Esses bichos que são as redes sociais e dados pessoais - Cláudia Paiva Silva

Sunday, April 15, 2018

Esses bichos que são as redes sociais e dados pessoais

Sobre o caso do Facebook e sobre as questões colocadas pelo senado norte-americano ao fundador da rede social mais utilizada no mundo, deixo aqui as minhas pequenas considerações, que não são mais do que uma opinião pessoal, feita por alguém que não percebe nada de informática, mas crê perceber como funciona o mundo da internet, para que servem os anúncios e a publicidade, e compreende que ao aceitar instalar aplicações e ao fazer logins e registos em algumas páginas, está realmente a conceder a visualização dos seus (meus) dados a inúmeras empresas que funcionam com recolha estatística. 
Primeiro que tudo... com este escândalo veio logo a clara noção de que as pessoas, na sua maioria, portanto, utilizadores regulares da Internet e das redes sociais, não sabem de todo como estas operam e funcionam. Não coloco em questão a eloquência com que as questões são colocadas, nem tão pouco farei juízos de valor sobre a capacidade de cada um dos senadores no que concerne à validade ou sentido crítico das suas próprias perguntas - as pessoas realmente não são obrigadas a perceber de informática. Mas o mínimo deveríamos todos saber. Toda e qualquer rede social, na qual exista uma página (público ou privada) sobre o utilizador, pede e ganha dados básicos sobre o mesmo. Nome, localidade, (endereço de IP), alguma informação considerada "normal" sobre alguns gostos e preferências são assim recolhidos e armazenados numa mega base de dados. Até aqui tudo seria supostamente aceitável. Ao longo de 10 anos, o Facebook, contudo, deixou de ser apenas uma rede social para amigos e familiares, e a sua mega base de dados de milhares de milhões de utilizadores, começou a servir para outros fins. Aceitaram (e aceitamos) aplicações, as quais, de forma muito evidente, nos perguntam se deixamos que acedam à nossa informação pessoal, lista de amigos, lista de comentários, publicações e fotos. Nós dizemos sim, logo nós, utilizadores, estamos a aceitar de forma inequívoca essa invasão de privacidade. Não podemos então, posteriormente, dizer que "não sabíamos de nada". Ponto 2. Acho importante mencionar que o Facebook, tal como o Instagram (mesma empresa) precisam, obviamente de dinheiro. Se os utilizadores não pagam o acesso e utilização destas redes, alguém tem de o fazer. E aí entram os anúncios e publicidade e páginas oficiais de marcas, etc.. Porque é que isto é possível? Porque os sistemas estão interconectados entre si, ou seja, uma pesquisa feita num browser (Opera, Chrome - e a maioria dos smartphones opera com o Google- Windows, Safari...), irá ser partilhada com as redes que usamos, e por isso não será estranho procurar por um artigo específico numa data e esse mesmo artigo começar a aparecer de forma insistente em todo e qualquer lado, nas páginas onde estamos. Porque é que o Facebook aceita ou ganha com isto? Porque, ao aceitarmos a tal invasão de privacidade anteriormente mencionada, permitimos que os algoritmos (dados estatísticos que podem ser usados de variadas maneiras para perceber como é que o utilizador se comporta online - e, por consequência, na vida real - auxiliando à venda e apresentação de conteúdos que parecem ter sido feitos especialmente para aquele único consumidor), acedam então à nossa informação. Os nossos pontos de vista políticos, religiosos, morais, éticos, as nossas taras, as nossas manias, as nossas orientações sexuais, tudo, é assim utilizado em prol de multinacionais e empresas que funcionam com apenas e só dados estatísticos, para seu próprio ganho. O que se passou com Trump foi um caso óbvio de usurpação dos dados pessoais de usuários norte-americanos em prol da campanha eleitoral. Se o Facebook saberia ou não, tenho as minhas dúvidas. Com certeza que de todos os empregados, informáticos, gestores de conteúdos, matemáticos e estatísticos, alguém deveria certamente ter conhecimento da fuga (autorizada, atenção!) de informação. Mas mais uma vez, quando digo autorizada, não é apenas pelos CEO's da empresa, mas acima de tudo, lá está, por nós. Nós é que temos a obrigação de saber que tudo está a ser "vigiado", que existem determinadas palavras que são imediatamente filtradas por serviços secretos de alguns países, sabemos também muito bem, que, cada vez mais, patrões e empresas de recrutamento, pesquisam informação sobre os candidatos online. Quando um senador pergunta se as informações e recolha de dados poderão então ser enviesados pelos colaboradores do Facebook, mediante as suas próprias escolhas e orientações, a verdade é que se esquece que nenhuma (ou praticamente nenhuma) empresa o faz também "fora da rede". Não nos perguntam numa entrevista se fumamos, qual o nosso partido, qual a nossa orientação sexual, se somos vegetarianos. Quem usa os nossos dados, garantidamente também não o faz por lhe dar mais jeito. Simplesmente em termos estatísticos, faremos parte dum grupo maior de pessoas que respondem e correspondem a determinado parâmetro. Que pode ou não ser vendido. E premissa contudo, é esta. Desde que a Internet foi criada apenas para partilha, na altura, de informação científica: "what goes online stays online forever". E mais uma vez a citação de Daniel Oliveira: "Este é o pior pesadelo de George Orwell".

