Wednesday, January 13, 2010

Não poucas vezes, a pergunta que se coloca após um abalo sísmico de grandes proporções, à escala mundial é: será que estamos preparados para reagir a isto?
Acho até que já falei sobre este assunto aqui no blog, mas obviamente que, como ninguém o lê (ou quase ninguém) a pergunta continua insistentemente a ser colocada. Pá, não, não estamos. A não ser países como o Japão e a Noza Zelândia, nem mesmo no estado da Califórnia, nos States, as pessoas estão preparadas. Cá em Portugal, muito menos. Há pessoal de 60 anos que nem se lembra de ter alguma vez sentido qualquer tremor de terra.
Assim como assim, eu, sendo geóloga, esqueço-me com alguma frequência que a zona do Haiti e Caraíbas em questão, não é só uma região super afectada por desastres naturais de origem unicamente atmosférica. Também tem aquela coisa das falhas e das placas tectónicas e isso. Logo, se o último sismo grande registado na zona foi há 200 anos, é natural que umas 100 gerações mais tarde, não se lembrem de que estão em perigo natural sísmico. Nem eu me recordava até ontem. E fiquei naquela "xiiii! Pois é, aqueles gajos estão enfiados num belo buraco tectónico!". Em Portugal o cenário é ainda que afastadamente, familiar. Realmente não estamos sobre uma zona tectónica ou geológica importante, muito pelo contrário, a Península Ibérica encontra-se, tal como todo o Oeste Europeu numa zona designada por margem passiva, onde nada acontece, nada se passa, contudo uns km mais a SW existem umas falhas que quando mexem (e meus caros, estão sempre a mexer) fortemente, o pessoal árabe (nós) sentimentos e bem. Acontece outra coisa, que é o tempo que ocorre entre um sismo de grande intensidade (estragos provocados pelo abalo) e outro com as mesmas características (os sismos com grande magnitude podem não ser, obrigatoriamente, os mais destrutivos, mas geralmente o são). Ninguém pode prever tal coisa. Nenhum cientista pode saber ao certo o dia, a hora e o local em que tal episódio irá acontecer. Não existe uma monitorização boa ao contrário da prevenção de risco vulcânico, por exemplo. Apenas sabemos que existem zonas que estão mais ou menos expostas devido à sua proximidade com regiões designadas por sua vez de activas, onde tudo acontece, onde tudo se vê. É contudo natural que se escute alguém dizer "ah! um sismo parecido com o de 1755 já deveria ter ocorrido novamente em Portugal". Bem, há poucas semanas Portugal sentiu, bem, o treme-treme provocado por um sismo de magnitude 6.0. A sua Intensidade teria sido quê? 5? Que se saiba não houve quaisquer danos materiais ou pessoais, e sim, apenas um mega-susto, porque foi forte, porque foi "longo", porque foi diferente, porque terá sido "forte". Foi realmente mais "intenso". Digamos que sim, nós somos capazes de estar à espera de uma ocorrência ainda mais forte, que traga estragos, com epicentro no mar, a SW do Cabo de São Vicente. Também é verdade que quando nos salta a tampa, a probabilidade de voltarmos a ficar fulos torna-se menor. O mesmo se passa com a Terra. Se começamos a ter abalos sísmicos com maior regularidade e se esses mesmos sismos são de magnitudes simpáticas (4, 5, 6), a probabilidade de ocorrência de um sismo de grandes proporções, destruidor em massa será consideravelmente mais reduzido. E porquê? Porque a zona afectada pela deformação rochosa, devido a uma determinada tensão que se vai acumulando (tal como em nós quando nos chega a mostarda ao nariz), quando rompe e provoca o sismo, não volta depois a sofrer mais rasgão nenhum, por assim dizer. Era como se estivéssemos a puxar um elástico ao ponto de este se partir. Uma vez partido, já não acontece mais nada. Como tal, quantos mais sismos ocorreram, maior será a tensão libertada e a energia associada e logo, será com menor risco que teremos um forte abalo. Agora explicar isto às pessoas que não percebam nada do assunto, explicar isto aos Governos de inúmeros países em situação de risco e eles tomarem medidas preventivas exige muita paciência e muita burocracia. E será exactamente por isso que não estamos preparados para reagir a um sismo. Porque na maioria das vezes nem sabemos o que é e, sinceramente, também não estamos muito preocupados em saber a não ser quando as coisas já aconteceram.
Teoria do Ressalto Elástico:

Quando o material terrestre é sujeito a um nível de tensão que ultrapassa o seu limite elástico, verifica-se deformação permanente desse material. A cedência pode ocorrer de um modo dúctil (induzindo dobramento do material) ou por fractura frágil (provocando movimentação em falhas). A segunda destas situações produz um sismo. Consequentemente, para provocar um sismo têm de estar reunidas duas condições: .. a) existir algum tipo de movimento diferencial no material de modo a que a tensão se possa acumular e ultrapassar o limite elástico do material; b) o material tem de ceder por fractura frágil. A única região da Terra onde verificam estas condições é na litosfera e por isso só nela ocorrem os temores de terra, particularmente onde as tensões estão concentradas junto das fronteiras das placas. A teoria do ressalto elástico foi estabelecida por H. F. Reid com base em estudos geodésicos que realizou após o sismo de 1906 em São Francisco, Califórnia, de um e do outro lado do segmento da falha de Sto. André que sofreu rotura durante o sismo. De acordo com a teoria do ressalto elástico, as forças tectónicas geradas em profundidade produzem o deslocamento muito lento das rochas da crosta em sentidos contrários de um do outro lado da falha, conduzindo à deformação progressiva das rochas localizadas na área de movimentação diferencial. Á medida que a movimentação tectónica prossegue, a deformação das rochas acentua-se e acumula-se energia potencial. A tensão cizalhante que actua no plano de falha aumenta, mas o atrito entre os lábios da falha impede deslocações na estrutura. Quando a tensão cizalhante atinge o valor crítico, ultrapassando o atrito na zona da falha, dá-se uma movimentação brusca e as rochas nos dois lábios da falha ressaltam elasticamente, libertando energia sob a forma de calor e de ondas elásticas, isto é, produz-se um sismo.

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