Cláudia Paiva Silva

Sunday, March 17, 2019

Porto, esse maravilhoso mundo novo
March 17, 20190 Comments


Ir ao Porto é receber colo.
Confesso a incredulidade e o receio de repetir a experiência. Há 10 anos, mais coisa menos coisa, a memória que me ficou da minha primeira visita ao Porto, feita num Fevereiro chuvoso, é de escuridão. Prédios escuros, ruas vazias, lojas fechadas. Não me lembro das pessoas. Fui bem acolhida isso sim. Mas não consegui precisar se foi pelo contexto se foi pelo fundo real de quem me recebeu. Agora tenho a certeza que é da alma do norte. Aquele receber encantador que se desmesura quando ouve português, aquela simpatia genuína de quem quer mostrar o melhor sem se preocupar se vamos comprar algo ou não, aquela forma de ser que apenas nos quer bem, contentes e cheios de felicidade de igual forma. Gente com coração e alma de ouro. Douro ou Doiro. Não tem outra explicação.


Talvez a luz que dizem Lisboa ter, no Porto não seja mais que o equivalente do reflexo do sol nas águas do rio que o banha. Tenho para mim até, que a luz branca da capital, igual resultado dos prédios brancos resultantes de um terramoto que os ajudou a erguer, a tenha tornado numa cidade fria ao final de vários séculos, sem amor, sem alma quase, sem os seus nativos habitantes que a tornavam tão única. Uma cidade fantasma até mesmo para aqueles que de lá foram desterrados para os arredores e subúrbios cada vez mais a perder de vista. 

No Porto, pode ser que aprendam a lição e, por muitos turistas que acorram à cidade todos os dias, e por muito que queiram limpar os prédios escuros e recuperar os medievais que estão a cair nas ruinhas e vielas de antiga má fama, continue a existir essa tipicidade inerente. Que não se esqueçam também que existe todo um Porto ocidental e um Porto oriental, este último abandonado e esquecido em bairros problemáticos, onde as pessoas são tão humanas, carentes e acessíveis como as outras que habitam até à Foz. É que a luz de uma cidade é geralmente emanada também pelas pessoas que de lá são e que lá (ainda) habitam. Cheia de pregões na boca e sem pejo na língua, que tratam as mulheres por "meninas" e os homens por "senhores". É que a vida quer-se apimentada e esmagada por sentimentos e sentidos. E nisso eles são assim. Todo um sentimento. Toda uma entrega. 




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Tuesday, February 26, 2019

Quem fica Gaga por último, é quem ri melhor...
February 26, 20190 Comments





Podem escrever o que quiserem. Que o Cooper tem um caso com a Gaga, que os dois mostraram e fizeram o Amor em palco, que são o casal sensação do momento, (e de todos os momentos em que estão juntos), mas honestamente? para mim tenho que no espaço tempo recorde em que o filme foi feito, os dois atores que se esforçaram para criar personagens de uma história que, dizem os críticos, tem tanto de verdadeiro como os pedidos de desculpa da igreja católica por abusos sexuais, tornaram-se sim, imensamente cúmplices, imensamente amigos. Sim feministas, eu acredito que um homem e uma mulher possam ter uma amizade assim, que roça - mesmo que de uma forma despudoramente estranha - o verdadeiro Amor, no qual as pessoas são mesmo capazes de dar as vidas pelo outro (estranhamente coincidente com a história dita inverossímil que o filme conta nesta sua 4ª adaptação). Da mesma forma que iria dizer para se relembraem que foi durante a realização do filme que a relação do Cooper com a ex do Ronaldo (como gostam de chamar a Irina - que a Irina não é Irina, uma mulher só é alguém quando se torna a ex- e por isso mesmo fica conhecida "a ex- de fulano") se tornou ainda mais sólida, e foi quando, vejam lá o raio da coisa, ela ficou grávida. 
Sim, concordo que a Irina assusta um pouco com aquela voz de bagaço (no caso deve ser vodka) quando faz os comerciais da Intimissimi, mas também acredito que não deva ter feito um feitiço ao Bradley para ainda continuar ao seu lado, se fosse, também como se apregoa, assim tão burra, tão desprovida de inteligência. 
Sim, concordo que a Stefani (Gaga) por detrás daquelas máscaras todas que coloca volta e meia, seja uma pessoa extremamente correcta, inteligente, que sabe bem o que quer e como o conseguir, sem ser necessário passar apenas por movimentos #MeToo, embora a própria também seja vítima não só de assédio, como mesmo de violação física.

