Tuesday, November 07, 2017

WebSummit e a Geração Unicórnio

Realmente existem imensas formas de Marketing e Publicidade, mas um dos seus melhores exemplos e produtos é, sem dúvida o WebSummit (e o Rock in Rio, Alive e outros mega eventos que esgotam muitas vezes ainda antes de se saber o cartaz na sua totalidade). O problema do WebSummit é exactamente a sua fatal falácia em que todos parecem acreditar: qualquer empresa irá conseguir desenvolver os seus projectos no futuro a curto/médio prazo, garantindo lucros. A ideia claro que não é cortar as asas de ninguém - é excelente ter sonhos e objetivos, mas que sejam palpáveis, que tenham realmente um "purpose" e claro, que sejam aplicáveis. A metáfora do unicórnio é perfeita - estamos perante a geração unicórnio, a que acha que o futuro passa exclusivamente por projectos rápido, fast information, que requeiram algum trabalho, mas não muito, e que tenham uma projecção social incrível. Nem sempre assim acontece, e de acordo com as estatísticas são muito superiores as quedas (ou quase sempre).

A taxa de sucesso das start-ups é de 2% e não 1% (10% se citarmos ao The Guardian para uma estimativa internacional)... mas em todo o caso é como comparar tentar encontrar um palito numa sala de 30 metros quadrados ou num campo de trigo de 30 hectares... são coisas diferentes. Nem todas as start ups estão destinadas a vingar no mercado e nem todas as empresas têm pessoas à frente com capacidade e visão para as sustentar a longo prazo... a Websummit vende sonhos é verdade. Mas ninguém está lá (acho eu) para fazer negócio hoje. As pessoas estão para fazer networking e benchmarking, o que nem sempre é compreensível aos próprios participantes.







Não seria melhor investirmos nas "antigas" TedTalks? Eu acho esse conceito (ainda) muito bom, e igualmente influenciador de massas (trend and mind setter).
Quanto ao voluntariado - chama-se mesmo voluntariado por isso! Quem se inscreve sabe que não vai ganhar nada a não ser más refeições, horas e horas de confusão (como pelos vistos está a acontecer neste momento - não há badges suficientes para o número de voluntários), e muitas ressacas - o público alvo é cada vez mais jovem e, como tal, irá certamente aproveitar a noite lisboeta (apenas não no Urban, porque encerrou e já foi tarde!)
"(...)a suprema honra de ser escolhido, entre nove mil candidatos, para ser um dos 500 voluntários no maravilhoso sarau. Definição de voluntário: trabalhar à borla durante 18 horas num evento onde a entrada normal custa 1500 euros."
"E, segundo o Expresso, o número de startups criadas em Portugal em 2017, após o enorme sucesso da primeira Web Summit, diminuiu. Isso mesmo: diminuiu. Parece que há muita oferta de trabalho e as pessoas preferem a segurança de um bom emprego à insegurança de um novo negócio."





Wednesday, November 01, 2017

Harvey Weinstein vs. Kevin Spacey ou como se destroem carreiras.

