Cláudia Paiva Silva

Monday, April 27, 2020

Moodboard while #fiqueemcasa
April 27, 20200 Comments
Jardim das Estufas - Palácio de Queluz

Quem disse que estar em casa implicaria uma mudança radical nos comportamentos e mecânica mental tinha e continua a ter toda a razão. Ao final de um mês e meio de encarceramento domiciliário, a cabeça começa a pregar partidas, os dias poderão tornar-se excessivamente compridos e o quotidiano uma repetição ao extremo do dia anterior, como se estivéssemos dentro do filme de Bill Murray* e fôssemos o próprio protagonista, mas sem a marmota. Por agora, nem mesmo com as previsões de chuviscos e tempo mais rameloso as pessoas parecem querer aceitar a ordem de isolamento social, e mesmo correndo o risco de serem recambiadas para as suas habitações, qual pulseira electrónica que disparou o alarme a escassos metros de distância, arriscam-se a ir até ao parque, até perto do mar, onde tantas outras também possam estar, repetindo-se a premissa inicial de um possível risco elevado de contágio. Mas as pessoas são humanas, e habituando-se ou não a viverem confinadas em apartamentos durante a maior parte do tempo, todas geramos sentimentos, estados de espírito, desejos e vontades, que não correspondem a mais do que o total prazer do conceito de liberdade que irá bem mais do que aquele que o 25 de Abril terá ensinado. 

* - Groundhog Day (1993)

Juliana Bezerra - Brincos Majoletti

Guaja Studio - Juliette Knot Top + Francesca Fit Linen Pants

Falamos da Liberdade física, de percorrer espaços que se calhar antes nunca teríamos imaginado. Nunca campos de trigo no Alentejo, alfazemas azuis, jardins cheios de flores silvestres, ou mesmo aquela mata supostamente mal cuidada entre prédios e já no leito da ribeira, nos pareceram tão atractivos. Para mim a juntar seriam dunas, flores e ramagens secas, tons de terra, amarelos queimados, ocre, algum verde de plantas que se conjugam em ambientes extremos, ou de mar ou de deserto. Esse é o meu moodboard actual.  

Super Botânica

Cata Vassalo

Aproveitando a sensação, e enquanto os desejos são apenas isso, uma força poderosa que nos compele a fazer algo impetuoso, mas que por agora não é parcialmente negada, retomei o prazer de percorrer as galerias das várias marcas nacionais que fui (re)conhecendo ao longo dos últimos dois anos. De projectos familiares, pequenos, mas cheios de graça, estilo e design, são agora os mais procurados para qualquer pessoa, acima de tudo por duas razões: são trabalhos feitos em Portugal e porque são sustentáveis, tanto em termos de produtos e tecidos utilizados, como em termos de mão-de-obra, na sua grande maioria. (Podemos falar aqui dos preços "excessivos" praticados pelas marcas portuguesas, mas deixo a questão: acham justo que as nossas costureiras, sim, essas mesmas que agora estão a coser máscaras porque as colecções estão paradas, recebam 1 euro por dia de trabalho como acontece com as que trabalham para as "grandes marcas" que não passam de Made in PRC embora com o carimbo de Milan e Paris? Pois, bem me parece que não). 

Belle Epoque Boutique

Rust and May

Temos assim, uma lista de marcas bonitas com classe para mulher (neste caso), e nesta escolha pessoal, alguns dos artigos que mais enchem o meu gosto pessoal para os meses de Verão, mesmo que este ano possa vir a ser passado em casa: passando pelos linhos e acetinados da Guaja Studio e algodões da Rust and May que podem ser perfeitamente complementados com acessórios da Cata Vassalo e Juliana Bezerra (que apresenta o relançamento dos brincos desiguais Majoletti em prata e prata dourada). Claro que os ténis ou sapatilhas rasas teriam de aparecer nesta minha wishlist, ou no máximo sandálias para o conforto ao andar a passo mais rápido. Contudo e apesar que mais ideias e imagens bonitas ainda estão para serem mostradas, não me compete a mim estar a influenciar ninguém para comprar seja o que for. É importante pensar e afirmar que neste momento há temas bem mais sérios a serem discutidos, vidas a serem salvas, pessoas a lutarem para sobreviver. Mas também é certo que se adivinha com certezas tão letais quanto o vírus uma grande e longa crise económica que irá afectar não as tais grandes marcas internacionais ou grupos de moda, mas sim estes nomes nacionais. Projectos como mencionei que começaram apenas de ideias, que cresceram, que se tornaram sonoros e que também irão precisar de apoio. Uma marca que fabrica poucos artigos de cada modelo irá sofrer um impacto muitíssimo maior do que uma que fabrica 10 mil unidades de uma simples camiseta branca "feita lá fora". O conceito de moda e de compra precisa de ser redefinido sim, mas isso não implica que se deixe totalmente de comprar. A questão é repensar a forma como se compra, as nossas necessidades, e acima de tudo, se o investimento vale a pena em termos de preço/qualidade/durabilidade. Ser-se sustentável é também apoiar as empresas nacionais, a economia local e saber que temos produtos de qualidade que irão durar imenso tempo dentro dos nossos armários.  