Seja como for, não acredito que entre estas duas mulheres exista, depois destes meses todos, entre a estreia do filme e a noite de domingo passado, qualquer tipo de azedume e ciúme, mas sim uma convivência bastante pacífica. ternurenta, calma, mas acima de tudo, de classe - coisa que cada vez menos vai ocorrendo no género feminino -, possivelmente passando pelo célebre ditado "os cães ladram e a caravana passa".

Se eu estiver completamente errada, o tempo a muito curto prazo assim o irá revelar - pois se os convívios entre o Bradley e Gaga terão terminado na festa dos Óscares, facilmente alguém os irá apanhar algures, em algum sítio. 



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Saturday, February 23, 2019

Venezuela
February 23, 20190 Comments
País da América do Sul.
Capital: Caracas.
Países fronteira: Brasil, Colômbia, Guiana.
Habitantes: cerca de 31 500 000 de habitantes (31.5 milhões).
Presidente: Nicolás Maduro.
Presidente interino: Juan Guaidó.

Situação atual: camiões repletos de ajuda humanitária queimados pela polícia venezuelana.

às vezes ponho-me a pensar o que significa realmente ser blogger se, na altura da verdade, nada dizemos ou, no caso, escrevemos, que valha a pena, que faça a diferença, que incomode quem leia, que agite as águas, mesmo que seja uma agitação leve. 

Como é possível que todos vejamos as imagens e nada se faça? Mas fazer o quê, perguntam. Entrar a matar? E mais, não será isto tudo por causa do petróleo, que toda a gente quer? Talvez... Mas mais do que todas essas questões, haverá estes factos: um presidente louco (se é de esquerda ou direita pouco importa, pelo que os extremos acabam por se unir e serem idênticos no que toca a ditaduras), uma população ou em fuga ou sem dinheiro ou sem o que comer, sem conseguir sobreviver. Nada do que aqui me possam dizer, irá fazer sentido. Há pessoas a passarem necessidades extremas, num país riquíssimo, liderado por um homem que não tem qualquer carácter ou senso comum. 
A partir do momento em que as forças apoiantes de Maduro pegam fogo aos camiões que se encontram nas fronteiras do país, que querem entrar, e que estão proibidos, camiões esses cheios de mantimentos que poderiam ajudar uma parte muito muito ínfima da população em crise, não me peçam compreensão, nem me tentem passar a ideia das politiquices que se encontram nas entrelinhas. Estamos a falar de direitos humanos, de nações (supostamente) unidas e vidas humanas. É disso que aqui falamos: de vidas humanas, que parecem ser desumanizadas. 
(https://www.goway.com)
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Tuesday, February 12, 2019

Ideias para o Dia dos Namorados (neste caso para meninas)
February 12, 20190 Comments
Falta-vos inspiração? Aqui deixo algumas dicas, a começar pela parceria entre a marca Josefinas e a APAV. Com o lema "You can Leave" são três os modelos de t-shirt onde, através do maravilhoso grafismo da ilustradora Jacqueline Bissett, se revela de forma indirecta a realidade da violência física contra mulheres. Por cada modelo vendido (custo de 79 euros), o valor reverte à associação e às Casas de Abrigo, onde as vítimas de maus-tratos podem ter acesso a apoio jurídico, social e psicológico, de forma gratuita, durante um mês. De forma irónica e marcando ao mesmo tempo posição, cada t-shirt apresenta as desculpas mais comuns que quem sofre de abusos costumam dar aos amigos, à família: "caí pelas escadas", "fui contra um armário" ou "bati contra a parede". Uma forma original de dizer Basta à continuidade de um flagelo cada vez maior em pleno século XXI, em mais um mês onde o papel da Mulher na sociedade é debatido, e em mais um dia onde foram conhecidos novos números da disparidade existente entre homens e mulheres. 





Para quem gosta de oferecer outro tipo de lembranças, os relógios Olivia Burton, disponíveis na Boutique dos Relógios, não deixam de ser elegante opção. Se for possível, ofereçam juntamente com um dos modelos Josefinas, que fica sempre bem e faz um conjunto muito mais criativo, não deixando de ajudarem quem realmente precisa! 




