Por obra e graça do espírito. Do teu espírito. Apenas e só. - Cláudia Paiva Silva

Saturday, March 21, 2026

Por obra e graça do espírito. Do teu espírito. Apenas e só.

Não nos iludemos. Mais cedo ou mais tarde, entre alguns de nós, mortais, a arte, seja pela escultura ou pintura, ou a religião, com maior ou menor fervor, irão ocupar um lugar diferente do que até então tinha ocorrido dentro de nós. 

Podem haver, claro, vários fatores para tal - um evento traumático, ou uma qualquer alteração ou mudança no nosso dia-a-dia, que nos levam, muitas vezes, e pela primeira vez, a pisar terreno desconhecido, preenchendo algumas lacunas que não conseguimos de outra forma salvaguardar - tentando procurar respostas a questões que, do nada, parecem saltar nas nossas mentes. Não raramente a Vida e a Morte.

Aconteceu-me há já umas décadas, quando visitei o Museu de História de Arte em Viena e um dos quadros, uma daquelas obras que ocupam uma parede desde o tecto até ao quase chão, deixou-me a olhar uns belíssimos longos minutos para tudo quanto, na altura, achava conseguir. Nomeadamente o detalhe das expressões de horror dos anjos caídos. 

A pintura é de Luca Giordano, datada de 1666 ou pelo menos assim se pensa, e apresenta como título " A Queda dos Anjos Rebeldes".

Nela se revela a expulsão de Lúcifer e dos outros anjos revoltosos do Céu, ficando permanentemente banidos de voltarem a "entrar". O arcanjo Miguel é o detentor da espada e da lei de deus. Com ar sereno faz o que lhe mandam - uma banalização semelhante à que Hannah Arendt viria séculos depois a explicar - façamos o que temos de fazer, porque estamos a cumprir ordens, porque colocar a lei ou a ordem em causa e questão, não nos leva a lado algum. Ou nos remeta, também, para uma exclusão (quase) natural do grande grupo. 



Certamente, quando olhei para ele essa primeira vez, não percebi grande coisa do que acabei de escrever - mas sabia que me tinha agradado com o incómodo. E é engraçado que, desde então, sempre procurei demónios escondidos noutras obras, não raramente os encontrei. Estão, mesmo nas pinturas mais luminosas, onde o bem prevalece contra o mal. O outro lado. O lado negativo, o "upside down", o decalque. Ou será a questão, a dúvida, o colocar em causa. 

Dizem, quem escreve livros sobre Arte (e não me refiro a historiadores), que todos acabamos por ter uma obra específica - um quadro, um fresco, uma fotografia, um edifício, algo -, que seguirá connosco para toda a vida. Uma "preferida" que, certamente, dessa forma, não a iremos definir. Mas que no fundo, é. Contudo, o importante, ao longo do processo e, tendo a certeza que já não vamos voltar atrás, é perceber o que nos aparece pela frente. Entender as histórias para além dos desenhos, das tintas e pigmentos. Compreender de onde vieram aquelas personagens que ficaram registadas para toda a eternidade, mesmo quando já nenhum de nós, os tais comuns mortais, cá estejamos. Sejam elas bíblicas, reais ou ficcionadas, reis, rainhas, irmãos, irmás, filhos e filhas de alguém. Todas têm uma história para nos contar, um episódio que ficou, uma razão de ser e estarem ali. 

E é exatamente por essa razão, para conhecer melhor estas histórias, o que se esconde por detrás do semi-sorriso de Mona Lisa (sim, um cliché), e sendo 2026 o ano que dedico à materialização do interesse por Arte, no meu caso, por exemplo, a forma como os recursos minerais fazem parte deste incrível mundo, ditando durante milhares de anos a origem dos pigmentos e a sua evolução, numa palete de cores por vezes inacessível, que escolhi (talvez erradamente, talvez não) os seguintes títulos para me orientarem numa viagem absolutamente maravilhosa:





Uma boa maneira de entrar neste caminho que, afinal, já não é tão desconhecido assim.





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