Contudo, o que me parece ser mesmo muito mais pertinente ainda é: Será que a intervenção de todo e qualquer algoritmo, com a justificação de "ser uma forma de dar ao consumidor ou utilizador os conteúdos que melhor se adaptam ao seu perfil e aos seus gostos" não irá resultar em enviesamento total da nossa personalidade? Se aceitarmos, sem filtrar, que aquilo que nos aparece à frente é realmente o mais indicado para nós, não iremos perder capacidade de crítica, de pensarmos por nós mesmos? Existe toda uma questão de ética, mais até do que invasão de privacidade, associada às plataformas digitais e acesso de dados. Essa sim é a principal questão. Andámos tão preocupados em proteger a nossa segurança online que nunca nos passou pela cabeça saber como é que os nossos dados eram ou não guardados e usados pelas redes.



3 comments:

Konigvs said...

Na verdade eu nunca percebi o porquê do sucesso do Facebook. Hoje mesmo ainda estou para perceber. Não trouxe nada de novo. Zero. Redes sociais para engate? Ui tantas que existiram antes! Quando surgiu era simplesmente mais uma rede social, com a agravante de ser uma página toda em branco! Completamente despersonalizada! Imagina que os milhões de blogues que existem, de temas tão diferentes, todos eles era iguais. Estás a imaginar? O Facebook é isso, uma página em branco com uma barra azul em cima para toda a gente.
Lembro-me bem da primeira vez que ouvi falar do Facebook em Portugal. Terá sido em 2009/10 na RTP, quando passou uma reportagem a dizer que havia uma nova rede social com sucesso em Portugal (em Portugal tudo chega sempre tão atrasado!) e que atraía especialmente mulheres, na casa dos quarenta, e com estudos. Estavam interessadíssimas nesta rede social porque podiam plantar alfaces e cuidar de uma horta virtual. E de repente toda a gente largou as redes socais onde estavam para irem para lá.

Eu não fui, e olha que fui mesmo muito pressionado para me registar nessa coisa. Mas fui lá ver com a senha de um tio meu. Percebi logo que aquilo não era para mim. Eu quero conhecer pessoas novas, que tenham os mesmos interesses que eu. Não quero estar num sítio para encontrar familiares e ex-colegas de trabalho, gente que se afastou ou de quem me afastei. Nem quero saber da vida das ex namoradas. Mais importante: não quero que saibam de mim.

E sobre a questão da privacidade desde logo há um antes e um depois do Facebook. Até então toda a gente usava pseudónimos na net. Toda a gente! Desde o mIRC! Ninguém no seu juízo perfeito usava o seu nome pessoal na net. Foi com o Facebook que começou a obrigar as pessoas a colocar o seu nome verdadeiro, lá está, para tentar garantir que aquela pessoa existe e é real. E de repente toda a gente passou a usar - estupidamente! - o seu nome e fotografias na net.

Ainda sobre o Facebook, fiquei boquiaberto, quando no ano passado, o novo engenheiro estagiário me disse para o adicionar no Facebook. Quando lhe disse que não tinha conta, ele de imediato me pergunta: mas como fazes para falar com os teus amigos? A sério, que me estás a perguntar isso? Tenho uma coisa que se chama... telemóvel? E-mail? Skype? Sinais de fumo? Mas é isto. Não estás no Facebook pareces que vives numa caverna. Azar.

Sobre a questão da privacidade.
Quando eu era pequenino, ensinaram-me que não se fala com estranhos. Que não se deve dar sinais que fomos de férias, para que os amigos do alheio não nos venham assaltar a casa. Hoje, as pessoas mandam fotografias nuas umas às outras. Não satisfeitas em contar toda a sua vidinha deprimente na net, mostram também fotografias quando estou de férias, para facilitar a vida dos amigos do alheio que assim sabem que ninguém está em casa!