Que todos sabemos a fama menos boa que as actrizes (e actores) têm desde os tempos do antigamente, lá isso sabemos. O que eventualmente me choca no meio destes escândalos todos é que de repente todos e mais alguns parecem ter sido vítimas indefesos de predadores sexuais super activos em Hollywood e quiçá, noutros meios artísticos de outros países. 
Harvey Weinstein, embora produtor da maioria dos grandes filmes dos últimos 30 anos, é simplesmente um ser asqueroso - não obstante eu acreditar que haja quem abra as pernas propositadamente para chegar ao topo, também sei que existe uma grande maioria silenciosa, que enfrentou com coragem, todo e qualquer tipo de tentativa de agressão sexual. Mas a verdade é que não se pode dizer que sejam todos seres inocentes que não sabiam ao que iam. A Annabela Sciorra só agora (quase 25 anos depois) é que se lembrou, por exemplo, de fazer queixa, porque, nas palavras da própria, quem é que iria acreditar numa mulher que sim, tinha aberto a porta a um homem a altas horas da manhã? 
Mas agora ao que realmente me lixa: o Kevin Spacey. Acho que todos sabíamos ou desconfiávamos que ele fosse gay (ou bissexual). Não é aí que recorre qualquer problema. Que a comunidade gay fosse sexualmente activa durante os idos anos 70 e 80, também é de conhecimento público. Que infelizmente se associe a homossexualidade a comportamentos de abuso sexual a menores, também é do conhecimento recorrente - e é errado, porque na maioria das vezes é apenas a desculpa usada para encobrir casos e casos de violações realizados por homens e mulheres. Que um actor de 46 anos, que é abertamente homossexual venha agora perder a vergonha e acusar publicamente Kevin Spacey de o ter tentado violar há mais de 30 anos atrás, é simplesmente mesquinho. Porque não antes? Não refere que tenha sido ameaçado sequer, simplesmente, agora, porque todos estão a contar as suas "histórias", ele resolve também contar - ok, não foi bonito, mas, alguém honestamente acredita que um puto de 16 anos vá parar por engano a um quarto de um hotel numa festa de Hollywood? Sozinho? Só porque estava cansado e queria dormir? E não não estava acompanhado por pais, parentes, agentes? Não me enfia o gorro. A partir de certa idade só é Lobo quem lhe veste mesmo a pele. E porque não acusá-lo no auge da sua carreira, quando ganhou o Óscar de melhor actor? Ou quando começou a fazer imensas peças de teatro? Ou quando começou a ser nomeado anos e anos a fio pela série House of Cards (que entretanto e estupidamente foi cancelada)?? 
Há uns meses atrás uma série de actores foi igualmente acusada de assédio pela parte das colegas: desde Robert de Niro, passando por Nicholson, até ao Fassebender, nada nem nenhum escapou. Era como se de repente todos os actores conhecidos fossem uns predadores sexuais que fosse preciso afastar desta terra e da outra.
Portanto digam o que quiserem, mas isto, agora, contra o Spacey, é apenas um pretexto, uma ponta de um iceberg enorme ou então apenas e só maldade de alguém que quer os seus 15 minutos de fama - mas que também pode com isto dar-se muito mal. Veremos. 




Eu, por exemplo, não acredito que nunca nenhuma de nós, por exemplo, tenhamos sido aludidas a determinadas acções: de um padre confessor, de um vizinho, do tio solteiro que gostava muito de crianças, de um professor na universidade, de um colega de trabalho ou superior hierárquico. O que nos define nem é a forma como encaramos ou nos vergamos por medo ou se os deixamos apenas com as calças na mão. Mas sim quando fazemos a queixa - se alguém acredita ou não isso logo se vê. Mas a ideia é logo apontar o dedo, mostrar que está errado. Claro que é mais fácil, por princípio, quando somos adultas. No meu caso não seria aos 8 anos de idade que poderia ter contado fosse o que fosse que me foi proposto - nomeadamente pela vergonha e por achar que eu é que poderia ter feito algo errado. 
Contudo, não nos podemos comparar com homens e mulheres que ganham milhões, com gente que por ser quem é, por ter a exposição mediática que têm, podem e devem falar e condenar. Mas não passados anos, não por moda, não por simpatia ou empatia. Mas porque se sentem realmente mal, porque o trauma é forte demais. Porque eu penso que, se fosse comigo, se eu fosse vítima, se me tivesse calado, não conseguiria nunca continuar numa profissão destas, nunca conseguiria passar por vários filmes, papéis, contracenado com actores, actrizes, certamente compactuantes com tudo o que se passa. Ou seja, não podem realmente ser tão inocentes assim não é? Ou serão? 

