Cláudia Paiva Silva : sociedade
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Thursday, May 07, 2020

Sons de batucada
May 07, 20200 Comments



"Samba de verdade tinha que ter o sal do batuque dos terreiros de Umbanda e Candomblé, uma batida grave pra marcar, umas agudas para recortar. Era só fazer a segunda e a primeira bem definidas, botar o ritmo pra frente, que nem se toca na macumba pra fazer santo baixar e subir quebrando demanda, levando o mal para sumir no infinito de Aruanda e espalhar a paz no coração dos filhos da terra. Essa coisa de ficar imitando os portugueses, os franceses, os argentinos estava na hora de parar. A boa era dar continuidade à batida que vinha dos países de África, das senzalas, dos quilombos, dos terreiros, do lundu. Samba pra desentortar esquina, tirar paraleleípedo do chão, engrossar a batata da perna, espantar os males de quem anda, canta e dança. Samba para se desfilar na rua." (Paulo Lins, Desde que o Samba é Samba).
Sabe quem sabe que eu já habitei (ou pisei pé) em terras brasileiras. Sabe quem sabe que o Brasil teve para mim um impacto extremamente profundo, um sentimento de Casa e Terra-Pátria, mesmo que fosse por empréstimo temporário. Também se sabe que quando falo ou escrevo sobre o Brasil evoco terras, cidades, vilas e regiões que nem talvez muitos brasileiros alguma vez tenham ou possam vir a conhecer. Sei o quão privilegiada fui por ter conhecido tanto em tão pouco tempo e mais uma vez, sei o quanto isso me marcou na alma.
Contudo, também sinto que esta minha falsa modéstia possa parecer isso mesmo - uma modéstia muito pouco verdadeira - e que talvez seja demasiado emproada quando digo que conheço o Brasil. Não conheço. Ou como eles diriam, "não conheço porra nenhuma", a não ser a ideia de que um país gigante, onde se perde fácil o conceito de escala humana e regional (6 milhões de habitantes apenas no Estado do Rio de Janeiro; distância São Paulo-Rio pela Via Dutra, umas 5 horas), pode ter dentro dele outros tantos países, credos, formas e culturas. Que o Sul é definitivamente mais rico do que o Nordeste, que o Nordeste é extremamente mais caloroso que outros estados, mas que no geral todos gostam de receber alguém que fala uma língua parecida com a deles, mas que na maioria dos casos nem entendem bem. Falamos estranho, com "chiado", não somos do Rio, mas também não se sabe bem de onde somos.
Contudo, há uma cena que me lembro bem de me ter arrepiado. Nada que ver com violência ou insegurança. Simplesmente esteve relacionado com o som. Quando fui a Salvador, possivelmente a cidade mais portuguesa que conheci em toda a minha estadia, o som do berimbau foi escalando numa zona de ermo. Não sei o que era, mas sei que foi poderoso, estando logo ali. Salvador é uma cidade mística. E sim, tem toda a referência à colonização para lá de violenta, uma colonização de morte, de violação, de assassínio em massa, uma colonização forçada de fé, regada pouco depois pela forte cultura africana e escravizada. Mas a questão fundamental é? Para lá desse horror, do que é feita hoje a massa do brasileiro? Essa mescla imperturbável de africano, índio, português (ou de outro colono medieval). E qual é o verdadeiro som do Brasil? O típico samba ou o forró, certamente que não é apenas a bossa nova que resulta de forte influência de jazz norte-americano. O som é também essa coisa tão profunda e enraizada de sons africanos, a batucada, o misticismo e espiritismo que acompanham o ritmo. 
Perdoem-me a minha arrogância, mas se há coisa que eu percebi do Brasil é que não há um único jeito de ser nem de estar. Não há um som típico ou uma forma de falar. É muito mais que isso, é Casa, Pátria, Crença, Tradição.


Saberiam por exemplo que no interior nordestino ainda se praticam costumes que só os judeus faziam no tempo em que eram perseguidos? Tal como junto ao Mar os Orixás são os reis do céu e das águas "Para quem está ainda mais fora do candomblé que eu, das religiões de matriz africana em geral, do complexo enredo dos seus orixás, equivalentes a santos, entidades, seres sagrados: Oxum é a senhora das águas doces, da cor do ouro, uma das mulheres que o rei Xangô desposou, tal como a brava Iansã, senhora das tempestades.