Jardim das Estufas - Palácio de Queluz
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Sunday, April 26, 2020

Urbano-Feminino
April 26, 20200 Comments
Pouco tempo antes destes estranhos novos dias que estamos a viver, fui rapidamente e já no último dia de apresentação até Braço de Prata, onde na Underdogs Gallery, algumas das obras mais conhecidas de Tamara Alves estavam expostas. Aproveitando a presença da artista, acabei por lhe fazer uma curta entrevista para a Revista Rua onde nada ficou por dizer, a qual também, percebi pouco depois, poderia perfeitamente ter evoluído para uma conversa onde sociedade e direitos humanos seriam temas chave, além de formas de inspiração, filmes e música, e todo o potencial que o nosso país, de norte a sul, do interior ao litoral tem para dar e oferecer a quem não tenha medo de ser ousado e de correr riscos de parecer ridículo.
Esse texto, publicado originalmente aqui, poderá agora ser lido também aqui no blogue:


Tamara Alves será porventura uma das mais conhecidas artistas plásticas de arte urbana em Portugal. Nascida em Portimão onde viveu até aos 18 anos, filha de pais também pintores que são a sua maior influência, cedo mostrou uma capacidade inata para o desenho complexo que foi posteriormente sendo acompanhada pela forma como lidava com os vários tipos de materiais disponíveis e tintas. Depois veio a licenciatura nas Caldas da Rainha e finalmente Erasmus em Birmingham, no Reino Unido, onde ganhou o gosto pela arte urbana. Nesta sua exposição a solo mostra algumas das pinturas e esquissos mais emblemáticos da sua carreira, onde o feminino e o animal estão sempre presentes, numa definição direta de todo o seu trabalho, onde selvagem se funde com humano e irracional, onde a pele nua de mulher e homem contrastam com a existência de metais do dia-a-dia industrial, onde lobos convivem com a natureza, onde a natureza é no fundo o nosso habitat natural. Onde também há sempre Amor e Paixão.
Numa curta entrevista à Rua, minutos antes de um workshop de desenho para crianças, Tamara explicou como se sente enquanto artista feminina em Portugal, as principais diferenças que observa entre as cidades do litoral e do interior do país em relação ao desenho e arte urbanas e qual o papel do artista na sociedade.
- Como foi o teu percurso desde Portimão até ires para as Caldas? Os teus pais são pintores, de que forma é que isso foi um impulso para ti, uma vez que nem sempre é comum seguir as pesadas dos progenitores?
“Nasci já a pintar com os dedos! A minha mãe diz que eu ainda antes dos 2 anos já fazia desenhos super complexos, muito diferentes daquilo que as crianças da mesma idade fazem. E como ambos são pintores, para mim sempre foi muito natural a forma como lidar com os materiais. Nunca tive medo em experimentar – sabia desde muito jovem o que dava para misturar ou não, sou desenrascada, o que dá imenso jeito na minha área, mas continuo sempre a aprender a ganhar experiência. Felizmente sempre tive uns pais que me apoiaram e incentivaram, nunca me limitaram – lá em casa (em Portimão) existem desenhos meus desde os 9 anos de idade no meu antigo quarto e sempre que queriam partir paredes, pediam-me e ao meu irmão para ir pintar essas paredes antes de mudarem alguma coisa.
Outro incentivo acontece porque eu cresci perto da praia do Carvoeiro, e como no Algarve há muito pouca oferta cultural, havia sempre um deslocamento aos fins-de-semana – às vezes íamos a Lagos ou a Lisboa ver exposições e isso dava para aprender e ganhar mais informação, educar, ver e conhecer.”
- Qual achas que é a principal diferença entre a tal oferta cultural, principalmente artística de pintura, e o conceito de arte urbana, porque é aquilo que começou a ser a tua imagem de marca, com as pinturas em edifícios e murais, entre cidades como Lisboa e o Porto e cidades do interior, como Castelo Branco, onde já foste convidada para o Festival WOOL ou Trás-os-Montes? Como vês que as pessoas reagem?
“Para começar em Lisboa, tu vês tudo e consomes tudo de uma forma muito mais rápida. Tens uma parede, vês a parede, pintas a parede, e vais para a tua vida. Demoras cerca de uma hora a chegar ao café onde tinhas combinado alguma coisa. Nos locais mais pequenos (e nas pessoas mais velhas – aqui independente da região do país), tu vês um maior cuidado com a sua terra e sítio, vês uma valorização pelo espaço que se calhar a nossa geração já não tem tanto. Quando vais então para locais mais pequenos, deixar lá alguma coisa, elas ficam na dúvida, desconfiam do que vais lá fazer, ficam na defensiva e aí é importante conhecer essas pessoas, conviver com elas, ouvir o que elas têm para dizer. E se deixares algo que seja para a cidade, uma oferenda, então que seja algo com uma mensagem. Existe uma responsabilidade social enorme no trabalho de rua. Não é estar a apontar os dedos, ou dizer como as pessoas devem agir, é preciso aliás ter cuidado com o que dizes e respeitar toda a gente – mas se estás na rua, as palavras tem um peso, as imagens têm um peso e se for para passar alguma mensagem que seja algo inteligente.”
- De certa forma são as pessoas mais velhas do interior as mais recetivas?
“Sim, no início ficam muito defensivas, mas depois acabam por valorizar, e gostar, principalmente se já te conhecerem e acompanharem o teu percurso, e guardam aquilo possessivamente, é para eles, deles, defendem aquele trabalho. Já nas cidades “grandes”, a mensagem tem de ser mais direta e mais forte.”
- Viveste em Birmingham. O que achas que é diferente entre o feminino artístico cá, em Portugal e o que conheceste lá fora?
“Eu acho que quando falamos do papel na arte dizem sempre que somos poucas, e sim, a balança esta muito desequilibrada. Mas se calhar é porque tens mulheres que não querem mostrar o seu trabalho, não têm interesse ou acham que não podem. Então eu digo: elas que saiam e que venham fazer coisas. A rua é uma tela de exposição gigantesca e toda a gente está de olhos postos na rua agora. Hoje em dia mais que tudo é aproveitar a “onda” do feminismo, se estamos a ganhar mais consciência, melhor, então vamos mostrar o que valemos. Já passei por situações muito desagradáveis em que me pagaram para estar presente, para fingir que estava a trabalhar e se calhar aceitei com imensa dificuldade porque precisava do dinheiro. Mas qual é afinal o meu papel? É suavizar um meio de homens? Não é! Sei que somos 3 ou 4 muito ativas no meio de arte urbano, mas são várias exposições por ano e vai uma ou outra apenas para preencher o buraco da única mulher que está disponível. E isso é muito complicado, mas é preciso aproveitar e marcar presença para fazer a diferença!”
-Sim, o que é que se pode perder, principalmente durante esta altura?
“Ainda por cima, no meio de arte urbana, há muitos anos atrás, senti que havia uma desconfiança quando dizias que querias fazer alguma coisa. Nós vivemos numa sociedade machista – se hoje uma mulher quer ser condutora de um Uber ou um autocarro, há ainda uma censura imediata porque foi a sociedade que nos faz pensar dessa forma, é normal – por isso é uma questão de darmos a volta. Mas para mim, é uma questão de igualdade para todos. Para uma mulher ter empoderamento, o homem tem de se sentir também empoderado.”
-Tem de haver um equilíbrio…
“Sim, a maior parte das desigualdades é criada devido às inseguranças das outras pessoas.”
- Tu retratas tanto o universo masculino como o feminino nas tuas pinturas.
“Sim. O feminino porque sou mulher e sei exatamente como me colocar na pele de uma mulher. E acho que é importante, já que retrato o peito de um homem nu, retratar o peito de uma mulher também nu, porque é importante assumir-se tanto para um como para outro. Fiz um trabalho no Hospital dos Capuchos, onde o nu era essencial para que fizesse sentido e houve alguém que chegou lá e pintou os seios da figura feminina, mas como se tivesse sido eu a fazê-lo (está muito bem feito). E isso chateia-me. Uma coisa é fazerem tags ou bigodes por cima e isso não me chateia nada, mas quando vão desconstruir o teu trabalho e a mensagem que queres transmitir, isso é algo que me irrita muito.”
-Para finalizar porque já tens um público mais jovem à tua espera na sala ao lado, o que dirias à Tamara de há 20 anos atrás?
“Vai em frente, força e não desistas, porque tudo vai correr bem. Pode doer, mas vai correr bem (risos). Se há persistência, se há amor e paixão, então vai ter de correr bem.”