Por último... a nova colecção das portuguesas Friendly Fire Shoes é igualmente fantástica. A aposta elegante entre o branco, dourado e prateado, sempre com a possibilidade de combinar as diferentes tiras disponíveis com cada um dos modelos, juntamente com os tons de areia que se associam ao Verão, ficam bem com qualquer conjunto, desde mais sóbrios para o trabalho, como casuais para o dia-a-dia. Tal como afirma a própria marca para a nova temporada estival "Neste choque imersivo, a mulher desafia as leis da gravidade e revela-se assim mais autêntica e destemida do que nunca. Sem medos, sem incertezas, sem limites."








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Saturday, February 02, 2019

Dias de chuva? Devolvam-me o calor, por favor!
February 02, 2019 2 Comments
Devo ser das poucas pessoas que não gosta do Inverno, nem da chuva, sempre tão necessária para as couves e encher barragens. E não, este discurso não irá resultar em toda uma declaração sobre alterações climáticas - isso ficará para outra altura.
É uma publicação mais simples: não gosto desta época do ano, não consigo encarar com um sorriso mesmo que seja glacial, os dias de céu azul mas frios como o raio, ou as tardes de chuva, que costumam resultar em imagens idílicas de instagram, com mantas, chás, panquecas, pepitas de chocolate, e livros. Até porque geralmente, no dia-a-dia, a realidade é ligeiramente diferente. Se estás em casa ou é para tratar da mesma, ou para tratar de comida, ou para fazer compras domésticas. Enfim, estar em casa nos fins de semana de chuva, não é propriamente a mesma coisa que estar de férias. E se eu falar então do estar em casa porque estamos de baixa à pala de gripe que nos atira para uma espécie de limbo infernal, chamada purgatório, então ainda é pior - porque aí nem o organismo deixa que façamos o que quer que seja, sem que o mesmo ocorra em grande esforço física e mental. Experiência pessoal: estive de baixa esta semana por causa de uma constipação mal curada que evoluiu estupidamente para uma gripe (lembram-se da sexta feira da semana passada? Que para mim foi praticamente ontem, visto que desde então estive numa realidade paralela de dores de corpo, dores de cabeça que não me lembro de ter alguma vez tido, tosse, mais dores, mais febre, mais náuseas por causa do excesso de medicamentos que apenas e só servem para melhorar os nossos sintomas) e estou a amar. Principalmente porque o tempo está uma maravilha incrível de chuva forte, frio, e tempestades fofas que andam a levantar telhados e a destruir estruturas de bombas de gasolina. E não, não tenho vontade de beber os tais chás (feito), comer as tais panquecas (feito), porque simplesmente continuo extremamente mal disposta.
E sim, posso continuar a sofrer o síndrome "Brasil", aquele em que, raras excepções, as pessoas europeias, colonizadoras, que tenham a possibilidade de pisar território para lá do Atlântico, ficam completamente encantadas com as temperaturas dos trópicos faça lá sol ou chuva - porque é uma chuva tropical em algumas das regiões onde felizmente botei pé, e então é uma chuva quente, uma chuva boa, e sim, uma chuva que dá gosto de ver pela janela, de beber chá, comer bolo, ou outra coisa qualquer. 
Sendo que estamos em Portugal, hemisfério norte, em pleno Inverno, o que posso fazer? Nada. "Suck it up marine". O problema é que nós não estamos nem habituados nem preparados para estes frios mais intensos. As nossas casas não são construídas para colectarem e manterem calor, os nossos escritórios não possuem ar condicionado que funcione, ao qual uma pessoa se possa permitir estar à vontade. Os nossos transportes públicos ora estão gelados ora debitam quentura que auxilia imenso à propagação de vírus e bactérias. E até as próprias pessoas não sabem como se vestir nestas alturas, exactamente porque não têm depois as condições ideais para tirarem casacos ou cachecóis. Eu tenho muito mais medo de ter uma recaída no meu local de trabalho, do que por andar na rua, por exemplo. 
E era esta uma tentativa de ser uma publicação mais levezinha, mas claramente não consigo. Estou demasiado pálida e com falta de vitaminas (quer dizer, isso não é possível ao que eu como em saladas, frutas, legumes, sopas) para ser arco-íris de escrita. Resta-me a lembrança dos dias de verão, quentes e coloridos e a certeza que em breve irei (iremos) ser brindados com as tais temperaturas super elevadas para a época, batendo os registos históricos desde que D. Teresa deu bofetadas ao filhinho querido.