Mas, que o Facebook venda os dados de toda a gente, é ilegal (na Europa há leis bem restritas de privacidade que o impedem ao passo que nos Estados Unidos os dados são das empresas que os detêm) mas a culpa, como referes é das próprias pessoas. Agora, que pessoas como eu, que nunca sequer tiveram um registo no Facebook, mas que possam estar rastreadas simplesmente porque alguém que está no Facebook permitiu que eles acedam aos seus contactos já é um bocadinho demais.

E agora eu pergunto: se alguém que te é importante traísse completamente a tua confiança, tu continuarias a confiar nessa pessoa? Tudo isto veio a público e as pessoas que fizeram? Assobiaram para o lado... Porreiro pá!

Clau said...

Sim... exactamente. Os meus dados são vendidos e utilizados para fins que nem eu própria sei, e que faço? Deixo andar como boa humana (estúpida, diga-se desde já) que sou. Mas o problema aqui não é o Facebook. O problema aqui é a própria forma como a rede de internet está a ser organizada e gerida. Tu deixas pegadas virtuais, bastando, para tal, teres google, teres smartphone, teres email, fazeres pesquisas. Sabes (presumo que sim, que já vi que és mais inteligente que eu) que todos os recursos estão conectados, e que nas definições da tua páginas pessoal (Google) podes eliminar tudo o que (visivelmente) eles possam ter sobre ti. Os sites que visitaste, os blogs, os teus comentários, as tuas idas ao banco online. É claro que o problema não é novo e é claro que tudo isto vem apenas demonstrar que a privacidade e segurança deveriam começar logo em casa. Se antes nos ensinavam que não deveríamos falar com estranhos, então agora que ensinam às crianças? Que mais vale ficarem a falar com um ser virtual do que irem para a rua brincarem e falarem e darem-se pessoalmente uns com os outros? Eu sei que tinha 19 anos quando tive acesso pela primeira vez a um computador. E que tenho conta no Facebook desde 2007 (sim, sou muito old school), e que tenho Instagram e que publico o que me apetece publicar e envio nudes quando me apetece enviar. Sei perfeitamente que estou fdd com isso. E que o espaço virtual (the Matrix) poderá usar tudo isto contra mim um dia. Mas até ao momento em que for eu, e apenas eu a pensar por mim, sem enviesamento de outras pessoas, ou de uma máquina inteligente, só tenho é de estar tranquila com a minha consciência. Afinal, quem não quer ser lobo, não deveria vestir-lhe a pele. Já agora... Conheces o que vai ser o Nonio? A plataforma de acesso a uma serie de jornais e revistas nacionais que irão utilizar as tuas pesquisas de forma a bombardearem-te com publicidade directamente voltada para ti, e com noticias que eles (algoritmos), acham que são "mais adequadas" aos teus gostos? Isso sim, também deveria ser falado, mas não é... Aconselho mesmo a aquisição do livro que mencionei acima. Porque para mim, muito mais do que a cena da privacidade de gestão dos nossos dados, interessa-me a componente sociológica disto tudo. Em 10 anos, pelo menos Portugal, mudou da noite para o dia. O mundo mudou.. o termo globalização faz mais sentido agora do que há 20 anos atrás. Por isso é que acho tão necessário haverem cada vez mais estudos de população.

Konigvs said...

Claro que sim, a questão da privacidade está em tudo que é digital! antes fosse só no Facebook e estávamos nós muito bem! Dizem que o Google saberá, provavelmente, mais sobre nós que nós mesmos. Eu não iria tão longe, mas sabe certamente muito sobre nós. Como quem tem cartões de cliente do supermercado, Via Verde.. e telemóveis-espertos então nem se fala! Eu recuso-me a ter um telemóvel com internet. Aliás, ainda bem me lembro que cheguei mesmo a dizer "eu nunca vou ter um telemóvel" até que o universo conspirou para que eu fosse trabalhar para o maior fabricante mundial da altura, e apesar de ainda ter conseguido resistir durante dois anos acabei mesmo por ceder. Mas bem vejo os meus colegas que vão aqui ou ali e já estão a ser perguntados se gostaram de ir ao restaurante X ou Y!! Isso é assustador! E cansativo! Está tudo alheado, ninguém conversa, tudo sempre a olhar para o telecrã! Casais juntos cada um para seu lado a olhar para o seu telecrã! Começo a achar que as pessoas na volta também atualizam a rede social enquanto fodem!

Ouvi uma publicidade qualquer na rádio sobre isso do Nonio. Mas a mim certamente não me afeta. Basicamente pouco leio da imprensa digital nacional. É má demais, sensacionalista demais, muito parcial e politicamente alinhada com um determinado quadrante político muito bem definido que não me revejo. E também não me apetece muito pagar para ler o Público. Quando quero informar-me vou eu à procura da informação. E olha, a blogosfera é uma ótima fonte de informação mais ou menos fidedigna!