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Tuesday, April 21, 2020

Acção isolada
April 21, 20200 Comments
Imagem captada do Parque Infantil de Queluz (Av. Républica no passado sábado, dia 18 de Abril)
NOTA: A caminho entre supermercado e casa num parque completamente vazio)

Se algo este confinamento social, esta obrigatoriedade em ficar em casa nos mostrou, é que de repente somos todos artistas, desportistas, cozinheiros. Se por um lado a novidade de ter de ficar em casa a trabalhar (para a maioria das pessoas algo que nunca tinha acontecido) era grande, por outro lado, passou a haver toda uma questão psicológica que ninguém colocou em cima da mesa. O que significaria ficar em casa, seria assim uma total transformação e auto-educação de cada um de nós para termos mesmo de fazer tudo no nosso espaço pessoal - além do trabalho (em horário normal, das 9 às 18, com intervalo de almoço e até pequenas escapadelas para o Nespresso na nossa nova copa que é agora a nossa cozinha, e que se revela em muitos casos, acabar até por trabalhar mais horas por dia, entrando pela noite dentro ou fins de semana), a realização de todas as tarefas domésticas, que agora já nem se podem evitar ou arranjar desculpas para adiar, bem como as actividades lúdicas que antigamente fazíamos na rua, literalmente fora de casa. Com tudo encerrado, com a impossibilidade de até podermos ir a um parque e sentarmos-nos num banco do jardim, o que nos resta? Na caracterização da nossa nova realidade, já muitos sentem a pressão de não conseguirem mais. Muitos pais acabaram por pedir assistência à família uma vez que se torna incomportável estarem em tele-trabalho ao mesmo tempo que tentam evitar que os filhos em idade pré-escolar façam disparates. Estarmos em casa em família não nos torna mais unidos e muitas famílias estão neste momento forçosamente separadas por questões ditas de saúde pública. 
O que é certo é que ao mesmo tempo que a bolha psicológica começa a saltar, continuam a popular histórias incríveis (talvez um bocadinho menos verdadeiras) de tanta gente a fazer tanta coisa, em casa, claro. Exercícios para os corpos permanecerem fit na expectativa de um verão que o vírus já nos roubou (praias encerradas, hotéis que nem irão abrir), pratos culinários maravilhosos, toda uma panóplia de grupos via Instagram, WhatsApp ou Facebook para falarem sobre as mais recentes leituras, jardinagem na varanda, decoração de interiores one-o-one for dummies, pintura (nisto incluo-me), workshops de ponto-cruz e Arraiolos, só, mas só mesmo, para não darmos em doidos com toda esta situação para a qual ninguém sabe quando terá um fim e, por não querermos aceitar o facto de que estarmos em pijama ou fato de treino todos os dias ou não, é algo que já não interessa a ninguém, com única excepção, a nós mesmos.

