Cláudia Paiva Silva

Monday, April 21, 2025

páscoa ou o que resta dela
April 21, 20250 Comments
Michelangelo Merisi, ou Caravaggio (Milão 1571 - Porto Ercole 1610), A Deposição de Cristo (1600-1604)

Depois de um momento a refletir o carnaval - a festa pagã, mitológica, cristã, que desprende os corpos das almas, incendiando tudo o que é devasso e travesso à vida mundana, quase a cair num fogo eterno de excessos que, mais cedo ou mais tarde, irão pautar pelo enjoo e ridículo, entra-se no momento de reflexão. Como também esclarecido. 

E é engraçado, não menos irónico e, como tal, perturbador, escrever este texto alusivo ao momento de recolhimento, de auto-pensamento, no dia em que um homem maior, tão político quanto Cristo e, por esse mesmo motivo, tão real e humano, morre. A última luz ao fundo do túnel. O único Papa que me fez percorrer parte da cidade apenas para um vislumbre, quase como uma coincidência que acredito não ter sido tão coincidente assim. Francisco. Apenas.

O universo também se move de formas misterioresas, tal como os desígnios de deus, para quem nele acredita. 

A Páscoa, o momento de ter fé, de acreditar, mais do que nada, na ressureição, ou na mudança da carne em espírito. E, não deixa de ser, igualmente paradoxal a verdade do tema: sem qualquer espécie de dúvida perante deus, como podemos nós acreditar sequer em algo? O filme Conclave tem uma passagem destas. O filme Dúvida, tem outra similar. 

Enquanto cá estamos, neste plano, nesta terra, podemos apenas esforçarmo-nos pelo melhor, pelo bem maior, pela empatia, pela sinceridade, não desejando nada em troca, embora, no fundo, todos queiramos que nos aconteça algo extraordinariamente bom. E, embora nos esqueçamos logo de seguida, que seja plausível de uma causa-efeito, ao que foi praticado. 

Num fundo todos somos crentes em algo. Na Humanidade, na Ciência, em Deuses (geralmente cometendo os piores dos crimes em seu nome). 

E eu tenho fé no Homem. Sabendo que todos os dias somos brutalmente atacados por desilusão, por negatividade, pela toxicidade que largamos aqui e ali e além. Conhecemos o bom e o mau, sabemos que existem e sabemos ter ambos dentro de nós. 

Por isso, aqui chegados, olho para trás. Sou obrigada a olhar para trás na minha vida e ver o que posso ter conquistado e olhar em frente e ver onde ainda queria chegar. Mas o importante é não estar parado, sair do lugar, ter iniciativa, ler, aprender, questionar, tudo e todos. Não somos nada. Apenas pó de estrelas, eletrões e moléculas orgânicas que alimentam um ciclo eterno. A vida eterna. 

E, quer queira ou não, estou grata pelos ganhos, nem sempre em boa hora, como quero ou desejo. O caminho faz-se caminhando. 

Que todos, todos, TODOS, encontrem o seu, mesmo nos dias mais tenebrosos que agora vivemos. 

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Sunday, March 09, 2025

não tanto amor assim
March 09, 20250 Comments


Pintura: Leo Dorfner

O testemunho de hoje chega após leituras influenciadoras. Todas elas com um ponto em comum: o amor, a paixão, o que prevalece mais, o que é mais importante no relacionamento. Terminando, não raramente e não menos de forma coincidente com: a paixão acaba rápido (não mais do que X número de meses, vá, 1 ano, "top"), mas o amor, ah, o AMOR, esse vai-se construindo ao longo de uma vida. 

O problema é quando esse amor todo vira amizade e as pessoas ficam juntas por uma questão de hábito. Vou agora sair de uma relação que dura anos, só porque já não há faísca (paixão?), ou prefiro manter-me confortável? Afinal tenho casa, estou estável e equilibrado(a) financeiramente, não há lugar a discussões. Mas poderá haver margem para um maior distanciamento, e para uma outra pessoa, uma terceira pessoa - que embora não aqueça nem arrefeça, poderá trazer o confronto da realidade que, no fundo, já se adivinhava.