Styling:
T-shirt: zara
Saia: zara
Ténis: Guess
Fio: Guess
Armações: Multiópticas
Local: Fauna&Flora
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Wednesday, January 16, 2019

Gillete. É p'ró menino e para o Homem he-ho!
January 16, 20190 Comments
Vi ontem o malfadado anúncio da Gillete. Se é para gerar polémica, controvérsia, falatório, censura, desgosto (dizem as estatísticas que a maioria das pessoas não gostou das imagens) e com isso, mais dinheiro, sinceramente não interessaria para o caso. O assunto abordado na publicidade referida, sim. É importante, de forma a ser mais curta na intervenção, apenas explicar o seguinte (que, vale o que vale, porque é a minha opinião e eu não sou psicóloga nem socióloga para elaborar muito mais do que isto): o anúncio não é apenas mal visto por parecer mais uma montagem do (im)popular MeToo. Muito pelo contrário - aqui o problema nem são as mulheres, mas sim os homens, os seus comportamentos e atitudes do dia-a-dia. A premissa inicial é apenas realçar que aquilo que o homem "é", deveria ser na verdade o que ele "deveria ser", passo a redudância. O que choca os espectatores não é ser pro-feminista ou anti-machista. Não! É mesmo pelo facto de ser um vídeo machista, misógino e mundialmente enraizado em toda e qualquer sociedade. O que chateia mesmo as pessoas não é o incómodo que possa transmitir, mas sim o facto de serem coisas que acontecem todos os dias, que já ninguém liga (ou talvez liguem, mas pensem que nem vale a pena comentar), e como tal, estar-se talvez a perder tempo com situações vistas como "normais". Não, não é normal. Não é normal continuarmos a dizer que o menino brinca com carros, anda à bulha, tem força física e portanto pode volta e meia dar uns murros aos outros, deve jogar futebol, não é (totalmente) preciso saber fazer alguma coisa em casa e claro, não chora, não é fraco, não é nem nunca será vítima. Os homens também são vítimas, mas o entendimento que a sociedade lhes dá é que não o podem ou devem mostrar, com pena de serem imediatamente apelidados de fracos, de maricas, ou de coisa pior. 





Antes de criticar, dever-se-ia pensar, e bem, no que andamos realmente a fazer para que as situações que todos os dias dizemos que têm de acabar, acabem mesmo. Não basta aparecer na televisão ou numa publicação escrita e falar sobre direitos iguais. Dever-se-ia sim era falar sobre educação igual, ou educação num todo, não desterrando cor-de-rosa para um género e azul para outro, e um arco-íris para os demais. Igualdade de género passa sobretudo pela igualdade na forma de se educar. E se educamos as meninas a serem bem comportadas, serem educadas e saberem passar a ferro, além de ensinarmos os rapazes a ter a barba bem aparada, porque não ensinar que não há mal nenhum em mexer em tachos e panelas e que a maquina de lavar roupa não é nenhum bicho-papão? 



