para que entre em cena outro ator ajustado a um novo Bond, a um novo papel (está mais do que visto que uma mulher não poderá ser a agente mais famosa do mundo - não por falta de capacidades, mas sim porque algumas coisas não ganham qualquer sentido em serem alteradas), possivelmente criando o próximo James Bond em algo mais frivolo ou alheado, algo mais perto do que foram os "antigos" Bond's. Sem dúvida que Craig teve a tamanha sorte de ter entrado neste jogo de poker onde martinis são servidos entre pingos de chuva numa época em que quase todas as personagens do universo cinematográfico eram analisadas à lupa psicológica e, por isso claro, existe até uma certa semelhança entre o passado de Bruce Wayne (Batman) e do próprio Bond, revelado em Skyfall. 

Coloca-se contudo neste último apontamento, o fim não apenas de um ator, mas sim de vários outros - e uma vez revelado o twist nesta história parece-nos fazer todo o sentido. É a tal inevitabilidade que para um novo começo é necessário intrinsecamente um fim. 

Talvez sim, não seja o melhor filme da saga Bond/Craig para alguns, mas é sem dúvida um fim em grande para o ator que se prestou à interpretação durante anos, e que, qual Tom Cruise, se deu também a realizar as suas próprias cenas de ação e sofrendo os resultados dessas mesmas proezas. Um fim onde deveria haver mais tempo para viver e onde não deveria de todo coexistir o tal tempo de morrer, mas que nos deixa a certeza que este específico legado irá ser perpetuado por futuras gerações. 

Noutro campo, fora do contexto anterior em que menciono a narrativa de NTtD, pessoalmente tenho sérias dúvidas que as próximas histórias consigam prender tanto como esta dupla Bond/Craig. James Bond may be dead but God save Daniel Craig!


There are, in this last film with Daniel Craig, a series of dialogues that make the inevitability of a cycle end, something difficult to overcome. While some critics presumptionly assume that No Time to Die will not be by any chance the best story since 007's latest foray into the world, there is no doubt that the humanity and sensitivity shown 15 years later by the main character is precisely the result of his evolution as a man who discoveres more about himself and from those around him. That's precisely NTtD's formula - an older, more experienced Bond who has learned in the worst way, from several mistakes and deaths (truly meaningful in his life), what he genuinely wants. At the end of the day, a simple house by the sea, and, guess what, love.

Alluding and paying due homage to Bonds' movie classics, this 007, kept in a drawer due to the pandemic, and without any bit of argument being revealed, just asks, more than anything, time to live. However, not wanting to enter the spoiling margin, it is at least ironic that this is Craig's outcome as the MI6 agent. Where some can feel indignant at such sentimentality, others look at it as the necessary change for another actor to enter in scene, adjusted to a new Bond, a new role, (it is quite obvious by now, that a woman cannot be the most famous agent in the world - not because lack of capabilities, but rather because some things don't make any sense when changed), possibly creating the next James Bond into something more frivolous or aloof, something closer to what the "previous" Bond's were. No doubt Craig was very lucky to have entered this poker game, where martinis are served among raindrops, at a time when almost all characters in the cinematographic universe were analyzed with a psychological magnifying glass, resulting even in a certain similarity between the past of Bruce Wayne (Batman) and Bond himself, as revealed in Skyfall.

However, in this last appointment, its not only the end of one actor/character, but of several others -  once the twist in this story is revealed, it all seems to make perfect sense. It is the inevitability that for a new beginning, an end is intrinsically necessary.

And probably yes, it's not the best movie in the Bond/Craig saga for some, but it's undoubtedly a big ending for the actor who has lent himself to acting for years, and who, like Tom Cruise, has also given himself to directing his own action scenes plus suffering the results of those same feats. An end where there should be more time to live and where such time to die should not coexist at all. However, it also gives us the certainty that this specific legacy will be perpetuated for future generations.

On the other side, excusing the previous context in which it's mentioned the NTtD narrative, I personally have serious doubts that the next unfold stories will be able to capture fans as much as this Bond/Craig duo did. James Bond may be dead but God save Daniel Craig!

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Tradições que perduram - a história de um bordado
October 20, 20210 Comments






O bordado madeirense tal como o conhecemos não teve origem nem no século XIX nem na influência britânica, como poderíamos imaginar. Os primórdios remontam à própria povoação da ilha da Madeira e quanto à iniciativa inglesa, apenas serviu (e bem!) à abertura de portas a um mercado internacional. A partir deste momento, o bordado terá então deixado de ser uma arte local e os produtos passam a ser para consumo externo, crescendo tanto a sua importância, como, claro, o seu valor comercial.

ORIGEM HISTÓRICA

Pensa-se que os primeiros registos datem de longos tempos antes da era cristã. O primeiro vestígio fóssil pertence a 30000 AC, sendo que o primeiro tecido bordado encontrado na China tenha cerca de 5500 anos. E é possível também que o berço deste trabalho de agulha e perícia pertença algures entre o Oriente, o Médio Oriente e a Rússia. Tendo o Mediterrâneo como pano de fundo e meio de comunicação entre os povos, facilmente se entende que gregos, egípcios, muçulmanos e judeus tivessem tido igualmente um papel preponderante na sua divulgação.

Com a chegada à Idade Média, Roma torna o bordado como um produto de luxo, sendo que a partir do século XVI a capital passa a ser um dos maiores centros de trabalho manual - a idade do Ouro veio a tornar ainda mais rigorosa esta ideia. As aplicações várias dos bordados às várias monarquias europeias e ao clero, elevam esta arte a um patamar superior. Eram usados materiais como a seda e o próprio metal dourado para adornar as peças de vestuário - e estas apenas circulavam nos estratos sociais mais elevados. 

BORDADO EM PORTUGAL

Com presença secular antiga, o bordado em Portugal é geralmente atribuído às regiões do norte e centro do país com destaque também para a zona de Nisa. Não é por isso estranho quando olhamos para a Madeira, e observamos a presença do bordado desde os primeiros povoadores, oriundos, essencialmente, destas zonas. Um dos principais grupos de imigrantes era proveniente de Viana do Castelo oque reflete assim que a tradição é tão antiga como o povoamento da própria ilha atlântica. 

