À medida que pensava escrever estas palavras, descia a Avenida a caminho do Rossio e parei para tirar fotos aos locais de sempre. Vendo a praça cheia de imigrantes, e o Largo de São Domingos com as suas africanas de vestes coloridas e africanos certamente muçulmanos, custa-me pensar que na idade média, a intolerância religiosa imperasse sobre o mesmo local. Quando olhos para as centenas de turistas que todos os dias aterram ou desembarcam em Lisboa, nos grupos "follow me", interrogo-me se saberão eles qual a nossa História e qual a História da cidade. Contarão os guias que na semana santa de 1506, entres os dias 19 e 24 de Abril, milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas e mortas em fogueiras a céu aberto? E depois pergunto-me a mim mesma: quantos portugueses também saberão deste evento? Possivelmente poucos e possivelmente desses poucos, quase nenhuns pensarão igualmente nisso. A vida é tão mais, não é? Contudo, num período em que se volta a observar e a sentir o preconceito, o racismo e o medo face a outras religiões, e perante a data de hoje, será interessante voltar a contar a história da História. Para não esquecer que não foram apenas as fogueiras das Guerras contemporâneas que arderam e queimaram, que os pogroms (ataques violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos)), sempre existiram ao longo dos séculos, que a intolerância não é uma coisa recente (último século e meio).




Pelo menos dois ataques violentos foram registados em Lisboa contra a minoria judia durante a idade média. O primeiro, em Dezembro de 1449, tratou-se de um assalto à Judiaria Grande de Lisboa (localizada na zona que hoje corresponde à Igreja da Madalena e Igreja de S. Nicolau, abrangendo as ruas perpendiculares, atuais Fanqueiros e Bacalhoeiros), como resultado de confrontos entre um grupo de jovens cristãos-velhos quando estes terão ofendido um outro grupo de (ainda) judeus junto à zona da Ribeira. Apesar da queixa, os culpados foram apenas açoitados publicamente, o que ainda assim enfureceu a horda cristã ao ponto de clamarem por justiça imediata e vingança. A Judiaria Grande foi assim assaltada, tendo sido mortos vários judeus. As casas foram vandalizadas e saqueadas. D. Afonso V que estava em Évora veio de imediato para Lisboa de forma a colocar um ponto final aos tumultos.




O segundo registo histórico a um ataque a cristãos-novos, já em reinado de D. Manuel I, vem pela pena de Garcia de Resende contemporâneo do acontecimento, associado presumivelmente à história do suposto milagre ocorrido durante uma missa na Igreja de São Domingos, durante a semana santa de 1506. Em ano de seca, com temperaturas mais elevadas do que era suposto para aqueles meses, e em plena época de peste, que se alastrava por uma Europa (e Portugal) imunda de gente e com falhas graves de higiene, eram várias as missas e eventos suportados pelas famílias abastadas e pela corte, de forma a pedir "auxílio divino". Numa Lisboa fervorosamente católica, com imensas igrejas e capelas por cada esquina pré-terramoto, não é difícil imaginar a imensidão de pessoas que se aglomeravam nos pequenos edifícios. De tal ordem foi este ataque que ficou igualmente registado em relatos anónimos alemães: "Haveria uma cruz com um espelho no meio, então surge a imagem de Maria a chorar ajoelhada em frente a Jesus e por cima da cruz, surgiram luzes pequeninas e uma grande..." Damião de Góis, em relato muito mais tardio refere que se tratou apenas de um possível reflexo de uma vela. Contudo, qualquer autor menciona o questionar de um cristão-novo sobre o porquê: ".. que o dito céu não realizava o milagre da água, mais do que o fogo?" aludindo à rigorosa seca que se atravessava. 
O cristão-novo é de imediato arrastado até à rua, ao largo, e morto. As horas e dias que se seguiram são de uma autêntica orgia de terror e de morte (porterrassefarad.blogspot.com). Entre 19 e 24 de Abril de 1506, perto de 4000 pessoas (cristãos-novos, cristão-velhos, mulheres, idosos, crianças de berço) foram mortas nas ruas de Lisboa, incitadas pela própria igreja e ordens religiosas. O Rei D. Manuel, que se encontrava, uma vez mais ausente da capital, envia a partir de Avis, o regedor de justiça Aires da Silva e o governador da Casa Civil de Lisboa (D. Afonso Castro) de forma a controlarem a população. Contudo ambos ficaram retidos nas muralhas das portas da cidade até "pagarem" entrada. Não foi a corte real quem conseguiu acalmar a população. Mas sim quando passados três dias, finalmente, houve "cansaço e entorpecimento" dos que mataram, violaram e pilharam centenas de almas e habitações.



Pessoalmente, de todos os livros que li até agora sobre o acontecido, tenho dois que aconselho a quem possa querer saber mais do que se passou:
Sem dúvida o romance de Richard Zimler "Último Cabalista de Lisboa" cuja acção decorre exactamente durante a semana santa de 1506, mencionando locais nossos conhecidos ainda, personagens históricas, e "O Massacre dos Judeus" de Susana Bastos Mateus e Paulo Mendes Pinto.


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