Monday, October 30, 2017

Das chamadas futilidades nas redes sociais

Embora já passem mesmo muitos anos desde que comecei a escrever online, primeiro no mundo Blogger, depois no Facebook (e neste, de uma forma mais frontal, bruta, muitíssimo mais pessoal, uma vez que estou a redigir textos de opinião para um “grupo restrito de perto de 300 pessoas”), a verdade é que aqui, publicamente, poucas foram as vezes em que consegui escrever exactamente o que queria, pôr o dedo na ferida, assumir publicamente alguma bandeira, mesmo que pudesse chocar os (cada vez menos) leitores.
Posso ter dado alguns toques na questão da homossexualidade, nos direitos das mulheres, no que este ou aquele partido, quando Governo, faz ou deixa de fazer. Mas é tudo muito ao de leve – primeiro porque os textos querem-se curtos para consumo rápido, depois porque cada vez há menos gente ainda com paciência (e tempo) para ler e apreender. E apreender sem precisar de julgar – porque todos somos comentadores de sofá, ou de computador, portanto todos temos direito a opiniões mais ou menos exacerbadas.
Isto tudo para quê? Porque nos últimos meses, enquanto algumas pessoas que se acham realmente importantes no seu mundinho, deixaram sequer de me falar (quando antes se diziam grandes amigas), outras tantas, bem mais interessantes, têm surgido como cogumelos (e sim, há os venenosos e não venenosos, mas às tantas conseguimos distingui-los bem). Podia estar aqui a descrever cada uma dessas pessoas (na sua grande maioria Mulheres, dentro da minha faixa etária), mas então prefiro deixar a lista para outra publicação.
Uma dessas pessoas interessantes dá pelo nome de Helena Magalhães, escritora (ou pseudoescritora como outras mulheres com m, a ela se referem), 31 anos (mais nova que eu 2, portanto), mas com uma capacidade, obviamente, de escrita, de elocução, de, lá está, ter os ditos no sítio para escrever sem temer ser mal ou bem interpretada, colocar os pontos dos i’s e estar-se a marimbar para o que os outros pensam. E isso é de louvar hoje em dia, em que a Mulher estar cada vez mais na mira de toda a gente – não tanto por homens, mas acima de tudo por elementos do género feminino.
Li hoje dois artigos dela (ou publicações no blog) que podiam ter sido escritos por mim – e irei escrever algo sobre isso, mas não daquela forma, porque quem me conhece sabe que sou muito radical nas minhas palavras – sobre a capacidade que nós, mulheres, temos em ser umas cabras. Porque a verdade é essa minhas caras (e caros), nós somos realmente más, não só para os homens (isso dá um texto lindo que me atirará para as chamas da inquisição neo-feminista) mas acima de tudo contra nós próprias, umas contra as outras, em definições e conceitos de malvadez e maledicência que só me trazem à ideia uma única justificação: inveja devido a vidas frustradas e objectivos inalcançados. Não justifica apenas sermos, desde que começamos a escola, a ser comparadas com as filhas das outras mães, filhas das colegas das mães, e mais tarde, com o nosso grau de aprendizagem (=inteligência), quando começamos a ler bem, a falar bem, a contar bem “ai que a minha filha/ neta já faz contas como se andasse no liceu”, às tantas, se temos melhores notas, se vamos ou não para Medicina ou Direito sermos doutoras “coitadinha, a Lena, perdeu o 12º ano, pudera, também com aquele exemplo de mãe que ela tem em casa – e o pai coitado, também não deve muito à inteligência” (embora até possam ambos ser engenheiros), e claro, às tantas, aquelas perguntas óbvias que se colocam como: já acabaste o curso? Já estás a trabalhar? Já tens namorado? Agora tens de assentar (= casar e ter filhos após curso feito e (qualquer) trabalho/emprego posto).
A pressão ao longo da nossa vida até aqui (casa dos 30’s) é enorme. Mas o futuro não é mais brilhante. Como tal, e visto que hoje em dia, em 2017, vivemos num mundo de aparências, resultante de uma educação determinada quase constantemente pelas referências de internet (que há 10 anos nem existiam desta forma), e nenhumas por pais e educadores (não me refiro a professores, porque esses não podem fazer o trabalho de quem nos deu à luz – e aqui entenda-se pai e mãe), não é de estranhar que haja cada vez mais uma proliferação de mulheres que querem ter tudo a mais, e serem mais do que a do lado. Não posso, nem podemos levar a mal. Tudo até agora tem sido feito nesse sentido. Uma constante pressão da sociedade, da família, aliada a centenas de páginas sociais e revistas supostamente feitas por e para Mulheres, que na verdade não ajudam à festa.
Da mesma forma, temos agora um flagelo a meu ver ainda mais perigoso, que é a radicalização do Feminismo. Peço desculpa, mas não é queimar soutiens enquanto fumamos charros que vamos conseguir seja o que for, da mesma forma que não será com pelos no sovaco ou depilação por fazer nas pernas – isso não é feminismo – isso é estupidez. Mesmo que venham evocar que os conceitos de beleza são uma imposição das sociedades ao longos das últimas décadas, eu digo que existe uma diferença GRANDE entre sermos Barbies, com corpos perfeitos, e sermos femininas e acima de tudo termos o mínimo de higiene pessoal. O que é que me traz de bom se eu me vestir como um homem ou ter comportamentos como um homem? O que me traz de bom eu andar a evocar aos 7 ventos que os homens devem começar a fazer a lida doméstica e nós é que temos direito a estar sentadas no sofá? Isso são estereótipos bacocos, mas sim, que infelizmente ainda acontecem – e tenho a sensação que vão recomeçar a acontecer ainda mais.
Existe uma expert do assunto a escrever TODOS OS DIAS no Expresso, chamada Paula Cosme Damião. A moça assusta-me. Não me parece que seja feminista, feminina, ou qualquer coisa a favor das mulheres, embora esteja sempre a tentar “defender-nos”. Assusta-me porque os textos delas, às tantas, roçam um ódio profundo aos homens, como se fossem a pior coisa à face da Terra, mas também a algumas mulheres, nomeadamente àquelas que procuram, dentro do seu feminismo, serem femininas. Uma das lutas das neo-feministas é exactamente isto: uma mulher feminista não anda de salto alto, mini saia, ou batom vermelho, porque está a sexualizar-se perante a sociedade e isso vai contra o que se pretende. Pois bem, na minha modesta opinião, a Mulher hoje em dia, além de poder e dever ter os mesmos direitos e oportunidades que um Homem, pode e deve fazê-lo sem se tornar masculina, sem ter de para isso, esconder a sua sexualidade ou sensualidade ou simplesmente, o facto de ser feminina. E é aí que passa também a cisão entre as Mulheres e o facto de dizermos mal umas das outras.
Para terminar, deixo-vos a parte da citação do juiz desembargador Neto de Moura, cujas palavras que se seguem não estarão completamente erradas no que toca ao conteúdo “O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) (…)". I rest my case.