De forma a dar resposta às então necessidade de vestuário tornou-se comum o pastoreio de ovelhas para fornecimento de lã bem como o cultivo de linho na região insular. Só em Santana e na Calheta funcionavam 160 a 165 teares sendo que o Funchal funcionava como mercado de acesso aos tecidos importados - isto levou a alguns problemas, nomeadamente (e por incrível que pareça) devido ao facto de por esta via e forma de trabalhar, qualquer pessoa poderia envergar peças consideradas luxuosas. Se em 1686 D. Pedro tentou controlar a riqueza ostensiva que o povo envergava, já em 1749, D. João V admitia toda a possibilidade de se puderem usar roupas bordadas, brancas, desde que, facto muito importante, fossem fabricadas exclusivamente dentro do território dominado por Portugal. 

DESENHO, PICOTAGEM, ESTAMPA, BORDADO, ENGOMAR

         


Com a evolução do tempo e sem dúvida com o apoio de Mary Phelps, bem como de tantas outras ilustres famílias europeias, o Bordado da Madeira iria finalmente dar o salto e ser reconhecido internacionalmente, afastando-se da índole caseira e praticamente familiar. As bordadeiras dedicar-se-iam a partir desse momento à prática do bordado tendo por base 5 fases distintas mas essenciais à sua concretização sem mácula. Nascem assim as "casas de bordado", na realidade casas ou lojas comerciais, cuja função seria a preparação e a distribuição do tecido e linhas pelas bordadeiras espalhadas pela ilha através de caixeiros. Os panos eram já levados com as estampas sendo então bordados em casa de cada uma. Uma vez regressado à casa-mãe, no Funchal, a tarefa seria engomar e embalar as encomendas com destino à venda. 


SELO DE GARANTIA

Em Dezembro de 1938 passa a ser obrigatório a presença de 1 selo de qualidade e garantia em cada peça. Com a criação do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira em 1977 a defesa da autenticidade do bordado passa a ser uma prioridade. A partir de 2000, o uso de 1 selo holográfico torna-se obrigatório bem como uma garantia contra falsificações. 

DIÁSPORA DO BORDADO DA MADEIRA

Marcados pelas Guerras Mundiais e pela pobreza causada pelo parco desenvolvimento e incúria governativa, muitos foram os madeirenses que abandonaram a sua terra natal em busca de melhor vida, não sem dor e mágoa pela sua difícil decisão. Consigo levaram os conhecimentos herdados da tradição e sendo recebidos por países como o Brasil, Venezuela ou África do Sul, em breve estes locais, principalmente o Brasil, pedem imigração de bordadeiras madeirenses para dar cobro à demanda de produtos. Se o bordado se torna conhecido no Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará, é neste último estado e em quase toda a região nordeste onde ganha maior importância continuando aos dias de hoje um elemento bem vivo no seu setor industrial. Em Fortaleza chega a ser uma das principais atividades económicas. Na Bahia é conhecido o trabalho do bordado até mesmo nas tradicionais vestes baianas. Se o bordado nasceu do mundo até chegar à Madeira, da Madeira o Bordado Madeirenses cresceu para todo o Mundo. 

O BORDADO E O FUTURO

É cada vez mais evidente que em pleno século XXI o Bordado da Madeira passa a ser uma questão de tradição e cultura nacionais. Mais do que uma e qualquer necessidade de vestuário é sem dúvida um ex-libris de toda uma região portuguesa, uma lembrança para levar de regresso de viagem, um trabalho aplicado a estanho e madeira, rico, para destacar em uma ou várias divisões de casa. Mudam-se os tempos e as vontades, mas o orgulho pelo desenho, picotagem, estampa e bordado permanecem intactas mesmo face a várias crises, económicas ou pandémicas. Resta às gerações vindouras saberem preservar a manter viva esta tão bonita arte manual. 



(English Version)

Madeira embroidery, as we know it, is not from 19th century origin nor has British influence, as we might imagine. The beginnings date back to the early colonization of Madeira Island and, as for the English initiative, it only served (and well!) to open doors to an international market. From this moment on, embroidery will then no longer be a local art and the products will be for external consumption, increasing both its importance and, of course, its commercial value.

HISTORICAL ORIGIN

The earliest records are thought to date back long before the Christian era. The first fossil remains belong to 30,000 AD, with the first embroidered fabric found in China being around 5500 years old. It is also possible to consider that the cradle of this work of needlework and expertise belongs somewhere between the East, the Middle East and Russia. With the Mediterranean as a background and means of communication between people and cultures, it is easy to understand that Greeks, Egyptians, Muslims and Jews had equally played a preponderant role in its dissemination.

With the arrival of the Middle Ages, Rome turned embroidery into a luxury product, and from the 16th century onwards the capital became one of the biggest centers of manual work - the Golden Age made this idea even more serious. The several applications of embroidery to various European monarchies and clergy, elevate this art to a higher level. Materials such as silk and gold metal itself were used to adorn the garments - and these only circulated in the higher social strata.

EMBROIDERY IN PORTUGAL

With a centuries-old presence, embroidery in Portugal is generally attributed to the northern and central regions of the country, with an emphasis also on the Nisa area (north Alentejo). Therefore, it is not  strange when we look at Madeira and observe the presence of embroidery since its first settlers, which came essentially from these areas. One of the main groups of immigrants came from Viana do Castelo which reflects that the tradition is as old as the settlement of the Atlantic island itself.

In order to respond to early settlers need for clothing, the herding of sheep to supply wool as well as the cultivation of flax in the island region became common. Only in Santana and Calheta there were 160 to 165 looms, and Funchal was the market for access of imported fabrics - this led to some problems, namely due (and oddly enough) to the fact that with this way of working, anyone could wear pieces considered luxurious. If in 1686 D. Pedro tried to control the ostensive wealth that the people could actually wear, as early as 1749, D. João V admitted the possibility of everyone to use embroidered white clothes, provided that they were manufactured exclusively within the territory dominated by Portugal.

DRAWING, PICKING, PRINTING, EMBROIDERY, IRONING

With the evolution of time and undoubtedly the support of Mary Phelps, as well as of many other illustrious European families, Madeira Embroidery would finally take the leap and be internationally recognized, moving away from the homely and practically familiar nature. From that moment on, the embroiderers would dedicate themselves to the practice of embroidery based on 5 distinct but essential phases for its precise implementation. Thus,"embroidery houses" were created, corresponding in reality to houses or commercial stores, whose function would be the preparation and distribution of fabric and threads by the embroiderers spread across the island through clerks. The cloths would be already taken with the prints and then embroidered in each one's home. Once back at the mother house in Funchal, the task would be to iron and pack the orders destined for sale.

GUARANTEE SEAL

In December 1938, the presence of one quality and guarantee seal on each piece becomes mandatory. With the creation of the Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira in 1977, defending the authenticity of embroidery becomes a priority. From 2000 until today, the use of one holographic seal becomes mandatory as well as a guarantee against forgeries.