Não sou especialista na matéria. Nem tão pouco tenho qualquer moral para fazer juízos de valor - apenas acho que o cerne da questão não passa pelo casal, mas sim, pelo individual. Não que acredite que as relações agora devam ser egoístas - nada disso. Mas numa situação destas, o que sentimos, por nós mesmos, deveriam contar mais. O problema é quando já não há tanto amor assim. Nem pelo outro, e, no final do dia, nem por nós. 

Haveríamos de almejar mais - faz parte do ser humano também. Outro artigo que li. A sobreviência da espécie fez-se e continua a fazer-se, com o nosso crescimento enquanto criadores, enquanto hábeis no fazer e evoluir. E isso pode ser feito a dois, claro - mas quantas vezes um quer, e o outro prefere a monotonia do espaço-temporal? Deverá alguém abdicar? Sempre ouvi dizer que no amor (e aqui esqueçam, ainda, a paixão) não é uma questão de abdicação, mas sim uma questão de adaptação, ouvir e compreender o outro, as suas necessidades e expectativas. E BANG!, outro pequeno apontamento que acho relevante: as expectativas. 

Pintura: Leo Dorfner

A maioria das relações pauta pela expectativa que temos em relação ao outro e, no fundo, em relação a nós: vestimo-nos de determinada forma para agradar, colocamos determinado perfume para agradar, passamos o tempo a pensar do que o outro(a) pensa de nós. E, principalmente, de forma errada, projetamos no outro o que gostaríamos que a nossa vida pudesse vir a ser. Vejamos, e isto acontece sempre no início de qualquer relacionamento amoroso: ainda nem sequer conhecemos a pessoa, e já estamos a imaginar uma série de coisas para um futuro que ainda nem sabemos se algum dia poderá realmente acontecer. O grau de projeção, expectativa e ansiedade tornam-se brutais, mas, graças às hormonas, apenas temos sintomas típicos de quem esteja apaixonado, embora pense em algo mais. 

Não tanto amor assim no início, mas não tanto amor assim quando as relações também se revelam, digamos, perigosas.

Falemos de paixão. Não estou de modas, paixão para mim é sexo, luxúria, desejo, provocação, sensualidade, erotismo. That's that. A paixão é definitavamente o extremo da coisa. O que nos faz ir em frente, mesmo sabendo que vamos bater no rail de proteção. E, no entanto, não vejo melhor exemplo para paixão do que aquela que está irremediavelmente associada a questões sociais, a ativismo político, também.

Uma paixão destas leva à cegueira, sem dúvida alguma - pessoas que se tornam mártires pela "causa". E isso acontece também nos relacionamentos humanos, pensemos, monogâmicos. Os relacionamentos tóxicos, sobretudo. Os relacionamentos onde pauta sempre um laivo de violência, seja psicológica, fisica, verbal. E há sempre um lado mais fraco. Fraco. Frágil. Sempre um lado que não deveria ter adjetivação, muito menos a de "vítima", ou "sobrevivente". Mas pior ainda será o de "resignado". Mulheres e homens que passam uma vida quase inteira à espera de terem um suspiro de alívio, geralmente quando o outro morre, podendo finalmente perceber o que seria terem vivido em paz. O que leva a aguentar uma situação destas? A tal adaptação que mencionei? A fé cega, talvez derivada da paixão, de que vai haver uma mudança de padrão, de comportamento? 

Pintura: Leo Dorfner


Continuo a debater-me com algumas questões que não terão resposta. Cada caso é um caso e, no momento, existe um peso social muitíssimo maior do que se julga. Quando vemos que está tudo errado e, mesmo assim, não somos nós a sair, a largar (porque existe também a ameaça velada ou direta do "não comigo, nunca contigo", algo como "se não és minha/meu, não és de mais ninguém"), que resta do amor próprio? 

Talvez seja melhor, então, estarmos sozinhos uma vida, não?, podem-me perguntar. Não penso assim, mas não tenho uma resposta ideal. Acho que há (ainda) esperança para que tudo dê certo, embora essa coisa dos finais felizes, sejam algo que dê imenso trabalho, todos os dias. E nem todos temos a oportunidade e paciência para mais uma responsabilidade dessas.

É uma responsabilidade sim. A nossa felicidade. 