Livro O Atelier da Noite (Relógio d'Água)
Bolo de Banana e Chocolate da @galeriavinteoitoconcept

E é aqui que quero chegar. Se para muitos este excesso de acções em isolamento parecem apenas provas irrefutáveis que as pessoas não conseguem consciencializar-se para o que se está a passar mundialmente, ou que, estando conscientes estamos sempre ligadas à corrente, por outro, também mostra que o ser-humano é dotado de uma força incrível para não se deixar abater completamente.
Quando isto tudo começou, da noite para o dia, também eu chorei - não há mal nenhum em dizê-lo. Mais, chorei porque me lembrei de tudo pelo qual já chorei na vida, pelas dores que outros me causaram e que, por comparação agora, parece tudo tão pequeno e sem importância. Chorei porque não, ninguém estava à espera que algo assim voltasse a acontecer nesta dimensão e a esta escala. Chorei porque achei que estava a observar algo muito superior à Humanidade. Mas não. Isto não foi um acto vingativo de qualquer deus ou da Natureza, porque se assim fosse não iria atingir apenas algumas franjas da sociedade - este vírus mau, veio mostrar que na mesma balança temos seres-humanos que não mais pensam em lucros e que também temos seres-humanos capazes de se superarem, tentando fazer no seu dia a dia de tudo para não caírem no fosso que os do outro prato querem que assim aconteça. 
Estas mega, hiper actividades são tudo o que nos resta além do medo, além do que é óbvio agora: a incerteza de cada dia, a incerteza de algum dia iremos chegar ao fim disto tudo. Estas acções isoladas são aquilo que por agora nos mantêm VIVOS.









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Thursday, April 09, 2020

A Hora da Moda
April 09, 20200 Comments


Moda: substantivo feminino:
1. Uso, hábito ou forma de agir característica de um determinado meio ou de uma determinada época; costume
2. Uso corrente, prática que se generalizou
3. Estilo prevalecente e passageiro de comportamento, vestuário ou apresentação geral; tendência
4. Indústria ou o comércio de vestuário
5. Estilo pessoal, gosto
6. Hábito repetido; mania; fixação

Foquemos apenas nos pontos 3 e 4: Estilo passageiro de vestuário, tendência, comércio e indústria. Nos dias que correm, mediante a situação global que se vive, muito se tem falado, escrito e pensado sobre qual o futuro de vários setores industriais - como é que alguns irão recuperar de uma crise extremamente profunda que se adivinha com uma certeza absoluta, como irão as empresas recuperar lucros e como poderão voltar a empregar pessoas que, ou estão em lay-off ou já foram despedidas sem apelo nem agravo, pese as medidas impostas e todas as respetivas condicionantes que o Governo(s) tomou. Contudo, no que diz respeito aos setores de calçado e vestuário, sabe-se que para uma época menos boa, de vendas mais reduzidas ou mesmo nulas, por comparação com outros períodos, outras virão em que os clientes irão voltar a comprar. Ainda assim, para além do que fazer a economia girar, acaba por ser a nossa forma pessoal de lidar com uma nova realidade que irá fazer toda a diferença. Numa altura em que todos (os não essenciais) estamos (ou deveríamos estar) em casa, fará sentido continuarmos a adquirir peças de vestuário e calçado para um presente ou futuro breves que serão completamente imprevisíveis? Quantos de nós vestirão uma camisola ou umas calças novas estando 24 sobre 24 horas por dia em casa, mesmo que se esteja em modo teletrabalho? Ainda que possam haver reuniões formais, será que não vamos sempre estar com as calças de fato de treino ou pijama vestidas, pelo simples facto de conforto? Estar em casa hoje em dia implica muito mais do que estar sentado frente a um computador, existe sempre algo para fazer na cozinha, limpezas extra devido a todos os cuidados que temos de ter. Vale a pena estar a "estragar" roupa usando-a em casa? O certo é que as marcas acompanham a realidade e no caso, não faltaram opções para a chamada roupa confortável e elegante de andar por casa - uma forma simples de chamar os fatos de treino e pijamas a um lugar de topo nas escolhas e, uma vez mais, tendências dos consumidores. Ainda assim mantenho a questão inicial, haverá algum problema em nos arranjarmos mesmo que estejamos em casa? Há problema se houver maquilhagem, depilações, coloração de cabelo? Há problema em manter as novas tendências (assumidas no Inverno passado para a estação estival que se aproxima) mesmo estando fechados? Ou será tudo muito supérfluo, sem noção ou sem respeito pelo que se está a passar? Passamos uma vida inteira a sermos confrontados com as nossas escolhas de estilo, a nossa forma de vestir, e agora que estamos em casa e podemos fazer o que quisermos, continuamos a pensar no que dirão os outros - que nem nos estão a ver na sua grande maioria. 
Não creio que a Moda deixará de ter o seu espaço no mundo - muito menos que deixe de gerar tendências, mas não nos tempos que se avizinham. Podemos assumir que desta vez fomos nós, foi o Mundo quem mudou a tendência criada por estilistas e autores. Possivelmente será assim nos próximos tempos ou temporadas, à necessidade das pessoas a Moda terá de se adaptar senão corre risco de se tornar um elemento de criação a cair no ridículo. Deixará sim, temporariamente, de ditar formas de vestir, passará a ser menos elitista talvez. Mas acima de tudo, não desaparecendo, terá de inevitavelmente mudar o seu status até agora garantido, podendo talvez gerar um outro tipo de empatia para quem até agora acharia ser um mundo fait-divers.