DIASPORA OF MADEIRA EMBROIDERY

Marked by the World Wars and poverty caused by lack in development and government negligence, many Madeirans left their homeland in search of a better life, but not without regret and sorrow for their difficult decision. With them there was the knowledge inherited from the tradition, and once arrived in countries like Brazil, Venezuela or South Africa, soon enough, they were asked to meet the demand for products. If embroidery becomes known in Rio de Janeiro, São Paulo and Ceará, it is in the latter state, and in almost the entire northeast brazilian region, where it gains greater importance, continuing to the present day a very lively element in its industrial sector. It is also one of the main economic activities in Fortaleza. In Bahia, the work of embroidery is best known in traditional Bahian garments. If embroidery was born from the world until it reached Madeira, Madeira Embroidery grew from Madeira to the whole world.

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Thursday, January 21, 2021

A morte anda à espreita
January 21, 20210 Comments

Queria escrever algo positivo. Algo que nos fizesse rir. Mas cada vez mais encerra-se em mim a incerteza dos dias, a constante ruga de preocupação que me tinha deixado há já uns tempos de incomodar. Atravessamos um período muito estranho na História e, narcisicamente, nas nossas vidas e pequenos hábitos. Perante factos não há argumentos. Tornámos-nos assassinos silenciosos, muitos de nós sabendo que o são, a maioria tendo-lhes sido passada esse desígnio por aqueles que continuam a insistir num mundo de conspiração, de números falsos, de doenças mais mortíferas. O que interessa o Covid quando o Cancro mata mais? É óbvio que mata mais. Não está em causa isso, mas sim a capacidade de cuidar de cada vez mais e mais pessoas que de uma hora para outra desenvolvem pneumonia aguda. Como não olhar para o caos que se tornaram hospitais e VER o que acontece nas morgues, onde nem médicos forenses nem agentes funerários conseguem travar a desorganização de corpos enfiados em sacos e ao monte. Corpos que nunca mais serão expostos para uma despedida. Gente que desapareceu sem perceber bem como, tal a rapidez. Às 13 entrou com falta de ar para o hospital, às 14.15 teve de ser intubado, às 15 já os pulmões estavam cheios de líquido. Às 15.20 morreu afogado sem que se pudesse fazer nada. Um minuto para respirar fundo debaixo dos fatos astronauticos e máscaras. Venha o próximo doente. 

Cada um de nós poderá carregar uma arma assassina. O que vamos dizer aos nossos filhos pequenos daqui a uns anos? Que eles foram os responsáveis pela morte dos avós, dos tios? Que vamos dizer aos nossos filhos adolescentes que não foram, nunca foram, educados para obedecer, para ficar em casa, quando recuperarem da experiência quase-morte que passaram em meses de internamento hospitalar? Que a sua irresponsabilidade os levou àquele lugar? Ou iremos abraçá-los e agradecer o milagre por eles estarem vivos? Agradeçam aos médicos e enfermeiros exauridos de uma guerra que certamente nunca esperaram combater, fazendo a escolha entre salvar o jovem negacionista que esteve na festa invés de salvar um idoso, ou uma pessoa simplesmente mais velha, que nada fez para ser contagiado. Pelo menos não de forma direta. Esse foi o milagre. Escolher quem tem maiores probabilidade de sobreviver - maiores probabilidades. Esse é que é a porra do milagre!! Sendo que todos irão num futuro, mais ou menos longínquo, sofrer as sequelas de um filme de terror. 

Não precisamos de ser cientistas para fazer um simples exercício - quanto mais pessoas forem parar aos hospitais, menos espaço haverá para as outras urgências. Quanto mais surtos ocorrerem em espaços clínicos, menor possibilidade de se realizarem consultas a outras especialidades também urgentes. Não quero acreditar que haja gente que pense que isto é apenas uma fantochada, não quero acreditar que haja gente que pense que os que estão a ficar doentes a um ritmo avassalador, não passem de atores medíocres de uma qualquer ópera buffa. Não quero acreditar que haja gente que ponha os seus lucros económicos e financeiros à frente da saúde dos trabalhadores que os deram a ganhar. Mas a verdade é que há gente assim, que não compreende os riscos e prefere continuamente culpabilizar o governo pelo desgoverno. É incrível como não vejo nenhum cidadão (ou vejo muito poucos ainda) a assumirem a sua quota de responsabilidade nos quase 15 mil casos diários de infeção. Vejo-os sim a acharem que como já não existe controlo, então porquê continuar a sonegar a "liberdade de movimentos" aos portugueses. Fazendo minhas as palavras da sueca: Como se atrevem?? Como se atrevem a achar que isto está tudo descontrolado, mas que é normal? Que tudo se não for normal, então é uma mentira intergovernamental pegada, que se não é uma mentira, é apenas uma forma de nos controlarem os passos? "Em mim ninguém manda ficar em casa! A mim ninguém manda usar máscara!" 

Não consigo ver qualquer luz ao fundo túnel. Não vai ficar tudo bem. A vacina não é salvação. E estamos todos a revelar o nosso pior. Sendo que o nosso pior passa pela falha educacional de não aceitarmos regras simples que nos podem salvar a vida, e a revolta cada vez maior que cada um de nós, que, desculpem-me, mas NÃO QUER morrer, sente perante os outros. Meio mundo a lutar contra o outro meio. E não há forma disto parar.

Entendam isto e atentem nisto: a morte anda à espreita e todos nós a trazemos connosco. Nós somos a Morte. 

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Monday, January 18, 2021

Pelo direito de ter o direito
January 18, 20210 Comments

Tu mulher, julgas que és quem? 

Tu mulher, quem achas que podes vir a ser? 

Tu mulher, quem te disse que poderias fazer?

Tu mulher, devias somente ocupar-te com as tuas funções primitivas. Dar à luz em prol da espécie. Preferencialmente machos e só depois fêmeas. mulheres, como tu, que deverão somente ocupar-se em dar à luz em prol da espécie.

Tu mulher, vestes-te assim porquê?

Tu mulher, pintas-te para quem? Uma mulher não anda pintada. Não precisa de chamar a atenção. Deve remeter-se à sua função básica de ouvir, obedecer, calar, não pôr em causa.

Tu mulher, achas que nasceste para seres livre. Engano teu. Tu és livre enquanto o homem decidir que és livre. E ocupas-te das tuas funções básicas, porque o homem assim o exige.