Monday, October 16, 2017

Incêndios e palavras incendiárias.

Após os discursos desta noite não restam dúvidas: António Costa e a Administração Interna estiveram muito mal, uma vez mais. Antes tinha sido por falta de organização, experiência nestas situações, uma série de (desculpas) factores que podem ter contribuído para uma imensa catástrofe humana e natural. Desta vez não. Não podemos aceitar que as palavras hoje proferidas sejam exactamente as mesmas que há 4 meses atrás - numa nova desculpabilização. Em Junho foi o calor e um raio (que afinal foi um cabo de alta tensão), e falhas na comunicação que acontecem mesmo quando não ocorrem incêndios. Ontem foram as temperaturas anómalas para a época, terras secas, e falta de chuva. Ou seja, as medidas de prevenção que deveriam ter sido implementadas, e que não o foram, não interessam - porque o relatório de há 4 meses curiosamente só ante ontem é que tinha sido apresentado -, pelo que, só agora é que, a sério, temos de olhar de outra forma para (o que resta) a floresta nacional. Contudo, para não estar a repetir o que escrevi na última publicação, o que me irrita ainda mais é a politização que se dá a isto tudo. Como se o governo X ou Y fossem culpados por alguma coisa. Todos são culpados. Não é por eu achar a MAI uma inútil que não está a fazer lá nada que seja de direita ou do PSD ou do CDS ou contra o PS. Não haja dúvidas que muitas palavras irão ser ditas e muitas atitudes tomadas - resta saber se os portugueses serão realmente inteligentes para saberem separar o trigo do resto, e perceber que o Mário Centeno não é o António Costa. E que o dinheiro a mais não é tudo na vida, quando a Vida nos é roubada pelo fogo. 