A mais cantada mãe de santo do Brasil, Mãe Menininha de Gantois era uma filha de Oxum. (...) Como não haveriam os terreiros da Bahia de bater no peito da música popular, e assim em nós." (Alexandra Lucas Coelho, Cinco Voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso".
Quem será o homem, presidente ou não para dizer como podem milhões viver ou pensar, se deles ele nada sabe ou se de seu próprio país ele nada conhece? 
Se ouvisse direito o som da batucada iria entender tanto mais.




(texto originalmente escrito para o blogue, mas publicado na Revista Rua - pode ser lido aqui: Sons de batucada)
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Sunday, May 03, 2020

Those Sunday Blues
May 03, 20200 Comments
Foto de Claudia Paiva Silva

@baguy
Não há como negar. Este isolamento social, esta distância de segurança que constitui um dever cívico, (mais do que uma obrigatoriedade que não o é, nem nunca o foi), provocou em inúmeros de nós uma sensação de perda, de embriaguez, ansiedade, falta de energia generalizada apenas aplacada pelo teletrabalho que muitos, felizmente, conseguiram manter. Confesso que comigo, aparte da incredulidade inicial, acabei por perceber que fui mais ativa do que antes, do que alguma vez até. Conscientemente ganhei toda uma nova forma de trabalhar, de me organizar internamente, regular o meu sistema e organismo, não deixar que o relaxamento tomasse conta, muito menos quando vimos e continuamos a ver tantas e tantas reportagens de gente que nunca baixou os braços, que continuaram sem parar para que nós todos não parássemos de vez. Que nos cuidaram e irão continuar a tratar e a olhar por nós em qualquer circunstância, sem olhar a meios, e, se tudo correr bem, sem terem de escolher quem poderão salvar. Por isso, perante essa consciência de que me deixar levar pela preguiça seria uma vergonha perante essas pessoas, talvez tenha sido a principal razão pela hiperatividade que comecei a transparecer. Ficando em casa. Saindo o mínimo e apenas essencial, ficando a trabalhar até mais tarde, dando mais de mim, estando mais atenta, fazer as tarefas domésticas sem bufar, mas ganhando noção que nunca não se tem nada para fazer no espaço onde moramos. 
Sim, talvez seja uma daquelas pessoas que se tenham tornado irritantes aos olhos dos outros, de tão produtiva que me possa ter tornado. Como podem imaginar, irei parar ou deixar de fazer/ser/acontecer quando o meu corpo pedir descanso. 
Contudo, mais importante ainda, é que foi apenas dessa forma que percebi que existe uma série de criadores nacionais, que passam pela Moda mas também pela Cultura e Arte, e que neste momento estão a sentir já grandes dificuldades em sobreviver. São eles que nos fazem sentir um bocadinho melhor ao longo do dia, são os que escrevem e compõem músicas, os que escrevem os textos e diálogos das séries e filmes, são os que nos levavam ao teatro - e não, não são apenas aqueles "coitadinhos" que seguiram uma profissão que quase parece uma brincadeira - são pessoas com uma PROFISSÃO real, a tal que nos entra pelos olhos e ouvidos dentro, e que acredito, que talvez nos/vos tenha salvo a vida várias e várias vezes em momentos de maior desespero. 
Mais uma vez deixo o apelo. Há que repensar seriamente na forma como iremos todos ajudar para retomar a economia nacional sem esquecer todas as formas artísticas que também fazem mexer os bolsos do Estado, sabendo bem que nada será como antes, que não espero o retorno dos festivais musicais ou outros, onde imensa gente estará presente em núcleos. Será certamente necessário também perceber como irão os festivais do futuro, pós-Covid, ser organizados. Será aliás extremamente necessário saber e aprender a estar em determinados contextos culturais, de forma a evitar o pior. Até lá, e sabendo que amanha é uma segunda-feira, um dia especial e diferente, em que várias das limitações que nos foram colocadas, irão ser amenizadas, temos de pensar um dia de cada vez, passinho a passinho, de forma a todos termos consciência do que isto colocará em forma de peso, nas costas de cada um de nós. Isto ainda não acabou...

@baguy

@julianabezerra

@siennainspo

@art_pessoa

@GuajaStudio

Foto de Claudia Paiva Silva
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Sunday, April 26, 2020

Urbano-Feminino
April 26, 20200 Comments
Pouco tempo antes destes estranhos novos dias que estamos a viver, fui rapidamente e já no último dia de apresentação até Braço de Prata, onde na Underdogs Gallery, algumas das obras mais conhecidas de Tamara Alves estavam expostas. Aproveitando a presença da artista, acabei por lhe fazer uma curta entrevista para a Revista Rua onde nada ficou por dizer, a qual também, percebi pouco depois, poderia perfeitamente ter evoluído para uma conversa onde sociedade e direitos humanos seriam temas chave, além de formas de inspiração, filmes e música, e todo o potencial que o nosso país, de norte a sul, do interior ao litoral tem para dar e oferecer a quem não tenha medo de ser ousado e de correr riscos de parecer ridículo.
Esse texto, publicado originalmente aqui, poderá agora ser lido também aqui no blogue:


Tamara Alves será porventura uma das mais conhecidas artistas plásticas de arte urbana em Portugal. Nascida em Portimão onde viveu até aos 18 anos, filha de pais também pintores que são a sua maior influência, cedo mostrou uma capacidade inata para o desenho complexo que foi posteriormente sendo acompanhada pela forma como lidava com os vários tipos de materiais disponíveis e tintas. Depois veio a licenciatura nas Caldas da Rainha e finalmente Erasmus em Birmingham, no Reino Unido, onde ganhou o gosto pela arte urbana. Nesta sua exposição a solo mostra algumas das pinturas e esquissos mais emblemáticos da sua carreira, onde o feminino e o animal estão sempre presentes, numa definição direta de todo o seu trabalho, onde selvagem se funde com humano e irracional, onde a pele nua de mulher e homem contrastam com a existência de metais do dia-a-dia industrial, onde lobos convivem com a natureza, onde a natureza é no fundo o nosso habitat natural. Onde também há sempre Amor e Paixão.
Numa curta entrevista à Rua, minutos antes de um workshop de desenho para crianças, Tamara explicou como se sente enquanto artista feminina em Portugal, as principais diferenças que observa entre as cidades do litoral e do interior do país em relação ao desenho e arte urbanas e qual o papel do artista na sociedade.
- Como foi o teu percurso desde Portimão até ires para as Caldas? Os teus pais são pintores, de que forma é que isso foi um impulso para ti, uma vez que nem sempre é comum seguir as pesadas dos progenitores?
“Nasci já a pintar com os dedos! A minha mãe diz que eu ainda antes dos 2 anos já fazia desenhos super complexos, muito diferentes daquilo que as crianças da mesma idade fazem. E como ambos são pintores, para mim sempre foi muito natural a forma como lidar com os materiais. Nunca tive medo em experimentar – sabia desde muito jovem o que dava para misturar ou não, sou desenrascada, o que dá imenso jeito na minha área, mas continuo sempre a aprender a ganhar experiência. Felizmente sempre tive uns pais que me apoiaram e incentivaram, nunca me limitaram – lá em casa (em Portimão) existem desenhos meus desde os 9 anos de idade no meu antigo quarto e sempre que queriam partir paredes, pediam-me e ao meu irmão para ir pintar essas paredes antes de mudarem alguma coisa.
Outro incentivo acontece porque eu cresci perto da praia do Carvoeiro, e como no Algarve há muito pouca oferta cultural, havia sempre um deslocamento aos fins-de-semana – às vezes íamos a Lagos ou a Lisboa ver exposições e isso dava para aprender e ganhar mais informação, educar, ver e conhecer.”
- Qual achas que é a principal diferença entre a tal oferta cultural, principalmente artística de pintura, e o conceito de arte urbana, porque é aquilo que começou a ser a tua imagem de marca, com as pinturas em edifícios e murais, entre cidades como Lisboa e o Porto e cidades do interior, como Castelo Branco, onde já foste convidada para o Festival WOOL ou Trás-os-Montes? Como vês que as pessoas reagem?