Tu mulher, não tens direito de opinião. Não tens direito de ter uma voz. Não tens o direito de falar. 

Tu mulher, não pensas. Como podes sequer atrever-te a pensar?

Tu mulher, na verdade nem deverias respirar.

Tu mulher, se fosses ocupada ou decente, ou cumprisses as tuas funções, não tinhas tempo para manifestações. Não terias tempo a perder com temas que a ti, mulher, não dizem respeito. 

Tu mulher, julgas que és quem? 

Eu, MULHER, tenho o direito de ter o direito a ter uma opinião formada, tenho direito a uma educação livre, tenho direito a escrever, falar, gritar, ser histérica, ser ordinária, tenho direito em pintas os lábios com as cores do arco-íris. Eu, MULHER, tenho o direito de votar pelo direito a poder votar hoje, amanha, em todos os dias que, enquanto cidadã de um país livre e democrático, assim me for chamado esse dever. Eu, MULHER, tenho o direito de escolher pelo meu corpo, tenho o direito de gostar de homens, de gostar de mulheres, de gostar de ambos, de não gostar de ninguém. Eu, MULHER, tenho o direito de querer ter filhos, de não querer ter, de querer adoptar. Eu tenho o direito a trabalhar, a ganhar o mesmo que os meus pares, de crescer profissionalmente. Tenho o direito de ser julgada exactamente pelas mesmas razões, pelos mesmos motivos. Não por ser quem sou, mas por fazer o que faço. 

Eu MULHER, tenho o direito de ter o direito de LUTAR, sempre pela única coisa que tanto querem novamente nos roubar. Eu, MULHER, tenho direito a querer LIBERDADE.


Dia 24. Vota por ti. Por mim. Por nós. Pelo nosso Futuro. Pela nossa liberdade. Por Portugal.

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Friday, December 25, 2020

O "dia" diferente
December 25, 20200 Comments

Desde Maio que aqui não venho. Não é de estranhar.

Hoje acordei azeda. Depois de vários meses, semanas, dias em pleno fulgor, com a crença que afinal tudo iria passar, que com os devidos cuidados as pessoas poderiam ter uma vida normal, dentro da anormalidade em que tudo se tornou, confesso que devo ter atirado a paciência ao chão. Mesmo ainda sabendo que sou/fui uma das felizes privilegiadas a que nada (quase) faltou, em que mesmo as doenças foram dribladas com cuidados médicos que só quem pode os consegue ter, mesmo assim, acordei azeda e com a descrença que afinal alguma coisa possa fazer sentido. 

Vi várias imagens (as minhas também) expostas em redes sociais desejando algo completamente surreal este ano. Um feliz Natal. Como? Porque sim, haverá imensas famílias que nada mudaram nas suas tradições, nos seus convívios, mas porque haverá muitas mais que permanecem separadas. Mas o que mais explode na minha cabeça, por mais voltas que eu dê, ou por muito que haja planetas em conjugação para a frente ou para trás, é a hipocrisia a que nos prestamos. Um ano completamente irracional (e não falo apenas do vírus ou das mortes provocadas por ele ou por falta de cuidados médicos por ele derivada), e andamos a publicar imagens de prendas caríssimas, de mesas fartas? Os nossos "velhos" (na sua grande maioria) abandonados em lares, e nós contentes em falsos pretextos para quê?

Eu sei que o dia de hoje será sempre especial. Eu sei que será um dia de Esperança. Mas interrogo. Não serão todos? Desde que o Mundo é Mundo, não serão todos os dias um dia a mais do que o de ontem em que tudo poderá ser diferente? Então porque sinto que por muito que tenha até agora concretizado, foi tudo uma falácia? Porque razão vejo a sociedade a fechar-se cada vez mais, novamente, em ideias preconceituosas, cheias de rancor e ódio pelo próximo? Porque razão sinto que as opiniões são cada vez mais extremadas, em que cada um acha que tem a razão suprema, eliminando todos os outros com pontos de vista diferentes? 

2020, que foi um ano gordo, sem dúvida, foi também um ano gordo de perda e de vazio. Todo o espaço poroso preenchido por nada, oco, completamente vazio, nulo de sabedoria, nulo de consciência humana pela Humanidade ou pelo próprio planeta. Em que as pessoas cada vez se anulam mais em sentimentos que tentam transmitir (porque a situação assim o obrigou) por um pequeno visor, mas que continua a soar tudo a falso, a trabalhado apenas e só para aparecer bem na imagem. Não somos já reais, e nada tem a ver com as máscaras que temos de usar, mas sim com aquelas que agora insistimos em manter - a máscara de que está tudo bem, sempre esteve, mas que sabemos que em breve poderá não estar. Continuamos a perpetuar aquele gosto de seguir o que os outros dizem, fazem, para nos sentirmos integrados também numa comunidade que nunca iremos chegar a conhecer realmente na realidade ilusória em que tudo se está a transformar. 

Sinto também que perdi o poder da palavra escrita, aquela capacidade única que me agarrava aos pensamentos e intelecto. Quanto mais vejo todos os dias que me possam revoltar ou novamente deixar encantada, espraia-se. Não agarro a oportunidade de passar as ideias para papel ou outro lado qualquer, com a preguiça ou cansaço de saber que tantos outros farão o mesmo. Mas in



terrogo. Será que o fazem realmente, ou preferem também alongar as horas e momentos em imagens bonitas, mas sem qualquer significado. Um álbum fotográfico cheio de coisa alguma. 

Não. Hoje o espírito não desceu em mim. 

Mas sim, estou grata, como escrevi acima, em tudo o que consegui fazer, em tudo quanto consegui proporcionar aos que gosto. Mesmo com distância ou não. Isso foi real. Isso poderá não ter sido partilhado com mais ninguém. E vou tentar agora, neste preciso instante, fechar os olhos e voltar a sentir a sensação que apenas a água salgada de Agosto me deu. A de que fiz afinal alguma coisa de bem na vida. 