Portugal de Culpas Parte 2

Tal como disse a outra, quase dá vontade de rir. Por vezes pensava que deveria regressar ao blogue, escrever as palhaçadas das minhas mini férias, mostrar fotos de outras paragens. Mas não. Por alguma razão, assim não aconteceu - e hoje percebe-se porquê. 
4 meses depois, exactamente 4 meses depois dos imensos incêndios que ceifaram 64 vidas, novamente outros tantos, de forma implacável, mas desta vez com mão criminosa mais do que vista e comprovada, até agora contabilizando 36 mortos, 16 feridos graves, e outros tantos (mais) ligeiros. O que se aprendeu em 4 meses? Nada. O Governo nada aprendeu. Activaram-se mecanismos de apoio e estados de calamidade. E talvez, TALVEZ, tenha ocorrido uma melhor coordenação de meios, dentro do que o caos permitia. Porque sim, a floresta continua desgovernada, porque as matas continuaram por limpar, porque continua a dar jeito termos eucaliptos e pinheiros para a indústria da celulose. Não houve, portanto, desta vez, uma possível ignição natural (como da outra vez, um potencial raio, que afinal, de acordo com o relatório de análise à prevenção e combate a incêndios florestais, não foi nada um raio - e foram precisos 4 meses para apresentarem os resultados), com excepção do calor extremo que se fez sentir, igualmente e ironicamente até hoje, num Outubro atípico. Houve sim uma total desresponsabilização do Estado. Um Primeiro Ministro que diz apenas, como que encolhendo os ombros, "isto vai voltar a acontecer" como se fosse a coisa mais natural do mundo. Agora mesmo, em directo, a dizer que "agora sim, vão aplicar uma reforma na floresta". Agora sim?? Agora sim??? Fora a frase que fica na história: "o governo não tem uma varinha mágica para resolver estes problemas e a população tem de estar preparada para mais eventos assim". Já deveria ter sido feito. Já deveriam ter sido empregues as medidas de prevenção - não achando apenas que o que lá foi, lá foi e que não voltaria afinal, a acontecer. Aplicar medidas?? Já deveriam ter sido aplicadas há muito. Não interessa se estamos num governo de esquerda ou direita ou centro. É simplesmente um falhanço total do Governo. E uma vergonha para todos nós que continuamos a votar neles (todos), sabendo que nunca nada muda. 

Tuesday, June 20, 2017

Portugal de Culpas

Não há qualquer justificação para o que aconteceu no passado fim de semana. Os dias 17 e 18 de Junho de 2017 ficarão para sempre e infelizmente, nos livros de História, nas imagens da comunicação social, na nossa Memória colectiva. Não há culpados, não há mão criminosa, não há milagres e milagres houve.
Não se consegue simplesmente perceber, por muita revolta e dor e mágoa e horror, como a tragédia aconteceu. Ou sequer pensarmos em imaginar, OUSAR imaginar o que um ser, SER, sente, SENTE, quando sabe que vai morrer, e muito menos imaginar o que sente depois quando percebe que se salvou enquanto que os outros que iam atrás, ao lado, à frente, foram comidos e levados por um vento de fogo e calor, que só se conhecia por outros relatos, de outras histórias. A única coisa que resta é o descrédito, a incredulidade, o parecer estar a viver planando entre o sonho e o pesadelo. Para muitos, a realidade vai demorar a chegar.
Quando ontem se ouve que a culpa foi da GNR que não encerrou a estrada (houve quem morresse em casa, outros nos carros, ninguém sabia que aquilo iria acontecer), ou dos Bombeiros que não chegaram (não chegavam para todos quando o Fogo consumia tudo numa velocidade que ninguém se lembra em décadas de vida), ou que as previsões meteorológicas falharam (porque são previsões, porque não há capacidade nenhuma humana ou mecânica para saber ao certo o local exacto de queda de um raio, e muito menos que iria originar um incêndio sem precedentes), resta-me pensar que nós, portugueses, já não nos agarramos à Fé como justificativa para tudo. Precisamos de um culpado- mesmo que esse culpado sejamos nós todos, um bocadinho de nós todos, e que nós todos também ardemos nesse Fogo do Inferno, e que nenhum de nós poderá ou deverá ficar indiferente ao que aconteceu. 
Quando apenas 2% da Floresta é do Estado, mas tudo o resto é de pessoas como eu, como vós, que não limpamos, que não ordenamos, e quando sabemos que os próprios governantes podem à força serem eles a agir para prevenir, a culpa recai sobre quem? 