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Sunday, February 16, 2025

A volta do tempo
February 16, 20250 Comments
Luta entre o Carnaval e a Quaresma. Pieter Bruegel, 1559, Óleo sobre Tela, Kunsthistorisches Museum de Viena

Tradição, raízes, cultura, simbolismo, manifestação, mas também excesso, festa, inverso, pecado. O Carnaval, carnem levare (remover ou retirar a carne, numa analogia ao período de jejum que se aproxima), tem origens, como antes dito, pagãs - ideais de fertilidade, de primavera, da passagem de inverno para verão, a transformação dos dias, das paisagens, da rotatividade das culturas. Contudo, a inversão do tempo, a passagem, por exemplo, do tempo astronómico a sul do equador, também auxiliam à caracterização de um período que se repete, desde há largos milhares de anos. A conotação religiosa, de tendência cristã, é definitivamente "recente". Sem nunca apagar a perceção real do que significa ser-se "inverso", o carácter associado à Igreja Católica é, por demais, marcado. O perído que antecede a Páscoa, a época da Quaresma, os excessos e luxo que antecedem o período de reclusão, de abstinência. 

Quando visitei o Centro de Artes e Criatividade de Torres Vedras, no passado mês de novembro, desconhecia esta "origem" do Carnaval. Habituada, como muitos portugueses à origem mais folclórica, na qual temos sempre presente a imagens dos caretos, dos chocalhos, dos "avanços" dos homens mascarados às mulheres, num ritual ancestral que evoca a fertilidade, o renascimento, ou a vida sobre a morte, esta questão do "inverso" não fazia parte da minha oratória.

Muitos países, nomeadamente junto ao equador, cuja dicotomia ricos versus pobres é gritante, pairando sempre um sentimento de religiosidade que não é de todo aceitável (pela criminalidade, pelos falha de direitos humanos, pela violência e abuso contra mulheres e crianças), o Carnaval vive-se com especial comoção. Não menciono sequer o Carnaval brasileiro que dispara nas origens culturais mais ou menos associadas ao colonialismo. 

Contudo, é um período onde o homem veste-se de mulher, a mulher de homem, o negro pinta-se de branco e, mesmo atravessando um atual período conturbado na história social mundial, o branco pinta-se de negro, invrertendo papéis, onde não há diferenças. Ou então, onde as há ainda maiores, num momento repetido, anual, no qual a sátria e a crítica, ganham especial importância.

E ainda temos um conceito de luxo que pode e deve ser associado. Como não falar dos sumptuosos Carnavais de Veneza? 

A começar pelo vestuário. "Na Veneza do século XVI, também existiam normas quanto ao vesturário, o seu feitio, corte e material, segundo a respetiva posição social, mas as leis que foram publicadas contra o luxo e a ostentação não eram tão rigorosas na urbe da laguna, onde se faziam deslumbrantes vestidos de brocado de seda, veludo, damasco, musselina e rendas venezianas, os quais criavam tendências de moda que depois abriam caminho até aos paços do Renascimento, como por exemplo, as golas de tufos." Além dos tecidos, as cores usadas também evocam a classe social, índigo e púrpura, por exemplo, seriam os corantes mais caros, aos quais ainda se juntavam no fabrico de peças, fios de ouro, trabalhando-se os bordados e, claro, usando as rendas do decote e punhos. Aliás, os grandes decotes, cobertos pelos véus e rendas, pautavam por um simbolismo de pureza virginal, e, não menos importante, de mistério. 

Já as máscaras têm por origem outra razão. A proteção da doença, feita de melhor o pior forma, ganha predominância logo a seguir à devastação deixada pela Peste. Por outro lado, sabendo que uma tez clara sempre foi sinónimo de classe social elevada, o uso de máscaras ao sair de casa, serviria, essencialmente, para proteger a face dos raios solares.

"O 'Ridotto' em Veneza" - Pietro Longhi, pintor veneziano (1701-1785)

O uso carnavalesco tem outra justificação. O mistério, o não saber quem está por detrás, o anonimato - que fácil é cometer os mais variados pecados quando ninguém sabe quem somos. Era acessório indispensável para os bailes, para as ruas, para o dia-a-dia. A máscara protegia os rostos e fazia desaparecer as diferenças.

Em Veneza a máscara usada pelas mulheres designa-se por moretta, geralmente em formato oval feita de veludo. As máscaras de seda, geralmente negras, eram ricamente decoradas com pérolas ou penas, mas mais simples ou não, faziam parte do ritual.