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Friday, May 22, 2020

Consciência Brasileira
May 22, 20200 Comments

Em confinamento, muitos de nós se sentiram inúteis, outros altamente motivados para mostrar a todos que poderiam fazer e ser tudo dentro das quatro paredes de casa, outros tantos, continuaram a ver a vida passar, em casa, ou fora dela, tudo se remete a um mesmo compasso de espera, tempo que se gasta e não volta mais. Mas sobre isso, aqui, já muito foi escrito e observado. 
E há aqueles que como eu, se desdobram naquilo que não o são também, mostrando que os lemas para 2020 até se podem concretizar de outras formas, sob as formas de outras pessoas. "A sorte protege os audazes" também pode ser usada na gíria como uma "grande lata" ou no português do Brasil, uma grande "cara de pau". Foi assim (e por causa do meu até agora único mês pago na Netflix) que cheguei ao contacto com Mel Lisboa, atriz brasileira da nova geração (ou, da minha geração) mais conhecida pela interpretação em Presença de Anita, vários anos passados. Aqui, tudo começou com a série Coisa mais Linda, no qual Mel é uma das 4 protagonistas principais, cavaleiras do Apocalipse, mulheres dos anos 60 num Brasil que se formava a ser o que é hoje, com as mesmas profundas raízes e questões sobre classes sociais, ricos e pobres, brancos e negros, mas, principalmente, com a mesma pergunta sobre o lugar da mulher na sociedade tipicamente masculinizada. E aí, completamente fascinada pela primeira temporada que tinha estreado já em Março de 2019 (!!!) na plataforma digital e esperando (agora em Junho) a segunda, decidi que tinha de tentar chegar ao contacto com aquela personagem/actriz que mais me tinha tocado, a decidida Tereza, que calhou ser a de Mel Lisboa, claro! 
Mensagem enviada por Instagram, sabia que a hipótese de contacto seria para lá de nula - se nem os portugueses muitas vezes respondem, quanto mais os internacionais, e foi precisamente nesse ponto que me enganei! De uma simpatia e disponibilidade incríveis, tive (junto da editora da Revista Rua, que alinha nestas minhas loucuras) a oportunidade de enviar questões para o outro lado do Atlântico, termos a autorização de Jorge Bispo em usar as suas fotos, e assim publicar a entrevista que se segue e que pode ser vista também aqui: Mel Lisboa na Revista Rua
(Além de falarmos necessariamente da série, a conversa e o contexto atual, levaram-nos também para um campo mais político, uma vez que Mel é igualmente conhecida pelo seu imparável ativismo cultural e social, batendo-se contra o corrente governo de Balsonaro. Entre o momento de envio das questões e o reenvio das respostas, houve ainda o "acontecimento" Regina Duarte na entrevista à CNN Brasil, que tanto envergonhou parte do país tropical como o lado de cá do oceano. Também esse momento foi oportunamente comentado). 


Como será óbvio a nossa primeira questão tem a ver com esta situação de isolamento social causada pelo Covid-19. Como sentes que esta pandemia irá mudar a vida das pessoas?

Acho que a pandemia está, aos poucos, mudando profundamente as pessoas. Diante da situação extrema e sem precedentes, estamos nos vendo obrigados a rever uma série de conceitos e de valores. Espero realmente que esta tragédia sirva para que saiamos dela melhores do que éramos antes; mais solidários, mais conscientes da coletividade.

Pensas que poderá ser mais fácil com a evolução dos factos, haver uma maior consciencialização na sociedade brasileira ou mesmo na classe política, pela relevância e importância em relação à doença?

Honestamente, eu espero que sim. Mas infelizmente, diante da negação da população, da ignorância dos factos e da postura absurdamente irresponsável do nosso presidente, talvez isso só se dê individualmente, quando a morte bater na porta de cada um.

Falando sobre sociedade, como vês hoje em dia a importância dada aos direitos humanos e direitos da mulher?

Acho que os direitos humanos, os direitos das mulheres são fundamentais, hoje e sempre. Infelizmente, porém, a carta não é uma lei universal e poucas são as pessoas no mundo que a respeitam plenamente. Acho que seria fundamental que os direitos humanos fossem estudados de forma mais profunda nas escolas para que todos conhecessem os seus direitos e os direitos do próximo. O mundo, assim, seria um lugar mais agradável de se viver.

“Uma das coisas que mais impressiona em Coisa Mais Linda é a atualidade dos seus assuntos. Perceber que se passaram 60 anos e a situação da mulher do Brasil não mudou tanto assim é chocante.”

A série Coisa Mais Linda tornou-se num fenómeno tanto no Brasil como também aqui em Portugal. É claramente um sinal da importância do Feminismo e Feminino ou acreditas que haja outra razão por detrás do sucesso?

Acho que o sucesso de uma série ou de um filme é fruto de uma junção de factores; muitos elementos que agradam em uma só obra. O assunto é importante, definitivamente, mas se não vier acompanhado de um bom roteiro, uma boa direção, direção de arte, figurino, fotografia, trilha, interpretações, pode não funcionar. Na minha opinião, Coisa Mais Linda fez sucesso pois conseguiu unir com qualidade muitos desses elementos.

Todas as principais personagens, Maria Luísa, Ligia, Adélia e Thereza, têm histórias de vida bastante distintas entre si. Contudo, todas têm personalidades fortes. Thereza é talvez a mais emancipada das quatro. Viajada, culta… Muitas espectadoras se identificam com ela. Achas que a tua Thereza pode ter “roubado” a cena?

Thereza é, sem dúvida, a mais emancipada das quatro. Uma mulher independente, consciente da problemática do machismo no campo coletivo, inteligente, culta, sexualmente livre e segura de si mesma. Ou seja, uma mulher que muitas pessoas gostariam de ser. Por esse motivo, muitos espectadores acabaram se identificando com a Thereza, admirando-a. Mas cada personagem tem ali uma função narrativa muito importante e ficam mais fortes na presença umas das outras.

Feitas as devidas comparações entre o Brasil dos anos 50/60 e o país hoje, não achas que ainda há pontos que se cruzam, nomeadamente a questão do amor interracial, diferenças dos estratos sociais, hipocrisia nas classes de topo (relembrando a cena em que Malu e Ligia são “convidadas” a sair do country club?)

Uma das coisas que mais impressiona em Coisa Mais Linda é a atualidade dos seus assuntos. Perceber que se passaram 60 anos e a situação da mulher do Brasil não mudou tanto assim é chocante.

“Aqui, Cultura é considerado artigo de luxo. Infelizmente, não há a compreensão de que a Cultura é aliada fundamental da educação. Sem educação e cultura, não há desenvolvimento efetivo.”

Há poucos dias mencionaste numa entrevista que a principal causa do machismo/assédio era já algo intrínseco na cultura, que era um aspeto quase cultural. Mas não depende também da educação entre gerações mais velhas e mais jovens?

Sem dúvida. Acredito que a educação é fundamental para alcançarmos alguma mudança. Os mais velhos têm de mudar o seu comportamento para que a situação se normalize e passe a ser o padrão. Desta maneira, os mais jovens cresceriam num mundo cada vez mais equivalente e isso seria a norma, não a exceção.