Fotos @theyoumaybe


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Sunday, March 29, 2020

Hora de Verão
March 29, 20200 Comments
E assim foi. Na madrugada passada, entre uma hora e outra, acertaram-se os relógios e dizem os peritos que estamos no horário de verão. Seria idílico não fosse a ironia de os dias tornarem-se maiores para agudizar ainda mais as gentes que começam a acusar cansaço de um confinamento forçado e sem quaisquer perspectivas de término. E se há dias que parecem mais fáceis e rápidos, outros há em que não se encontra uma única vontade extra de ânimo, uma inspiração ao trabalho que se possa fazer por casa, nem uma fotografia, nem um livro, apenas palavras, ideias desconexas num cérebro à ruptura por excesso de informação, pensando no tempo que se perdeu antes, "antes", com outras coisas que afinal, nada parecem interessar. Agora, para cúmulo, ainda temos mais uma hora diurna, arrastando a luminosidade que, no início do ano, queria tanto que chegasse. Pensei imensas vezes que seriam Abril e Maio os meses para fotografar, pensei nas árvores que já estivessem em flor, os jacarandás da cidade, os cheiros e o céu a ficar cada vez mais azul à medida que a temperatura começasse a subir. Seriam os meses que iriam iluminar tudo, e que tornariam o ano ainda maior na promessa de grandeza que trazia. Na promessa apenas. 
Continua em mim o pêndulo entre o espanto e abalo, e a realidade consumada, aquilo que às vezes acho que é simplesmente mentira e que daqui a pouco irá passar, e a certeza que afinal irá durar muito mais tempo do que aquele que todos julgávamos. Uma guerra de silêncio, de afastamento. E agora também uma guerra contra aquilo que mais amava. A liberdade dos dias compridos, esticando-se para lá da noite, com vontade para aquele passeio mais tardio, um copo de vinho e um jantar, mesmo que não fosse esta a ordem. E ver o mar. 
De tudo, o que esta hora de verão me relembra num martelar constante, é que o mar, mesmo aqui à minha porta, me é negado numa inacessibilidade cáustica. Se não tenho nada "lá a fazer" o acesso é-me negado pela auto-prudência de quem teme a possível doença. Só que o mar em mim sempre foi cura.
O "tudo irá regressar ao normal" não me encherá a alma por estes tempos, nem tão pouco o passar das horas, agora num vagar mais comprido e estival. Os dias ainda não estão quentes, mas em breve irão ficar. Terão certamente de ficar. E a hora de Verão continuará a ser celebrada como se nada se passasse no Mundo. E na verdade, ao certo, será que o que se passa não é apenas insatisfação. Continuo, continuamos a pensar em liberdade quando claramente esta não nos é actualmente destinada. Deixemos então o planeta fazer o seu pousio entre as estações do ano, num calendário descompassado ao do ritmo humano, estabelecendo o lugar de cada coisa numa escala hierárquica que nos é ainda desconhecida. Seremos todos meros observadores desta vez, sem qualquer tipo de estrago propositado. O assombro, esse, irá certamente continuar. 