A esta distância temporal, e quiçá, sensorial, o Carnaval, Entrudo, continua a ser um período exclusivo, com forte teor religioso, mas também, mítico, e onde o pendor de escárnio pautado por forte influência social, é ainda bastante explícito. As diferentes influências constatadas, nomeadamente em Portugal e no Brasil, onde o corso ganha relevância, tal como o período pré-pascal, constituem os percursos cujas raizes continuarão a fazer-se sentir ao longo dos séculos. 

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Saturday, January 11, 2025

Veneza aqui ao lado
January 11, 20250 Comments

                                 Giovanni Antonio Canal, dito Canaletto, "Regatta no Grande Canal"


Existe algo na luz de Veneza que nos parece familiar. Numa terra que hoje está rendida (e vendida) aos interesses enconómicos associados ao turismo de massas, pautadas por bons rendimentos, surpreende ainda quando, pela manhã, os primeiros raios de sol, a primera luminosidade, se acerca dos canais, das fachadas dos edificios, estoicamente construídos sob o mar.

Veneza, cidade que já foi República, controlando o Adriático, sempre pautou pela sumptuosidade. Não era um lugar como os outros. O seu poder extendia-se até Constatinopla, e inlcuia Creta e Chipre, o Império Bizantino respeitava a região. As trocas comerciais, as portas com o Oriente (onde começa, onde termina, afinal?), todos estes fatores, faziam com que a designada "Sereníssima" se destacasse. Não apenas pelos negócios. Mas pelas suas gentes. Famílias abastadas, de origem nobre, o próprio Dux, e o seu Ducado, os palácios construidos, as sedas, os veludos, as obras de arte. 

Até que a sede de Poder, as guerras internas, externas, os conflitos por região e território, a Humanidade a fazer o que melhor sabe, pilhar e destruir, deixaram Veneza perdida. Uma vasta região de pequenas ilhas que poderia ser tomada por qualquer um dos interveninetes bélicos. Viessem de norte, ou de sul, do oriente ou ocidente. A sua independência fortemente abalada. Para sempre perdida. 

É, no entanto, e já num período no qual se poderia avistar o fim, que alguns dos maiores mestres da pintura italiana (mas também europeia) se aproximam da cidade. Muitos deles, chegados por via do "Grand Tour", as viagens que os jovens europeus, provenientes, claro, de famílias titulares, da nobreza ou aristocracia, faziam, por objeto de conhecerem as diferentes capitais, absorvendo cultura, línguas, manejos e costumes. 

Giovanni "Canaletto", Francesco Guardi, Bernardo Belloto, são alguns destes artistas, que se destacam pela grandiosidade do detalhe com que pintam a cidade. Sem nunca deixarem de conservar, como se fosse possível o fazer, os edifícios emblemáticos, pintam e retratam uma sociedade em festividade. 

No Museu Gulbenkian, possível de ser vista até 13 de janeiro, esta próxima segunda feira, a exposição "Veneza em Festa" é a resposta direta ao início deste texto. Mesmo que a sala onde está patente, preserve a solenidade de uma exibição grandiosa, porque não, luxuosa, a luz que emana das obras expostas, é realmente contrastante com o restante contexto. É impossível não ter essa noção de realismo, quando nos lembramos das imagens que conhecemos das gondolas, das pontes, dos emblemas da cidade italiana. 

E, uma vez mais, a abrangência do momento - Veneza, conhecida pelo seu Carnaval, a sua festa de inverso ainda mais extremada, onde mascarados convivem com harlequins, sem sabermos quem é quem, é aqui retratada no Dia da Ascensão, já em pleno momento de primavera, após a celebração da Páscoa, rigorosa, controladora. Sente-se a atmosfera de primeiro calor estival, as cores mais cândidas e vivas, a alegria da chegada do Dux, as fachadas engalanadas. Mas também outros motivos que são conhecidos e indentificados por "vedutismo" - a representação da paisagem urbana, ou ainda, os "capricci", resultado da imaginação de cada autor, podendo conter elementos irreais ao espaço e ao tempo. 

Sim, Veneza está em Lisboa, e consegue-se sentir o séc. XVII. Uma cidade no seu auge e apoteose, qual atriz na sua última cena em palco, aquela que arranca os aplausos do público que estaria ainda ávido por mais. 