E a Cultura/Arte? Em que situação está o Brasil neste momento? Desde há vários meses que se tinha verificado cortes e alguma censura em atividades e espaços culturais em que várias peças foram mesmo canceladas. Com esta nova crise económica que já se sente e com a nova Ministra da Cultura, também atriz, mas apoiante incondicional de Bolsonaro, como vês o futuro da tua classe profissional?

No Brasil, a Cultura está hoje talvez no pior momento da sua história. Artistas estão sendo perseguidos, ofendidos covardemente. Aqui, Cultura é considerado artigo de luxo. Infelizmente, não há a compreensão de que a Cultura é aliada fundamental da educação. Sem educação e cultura, não há desenvolvimento efetivo. Nos últimos dias, ainda tivemos um espetáculo de horrores protagonizado pela nossa Secretária de Cultura, Regina Duarte, que relativizou a ditadura, foi conivente com a tortura, debochou escrachadamente das pessoas que tiveram entes queridos mortos neste período, mostrando assim, de forma desavergonhada, a cretinice e a sordidez que o nosso governo atual representa.

Tens receio do futuro do Brasil? Consideras que há problemas sérios que não estão a ser valorizados e deviam?

Tenho, sim, muito receio. Quero me manter positiva, lembrando que na História, momentos como este que estamos passando vêm e vão. “Isto também vai passar”, é o que tenho dito para mim mesma, no afã de acreditar nas minhas próprias palavras.

Por último, numa palavra de esperança: Mel, qual é para ti uma das Coisas mais Lindas do Brasil? E do nosso Mundo?

Uma das coisas mais lindas no Brasil é a nossa cultura, o que nos diferencia e nos faz únicos. É também a nossa alegria, nossos ritmos, nossas cores tão diversas. Nossa riquíssima natureza; a floresta, os mares e montanhas, os animais. O que há de belo no mundo é também o que o faz singular. Cada região, cada som, cheiro, cada povo, cada flora e fauna. O ar que respiramos.







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Sunday, May 17, 2020

Portugal versão 1.0
May 17, 20200 Comments
"O nosso lirismo devia ser coutado. O país devia consagrar-lhes um parque de reserva, onde fosse proibido dizimar as espécies que ainda restam, deixando-as viver num paradisíaco devaneio, à lei da inspiração. E nenhum sítio é mais indicado para isso do que esta província portuguesa, feira de dunas e calcários. 
Poderiam passear à sombra evocadora do grande pinhal que o colega medieval semeou, sonhar nas margens do Lis e do Lena, do Alcoa e do Baça, que são rios encantadores para sonhar, e em Pedrogão, S. Pedro de Moel, Nazaré, S. Martinho, Baleal, Ericeira e Sesimbra, tomariam banhos de mar, sem perigo de maior. Visitariam Mafra de vez em quando, como penitência, gozariam férias graníticas em Sintra, e os seus retiros espirituais seriam na Arrábida, fora do convento. Teriam grandes motivos poéticos e humanos à mão de semear, como a vida dos pescadores da Nazaré, as peregrinações a Fátima, a morte lenta à boca dos fornos da Marinha Grande, a trituração das pedras e dos homens para fazer cimento na Madeira, sem falar no clássico manancial de Aljubarrota, assunto que nunca mais acaba. 

Todas as condições, como se vê, para que outro apogeu da nossa cultura surgisse das margens onde ela afinal tem as raízes. Uma vez que o melhor da força criadora nacional está concentrado nesse pequeno reduto em que as serras de Aire, Candeeiros e Montejunto são ameias, nada de mais sensato do que tentar reverdecê-la aí. Granjeada de novo naquelas colinas suaves e calmas, talvez brotasse com o alento com que todos suspiram. Não é às lousas do xisto ou à aspereza das urgueiras que se hão-de pedir filigranas góticas e versos bucólicos. Nos sítios onde a natureza não quer, nem as calhandras cantam. O talento é preciso, mas é preciso também que o meio ajude." (Portugal, Miguel Torga) 


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Thursday, May 07, 2020

Sons de batucada
May 07, 20200 Comments



"Samba de verdade tinha que ter o sal do batuque dos terreiros de Umbanda e Candomblé, uma batida grave pra marcar, umas agudas para recortar. Era só fazer a segunda e a primeira bem definidas, botar o ritmo pra frente, que nem se toca na macumba pra fazer santo baixar e subir quebrando demanda, levando o mal para sumir no infinito de Aruanda e espalhar a paz no coração dos filhos da terra. Essa coisa de ficar imitando os portugueses, os franceses, os argentinos estava na hora de parar. A boa era dar continuidade à batida que vinha dos países de África, das senzalas, dos quilombos, dos terreiros, do lundu. Samba pra desentortar esquina, tirar paraleleípedo do chão, engrossar a batata da perna, espantar os males de quem anda, canta e dança. Samba para se desfilar na rua." (Paulo Lins, Desde que o Samba é Samba).
Sabe quem sabe que eu já habitei (ou pisei pé) em terras brasileiras. Sabe quem sabe que o Brasil teve para mim um impacto extremamente profundo, um sentimento de Casa e Terra-Pátria, mesmo que fosse por empréstimo temporário. Também se sabe que quando falo ou escrevo sobre o Brasil evoco terras, cidades, vilas e regiões que nem talvez muitos brasileiros alguma vez tenham ou possam vir a conhecer. Sei o quão privilegiada fui por ter conhecido tanto em tão pouco tempo e mais uma vez, sei o quanto isso me marcou na alma.
Contudo, também sinto que esta minha falsa modéstia possa parecer isso mesmo - uma modéstia muito pouco verdadeira - e que talvez seja demasiado emproada quando digo que conheço o Brasil. Não conheço. Ou como eles diriam, "não conheço porra nenhuma", a não ser a ideia de que um país gigante, onde se perde fácil o conceito de escala humana e regional (6 milhões de habitantes apenas no Estado do Rio de Janeiro; distância São Paulo-Rio pela Via Dutra, umas 5 horas), pode ter dentro dele outros tantos países, credos, formas e culturas. Que o Sul é definitivamente mais rico do que o Nordeste, que o Nordeste é extremamente mais caloroso que outros estados, mas que no geral todos gostam de receber alguém que fala uma língua parecida com a deles, mas que na maioria dos casos nem entendem bem. Falamos estranho, com "chiado", não somos do Rio, mas também não se sabe bem de onde somos.
Contudo, há uma cena que me lembro bem de me ter arrepiado. Nada que ver com violência ou insegurança. Simplesmente esteve relacionado com o som. Quando fui a Salvador, possivelmente a cidade mais portuguesa que conheci em toda a minha estadia, o som do berimbau foi escalando numa zona de ermo. Não sei o que era, mas sei que foi poderoso, estando logo ali. Salvador é uma cidade mística. E sim, tem toda a referência à colonização para lá de violenta, uma colonização de morte, de violação, de assassínio em massa, uma colonização forçada de fé, regada pouco depois pela forte cultura africana e escravizada. Mas a questão fundamental é? Para lá desse horror, do que é feita hoje a massa do brasileiro? Essa mescla imperturbável de africano, índio, português (ou de outro colono medieval). E qual é o verdadeiro som do Brasil? O típico samba ou o forró, certamente que não é apenas a bossa nova que resulta de forte influência de jazz norte-americano. O som é também essa coisa tão profunda e enraizada de sons africanos, a batucada, o misticismo e espiritismo que acompanham o ritmo. 
Perdoem-me a minha arrogância, mas se há coisa que eu percebi do Brasil é que não há um único jeito de ser nem de estar. Não há um som típico ou uma forma de falar. É muito mais que isso, é Casa, Pátria, Crença, Tradição.