“Para começar em Lisboa, tu vês tudo e consomes tudo de uma forma muito mais rápida. Tens uma parede, vês a parede, pintas a parede, e vais para a tua vida. Demoras cerca de uma hora a chegar ao café onde tinhas combinado alguma coisa. Nos locais mais pequenos (e nas pessoas mais velhas – aqui independente da região do país), tu vês um maior cuidado com a sua terra e sítio, vês uma valorização pelo espaço que se calhar a nossa geração já não tem tanto. Quando vais então para locais mais pequenos, deixar lá alguma coisa, elas ficam na dúvida, desconfiam do que vais lá fazer, ficam na defensiva e aí é importante conhecer essas pessoas, conviver com elas, ouvir o que elas têm para dizer. E se deixares algo que seja para a cidade, uma oferenda, então que seja algo com uma mensagem. Existe uma responsabilidade social enorme no trabalho de rua. Não é estar a apontar os dedos, ou dizer como as pessoas devem agir, é preciso aliás ter cuidado com o que dizes e respeitar toda a gente – mas se estás na rua, as palavras tem um peso, as imagens têm um peso e se for para passar alguma mensagem que seja algo inteligente.”
- De certa forma são as pessoas mais velhas do interior as mais recetivas?
“Sim, no início ficam muito defensivas, mas depois acabam por valorizar, e gostar, principalmente se já te conhecerem e acompanharem o teu percurso, e guardam aquilo possessivamente, é para eles, deles, defendem aquele trabalho. Já nas cidades “grandes”, a mensagem tem de ser mais direta e mais forte.”
- Viveste em Birmingham. O que achas que é diferente entre o feminino artístico cá, em Portugal e o que conheceste lá fora?
“Eu acho que quando falamos do papel na arte dizem sempre que somos poucas, e sim, a balança esta muito desequilibrada. Mas se calhar é porque tens mulheres que não querem mostrar o seu trabalho, não têm interesse ou acham que não podem. Então eu digo: elas que saiam e que venham fazer coisas. A rua é uma tela de exposição gigantesca e toda a gente está de olhos postos na rua agora. Hoje em dia mais que tudo é aproveitar a “onda” do feminismo, se estamos a ganhar mais consciência, melhor, então vamos mostrar o que valemos. Já passei por situações muito desagradáveis em que me pagaram para estar presente, para fingir que estava a trabalhar e se calhar aceitei com imensa dificuldade porque precisava do dinheiro. Mas qual é afinal o meu papel? É suavizar um meio de homens? Não é! Sei que somos 3 ou 4 muito ativas no meio de arte urbano, mas são várias exposições por ano e vai uma ou outra apenas para preencher o buraco da única mulher que está disponível. E isso é muito complicado, mas é preciso aproveitar e marcar presença para fazer a diferença!”
-Sim, o que é que se pode perder, principalmente durante esta altura?
“Ainda por cima, no meio de arte urbana, há muitos anos atrás, senti que havia uma desconfiança quando dizias que querias fazer alguma coisa. Nós vivemos numa sociedade machista – se hoje uma mulher quer ser condutora de um Uber ou um autocarro, há ainda uma censura imediata porque foi a sociedade que nos faz pensar dessa forma, é normal – por isso é uma questão de darmos a volta. Mas para mim, é uma questão de igualdade para todos. Para uma mulher ter empoderamento, o homem tem de se sentir também empoderado.”
-Tem de haver um equilíbrio…
“Sim, a maior parte das desigualdades é criada devido às inseguranças das outras pessoas.”
- Tu retratas tanto o universo masculino como o feminino nas tuas pinturas.
“Sim. O feminino porque sou mulher e sei exatamente como me colocar na pele de uma mulher. E acho que é importante, já que retrato o peito de um homem nu, retratar o peito de uma mulher também nu, porque é importante assumir-se tanto para um como para outro. Fiz um trabalho no Hospital dos Capuchos, onde o nu era essencial para que fizesse sentido e houve alguém que chegou lá e pintou os seios da figura feminina, mas como se tivesse sido eu a fazê-lo (está muito bem feito). E isso chateia-me. Uma coisa é fazerem tags ou bigodes por cima e isso não me chateia nada, mas quando vão desconstruir o teu trabalho e a mensagem que queres transmitir, isso é algo que me irrita muito.”
-Para finalizar porque já tens um público mais jovem à tua espera na sala ao lado, o que dirias à Tamara de há 20 anos atrás?
“Vai em frente, força e não desistas, porque tudo vai correr bem. Pode doer, mas vai correr bem (risos). Se há persistência, se há amor e paixão, então vai ter de correr bem.”




