Friday, November 16, 2012

Palavras que podiam ser minhas...

Mas que, mais uma vez, não o são....


"Olho à minha volta e vejo estas pessoas comuns, entorpecidas e anestesiadas, a caminho de casa depois de um dia de trabalho. Já não conhecem as possibilidade terríveis que transportam dentro de si, como o terrorista transporta a bomba dentro da mochila ou forro do casaco. Ignoram o poder das suas forças vitais. Não nos deveria amedrontar romper os constrangimentos habituais, optar por ser o vulcão em erupção e, simultaneamente, imolarmo-nos no seu fogo magnífico. Somos vulcões extintos, vulcões que se ignoram, que se mascaram de montanhas aprazíveis como se pintadas numa tela de parede. não foi a Terra moldada e cinzelada por vulcões intempestivos, irados, devastadores, oceanos a ferver, supervulcões que moldaram o planeta, fornos primevos que deram o calor e o ventre à vida orgânica que então se esboçava? E nessas forças arcaicas da Natureza, não viram os nossos antepassados a própria imagem dos deuses originários? A multidão abúlica que enche o mundo, ciosa da sua rotina, esqueceu estes cenários primordiais, apagou todas as crateras, domesticou o fogo e com isso retirou-lhe o poder fundador. A turbamulta afundou-se no tédio ruminativo e estéril, sereno e seco. "



in: Gare do Oriente (de Vasco Luís Curado - Leya)

No comments: