Há uma semana fomos alertados para a passagem (eventual, previsiva) de uma depressão atmosférica. Mais uma das muitas que têm assolado a península Ibérica este inverno. O anticicolne dos Açores está fora de rota e não faz o seu trabalho. Tudo bem. Recebemos os avisos da proteção civil por telemóvel, ouvimos os meteorologistas do IPMA - Instituto Português do Mar e Atmosfera, a chamar a atenção, nomeadamente para as zonas de maior risco - litoral, inundação - e, principalmente, para o que se esperava pior (e que se veio a concretiar): os ventos ciclónicos que poderiam atingir terra, sem dó nem piedade. As previsões estiveram ligeiramente aquém, quando as velocidades de rajada aproximaram-se dos 300 km/h, levando consigo telhados, casas, árvores, infraestruturas. E com estes acontecimentos, já 9 pessoas, até ao momento que partilho, mesmo que indiretamente.
Não há forma de fazer frente à natureza. Sabemos que os eventos extremos irão aumentar de frequência, e temos de encarar a veracidade dos factos: as alterações climáticas existem - a um ritmo mais rápido do que ao longo de 4.6 mil milhões de anos de Geohistória. E sim, podem vir os negacionistas falar do ciclone de 1941, das cheias de 1967, ou até mesmo do terramoto de 1755 - a verdade é que se houve mais mortos, maior grau de destruição ou menor, apenas se deveu a uma coisa: zonas menos ou mais povoadas, barracas em zonas de planície de inundação, pobreza extrema, estruturas habitacionais feitas com materiais ainda mais frágeis. Comparar eventos e situações de épocas díspares não é apenas errado. É de uma falta de integridade intelectual, como se tudo fosse comparável. Como se não houvesse diferença alguma.
Existe diferença sim. Poderia, apesar de tudo, hoje, ter sido mutíssimo pior. Ou então, não ter sido nada. Pensando que determinadas regiões afetadas, em tempos idos, estariam vazias de gentes, de construção, de evolução, de maior modernidade.
Mas é aqui que cai o grito de revolta. Na passada terça-feira, horas que antecederam a entrada em cena da "Kristin" - nome dado à tempestade, estávamos a tentar ver 75 minutos de debate para as eleições presidenciais. E eu só pensava - daqui a 24 horas estaremos a ver a desgraça que aí vem.
E é verdade, tudo o que fosse causa para a eleição que será de hoje a uma semana, morreu. Ou, mais ou menos. Porque, claro, a um governo que não faz qualquer ideia do que fazer num momento de crise, liderar, gerir, mais vale parecer do que ser - entre vídeos vergonhosos entre o "vejam o quanto estamos a trabalhar", produzidos diretamente para autopromoção, e desaparecimentos, que dizem, estratégicos. Faz recordar um pouco as férias do primeiro-ministro durante os incêndios do verão passado. O mesmo que agora demorou 24 horas a decretar o estado de calamidade em vários municípios - e só o fez porque, lá estou, sentiu ou deram-lhe a sentir, a obrigação de se deslocar à desolação.
E, com tudo isto, é realmente uma vergonha, não-tão-alheia, observar-se uma vez mais que as cidades grandes, centros principais de "ordem" e "decisão" estão sempre mais a salvo destas situações (até ao dia). Que "se fosse cá, em Lisboa" a resposta das autoridades, do governo, teria sido célere, imediata, eficiente e eficaz. Mas claro, quem mora atrás do sol posto (se bem que Leiria não é, nem de longe - ao contrário do que Clara Ferreira Alves fez questão de, maldosamente, dizem no último Eixo do Mal (está muito enganada a senhora) - uma das regiões mais pobres do país), terá de se ageuntar num "salve-se quem puder". É triste essa continuidade de separação entre os "supostamente" ricos ou próximos do Poder Central e, pobres. Como se realmente isso correspondesse a qualquer verdade...
E pior ainda é vermos, sentirmos, como, noutro ponto, já falado na última publicação, a nossa capacidade de resiliência energética, de alternativas à desgraça, é colocada em causa. Uma ordem despudorada em eletrificar tudo e todos - como se fosse a última resposta do pacote de bolachas, para a transição verde, descarbonização e outros. Uma mentira pegada. Porque verificamos que quando a energia falha, TUDO FALHA. Quando não há outras fontes de energia passíveis de serem usadas - TUDO FALHA. Quando um governo apenas sabe dar dinheiro para eletrodomésticos elétricos, carros elétricos, painéis fotovoltaicos, TUDO FALHA.
E, se querem mesmo saber... não é apenas "isso." Não é "apenas" isso. É toda a cadeia de valor associada. O ciclo de vida de todos os produtos: desde a matéria-prima que, uma vez mais, "not in our backyard" mas se vier lá do cu de judas, não é problema nosso, é a indústria de produção e transformação que vai sendo engolida pelo que já vem feito de fora da União Europeia.
Todas as situações que se nos colocam agora têm impactos e têm uma história. O passado, o presente e o futuro estão a aparecer à nossa frente, e que fazemos? Nada. Não sabemos como dar resposta - não sabemos mesmo. Não me questionem o que se poderia fazer para prevenir, porque fora as diferentes alternativas de energia, uma fiscalização (que não existe) às construções feitas em leitos de cheia, uma rede elétrica que deveria estar a ser planeada para o subterrâneo, e uma maior educação ambiental e sensibilização das propulações e comunidades ou, agora, hospitais de campanha ou tendas para responder ás famílias que estão, literalmente, sem tecto, Exército - e outras forças armadas -, na rua, eu não sou gestora, nem líder de nada, e muito menos sou a cabeleireira que agora é responsável pelos espaços verdes da Câmara Municipal de Lisboa. Não sou política, nem pretendo ser - fervo em pouca água e seria constantemente sancionada por mau comportamento e violência física.
Mas sei que isto revolta, porque, com cada macaco no seu galho e estamos em estado de sítio. Um abandono total.