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Tuesday, April 21, 2020

Acção isolada
April 21, 20200 Comments
Imagem captada do Parque Infantil de Queluz (Av. Républica no passado sábado, dia 18 de Abril)
NOTA: A caminho entre supermercado e casa num parque completamente vazio)

Se algo este confinamento social, esta obrigatoriedade em ficar em casa nos mostrou, é que de repente somos todos artistas, desportistas, cozinheiros. Se por um lado a novidade de ter de ficar em casa a trabalhar (para a maioria das pessoas algo que nunca tinha acontecido) era grande, por outro lado, passou a haver toda uma questão psicológica que ninguém colocou em cima da mesa. O que significaria ficar em casa, seria assim uma total transformação e auto-educação de cada um de nós para termos mesmo de fazer tudo no nosso espaço pessoal - além do trabalho (em horário normal, das 9 às 18, com intervalo de almoço e até pequenas escapadelas para o Nespresso na nossa nova copa que é agora a nossa cozinha, e que se revela em muitos casos, acabar até por trabalhar mais horas por dia, entrando pela noite dentro ou fins de semana), a realização de todas as tarefas domésticas, que agora já nem se podem evitar ou arranjar desculpas para adiar, bem como as actividades lúdicas que antigamente fazíamos na rua, literalmente fora de casa. Com tudo encerrado, com a impossibilidade de até podermos ir a um parque e sentarmos-nos num banco do jardim, o que nos resta? Na caracterização da nossa nova realidade, já muitos sentem a pressão de não conseguirem mais. Muitos pais acabaram por pedir assistência à família uma vez que se torna incomportável estarem em tele-trabalho ao mesmo tempo que tentam evitar que os filhos em idade pré-escolar façam disparates. Estarmos em casa em família não nos torna mais unidos e muitas famílias estão neste momento forçosamente separadas por questões ditas de saúde pública. 
O que é certo é que ao mesmo tempo que a bolha psicológica começa a saltar, continuam a popular histórias incríveis (talvez um bocadinho menos verdadeiras) de tanta gente a fazer tanta coisa, em casa, claro. Exercícios para os corpos permanecerem fit na expectativa de um verão que o vírus já nos roubou (praias encerradas, hotéis que nem irão abrir), pratos culinários maravilhosos, toda uma panóplia de grupos via Instagram, WhatsApp ou Facebook para falarem sobre as mais recentes leituras, jardinagem na varanda, decoração de interiores one-o-one for dummies, pintura (nisto incluo-me), workshops de ponto-cruz e Arraiolos, só, mas só mesmo, para não darmos em doidos com toda esta situação para a qual ninguém sabe quando terá um fim e, por não querermos aceitar o facto de que estarmos em pijama ou fato de treino todos os dias ou não, é algo que já não interessa a ninguém, com única excepção, a nós mesmos.

Livro O Atelier da Noite (Relógio d'Água)
Bolo de Banana e Chocolate da @galeriavinteoitoconcept

E é aqui que quero chegar. Se para muitos este excesso de acções em isolamento parecem apenas provas irrefutáveis que as pessoas não conseguem consciencializar-se para o que se está a passar mundialmente, ou que, estando conscientes estamos sempre ligadas à corrente, por outro, também mostra que o ser-humano é dotado de uma força incrível para não se deixar abater completamente.
Quando isto tudo começou, da noite para o dia, também eu chorei - não há mal nenhum em dizê-lo. Mais, chorei porque me lembrei de tudo pelo qual já chorei na vida, pelas dores que outros me causaram e que, por comparação agora, parece tudo tão pequeno e sem importância. Chorei porque não, ninguém estava à espera que algo assim voltasse a acontecer nesta dimensão e a esta escala. Chorei porque achei que estava a observar algo muito superior à Humanidade. Mas não. Isto não foi um acto vingativo de qualquer deus ou da Natureza, porque se assim fosse não iria atingir apenas algumas franjas da sociedade - este vírus mau, veio mostrar que na mesma balança temos seres-humanos que não mais pensam em lucros e que também temos seres-humanos capazes de se superarem, tentando fazer no seu dia a dia de tudo para não caírem no fosso que os do outro prato querem que assim aconteça. 
Estas mega, hiper actividades são tudo o que nos resta além do medo, além do que é óbvio agora: a incerteza de cada dia, a incerteza de algum dia iremos chegar ao fim disto tudo. Estas acções isoladas são aquilo que por agora nos mantêm VIVOS.