Não consigo voltar a ser como era. Não consigo deixar de pensar que a terra do meu pai também foi afectada. Posso não ir lá com a frequência com que deveria, mas de certeza que ao lá voltar irei com um respeito imenso, um reverência diferente, em respeito pelos mortos, e pelos vivos. Pelos que sobreviveram. 

Mas acima de tudo, espero que sejamos capazes de reconhecer que a culpa não, não poderá morrer solteira, que todos temos mão neste Fogo, nestas mortes. Que somos todos responsáveis. E acima de tudo, que saibamos que contra a Natureza NADA podemos. 

Há que estar em luto. E possivelmente durante muito tempo. 

Wednesday, March 29, 2017

Negação! (Festival de Cinema e Cultura Judaica)

Pelo início: eu nem sabia quem era o "historiador" David Irving (um deturpador de factos históricos, histérico, incoerente, emproado, racista, misógino, anti-semita e com uma enorme admiração por Hitler). Mas sei quem são os negacionistas actuais do Holocausto.
Parece-me perverso que haja alguém na Terra, que tenha alguma cultura geral, e negue algo tão óbvio, apenas afirmando o seguinte: "sem corpos não há prova que tenham sido mortos 6 milhões de judeus (e outros: crianças, idosos, deficientes, ciganos, comunistas, homossexuais) em campos de extermínio ou trabalho forçado".
Mas existe. O problema é esse. 

Ontem fui ver o filme que abriu o Judaica - Festival de Cinema e Cultura.

Não me surpreendeu - durante a tarde de ontem estive a ler tudo sobre o caso. E nem sequer menciono aqui o nome da protagonista feminina - porque o que estava em causa o tempo todo era a veracidade de factos - provar por A+B que o Holocausto existiu. Que houve mortos, vítimas e alguns, raros, poucos sobreviventes.

O que não consigo engolir é que se faça disso o caso único de extermínio. Não se trata de mal grado. Eu não tenho nada contra as pessoas. Mas o certo é que esta Negação não é exclusiva aos anti-semitas, aos nazis, aos racistas. Esta Negação iniciou-se ainda durante a Guerra, quando os que conseguiram escapar e chegar a território da então PLENA Palestina, contavam as atrocidades e os patrícios simplesmente se negavam a ouvir e a acreditar. Foram precisos quase 15 anos após 1945, para que, com os primeiros julgamentos, se começasse a falar sobre o assunto, se começassem a ouvir as primeiras vítimas sobreviventes. 

E eles, que bem quiserem na altura certa, falar, foram impedidos. Pela Negação dos outros (seus) e pela sua auto-condenação de terem sobrevivido quando outros milhões não. Quando pais resistiram aos filhos, maridos às mulheres. Uma vergonha, uma culpabilização. 

Não admito, tal como tantos outros judeus, que o governo israelita tenha usado o Holocausto para justificar as suas atrocidades contra palestinianos. 

Não admito que continuem a auto apelidarem-se de vítimas, quando na verdade, historicamente, as perseguições começam ainda no antigo testamento. 

Aliás, quantos judeus não gostam desse estigma do "judeu pobrezinho", mais uma vítima entre o povo escolhido. Não.

Não à Negação. E Não à Vitimização. 