Giovanni Antonio Canal, dito Canaletto, «O Grande Canal Visto de San Vio, Veneza»

Francesco Guardi. Detalhe da obra «A Festa da Ascensão na Praça de São Marcos Veneza»



 

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Sunday, January 05, 2025

5/365
January 05, 20250 Comments

 

Existe, claro, algo que acusa uma obra ou objeto ser mais ou menos destacada de entre as demais. A criatividade por detrás da sua construção (da ideia ao real).
Cada um poderá evocar as diferentes opiniões sobre o tema, como ou a forma, ou a capacidade intelectual do ser criativo. Não olvidando, claro, as profícuas sensações de influência ou inspiração. 
É nessa óbvia busca pelo que poderá ser mais original, que nos deparamos com cenários onde o tempo/espaço parecem ter ficado incómules. Parados em imagens de cores que merecem o detalhe de olhar (e que, afinal, não passarão de breves instantes até que tudo mude). 
Observando a paisagem citadina neste início do ano, os tons pálidos ou de quebra de dia solar, sobrepõem-se à urbe. 
Registamos a natureza que ainda se pode ver nestes contrastes, passeamos em jardins construídos para esse propósito de "mentira", mas que nos afasta (quase) do local real onde estamos situados, numa sensação de conforto. 
A criatividade alimenta-se destes pequenos momentos.




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Saturday, January 04, 2025

4/365
January 04, 20250 Comments

 



Veneza em Festa - Exposição no Museu Calouste Gulbenkian


Na pesquisa sobre o conceito de Arte e Estética, e igualmente sobre o Luxo, deparo-me com a imensa dificuldade nas suas definições. Ou pelo menos uma definição que seja mais ampla e que possa abranger as várias descrições que cada um de nós, no nosso plano individual, mas também como elementos coletivos da sociedade moderna, lhes possamos dar. De certa forma, são caracterizações que, ideia geral, terão de conferir um grau emocional, um sentimento - embora sejamos nós, humanos, os sujeitos com capacidade para garantir esse peso a algo material, num mundo físico. 

Contudo, a sua origem, que remonta às primeiras tribos, representam, tendo por recurso pigmentos que nos chegam aos dias de hoje, cenas da natureza, fauna e flora. Evoluindo ao longo de milhares de anos, estas manifestações tornam-se particularizações espirituais ou rituais. A exultação a deuses e criadores, personagens mitológicas ou outras reais. A Arte e a Estética vão avançado lado a lado, nem sempre com o conceito como hoje o conhecemos. E ainda assim, vão dependendo das diferentes regiões e culturas mundiais, sendo que, onde uns consideram, a exemplo, o "vedutismo" um género de arte na pintura, outros exemplificam o chá, a água, um jardim, como elementos que podem e devem ser representados pelo seu simbolismo e importância social. 

Com o surgimento da fotografia, a amplitude aumenta. O desejo de retratar de forma direta, o momento presente, recordação para o amanha, acaba por transformar, uma vez mais, o objetivo da Arte, ou, melhor, acaba por se transformar, em si mesmo, em mais uma forma da mesma. 

Pessoais e objetivos, Arte e Estética, afinal, dependerão de quem os aborda e de quem é seu espectador. Ou da sugestão que lhe é dada, ou até mesmo de um interlocutor (um influenciador). Uma imagem pode ser "bela" aos olhos de um grupo de pessoas, independentemente da forma como lhes é apresentada, seja por escultura, pintura, desenho, fotografia, música, cinema ou de tantas outras maneiras. Uma imagem pode apenas ser significativa, impactante a quem a cria ou a uma única pessoa que a aborda. No fundo, como escreve Martim Sousa Tavares em "Falar Piano e Tocar Francês", "o poder da atribuição de beleza (aloca-se) na pessoa que observa e não no objeto observado, fazendo com que este não tenha determinado valor absoluto e intrínseco". 

Transportando esta teoria para o prisma de luxuosidade, pode-se afirmar que uma obra de arte, mais do que a sua estética, que, por sua vez, é muito mais susceptível à ideia do espectador, terá apenas valor quando se distingue pelo legado e capacidade de adaptação às diferentes gerações? Uma vez mais, qual será o preciso momento no qual um objeto deixa de apenas o ser e transfigura-se em algo admirável, além de belo, transmitindo sensações únicas? 

 

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Wednesday, January 01, 2025

dia 1/365
January 01, 20250 Comments

 



Algo que é criado para ser olhado, apreciado, tido como exclusivo, elevando-se da categoria dos demais objetivos, da restante Arte e até mesmo, Cultura. Algo que cause impacto, seja prazeiroso, podendo ser supérfluo ou não. 