Saberiam por exemplo que no interior nordestino ainda se praticam costumes que só os judeus faziam no tempo em que eram perseguidos? Tal como junto ao Mar os Orixás são os reis do céu e das águas "Para quem está ainda mais fora do candomblé que eu, das religiões de matriz africana em geral, do complexo enredo dos seus orixás, equivalentes a santos, entidades, seres sagrados: Oxum é a senhora das águas doces, da cor do ouro, uma das mulheres que o rei Xangô desposou, tal como a brava Iansã, senhora das tempestades.

A mais cantada mãe de santo do Brasil, Mãe Menininha de Gantois era uma filha de Oxum. (...) Como não haveriam os terreiros da Bahia de bater no peito da música popular, e assim em nós." (Alexandra Lucas Coelho, Cinco Voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso".
Quem será o homem, presidente ou não para dizer como podem milhões viver ou pensar, se deles ele nada sabe ou se de seu próprio país ele nada conhece? 
Se ouvisse direito o som da batucada iria entender tanto mais.




(texto originalmente escrito para o blogue, mas publicado na Revista Rua - pode ser lido aqui: Sons de batucada)
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Monday, May 04, 2020

It's a May the 4th be with you! - ou como retorcemos tudo
May 04, 20200 Comments
Liberdade e democracia”. Os cartazes do 1 de maio – Observador



Os humanos têm sem dúvida um estranha forma de vida mas acima de tudo uma estranha forma de ser. Face aos acontecimentos dos últimos quase 60 dias e perante o atual estado de "alívio nas medidas de restrição" que nos foram solicitadas pelo governo, só me resta mesmo ficar em espanto com alguns dos protagonistas deste filme épico. Uma das principais cenas, a manifestação do 1º Maio, a qual sendo permitida oficialmente levou bem mais do que apenas militantes e sindicalistas à rua. O que me choca não foi (apenas) a sua realização perante o ainda estado de emergência declarado (mas claro, se há autorização do PR e com as devidas normas assinaladas por uma DGS que certamente também não terá concordado muito, só podia acontecer!), mas sim a justificação dada se tal não ocorresse. De acordo com o PCP e a própria CGTP, o país está a braços com um retorno do "velho senhor", estamos a viver dias de totalitarismo e autoritarismo nunca vividos em época democrática - e isto, vindo de quem vem, na corrente e face aos acontecimentos óbvios que se têm verificado, não apenas em Portugal, mas, só naquela, por todo o mundo, é mais assustador do que ouvir o Trump a dizer que beber alcóol, desinfectante, lixívia e similares, cura o corpo humano da doença. É que uma coisa é termos uma pessoa completamente alucinada e incompetente a liderar um país maioritariamente constituído por pessoas que infelizmente não pautam por grandes doses de educação e cultura, outra, é termos pessoas inteligentes, num país mais ou menos sério e menos apalhaçado, insinuarem que o isolamento social, que o distanciamento de segurança, e eventuais proibições de encontros e manifestações à média e larga escala (com o fundamento óbvio para todos os portugueses que possuem dois dedos de testa) é apenas e só uma manipulação directa do governo para as massas, de forma a nos encarreirar dentro de um clima que se poderá assemelhar muito ao fascismo puro. Sem dúvida que muitos(as) poderão ter visto nesta situação oportunidade para colocarem pontos finais com contratos laborais, mas certamente que não será apenas isso o fator dilacerante da nossa economia. Declarações como esta: "Perante a força, organização, determinação e disponibilidade para a luta manifestada neste 1º de Maio, há sectores da nossa sociedade que procuram no surto epidémico a justificação para o regresso ao passado, para a reintrodução do totalitarismo, de mordaças e do unanimismo como única forma de pensar e estar. Procuram que os trabalhadores aceitem, passivamente ou encobertos exclusivamente nas redes sociais, o ataque aos seus direitos e salários." (ver aqui: Comunicado Oficial CGTP) são apenas apologistas de desunião e caracterizam um pensamento que neste momento não se deveria sequer colocar. A Luta poderá ser feita das mais variadas formas, senão de que outra forma poderíamos entender a decisão do Bloco de Esquerda ou mesmo da UGT em não participarem nesta mesma festa democrática? Na volta como uma "cumplicidade" entre partidos e sindicatos de esquerda mas com fome de Poder no centro-direita? Temos de ter cuidado com esta questão dos direitos humanos, liberdades individuais estarem misturados com os direitos democráticos. A China é um país de esquerda mas subjugando os seus habitantes a um fascismo puro, ou não? Claro que ninguém quer agora andar com um chip que revele os nossos dados biométricos a uma qualquer base de dados privada, mas nem é disso que agora falo. Sim e apenas da questão de que o politicamente correto, invocado numa situação em que continuamos a ter o dever cívico de nos manter resguardados (ou com os maiores cuidados possíveis caso não o possamos fazer), não pode ser aplicado a torto e a direito. Dizermos que ao sermos impedidos de ir à praia em grupos ou individualmente ou confraternizar no café é regressar ao tempo da PIDE será apenas parvo. Haja bom senso, coisa que infelizmente sempre pautou por faltar a todas as gerações nacionais. 
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Sunday, May 03, 2020