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Thursday, March 26, 2020

Diferentes formas de vida
March 26, 20200 Comments

Talvez seja altura de parar com a poesia.
Depois do choque inicial, da rapidez com que tudo aconteceu, quando começa a haver excesso de informação horário (às vezes minuto a minuto) e para lá do romantismo que podemos ver inicialmente em tudo, desde os sinais do universo, às mais nobres profissões que estão lá fora para que nós fiquemos cá dentro, há que perceber uma única coisa: o tempo pode ter parado sim, mas as nossas vidas nem tanto.
Em poucos dias algumas empresas e muitas pessoas tiveram de se adaptar rapidamente a uma nova realidade e a uma diferente forma de estar e viver:  tele-trabalho, aulas via internet, prestar atenção e ajudar filhos e família quase 24 horas por dia, exercitar os métodos de compras online (perdendo todo o receio que antes havia para o fazer), exercício físico em casa, tudo mudou para grande parte da população. Os conceitos de proximidade física com o outro alteraram-se à mesma velocidade com o que os conceitos de proximidade familiar se estreitam. Nunca em tantas décadas houve tanta gente a viver debaixo do mesmo tecto, tal como nunca em tantos anos pais estiveram tão próximos dos filhos - da mesma forma que nem nunca avós e netos tiveram de estar separados ou pessoas tiveram de ficar totalmente sozinhas e isoladas. A ordem natural das coisas como estávamos habituados mudou e as suas consequências só poderão estar visíveis talvez a médio ou longo prazo.
Posto isto, de que forma o isolamento quase obrigatório, a quarentena (o esperar que possam surgir quaisquer sintomas de doença), o estar e ficar literalmente em casa mudou a nossa real forma de ser e de estar na vida?
Estranhamente ou não, para aqueles que faziam do seu espaço mais íntimo local de trabalho, esta situação parece não ser confortável - a clausura habitual poderia ser pautada com saídas, reuniões pontuais com colegas, jantares com amigos, e sim, um ritmo de trabalho e produtividade dentro dos padrões normais. Agora, a "obrigação" torna-se um peso e a desconcentração parece imperar.
Já para aqueles, como eu, habituados à rotina diária de trabalhar num escritório (ou outro espaço fora de casa), a questão coloca-se de outra maneira. Poderá haver maior tentação para a distracção, mas acho que é exactamente isso que nos leva a trabalhar por vezes muito mais - um esforço extra que, se antes era não era visível pelo número de idas às copas ao longo do dia, agora nem sequer nos passa pela cabeça. No meu exemplo, estar na minha zona de conforto, com toda a "minha tralha" em redor faz-me pensar que quanto mais cedo me despachar (mesmo que acabe por ganhar mais vontade para trabalhar e ver mais calmamente coisas que se calhar estando no escritório não veria) mais depressa vou ler aquele livro adiado, ou fazer aquela pintura que tanto ando a imaginar. Não acredito que haja menos responsabilidade tal como não acredito que os trabalhadores não respondam às solicitações que lhes possam ser feitas estando em casa - sinto-o até como uma forma de auto-defesa - há que mostrar aos nossos colegas e chefias que lá por estarmos em casa não implica que estejamos sentados no sofá a ver filmes ou séries. Aliás, parece que na verdade é algo que temos de provar não só a quem de direito mas também a toda uma sociedade que de repente surge de peito cheio garantido que somos uns preguiçosos, medricas e que por nossa causa a economia nacional parou - a esses apenas lhes digo que já todos percebemos quais as vossas prioridades. Principalmente quando são vocês que estão sentados nas vossas cadeiras de couro bafiento, enfiados em escritórios que se devem localizar certamente numa sala de uma casa onde também habitam. 
Mas sim, é exactamente por isto que devemos parar com a poesia por uns tempos - porque a realidade é esta e terá de ser instalada no nosso sistema até se tornar numa normalidade anormal. 

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Sunday, March 22, 2020

No primeiro dia em que o tempo parou
March 22, 20200 Comments

Naquele primeiro dia, em que tempo começou a parar, era tudo um sussuro abafado. Uma coisa lá de longe, num extremo oriental que pouco conhecemos. Depois vieram os primeiros ruídos de silêncio, como se tal coisa pudesse fazer sentido, mas cada vez mais fortes, cada vez mais perto, o ponteiro dos minutos a passar como horas, os segundos a demorar minutos, uma trovoada ténue, um chuvisco que nem molha. Até que, de repente, o relógio deixou de funcionar. Vimo-nos encerrados nas nossas casas, nos nossos lares, nos nossos hospitais, com algo que está lá fora nas ruas porque também poderá estar cá dentro, de cada um de nós, algo que a natureza colocou numa primeira pessoa que terá passado a outra e a outra e a dezenas e centenas e milhares e milhões de outras pessoas, já longe do extremo oriental. Tornamo-nos assim os nossos próprios inimigos, tornamo-nos eremitas, afastados fisicamente uns dos outros - ou uns mais que outros -, pais de filhos, netos de avós, vizinhos de vizinhos, amigos de outros amigos. Porque o tempo parou. 
E este jogo ainda mal começou. Será que o planeta com armas invisíveis e silenciosas irá conseguir o seu objetivo de mudança ou será que voltamos a ser aquilo que éramos, egoístas, gananciosos, absortos em vidas mesquinas, miseráveis, num ram-ram de casa trabalho, trabalho casa? Deixámos de ir aos nossos empregos, deixámos de ir aos parques, deixámos de ir às lojas, porque tudo fechou, porque o tempo parou. Porque o tempo parou.
Será que vamos saber finalmente ser seres MAIS humanos, ou apenas seremos mais uma espécie que mesmo vendo que está em vias de extinção, e não por causa das causas que se pensavam culpadas, irá continuar o seu rumo de auto-destruição. Será que a riqueza e a economia mundial de um país vale mais do que vidas humanas, será que iremos compreender finalmente o que é o mais fundamental para uma sociedade funcionar. Mas acima de tudo, será que iremos finalmente perceber que não há ricos nem pobres, nem primeiro nem segundo nem terceiro mundo, que a vida não é feita por "andares" sociais ou estereotipos, que estamos todos no mesmo barco, que temos de respeitar estas novas regras, estas novas leis. Tudo porque o tempo parou. 
Mas o tempo parou para a escala humana. O tempo parou para nós. Mas o tempo não parou na natureza. 
Naquele primeiro dia, era a Primavera a chegar, eram as árvores com novas folhas enchendo os ramos outrora vazios em tons verdes, eram as flores a romper para a aurora do dia, para o futuro quente que se avizinha, já era o casal de andorinhas a esvoaçar na rua, a chilrear alegremente, era o pardal a tomar banho numa poça de água da chuva. Porque o tempo, afinal, não parou totalmente. Não para aquilo que o tempo acha que é o verdadeiro, o real e o importante. Não parou para a estação da Esperança.