Tuesday, February 14, 2017

World Press Photo ou como tudo mudou

Não há como negar. Em 10 anos o mundo mudou radicalmente e muito se deve, clara e obviamente, à presença cada vez maior das redes sociais, não apenas em estratos académicos, jornalísticos e políticos, mas porque, com a possibilidade de cada um de nós ter um espaço público-privado em rede, online, vemos, partilhamos, comentamos e acabamos por ter um papel muito mais importante do que pensamos no mediatismo dado a determinados assuntos e temas, a pessoas, acontecimentos.
Quando no passado as nossas opiniões limitavam-se ao que se lia nos jornais e via nos noticiários, e às conversas típicas e míticas quase, de café, hoje dos cafés, passamos rápida e de forma selvagem, diria mesmo, para os computadores. A forma despudorada como repartilhamos notícias e informação (nem sempre verdadeiras), mas acima de tudo, a forma como criticamos os outros, sem filtro (ou com filtro - basta ser através duma máquina, sem mostrarmos realmente a nossa cara), torna-nos tão ridículos como aqueles que dizemos o serem, maus, terroristas, ordinários, fáceis, difíceis, pseudo-intelectuais, egocêntricos, e por aí segue.

Ontem foi apresentada a fotografia vencedora do World Press Photo. Um exemplo claro de como a intervenção da partilha rápida de informação chega a todo o mundo no preciso instante em que "tudo" acontece. Não gostei que fosse a imagem vencedora, principalmente porque demonstra, qual cena de filme, um homem de arma em riste, gritando "vitória" após ter morto outro homem. Homem. homem. A partilha desta imagem traduz-me imediatamente a mensagem de que ninguém em nenhum lado está a salvo, está em segurança. Também me transmite que o terror não se mede pela cor de pele, pela raça, ou mesmo pela simpatia religiosa ou política. O Terrorismo parte de cada um de nós, dos nossos mais íntimos desejos e ideais que, quando vamos a ver, são espalhados de forma absurda pela internet, sem que alguma vez saibamos bem como é que acontece. Da mesma forma, é preciso compreender que há uma população jovem que, estando em casa, perante o perigo que é estar na rua nos dias de hoje, está cada vez mais alienada num sistema de consumo que proporciona os prazeres (e privilégios) de ter acesso a tudo, desde que não se incomode os mais velhos. Nessa alienação começam os primeiros perigos de extremismo à medida que vão consumindo informação que nem sequer é vista ou limitada pelos progenitores, numa onda de confiança de que os filhos(as) são pessoas que estão a ser bem formadas e educadas em sociedades que se querem "ocidentalizadas". Teerão não é mais ninho de terroristas como as Mercês (Linha de Sintra). Em todo o lado onde haja minorias ou maiorias haverão potenciais terroristas. Sendo islâmicos ou católicos. 

A perpetuação dos actos terroristas, de como se geram estas ideias nas mentes de miúdos, a constante transmissão das imagens de atentados pelas redes sociais poderá então estar a encorajar outros tantos, que, sem qualquer objectivo de vida a curto, médio ou longo prazo, a se juntarem só pela "piada", não contando eles, nem nós, que se seguirá uma lavagem cerebral rápida, uma vez que as pessoas hoje não querem/ sabem ou estão preparadas sequer para pensarem muito. Ou pensarem sequer. (A "piada" aqui poderá ser comparável à "piada" de se ter votado no Brexit sem ter noção do que era, ou a "piada" de se ter votado no Trump, acreditando que ele nunca ganharia). 

A "glorificação póstuma", como já foi denominada esta crise de valores e de ética (https://www.publico.pt/2016/07/29/mundo/noticia/estaremos-a-ajudar-a-criar-assassinos-1739733), é altamente prejudicial, dando ênfase ao que não se deve - e a foto vencedora é um exemplo disso. Glorifica o Mal. Mostra um Poder que não existe, pela parte de pessoas que se converteram para algo que não sabem o que é em algo que não sabem o que são. E que infelizmente acabam por ser destruídas com e por isso, também.