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Thursday, April 09, 2020

A Hora da Moda
April 09, 20200 Comments


Moda: substantivo feminino:
1. Uso, hábito ou forma de agir característica de um determinado meio ou de uma determinada época; costume
2. Uso corrente, prática que se generalizou
3. Estilo prevalecente e passageiro de comportamento, vestuário ou apresentação geral; tendência
4. Indústria ou o comércio de vestuário
5. Estilo pessoal, gosto
6. Hábito repetido; mania; fixação

Foquemos apenas nos pontos 3 e 4: Estilo passageiro de vestuário, tendência, comércio e indústria. Nos dias que correm, mediante a situação global que se vive, muito se tem falado, escrito e pensado sobre qual o futuro de vários setores industriais - como é que alguns irão recuperar de uma crise extremamente profunda que se adivinha com uma certeza absoluta, como irão as empresas recuperar lucros e como poderão voltar a empregar pessoas que, ou estão em lay-off ou já foram despedidas sem apelo nem agravo, pese as medidas impostas e todas as respetivas condicionantes que o Governo(s) tomou. Contudo, no que diz respeito aos setores de calçado e vestuário, sabe-se que para uma época menos boa, de vendas mais reduzidas ou mesmo nulas, por comparação com outros períodos, outras virão em que os clientes irão voltar a comprar. Ainda assim, para além do que fazer a economia girar, acaba por ser a nossa forma pessoal de lidar com uma nova realidade que irá fazer toda a diferença. Numa altura em que todos (os não essenciais) estamos (ou deveríamos estar) em casa, fará sentido continuarmos a adquirir peças de vestuário e calçado para um presente ou futuro breves que serão completamente imprevisíveis? Quantos de nós vestirão uma camisola ou umas calças novas estando 24 sobre 24 horas por dia em casa, mesmo que se esteja em modo teletrabalho? Ainda que possam haver reuniões formais, será que não vamos sempre estar com as calças de fato de treino ou pijama vestidas, pelo simples facto de conforto? Estar em casa hoje em dia implica muito mais do que estar sentado frente a um computador, existe sempre algo para fazer na cozinha, limpezas extra devido a todos os cuidados que temos de ter. Vale a pena estar a "estragar" roupa usando-a em casa? O certo é que as marcas acompanham a realidade e no caso, não faltaram opções para a chamada roupa confortável e elegante de andar por casa - uma forma simples de chamar os fatos de treino e pijamas a um lugar de topo nas escolhas e, uma vez mais, tendências dos consumidores. Ainda assim mantenho a questão inicial, haverá algum problema em nos arranjarmos mesmo que estejamos em casa? Há problema se houver maquilhagem, depilações, coloração de cabelo? Há problema em manter as novas tendências (assumidas no Inverno passado para a estação estival que se aproxima) mesmo estando fechados? Ou será tudo muito supérfluo, sem noção ou sem respeito pelo que se está a passar? Passamos uma vida inteira a sermos confrontados com as nossas escolhas de estilo, a nossa forma de vestir, e agora que estamos em casa e podemos fazer o que quisermos, continuamos a pensar no que dirão os outros - que nem nos estão a ver na sua grande maioria. 
Não creio que a Moda deixará de ter o seu espaço no mundo - muito menos que deixe de gerar tendências, mas não nos tempos que se avizinham. Podemos assumir que desta vez fomos nós, foi o Mundo quem mudou a tendência criada por estilistas e autores. Possivelmente será assim nos próximos tempos ou temporadas, à necessidade das pessoas a Moda terá de se adaptar senão corre risco de se tornar um elemento de criação a cair no ridículo. Deixará sim, temporariamente, de ditar formas de vestir, passará a ser menos elitista talvez. Mas acima de tudo, não desaparecendo, terá de inevitavelmente mudar o seu status até agora garantido, podendo talvez gerar um outro tipo de empatia para quem até agora acharia ser um mundo fait-divers.

Fotos @theyoumaybe


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