Outra definição que poderia caracterizar o tema "Luxo" e que dá origem aos futuros textos e monólogos durante este novo ano. Algo diferente sim.






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Tuesday, December 31, 2024

a virada do calendário
December 31, 20240 Comments





TIC TAC

TIC TAC

TIC

TAC



Poderia ser mais uma publicação sobre o final do ano. Mas na verdade, queria fazer deste texto uma quase monografia sobre a transição do momento. Ou aquilo que para muitos se inicia por "inverso", ou a subversão da ordem. 

O conhecido intervalo de tempo no qual as pessoas entregam-se às festas e aos prazeres, tenham eles qualquer origem, para, de seguida, iniciarem um período de restrição que, não raramente tem começo na Páscoa e término no Dia da Ascensão. 

Mas falar disso, implica todo um trabalho de pesquisa que ainda não está completo, pelo que apenas posso garantir - aproveitem estes meses próximos. Encham os olhos, encham as mentes, cultivem-se. Visitem exposições, leiam livros, não se iludam por pequenos ditadores, sejam eles de que lado forem da barricada. 

Vivam cada momento, cada dia. Porque se estou, ou quero falar de luxos, de preciosidades, de momentos, de transições, de virada do calendário, apenas uma única coisa é comum a todos: o Tempo. Nada mais. E mesmo assim há que o perca rapidamente, em devaneios, em pouca lucidez, porque é mais fácil atenuar as dores em algo que nos deixe sem conseguir sentir. 

Como disse há dias a uma inspiração minha, podemos parar, e nem perder tempo com essa paragem. 

Dia a dia, de cada vez. 





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Wednesday, December 25, 2024

novamente, natal.
December 25, 20240 Comments



Falar de natal é falar de rituais. Sejam eles de origem cristã, ou, mais adequadamente, de origem pagã. Podemos, se quisermos, dissecar a epoca de festa, apontando para a necessidade básica e, muitas vezes, conturbada de óbvio massacre e obrigação, de juntarmos no mesmo espaço, um grupo de pessoas, muitas vezes associadas por sangue (família biológica), mas das quais só queremos uma coisa ao resto do ano - a distância de segurança, normalizada, de forma a evitar perguntas intrusivas ou discussões sobre os diversos temas da atualidade, que, cada vez mais, mostram uma fratura na sociedade moderna. 

É, claramente, a época que anuncia os excessos de consumo, seja material ou, porque não, alimentar - o início de uma época designada por "inverso" que irei melhor explorada em breve, refletindo sobre a sua origem e sobre a sua associação com o que se entende por "luxo".

Podemos refletir sobre isto, ou podemos mencionar que o natal corresponderá a um recomeço, a uma época de início, apontada dias antes pelo solstício de Inverno (a noite mais longa que dá origem aos dias maiores e mais quentes), o ponto mais afastado do sol em relação à terra. Há quem evoque a tradição da queima do madeiro, que ocorre na noite de 24 de dezembro, na verdade, o fogo que aquece Jesus nascido, e podemos também averiguar a sua origem mais remota, de como se celebrava o fenómemo astronómico, também ele associado a um novo ponto de partida, pelos povos celtas.

Seja como for, é, definitivamente, o momento de transição anual, validando um calendário mais ou menos lunar, que antecede o início de um novo ano, de prosperidade, crescimento, fertilidade, que culminará no estio. 

Não deixa, no entanto, de ser também, uma época de reflexão. Deveria de ser uma época de recolha, de maior solitude. 


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Sunday, November 17, 2024

os dias banais
November 17, 20240 Comments

 




Ao ler Beatriz Serrano (Madrid, 1989) e o seu "O Desencanto", pauto por momentos de riso audível, ao mesmo tempo que vou sublinhando (algo quase raro em mim, mas que tem vindo a ganhar espaço) alguns parágrafos que batem em cheio com a realidade que atravesso.