Those Sunday Blues
May 03, 20200 Comments
Foto de Claudia Paiva Silva

@baguy
Não há como negar. Este isolamento social, esta distância de segurança que constitui um dever cívico, (mais do que uma obrigatoriedade que não o é, nem nunca o foi), provocou em inúmeros de nós uma sensação de perda, de embriaguez, ansiedade, falta de energia generalizada apenas aplacada pelo teletrabalho que muitos, felizmente, conseguiram manter. Confesso que comigo, aparte da incredulidade inicial, acabei por perceber que fui mais ativa do que antes, do que alguma vez até. Conscientemente ganhei toda uma nova forma de trabalhar, de me organizar internamente, regular o meu sistema e organismo, não deixar que o relaxamento tomasse conta, muito menos quando vimos e continuamos a ver tantas e tantas reportagens de gente que nunca baixou os braços, que continuaram sem parar para que nós todos não parássemos de vez. Que nos cuidaram e irão continuar a tratar e a olhar por nós em qualquer circunstância, sem olhar a meios, e, se tudo correr bem, sem terem de escolher quem poderão salvar. Por isso, perante essa consciência de que me deixar levar pela preguiça seria uma vergonha perante essas pessoas, talvez tenha sido a principal razão pela hiperatividade que comecei a transparecer. Ficando em casa. Saindo o mínimo e apenas essencial, ficando a trabalhar até mais tarde, dando mais de mim, estando mais atenta, fazer as tarefas domésticas sem bufar, mas ganhando noção que nunca não se tem nada para fazer no espaço onde moramos. 
Sim, talvez seja uma daquelas pessoas que se tenham tornado irritantes aos olhos dos outros, de tão produtiva que me possa ter tornado. Como podem imaginar, irei parar ou deixar de fazer/ser/acontecer quando o meu corpo pedir descanso. 
Contudo, mais importante ainda, é que foi apenas dessa forma que percebi que existe uma série de criadores nacionais, que passam pela Moda mas também pela Cultura e Arte, e que neste momento estão a sentir já grandes dificuldades em sobreviver. São eles que nos fazem sentir um bocadinho melhor ao longo do dia, são os que escrevem e compõem músicas, os que escrevem os textos e diálogos das séries e filmes, são os que nos levavam ao teatro - e não, não são apenas aqueles "coitadinhos" que seguiram uma profissão que quase parece uma brincadeira - são pessoas com uma PROFISSÃO real, a tal que nos entra pelos olhos e ouvidos dentro, e que acredito, que talvez nos/vos tenha salvo a vida várias e várias vezes em momentos de maior desespero. 
Mais uma vez deixo o apelo. Há que repensar seriamente na forma como iremos todos ajudar para retomar a economia nacional sem esquecer todas as formas artísticas que também fazem mexer os bolsos do Estado, sabendo bem que nada será como antes, que não espero o retorno dos festivais musicais ou outros, onde imensa gente estará presente em núcleos. Será certamente necessário também perceber como irão os festivais do futuro, pós-Covid, ser organizados. Será aliás extremamente necessário saber e aprender a estar em determinados contextos culturais, de forma a evitar o pior. Até lá, e sabendo que amanha é uma segunda-feira, um dia especial e diferente, em que várias das limitações que nos foram colocadas, irão ser amenizadas, temos de pensar um dia de cada vez, passinho a passinho, de forma a todos termos consciência do que isto colocará em forma de peso, nas costas de cada um de nós. Isto ainda não acabou...

@baguy

@julianabezerra

@siennainspo

@art_pessoa

@GuajaStudio

Foto de Claudia Paiva Silva
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Tuesday, April 28, 2020

Moodboard while #vaificartudobem
April 28, 20200 Comments
Continuando a pesquisa entre as várias marcas nacionais, percebi que, sem dúvida e cada vez mais, se encontram colecções dedicadas e inspiradas à Natureza. Padrões tropicais podem mesclar-se com os tecidos mais fluidos de algodão e linho, peças de joalharia, são facilmente pensadas e criadas a partir de elementos naturais, sejam flores ou plantas ou até mesmo elementos telúricos, como formatos de rochas, bem como baseados e inspirados em elementos animais, conchas, búzios, estrelas do mar, uma panóplia de temas que acabam por servir aos vários artistas. 
@beneditaformosinho
Benedita Formosinho teve a visão e coragem de ser uma das novas empreendedoras de moda, dando o alma e o manifesto à cultura nacional. Quem conheceu a colecção de inverno sabe que os materiais de luxo, nobres, utilizados são todos portugueses de origem local e de alta qualidade, nomeadamente as lãs. A presença destes elementos são uma mais valia em cada peça única, de preferência e sempre que possível trabalhada à mão. O resultado são modelos clássicos mas que também apresentem um toque de modernidade, permitindo não só a permanência das influências tradicionais, o respeito pela autenticidade mas igualmente chegarem a um público vasto, de várias idades que procurem a tal relação já mencionada de preço/qualidade/durabilidade. Os chavões "zero waste" e "fair trade" nunca aqui fizeram tanto sentido. Tal como na lei da física, nada se perde, mas sim transforma-se em novos produtos, nomeadamente malas ou carteiras, numa máxima de sustentabilidade. 
@limboshop


@belleepoqueboutique

@beneditaformosinho

@ohMonday
De acordo com as palavras da autora e criadora da marca Margarida Marques de Almeida, mais conhecida pelo nickname @styleitup, a Oh Monday (@ohMonday) pretende essencialmente dar Força e Poder às mulheres. Iniciando com a premissa de slow fashion, as peças da marca foram criadas apenas a pensar no bem-estar e comodidade de cada uma de nós, de forma a que nos possamos sentir elegantes e ao mesmo tempo extremamente confortáveis, sem termos de pensar muito no assunto. No espírito que todas as marcas apresentam, também Margarida pretende que a Oh Monday seja uma identidade nacional de comércio justo e sustentável, onde não haja a tentação de comprar por impulso mas sim pela real necessidade de termos um artigo de qualidade dentro do guarda-roupa. O empoderamento feminino (e masculino) não passa apenas pelo que somos no dia-a-dia e acções, mas essencialmente pelo que não se vê de forma directa - as nossas escolhas pessoais. Pensar antes de comprar faz parte da cultura mais sustentável que podemos desejar. Assim os modelos apresentados apresentam cortes rectos, estruturados, de cor preto ou branco, feitos em Lisboa e com materiais nacionais, promovendo não só o empreendedorismo feminino e desenvolvimento local, como também influenciado para uma escolha salutar na hora de escolher e comprar. 
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