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Monday, January 14, 2019

Leituras #2
January 14, 20190 Comments
cheguei a casa.
espanto meu em prestar atenção a algumas notícias que iam passando na tv. Esse bicho primitivo que nos molda a cabeça e as opiniões dos fracos de espírito.
e começo a escutar algo que me deixa incrédula, que me traz lágrimas aos olhos, e sei que, afinal, é algo tão fútil, tão "mesquinho", tão sem importância naquilo que parece ser hoje realmente importante, os futebóis, os programas da manhã e da tarde, as tricas políticas de quem manda-desmanda.
e neste mundinho pequeno e tão, mas cada vez mais tão triste, alguém diz que um poema, um texto de um heterónimo do Pessoa tem passagens (palavras) censu... omissas, a bem dos jovens estudantes que no júbilo dos seus 17 e 18 anos não podem ler, ouvir ou dizer palavras feias, quais virgens ofendidas em plena década de 40 e 50, ou mais atrás ainda nos tempos, quando era o temor a Deus e a crença cega em entidades invisíveis quem mais ordenava as massas. 
A Ode Triunfal de Álvaro de Campos terá sido certamente a escrita mais poderosa que terei lido no meu 12º ano ao ponto de me deixar apaixonada pelo seu autor. Não passará, claro está, de um elogio à revolução industrial, às maravilhas da época moderna no início do séc. XX, mas qual não é o meu espanto quando hoje, ao reler o mesmo texto, agora dito indecoroso ou impróprio para ser apresentado na sua íntegra nos livros de gentes que, de certeza, saberão já muito da vida, mas que ainda assim poderão ficar perturbados com tamanha desfaçatez do autor-poeta-louco-bêbado, vejo tantas analogias ou até mesmo semelhanças a coisas correntes, que sinto-o como um alerta de futuro, uma visão de futuro. e sim, talvez o maior receio que posso ter é que um dia, não sejam apenas algumas frases ou palavras, mas sim o todo a desaparecer, porque afinal é um texto agitador da populaça juvenil, porque poderá afinal conter ideias subentendidas nas entrelinhas imaginárias de uns quaisquer censores que assim o entendam. e só porque assim o entendam. 
O que me assusta é que o passado de terror possa estar igualmente ao virar do presente.


ODE TRIUNFAL

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
Pela minh’alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

                        Londres, 1914 — Junho.


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Sunday, January 13, 2019

Leituras
January 13, 20190 Comments
Resultado de imagem para nove mil passos livroEm Portugal, o séc. XVIII, terá sido certamente o mais importante, o que maior projecção nos deu enquanto império. Uma época de pujança, riqueza, excessos, igualmente das maiores criações e construções que nos deram monumentos que, muitos séculos depois de nós pisarmos esta terra, perdurarão para as gerações futuras se deslumbrarem e interrogarem como é que gente acabada de sair da idade média, teve capacidade para tais empreendimentos. Falo do Convento de Mafra, do Aqueduto das Águas Livres, da Biblioteca Joanina, (entre outros), sendo estes os símbolos maiores das ideias de um rei dito Sol, à escala nacional e natural de comparação com o Rei-Sol francês Louis XIV, custeados com as especiarias e tecidos do Oriente, ouro e diamantes do Ocidente Brasileiro, coincidindo com uma emigração feroz de cerca de 300 mil pessoas em cerca de 5 anos para esse país desconhecido, bárbaro, mas igualmente rico e fascinante, mas também, porque não nos devemos (mais de podermos) esquecer, para o pior, mas espero que para o melhor, à custa do tráfico e tráfego de escravos africanos para as terras de uma América que já não era fim de mundo. E aqui permitam-me o aparte, mas se ao mesmo tempo nos devermos envergonhar desse nosso passado atroz (tão impiedoso quanto aceitarmos anos e anos a fio uma Santa Inquisição julgar e matar sem razão gente várias, pendurada em paus e queimada viva em fogueiras, em espectáculos de horror que quem via exibia o júbilo dos loucos), agradeço-lhe a existência por me ter permitido identificar e reconhecer sons, ritmos e uma cultura tão genuínas no outro lado do Atlântico. 
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Mas voltando ao essencial, foi este mesmo D. João V, capaz de tanto ou de tentar tanto, pese embora a forma, sabendo nós que para grandes feitos, muito sofrimento se provoca, que também mais amou a outra, a freira, a puta, a rameira, a que tinha mau feitio. Essa Paula que durante 13 anos foi-lhe confidente de cama, de travesseiro, de política, de histórias de maldizer. Havia quem dela dissesse o pior, mas, na minha humilde opinião, e como quase em tudo na vida que começa com maledicência, o que de facto a Paula ou a Madre Paula, a freira de Odivelas mais famosa da História de Portugal, dava às pessoas era medo pelo poder que tinha em relação ao Rei e inveja, exactamente pelo poder que ele, nela, confiava. 

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Sendo que a idade média passando para o Renascimento serão os temas que mais leio (venham de lá esses romances todos, e exceptuando aquela fase da Segunda Guerra Mundial), deixo aqui três livros  que acho serem um bom ponto de partida para este mundo... e para o mundo da Paula, que a meu ver terá sido uma das mulheres de segundo plano, de baixo nível, de estrato social inferior, com mais influência numa época de Homens. 





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