A começar, "O Desencanto" é um livro contemporâneo, localizando a ação em Madrid, mas que poderia passar-se em Lisboa, Porto, Londres - qualquer uma dessas metrópoles europeias, desde que a personagem principal (nós mesmos) nos sentíssemos em uníssono: num enorme buraco negro na vida laboral, no qual os "highlights" passam pelo tempo entre a nossa casa e o escritório. Momentos durante os quais podemos alienar-nos, lendo, ouvindo música, fazendo algo que realmente nos agrade e quiçá, preencha mais, no que respeito diz a fazer-nos sentir úteis ou, simplesmente, felizes. 

Outros momentos que aligeiram o tormento: exposições, podendo trocar o Prado da história (não tão) ficcionada, por uma Gulbenkian ou Arte Antiga, palestras literárias, ver vitrines e montras. Como escreve a autora, não inteiramente por estas palavras, "coisas que não são feitas para o tamanho da nossa parca conta bancária, mas que nos preenchem a alma.

Seja como for, desde quando cheguei a este ponto? Qual terá sido o momento preciso em que me tornei igual, exatamente igual, a todo um grupo de pessoas, trabalhadoras, sim, mas com quem nunca me tinha (nem queria) identificar?

Podemos falar do cansaço de ter de lutar para pagar contas, as quais nem dois trabalhos (precários) conseguem colmatar, as constantes preocupações com saúde de familiares, verificar o estado lastimável para onde o mundo se vira - e saber que muitos rejubilam de felicidade em ver que estamos recuar décadas (talvez séculos) de evolução social. 

Mas a verdade é que sim, a vontade de atirar a toalha ao chão é brutal, num mundo onde parar não é opção, mas continuar a remar contra a maré, também não parece ser inteligente. 

De acordo com "O Desencanto" a personagem principal, publicitária por trabalho - não por profissão -, ensina-nos (a todos, independentemente do que façamos), como "sobreviver" a cada dia de labuta. Como consegue fazer de conta que faz muita coisa e apresentar trabalho, quando na verdade, apenas faz o que todos os outros fazem, copy-paste de ideias, apresentadas com outra roupagem, com outras palavras e voilá, feito. Isto, temos de admitir, SEM RECORRER a essa máquina maravilhosa que é o chatGTP - coisa medonha, mas que dá imenso jeito quando a inspiração parece não querer colaborar. Conto pelos dedos de 1 mão apenas as vezes que recorri à IA para me lançar umas duas frases que me dessem alento. Ainda assim, é uma ferramenta útil, caso a saibamos usar (bem!) em nosso proveito.

Ainda assim, garantidamente, algo diferente se apoderou da minha pessoa. Sinto que me aproximo mais (e não apenas por empatia) das pessoas que comigo andam nos transportes públicos, a tal classe social que é identificada como pobre (e, graças a uma comunicação social elitista, como perigosa ou criminosa), das mulheres que terão, certamente, nas suas cabeças muitíssimo mais do que afazeres profissionais, mas sim domésticos e familiares. 

E apesar da minha cabeça borbulhar de ideias, a minha capacidade de enquadramento e organização de pensamentos, acaba por estar anos-luz de distância de qualquer funcionalidade. 

Ou é por cansaço, ou porque a procrastinação não ajuda. 

A exemplo, demorei 4 dias a partilhar este texto, estando o primeiro parágrafo redigido num caderno. E entretanto, quantos temas terei debatido com conhecidos ou amigos, coisas sem qualquer suposta relevância ou, pelo contrário, com toda a importância que, para mim, apresentam? 


Os dias banais sucedem-se, pois é, em dias de, agora outono, que não se prolongam, bem pelo contrário, nem tão pouco repetem. A cadência, ou decadência, temporal é real, embora possam ajudar as temperaturas acima do normal, que neste fim de semana se fazem sentir. Mas a noite avança rapidamente, pedindo para recolhimento, e algum silêncio. Mesmo mental. 

Há quem possa também falar em depressão, melancolia, saudade, ou simplesmente, solidão. Mas sabem que agradeço o estar sozinha num mundo em ruído permanente, onde notícias são partilhadas e estilhaçadas no mesmo momento, dessecadas à verdade e à mentira perante as crenças de cada um de nós. 

Na verdade, e citando o livro que agora me passa pelas mãos e olhos, "A verdade é que não sei fazer nada em particular e não sei como é que cheguei até aqui. Desconfio que fui aperfeiçoando a brincadeira dos escritórios até que os outros começaram a acreditar que sou uma grande profissional". 

Errata - EU SEI QUE SOU uma grande profissional, mas sei que estou subaproveitada e a perder qualidades, se não me auto alimentar intelectual e cientificamente. 