Fotos realizadas nos Jardins do Palácio Nacional de Queluz, no dia 8 de Março 2020





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Sunday, March 08, 2020

East End, Mulher e Sufragistas
March 08, 20200 Comments


3 nomes. Uma região geográfica, um substantivo, um grupo político. 
Através da História, certamente que conhecemos alguns movimentos sufragistas femininos onde "Votes for Woman" ou "Equal pay for equal work" eram frases-chave na conquista de direitos. Certamente foram estas as principais afirmações que estão na base do Feminismo como se conhece até à data. Uma luta apenas e só por direitos e deveres iguais entre Homens e Mulheres, sem manifestações de uns serem mais importantes ou melhores do que os outros.
O que poucos sabem (e independentemente das afiliações políticas de cada um ou cada uma) é que o East End de Londres, bem como cidades como Manchester, (zonas tipicamente operárias com forte componente industrial) foram o seio dos primeiros grupos conhecidos dos movimentos feministas. 
Em Londres nas primeiras décadas do século XX, Sylvia Pankhurst, tornou-se a estratega do East London Federation of Suffragettes quando percebeu que o movimento feminino sufragista do qual também fazia parte "União Social e Política das Mulheres" - Woman's Social and Political Union, não tinha qualquer impacto real junto aos partidos políticos britânicos. Apoiando-se das suas capacidades intelectuais (e sem dúvida auxiliada pelo facto de pertencer à classe média-alta), fez do East End o seu porto de abrigo. Numa luta intensa pela liberdade e igualdade de direitos, pela possiblidade de voto da Mulher, foi várias vezes presa junto a outros colegas e não raras vezes fazia greve de fome para que as suas vozes fossem ouvidas. 
Coincidindo com o dia 8 de Março, o primeiro boletim da Federação de Sufragistas, editado em 1914, tinha como moto de desafio: "Some people say that the lives of working woman are too hard and their education too small for them to become a powerful voice in winning the vote. Such people have forgotten their own history". Uma rápida resposta a várias críticas que afirmavam que uma mulher da classe operária, trabalhadora ou não, não tinha capacidades para perceber ou saber escolher o melhor para si, para os seus pares e para o seu país. 
Embora fosse totalmente contra o envolvimento do Reino Unido na Primeira Guerra Mundial, durante a qual a maioria dos homens foi enviado para os campos de batalha passando as mulheres a terem um triplo desempenho em "casa", principalmente quando viviam em bairros de extrema pobreza, viu o império britânico a permitir o voto à Mulher em 1918 ao abrigo da reforma do sistema eleitoral implementado no mesmo ano. Na realidade, esta reforma não foi totalmente isenta de intenções; durante os períodos de guerra, pode-se verificar os vários estados que concederam o voto eleitoral às mulheres, uma vez que acabou por pesar nelas um esforço de guerra de maior impacto. Enquanto os homens lutavam, as mulheres acabaram por ter de conciliar as tarefas domésticas, tomar conta de filhos, passando também a ocupar os lugares vagos nas fábricas e outras atividades até então tipicamente masculinas (ou negadas à mulher). O Reino Unido foi não foi contudo dos primeiros países a conceder o voto feminino a nível europeu mas definitivamente não foi o último também (importa não esquecer que em Portugal, por exemplo, apenas após 1974 é que os direitos da "mulher" foram revistos - muito devido ao seu papel na sociedade mas acima de tudo, à sua intervenção dentro do espaço doméstico).
O que falta ainda então fazer para que este dia faça ainda mais sentido? Tudo! Continuamos a ter um longo caminho a percorrer de forma a que os direitos e deveres se tornem iguais. De forma a que não tenhamos sempre de ouvir que estamos a pedir, a procurar, ou porque estamos muito vestidas ou despidas, porque somos mães e porque não somos mães, porque é que não somos assim, ou mais simplesmente, porque é que somos como somos. 

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Monday, February 24, 2020

A inconveniência de ser livrólico - 1ª edição
February 24, 20200 Comments
Ir a Londres é, para mim, ir a espaços iguais aos de outras idas e ir também a outros tantos que não conhecia ainda. Nomeadamente livrarias. Até parece que cá em Portugal não há, poderão pensar. Até podem mesmo dizer qual necessidade tenho, real, para estar a invadir livrarias e folhear livros, quando "todos" sabemos que o futuro é digital. A resposta é simples, enquanto eu cá andar, enquanto tiver liberdade de escolha, irei optar por livros e páginas físicas. Pelo cheiro de obras antigas e pela tinta de novas edições. Não significa que não adira às novas tecnologias - nem posso atirar pedras porque já tenho alguns livros em formato apto para tablets, computador, Kindle, mas não há melhor prazer do que entrar em pequenas livrarias, principalmente noutros países, nos quais desconheço por completo o grau de literacia, o interesse pela literatura, os hábitos de leitura. Sei, por exemplo, que em Brick Lane, no coração do East End, em Londres, existe uma livraria (Brick Lane Bookshop de nome atual, claro!) que desde os anos 70 sempre pautou por ser irreverente, interventiva, marco da luta da classe operária e pobre da cidade que durante vários séculos foi desterrada para a zona das "docas". Sei também que já em zona "nobre", bem perto do Museu Britânico, existe uma livraria que se chama aprazivelmente "London Review Bookshop", onde entre livros, postais, revistas, existe também um café onde o negócio da literatura bate certo com o dos cappucinos e brownies
De resto, volto a nada saber ao certo, a não ser que tenho a caminho alguns álbuns incríveis sobre a zona leste londrina (publicações da Hoxton Press, cujas capas podem ser vistas nas imagens abaixo), porque é realmente fascinante conhecer não apenas a nossa terra, mas também outras terras. O mundo é global e para muitos de nós, as melhores e às vezes únicas viagens, passam mesmo e apenas pelo mundo do livro.






