Friday, December 10, 2010

Os diários do Holocausto

Após ter lido Comboio para Budapeste e ter pensado que nunca mais iria voltar a pegar nesse título (e não irei mesmo, porque ainda me recordo bem de algumas passagens e continuam a dar-me volta à cabeça e estomago) li ontem num fôlego o Diário de Rutka, jovem adolescente judia e polaca que, durante alguns meses (desde 1942 a 43) e antes de ter sido deportada para Auschwitz onde foi imediatamente enfiada numa câmara de gás, escreveu algumas palavras sobre a sua vida, antes e depois da família ter sido empurrada para o gueto. A diferença entre Rutka e Anne Frank é mais que evidente. Embora Anne também fosse originária de uma família com posses, a sua educação nada tem a ver com a educação de Rutka, algo que é facilmente observável nos trechos que conseguiram ser traduzidos do diário da segunda. Rutka, com apenas 14 anos, tinha já os devaneios de uma jovem mulher a entrar na maturidade e, no mesmo parágrafo poderia escrever de uma forma bastante precisa a forma como viu um bebé ser atirado contra um poste de electricidade (tendo obviamente morrido...), como, logo a seguir, falar dos rapazes da sua vida. Eu fiquei fascinada com o grau de complexidade que ia na cabeça dela. Talvez o facto de saber o que se passava "fora" do gueto, ter conhecimento da existência dos campos de concentração e, acreditar piamente que não iria sobreviver à guerra (várias vezes menciona Deus, o judeu ou o cristão, alternando estados de fé como de incredualidade), afirmando que "pressentia" algo de mau, a tivessem transformado rapidamente. Anne nunca escreveria as mesmas coisas, as mesmas "banalidades", mas também é um facto que a escrita de Anne é muito mais infantil por comparação e, não nos podemos esquecer que até terem sido descobertos, os Frank viviam num anexo, espaço pequeno, sem saírem à rua, pelo que Anne não poderia nunca ter chegado a ter as experiência que Rutka descreve com um ritmo adulto, alucinante por vezes. A questão política também é importante mencionar. Aos 14 anos Rutka fazia parte de movimentos comunistas polacos, enquanto Anne, nunca tinha frequentado nada do género. Lê-se num ápice (li porque foi um dos livros reservados no part-time e é extremamente "fino") e fez-me pensar na quantidade de coisas em comum eu tenho com ela. O mau feitio, os humores extremos, os amores. Com excepção da guerra, claro, qualquer uma de nós pode ser Rutka e, poderá escrever como ela.

2 comments:

Goldfish said...

Não é um diário mas um romance, mas mostra a vida de uma adolescente berlinense, não judia, durante a ascensão, domínio e queda de Hitler - chama-se A Sétima Porta, de Richard Zimmler. É muito, muito interessante. Eu vou ver se leio o Rutka, que não conheço.

Clau said...

É um dos romances do Zimmler que estão lá em casa na pilha "a ler"! Obrigada! :)