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Saturday, November 02, 2024

As sopeiras do Marco Paulo
November 02, 20240 Comments

Marco Paulo morreu, VIVA Marco Paulo.

Goste-se ou não do estilo musical, das canções românticas, muito datadas de anos 80, com um quase nada, quase tudo de sotaque português a partir de uma versão brasileira, ou de arranjos a partir de originais espanhóis ou italianos, Marco Paulo foi um dos maiores ícones da música nacional.

Será impossível não se conhecer pelo menos um refrão do extenso repertório. Pelo que, a agora tendência de se interrogar "Quem?" sempre que algum artista (non-grato) desaparece deste plano, é, no caso, completamente abjeta.

Posto isto, os comentários após o seu falecimento, demonstram um profundo desconhecimento social, diria até musical, desconsiderando a enorme voz do artista. Contudo, o que mais choca foram as retóricas estabelecidas com base no típico preconceito, diria mesmo, machista. Sei que ninguém o é em Portugal (por quem sois), claro, mas quando se limita Marco Paulo a uma faixa social apenas feminina, e não raramente, pobre e iletrada, as "sopeiras" como Luís Osório tão bem recordou no seu elogio ao cantor, as "donas de casa", existe, sem dúvida uma agravante desnecessária. 

Tal como nas últimas semanas, muitos elementos da nossa elite, promoveram os suburbanos a gente pobre, sem acesso à educação, e, também, potencialmente perigosa, assim que Marco Paulo morreu, o espetro aumentou ainda mais. Afinal eu estava certa - somos mesmo quase analfabetos(as), que sonhavam alto enquanto cantarolavam as cantigas de amor, enquanto lavavam as roupas dos outros, as próprias, passavam a ferro, ou faziam as limpezas nas casas dos "senhores".

No livro "Na terra dos outros" de Manuel Abrantes, faz-se um retrato e relato, bem verdadeiro, sobre essas raparigas, que bem jovens, vieram na província, ao longo de décadas, para trabalhar nas casas das cidades maiores, muitas delas tornando-se alvos fáceis dos desejos dos patrões, dos "senhores", ou, talvez melhor infelicidade, das iras das patroas, as "senhoras", bem explanado pelos tabefes e outras agressões físicas. Por outro lado, basta relembrar também as principais vítimas das cheias de 1967, muitos e muitas, também eles, procurando uma vida melhor, longe da maior pobreza de onde tinham saído. 

Menosprezar estas gentes, que são hoje avós e pais, da geração "mais bem preparada de sempre" que Portugal tem, através do escárnio, e a partir de um cantor de música ligeira portuguesa, é menosprezar quem vota. Esses mesmos que, sendo iletrados, são os que conferem Poder a todos aqueles que os olham de alto, protegidos pelo seu privilégio, conferindo-lhes a adjetivação que bem conhecemos. 

Marco Paulo, por sua vez, apenas queria cantar para um publico que, realmente, lhe conferiu um epíteto de ídolo. Fossem mais mulheres e menos homens, aquele que nasceu no Alentejo, que tinha Amália como devoção, que adorava a mãe mais que tudo, que não recebeu, talvez, o carinho e apoio de um pai que o via "diferente". Marco Paulo, ou João Simão da Silva, de quem a vida privada pouco se conheceu, e a que se sabia, ainda alimentou algumas histórias e polémicas, como acontece com todos aqueles que chegam à primeira linha de fama real. Marco Paulo, aquele que, amado por milhares, detestado por alguns poucos, com feitio irascível que o "stardom" lhe conferia, e que ainda terá servido de inspiração a um Tony Silva de Herman José.

Aquele Marco Paulo, das sopeiras e donas de casa, de todos os jovens nascidos entre 70 e 80, e também inícios de 90, que o cantavam em karaokes e festas de aniversário nas garagens, a par de Prince, ou mais tarde Nirvana. O Marco Paulo do "sempre que brilha o sol", "eu tenho dois amores", "uma lady na mesa, uma louca na cama", aquele que será recordado por muitos mais anos do que qualquer um dos novos "grandes" nomes da música nacional. 

Aquele que representa, senão uma geração, toda uma classe social, de acordo com os entendidos da cultura portuguesa. Aquela gente que, na verdade, não sabe nada, de nada. 


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