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Friday, February 14, 2020

Doce Bijou
February 14, 20200 Comments
Nascida no Brasil, entre o Paraíba e o Ceará, cresceu rodeada de Natureza, fossem folhas e palmeiras frondosas, ou o bioma que é a Caatinga, exclusivo do nordeste brasileiro, mais árido e seco. Não é de estranhar então a influência que esta mesma flora tem nas suas criações de joalharia.
Juliana Bezerra, 38 anos, (@Juliana Bezerra) veio para Portugal numa fuga decidida e supostamente temporária para respirar fundo após um problema familar.
Na sua então chegada a Portugal, Juliana, (Ju para os amigos), encontrou não só a paz que procurava, mas também o amor, junto ao que se tornaria mais tarde seu marido. Decidida a ficar de malas, bagagens e coração, procurou então melhor desenvolver as suas técnicas em escolas de joalharia e posteriormente no Atelier de Tereza Seabra onde foi estagiária.
O resultado foi simples. Em pouco tempo o seu nome tornou-se num dos mais conhecidos na internet e o sucesso através do Facebook e Instagram foi crescente. 
Agora, numa colaboração com outra brasileira que tem Portugal no coração e Lisboa na alma, Carolina Henke, a "dona do pedaço" que é a Brigadeirando (@BrigadeirandoLx), Juliana apresenta a coleção Dois Amores, que tem como tema o Amor, claro, e cujo lançamento foi alusivo à data de 14 de Fevereiro, Dia de São Valentim.
Entre o aroma e sabor dos bolos tradicionais, criando também a atmosfera naturista que acompanha a amizade entre as duas criadoras, apresentam-se lembranças únicas sendo possível ainda hoje se adquiriem na loja do Lx Factory e posteriormente no site da designer de jóias, aqui: Juliana Bezerra Atelier e no seu atelier físico no Páteo Bagatela.






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Thursday, February 13, 2020

Bonjour Simone
February 13, 20200 Comments
                   

Simone Matos has always lived near the Atlantic Ocean and that can ultimately change a person. The typical blues and greys from the Lisbon western coast climate are visible and present in her life and are one of the bases for her Jasmin Project – a collage work collective that was first born as a quite private and personal creative journal. Today, the graphic designer has challenged herself and others to make these images together, as a way to relax from the daily craziness but specially to provide a creative mind boost for every one of every age, allowing people to express their feelings in a physical mood board. 

How did Jasmin Project happen? 
SM – This project comes from the heart. It was created about 4 years ago when I started to make image clippings about dreams and magic. It is truth that I have always made collages. I used to personalize my school notebooks and files but is was between high school and the university when I’ve gained a different detailed esthetic sensibility. My artistic essence started when I began looking at fashion magazines, cutting different visual textures, colors and feminine elements and putting it all together in such a way it made sense to me. My first collage, which is called “Jasmim” of course is a composition between art, textures and feminine details – which is the essence of my creations.
                                                
Besides being a very personal art form to express ideas, moods or even private desires, what led you to share it with others?
SM – Well between that period I mentioned, I did voluntary work with elderly people and I feel that finding a space/time for a workshop, to create a group in such a way they can relax and develop their creativity as well as their mental balance is a lovely thing. And that can work for everyone. 

From what you have seen during your workshops, do you feel there is discrimination in some artistic expressions in Portugal, like weaving or embroidery which are still regarded as manual “feminine/female” tasks? Collage per se is not usually accomplished by male artists and you don’t see them as often as woman in your encounters. 
SM - Well actually I don’t feel that even though the way I create a collage is based in dreams, hopes or wishes and of course in that feminine essence. I try to bring some graphic and poetic style along with fashion and surrealism and that, in a last case, is quite “feminine”. However, I’ve had male participants at the workshops which resulted in something very personal and they expressed their imagination in a masculine counterbalance. It was a change of scene. 

                                              


Do you feel that collage as well as urban art can have a social impact and act as an intervention form? Do you think there is some sort of a growing national conscience that it can impact in a political view? 
SM – With absolutely no doubt! Every single art form may have an interventive role in the most various interventive ways and collage is no different. In other countries it is even used in economy magazines as illustrations, so it all depends of the meaning and way you want the collage to work – the importance you want it to have. 

After your voluntary work, have you ever considered to organize once again some workshops and encounters in nursing homes or Senior Universities? What kind of impact do you think it could have?
SM – That’s a wonderful question! Thinking about it, with the memory loss process due to aging, it is quite necessary to create some incentives to creativity as a way to exercise the brain. Establishing a workshop ou formations dynamic that could be applied the older people, stimulating their minds, rescuing the past and making sure about their hopes and believes would be an amazing opportunity. It would give real importance for the expression of their feelings and it optimize their life perspective. For me it would be the best reward possible! .  

Finally, what would you say ii was your biggest conquest so far with this project? 
SM – That answer is very simple! The sharing in the workshops. It was something that I started to think about, but it only became real after I was invited by and agency to be the instructor of a Instax (Fujifilm) workshop. It was really a dream come true and it was so beautiful to see how it all went so smoothly and how all the participants were so focused in it. For me collage was always my mindfulness moment: to slow down, to get focus in the moment and forget about all the distractions (mobile phone eventually!). It is really great to see this dream, the Jasmin Project, to be embraced by so many people and becoming even more real. 
   


(the original text can be seen at A City Made by People, here: Jasmim Project - Construction of the Memory)
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